VOLTA AO MEU ARQUITETURA E CRÍTICA

dezembro 2000 índice da edição
 
         
     

dois irmãos e um parque

ana luiza nobre

 
         
 


Parque do Penhasco Dois Irmãos visto da praia: pouco mais que uma murada de pedra circundando a encosta

 


O passeio providenciado pela reacomodação das curvas de nível

 


O caminho em direção ao mar

 

Está nascendo no Rio um Parque. Nada que se compare à exuberância ostensiva dos parques mais notórios da cidade, como o do Flamengo ou da Tijuca, por exemplo. O Parque do Penhasco Dois Irmãos é tão discreto que muitos sequer se deram conta de que ele já existe. Apesar de compreender uma área de mais de 100.000 m2, a intervenção em curso é quase um detalhe diante da massa compacta do Morro Dois Irmãos, este sim presença ativa na orla carioca. Diante dele, o que se vê hoje é um muro, dois talvez; uma curva, o arrimo, a pedra. Nada mais denuncia este projeto, se não o que ele não é.

Claro, há ali algo do arranjo dado por Lucio Costa à subida do Outeiro da Glória, nos anos 60. No uso da pedra, no aprazível passeio providenciado pela reacomodação das curvas de nível, na cordialidade dos desníveis agenciados por meio de rampas e escadas bem dimensionadas, na indissolubilidade da relação estabelecida com a paisagem. Mas, ao operar em parceria com a Fundação Parques e Jardins, o paisagista Fernando Chacel enfrentou um desafio de outra ordem e natureza. Para começar, o contexto é outro, e dele extraiu-se a matéria deste trabalho. Não culmina a caminhada numa jóia arquitetônica tal como a igreja setecentista; no caso, sequer há qualquer objeto construído a enaltecer. Chega-se pelo alto, e as visadas vão se alternando à medida em que o visitante caminha em direção ao mar. O Parque, por ora, é quase ou pouco mais que um mirante circundando a encosta. O projeto é singelo; basicamente resolvido por cortes e cuidadosas movimentações de terra que vão definindo planos, novas superfícies, relevos. E, à distância, conta quase como um prolongamento do muro de contenção existente em cota inferior.

Mesmo assim houve quem discordasse da idéia. A Associação de Moradores local sentiu-se ameaçada e repudiou publicamente o projeto, pelo suposto acréscimo no tráfego que acarretaria na bucólica rua Aperana e seus arredores. E não se conformou nem diante da obviedade do argumento de que se tratava sobretudo de limitar o crescimento da favela vizinha, cuja expansão em ritmo acelerado tomava nitidamente a direção do bairro classe-alta do Leblon.

Mas afinal o Parque se fez e por ali correm já os primeiros olhos. A vegetação ainda está brotando, mas ele tem seu encanto assim, um tanto árido como está. Pois é assim que de longe sobressai a murada de pedra crestada, de aspecto meio anônimo, embora traçada e executada com rara sensibilidade e precisão. Não ganhem volume as plantas e lá se terá uma linha apenas. E que Parque pode ser este... Numa cidade onde tanto tem tanta visibilidade, algo que contradiz sutilmente as estratégias de marketing e se afirma pelo silêncio e pela contenção – um não-objeto que nasce (e cresce) da natureza, da topologia própria deste sítio sem par.

Pois em última instância o Parque não está lá tanto para ser visto como para fazer ver. Seus patamares revelam novos ângulos do horizonte azul e do vaivém incessante da gente dessa cidade, do Leblon ao Arpoador. Talvez seja esta uma das mais belas panorâmicas deste trecho da zona sul do Rio, e só isso já parece ser suficiente para lhe garantir público certo nos próximos verões. Embora o essencial neste Parque seja, na verdade, algo que poucos irão ver: o quanto ele modifica a percepção do local e inaugura um lugar onde antes era nada.

 
         
      Fernando Chacel é arquiteto carioca, formado pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil (atual FAU-UFRJ) em 1953. Iniciou sua formação profissional como estagiário de Roberto Burle Marx e realizou vários projetos paisagísticos com Luiz Emygdio de Mello Filho, Almir de Lima Machado, Aziz Ab-Saber e Nina Jamra Tsukumo. Com o arquiteto paraguaio Eulalio Cervera, realizou a recuperação ambiental de uma área de 400 hecatres no entorno da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Nos últimos dez anos, vem trabalhando na recuperação da paisagem natural da região da Barra da Tijuca, no Rio (Parques da Gleba "E", Mello Barreto, e da Restinga, entre outros). Foi presidente da Associação Brasileira dos Arquitetos Paisagistas e atualmente é consultor da Prefeitura do Rio de Janeiro para projetos relativos ao meio ambiente urbano, parques e jardins. Seu livro "Paisagismo e Ecogênese" será lançado em março, pela editora Fraiha.  
         
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