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| entrevista com ernesto neto e eduardo coimbra (1) ana luiza nobre e otavio leonídio |
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louvre, moma, wexner center |
O texto aqui apresentado resulta da fusão de duas entrevistas com o mesmo roteiro concedidas separadamente pelos dois artistas, em princípios de fevereiro de 2001. Ana Luiza Nobre: O que é um museu de arte contemporânea? Eduardo Coimbra: Bom, o museu, em si, é uma mistura de depósito e vitrine. Na essência, é isso: o lugar onde se guarda e onde se mostra. Agora, a idéia do museu de arte contemporânea me sugere mais uma maneira contemporânea de ver arte: temos cinemas, livrarias, arquiteturas, lanchonete, todo aquele complexo de entretenimento ao qual as pessoas vão como a um shopping. Porque a arte contemporânea pode acontecer na sua sala, no Louvre ou numa gaveta. Otávio Leonídio: Seria então mais como se olha do que o que se olha... EC: Exatamente. Não há mais neutralidade. A obra de arte é feita para um determinado lugar, que pode ser a rua, o Louvre, aqui... O museu de arte contemporânea abarcaria, no extremo, a arte contemporânea feita para aquele museu. Porque ou você faz um trabalho lidando com o espaço do museu ou você carrega coisas e coloca ali, como poderia colocar em qualquer outro espaço. ALN: Para o artista, então, o fato de expor num museu de arte contemporânea não tem um significado especial? EC: Para mim, não. ALN: Certamente tem um significado para o público... EC: Aí é que eu pergunto: será que o museu de arte contemporânea corresponde mais a uma maneira contemporânea de ver arte ou a uma maneira de ver arte contemporânea? Ernesto Neto: O museu de arte foi originalmente concebido como a casa das musas, o lugar para onde iam as obras-primas. Hoje existe uma quantidade gigantesca de museus pelo mundo, que podem ser divididos em várias categorias. Você tem o Louvre e o MOMA, por exemplo, que no fundo são muito parecidos. E ao mesmo tempo tem um espaço como o Wexner Center, em Ohio, que na verdade nem é um museu, mas um centro de artes que realiza grandes eventos, tanto grandes retrospectivas como exposições de artistas que estão aparecendo no cenário. Ou seja, assim como existem museus para guardar as grandes obras, há museus concebidos como espaços dinâmicos, que trabalham principalmente com artistas jovens. De qualquer modo, o museu de arte contemporânea é o produtor do acontecimento artístico. Ele cria estrutura financeira, técnica e intelectual para que o artista desenvolva seu projeto. Porque arte contemporânea é o que está acontecendo hoje. Então os museus precisam ter um espaço com esse dinamismo. OL: O DIA Center for the Art, em Nova Iorque, seria um destes espaços? EN: O DIA é o supra-sumo das fundações. Tem duas salas permanentes do Walter De Maria, mais toda aquela infra-estrutura no Chelsea, que aliás foi a primeira galeria naquela área. É um lugar bastante valorizado, tem uma curadoria sofisticadíssima, as exposições duram seis meses... Mas existem muitos outros espaços menores, excelentes, como o Magasin 3, em Estocolmo. Um milionário comprou um velho galpão no porto e faz exposições que duram quatro ou cinco meses, com artistas jovens mas também com nomes já mais conhecidos como Chris Burden... E sempre compra um trabalho da exposição, embora o acervo não seja exposto. ALN: Existe museu de arte sem acervo? EN: O museu implica a idéia de acervo. Teoricamente, se ele não tem acervo, é considerado um "kunsthalle", um centro de arte. Como o Museu de Arte Contemporânea de Houston, por exemplo. O interessante destes espaços é que eles também cumprem a tarefa de formar curadores e críticos de arte. ALN: Quando foi anunciada a idéia de instalar um Guggenheim no Brasil, as primeiras especulações levavam a crer que o Museu seria essencialmente um espaço de exposições. Depois que se confirmou a parceria com o Museu Hermitage, falou-se na utilização de parte da sua reserva técnica, cuja coleção de arte impressionista é reputada entre as melhores do mundo. Há também quem defenda o preenchimento dos espaços do Museu com uma coleção de arte contemporânea brasileira, enquanto outros sugerem a criação de um acervo de arte latino-americana....Como vocês encaram esta questão? Não é um certo contra-senso preencher um museu de arte contemporânea com uma coleção de arte impressionista? EN: Trazer a exposição do Museu Hermitage para o Brasil é uma conquista. Nenhum outro museu no Rio teria condições técnicas ou históricas de abrigar esta coleção. Porque não é como fazer uma exposição temporária, quando se levanta um patrocínio "x" para garantir ao museu condições mínimas de manter a coleção durante um determinado período. O que acontece é que quando você não tem instituições que cumpram esta tarefa, outras instituições começam a cumpri-la. EC: Também não é por ser o Louvre que não vai ter arte contemporânea... EN: Eu gostaria de colocar uma