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| vende-se um piano ana luiza nobre |
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Atenção. Vende-se: a casa de Francisco Catão, projeto de Oscar Niemeyer, em São Conrado, Rio de Janeiro; a casa de Carmen Portinho e Affonso Eduardo Reidy no Vale do Cuiabá, Itaipava; a casa do Barão de Saavedra em Correias, quiçá o mais belo projeto residencial de Lucio Costa, enriquecido por mural de Cândido Portinari. A notícia de que foram postas à venda essas três casas projetadas pela nata dos arquitetos cariocas no período áureo da moderna arquitetura no Brasil segue-se à transferência de propriedade de outras casas coetâneas igualmente valiosas, todas localizadas na cidade do Rio de Janeiro e arredores. Recentemente mudaram de mãos a casa desenhada por Lucio Costa para Jeanne Levy em Itaipava, a casa que Sergio Bernardes projetou para Jadir de Souza no Leblon (premiada na Itália em 1954) e a mansão que Alcides Rocha Miranda projetou para seu irmão Celso, em Petrópolis. A informação, em si, nada teria de alarmante, não fosse por resultar em sugestão de refletir sobre aquilo que acompanha tal processo. Em primeiro lugar, não há como pensar o êxito da arquitetura moderna no Brasil como algo apartado da relação de seus protagonistas com a sua clientela – fosse esta de caráter público ou particular. No Rio de Janeiro dos anos 40-50, elite cultural e econômica eram uma só. Para o bem e para o mal, não custa lembrar que, salvo exceções, a art de luxe com justeza criticada por Argan (1) nos deu muito do que até hoje temos de melhor: o monumento-Ministério, projetos residenciais como a niemeyeriana Casa das Canoas ou o edifício Antonio Ceppas de Jorge Moreira, entre outros. Intelectuais comprometidos com o projeto de formação cultural do país, estes arquitetos foram suficientemente habilidosos para estabelecer e manter uma permuta profícua com a esfera pública e a alta burguesia carioca. Sem esquecer que o mais louvado exemplar de habitação popular na cidade, o conjunto do Pedregulho, foi viabilizado graças ao bom trânsito desta mesma elite na Prefeitura do então Distrito Federal. Mas deixemos de lado, até segunda ordem, a complexidade da sua relação com o Estado - já estudada por autores como Sergio Miceli ("Intelectuais e classe dirigente no Brasil", 1977) e Simon Schartzmann ("Estado Novo: um auto-retrato", 1983 e "Tempos de Capanema", 1984) - e vejamos o atlas arquitetônico de Henrique Mindlin ("Modern Architecture in Brazil", 1956) com olhos especialmente atentos à produção residencial deste período e logo reconheceremos entre os proprietários das casas publicadas condes e barões, embaixadores e industriais. Isso para não falar na lendária família Guinle, que encomendou projetos tanto a Victor Dubugras (casa em Teresópolis) quanto a Lucio Costa (Park Hotel de Friburgo e Parque Guinle). Pode-se argumentar que esta é uma visão elitista, alheia a quanto de preocupação social tenha manifestado uma geração de arquitetos cariocas, e que de todo modo essas casas pertencem a um período de otimismo na história brasileira, marcado pelas promessas desenvolvimentistas, ao qual se seguiu a aridez, sob muitos aspectos, de uma longa ditadura militar. Mas ninguém há de negar a lamentável queda qualitativa da produção arquitetônica entre nós, notadamente a partir dos anos 60. E não menos grave e digno de atenção é a transformação cultural do nosso ambiente social. Basta circular pelos novos condomínios que tomaram a Barra da Tijuca para entender com o que se compraz a maior parte da clientela atual. E sequer é preciso ir tão longe – no seleto enclave residencial entre as ruas Pacheco Leão e Lopes Quintas, no bairro do Jardim Botânico, é doloroso o que se vê agora na vizinhança de Paulo Santos, Paulo Antunes Ribeiro, Arthur Lício Pontual, Marcos Vasconcellos e Joaquim Guedes. Sem contar com proteção legal ou qualquer tipo de incentivo/subsídio governamental à sua preservação, e avaliadas pelo mercado em função exclusivamente de fatores concretos – área construída, área do terreno, localização, número de cômodos, materiais de acabamento – que negligenciam o valor estético como ignoram solenemente as credenciais do autor do projeto, nossas mais belas casas modernas, em geral implantadas em terrenos amplos, bem localizados e naturalmente visados pelos especuladores, vão sofrendo crescentes ameaças de demolição. Ou são no mínimo desfiguradas por toda sorte de reformas insensíveis e insensatas. E como tratam-se de propriedades particulares, de acesso restrito, e no mais das vezes circundadas por muros altos, costumam ser parcas as informações atualizadas de que dispomos acerca do estado de conservação destas casas até que elas são postas à venda e como que as redescobrimos, perplexos, no momento em que seu desaparecimento é iminente. Não faz muito perdemos para a voracidade imobiliária a res. Frederico Gomes, projeto válido de Oscar Niemeyer na rua Eduardo Guinle, em Botafogo, apesar do movimento coletivo liderado por um obstinado vizinho que desde então vem lutando para reconstrui-la. Apesar da grande quantidade de notórias casas modernas concentradas no Rio de Janeiro, constituem exemplo isolado até agora a Casa das Canoas e a residência do embaixador Walther Moreira Salles - luxuoso projeto de Olavo Redig de Campos -, ambas atualmente abertas à visitação pública; a primeira, ocupada por parte da Fundação Oscar Niemeyer; a segunda, sede local do Instituto Moreira Salles. Raros, também, são os casos como a res. Holzmeister, sem dúvida o melhor projeto de Paulo Santos e uma das mais refinadas casas brasileiras dos anos 50, hoje ocupada por uma escola que soube valorizar seus espaços e em nada lhe descaracteriza. E, no entanto, há quanto tempo não se constrói nessa cidade uma casa de tal qualidade arquitetônica? São efetivamente tão poucas as obras a serem citadas que a exposição que está sendo organizada pelo IAB-RJ de casas premiadas nas últimas quatro décadas não compreende mais que nove projetos (os quais a curadoria deve ter suado para escolher).