grande nave minha boiando no meio de uma sala do Louvre, com aquelas telas todas em torno, como se fosse uma coisa non-sense, uma viagem no tempo. OL: Como na cena final do filme "2001, uma odisséia no espaço", de Stanley Kubrick... EN: Exatamente. Mas a questão é que vai vir um museu cheio de dinheiro, no qual o Brasil também vai colocar muito dinheiro, e este museu vai se sustentar sem problemas. Porque nos países mais desenvolvidos, a diretora do museu não é a mulher do político. Não entra num museu uma pessoa sem competência. Nos grandes museus americanos, que são os que conheço melhor, há toda uma estrutura: o assistente de curadoria, o curador assistente, o curador júnior, o curador senior, o curador chefe e o diretor do museu. Isso não significa que as pessoas façam carreira dentro do museu, muito pelo contrário. Em geral uma pessoa começa como assistente de curadoria numa instituição, depois vai ser curador assistente noutra, curador júnior noutra. Só quando estiver bem mais velha e já tiver organizado muitas exposições, procurado muito patrocínio, conhecido todos os colecionadores, as instituições, os artistas, aí ela passa à direção do museu. Por isso é que o diretor de um museu americano sabe como lidar com o colecionador, o patrocinador, o curador, o artista. Uma vez eu quis fazer uma exposição no Museu de Belas Artes, a diretora fez uma reunião comigo, achou ótimo, mas depois me pediu dez mil reais para pagar a luz. Mesmo no Paço Imperial, que é um lugar aberto, na minha primeira exposição eles queriam que eu pagasse até o adesivo de parede com meu nome. Quando uma instituição pede isso, não está valorizando o artista. E sem o artista, daqui a cem anos não vai ter museu nenhum. EC: É aquela visão do artista que defeca a obra, e eles permitem que você jogue a obra lá. A idéia arcaica do artista que fica em casa, pintando compulsivamente, e o museu lhe dá a oportunidade de expor. Isso não existe. EN: E como os artistas querem expor e não existem galerias nem nada, todo mundo vai fazendo exposição de graça nas instituições. No Rio, há uma visão que me faz lembrar a professora de artes numa reunião de professores na escola. Tem lá o professor de matemática, o de português, o de história e o de geografia. Os de matemática e português são os que mandam na reunião, os de história e geografia falam coisas interessantes. Mas se a professora de artes abre a boca, eles vão logo dizer: "cala a boca, aquele recreio que você faz lá..." Só que o Guggenheim vem de um país que sabe que a cultura é forte. Eles fazem 500 cheeseburguers, expõe pelo mundo inteiro, e evidentemente no meio disso tem coisas sensacionais, filmes ótimos, esculturas maravilhosas etc. ALN: O Guggenheim tem hoje filiais em várias partes do mundo e caracteriza-se como uma instituição de caráter "supranacional", em grande parte responsável pela definição de um circuito internacional para a arte. Quais os aspectos positivos e negativos inerentes à tal institucionalização de um percurso para a circulação da arte? EN: Muitas coisas incríveis estão acontecendo em pequenas galerias, em centros menores, e nós não estamos sabendo. Sinceramente, não sei se o Guggenheim hoje em dia está fazendo exposições sensacionais. É claro que é uma mega-instituição que tem um nome, dá status para o artista... mas é um status superficial, porque no fundo fazer uma exposição numa instituição menor, que está desenvolvendo um trabalho extraordinário, pode ser bem mais interessante. Por outro lado, o fato do Guggenheim existir dá crédito à arte. Porque a arte está virando um grande espetáculo... ALN: E um grande negócio. EN: Pois é, então não dá mais para ficar tratando a professora de arte com desprezo.
Notas 1 Ernesto Neto nasceu no Rio de Janeiro, em 1964. Vive e e trabalha no Rio de Janeiro. Principais exposições individuais: Centro Cultural São Paulo (1991), Museu de Arte Moderna de São Paulo (1992), Galeria Camargo Vilaça, São Paulo (1994, 1997, 2000), Paço Imperial, Rio (1996), Zolla-Lieberman Gallery, Chicago (1996), Galeria Pedro Oliveira, Porto (1997), Bonakdar Jancou Gallery, New York (1998), James Van Damme Gallery, Brussels (1999), Contemporary Art Museum, Houston (1999), Institute of Contemporary Arts, Londres (2000), Wexner Center for the Arts, Columbus (2000), Magasin 3, Estocolmo (2000). Principais exposições c oletivas: Fundación Museo de Bellas Artes de Caracas, Venezuela (1991), The Drawing Center, New York (1995), Bravin Post Lee Gallery, New York (1995), Museum of Contemporary Art, Miami (1996), Centro Cultural Arte Contemporaneo, México (1997), Bienal de Sydney, Austrália (1998), Serpentine Gallery, Londres (1998), Carnegie Museum of Art, Pittsburgh (1999), The Institute of Contemporary Art, Boston (1999), Kunstalle, Bassel (1999) Brasil 500 Anos, Fundação Bienal de São Paulo (1999), Galleria Comunale d’Arte Moderna, Bologna (2000), MOMA, New York (2000) |
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