Afinal, quanto vale uma casa moderna exemplar, reconhecida por seus pares por suas qualidades arquitetônicas, premiada, publicada, celebrada? A julgar pelas cotações do mercado imobiliário local, não mais que uma outra construção qualquer com função, dimensões e localização semelhantes. E mesmo que assim não fosse, quantos dos que hoje têm condições financeiras estão dispostos a adquirir um imóvel do porte da Casa Saavedra (seis suites, piscina, amplo terreno ajardinado), atualmente margeado por uma estrada de tráfego intenso, o qual inclui, na sala de jantar, uma imensa pintura mural de Portinari (2), e ao mesmo tempo é tão singular na sua singeleza, feita de materiais que resistem com dificuldade ao tempo? Ou um quarto e sala de 100 m2 sobre pilotis, de ampliação improvável e cravado em terreno acidentado, como é a casa de Carmen e Reidy? Não surpreende que muitas dessas jóias se transformem em estorvo. Vão falecendo os proprietários originais, responsáveis pela escolha e trato com o autor do projeto, com quem de algum modo estabeleceram uma inevitável relação de cumplicidade, e resta aos herdeiros o oneroso encargo de zelar por sua manutenção, que muitas vezes inclui impermeabilização de concreto, reposição de material freqüentemente fora de catálogo, instalação de sistemas de segurança etc etc etc. Donde a tendência crescente de desvencilhar-se, por assim dizer, de tais casas-palacetes, muitas já desocupadas há anos, e em geral tornadas custosas e espaçosas demais. E assim vai-se dando margem a um depauperamento que pode ser irreversível do nosso patrimônio arquitetônico; depauperamento para o qual temos contribuído, com o nosso silêncio. Ora, a quem, se não aos que estimam a boa arquitetura moderna, de fato interessa a preservação destas casas? Uma única vez, em tempos recentes, moradores da zona sul carioca uniram-se num movimento bem organizado, de boa repercussão na imprensa local, em defesa de um punhado de casas da região – a maioria, de nenhum interesse artístico e/ou histórico. Embora até certo ponto louvável, a iniciativa, é preciso dizer, foi motivada pela possibilidade iminente de substituição, então autorizada pela prefeitura, de tais casas por edifícios de apart-hotéis temidos sobretudo na medida em que viriam a comprometer o que resta da serenidade local e constituírem ameaça concreta às privilegiadas visadas do Leblon e Jardim Botânico. Lícito, pois, concluir que qualquer iniciativa de preservação e recuperação das melhores casas modernas cariocas deva partir, antes de tudo, do meio dos arquitetos. Digo preservação e não penso necessariamente no instrumento de tombamento, o qual não se justifica senão em casos verdadeiramente excepcionais. Aliás, estudar e propor medidas alternativas ao tombamento pode bem ser um caminho, assim como alertar e sensibilizar órgãos públicos e acionar instituições integradas por arquitetos – IABs, Docomomo, universidades, fundações – no sentido de incorporar urgentemente mais esta questão às suas pautas. Pois no mínimo, no mínimo, precisamos logo encontrar meios de reter uma documentação fotográfica e um levantamento pormenorizado (até hoje, em geral, inexistente) destes imóveis, antes que seja tarde demais. Creio que vale lembrar o conto de Aníbal Machado, que narra a aflição crescente do herdeiro de um soberbo e colossal piano, que vaga pela cidade incerto sobre que destino dar a tão precioso bem até, por fim, atirá-lo ao mar. Notas ARGAN, Giulio Carlo. "Architettura moderna in Brasile". In Communità, nº 24, 1954. PORTINARI, Cândido. "Divina Pastora", pintura mural, têmpera, 314x575 cm, 1944. Ver <www.portinari.org.br>. |
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