VOLTA AO MEU ARQUITETURA E CRÍTICA

março 2001 índice da edição
 
         
     

museu etnográfico quai branly, paris, frança

ana luiza nobre

 
 


Simulação em computação gráfica da volumetria na situação urbana


Simulação em computação gráfica da volumetria


O caminho, pelo jardim, produz um distanciamento necessário para melhor compreensão do acervo


Sobre um terreno virgem, o espaço das coleções


Nível dos mezaninos:"espaços de interpretação" nos balcões sobre as coleções


Entrada do museu

veja o projeto completo

 

Jean Nouvel foi o vencedor, em 1999, de um concurso para o museu etnográfico por ora chamado de Quai Branly, uma nova unidade do museu existente num anexo do Louvre. A temática, que ultrapassa fronteiras geográficas, retorna no tempo e revela culturas "exóticas" de outros continentes - como os europeus e os franceses em particular gostam de definir "autres civilisations", atraiu importantes escritórios de arquitetura. Concorreram Norman Foster, Chaix e Morel, Tadao Ando, Christian de Portzamparc, Peter Eisenman e Felicce Fannuele, Renzo Piano, Francis Soler entre outras celebridades, cujas propostas a revista Architecture d’Aujourd’hui (fev/2000) publicou.

Sobre o programa, diz a revista que tudo parecia conspirar contra a linguagem arquitetônica "passe-partout" (sem profundidade) e contra uma pretensa unidade antropológica do homem. E jogou com uma indagação: será o museu etnográfico um meio de explorar o imaginário e de suscitar novas interpretações? É o que parece diante da maioria das proposições apresentadas "que se aventuraram sobre o terreno da alteridade, ultrapassando estilos pessoais, utilizando fórmulas enigmáticas, orgânicas e deslocadas", dizem os editores.

Jean Nouvel descreve poeticamente sua obra, também idealizada de maneira poética e simbólica: "presença-ausência ou desmaterialização seletiva", conforme a intitulou. "As estruturas, os fluxos, a caixilharia das fachadas, as escadas de incêndio, as balaustradas, os falsos tetos, os projetores, os suportes, as vitrines, os painéis... Se suas funções devem perdurar, que desapareçam de nossa vista e de nossa consciência, que se apaguem diante dos objetos sagrados para permitir a comunhão". O autor pretende a desmaterialização, "para que se tenha a impressão de que o museu é apenas um simples abrigo numa floresta".

Explica o autor que tudo no edifício foi programado para provocar a emoção contida no objeto em si, para o proteger da luz e para captar um raio de sol indispensável à vibração, à espiritualidade. "Um lugar marcado pelos símbolos da floresta, do rio, e das obsessões da morte e do esquecimento. Um lugar onde dialogam os espíritos ancestrais dos homens que, ao descobrir a condição humana, inventaram deuses e crenças. Um lugar único e estranho. Poético e perturbador".

A arquitetura que resulta dessas interpretações tem um caráter inesperado. Confessa o arquiteto que ela não é um objeto arcaico, ao contrário, utiliza técnicas de ponta. Há grandes panos de vidro para entrada de muita luz, em determinados momentos com imensas fotografias neles impressas; pilares colocados aleatoriamente, alguns em formato de árvores outros de totens; brises em madeira, gravados ou coloridos, com células fotovoltáicas.

Nesse museu, a intenção maior é lançar mão do sentimento como meio de apreender as civilizações de onde os objetos expostos se originam. Parecem colocados sem ordem ou hierarquia. As vezes, desenham no solo uma cartografia de culturas; sem um caminho delineado, o visitante estabelece seu próprio mapa. Incrustações de pedra de quatro continentes, feitas de resina, revestem o piso e causam sensações estranhas.

No nível do mezanino, "espaços de interpretação" estão projetados em balcões sobre as coleções, demarcadas para os povos berberes, do Oriente Médio, da Romênia, do Mahgreb. Ao lado, o esboço de um polígono destinado ao Mediterrâneo. No primeiro nível, dentro do espaço central, a África (sul, leste), países e etnias: Congo, Angola, tuaregue, Voudu, Benin... Outro espaço central com as Américas: Maias, Astecas, Incas, Patagônia. E no térreo, as exposições e funções administrativas como em todos os museus.

 
         
   

Jean Nouvel

Nasceu em Fumel, França em 1954. Com uma trajetória brilhante – aos 23 anos projetou um conjunto de 80 apartamentos em Neuilly –, Jean Nouvel tem sido fiel ao lema de que "uma obra deve provocar os sobressaltos de sua época". E ele, mais que ninguém, vem representando o espírito de sua época. Um dos criadores do high-tech, porém mais "poético que seus companheiros ingleses", o arquiteto entrou para o rol dos "grandes" em 1987 com o projeto do Instituto do Mundo Árabe, em Paris. Nouvel vem realizando obras em Berlim, Colonia e Frankfurt (Alemanha) sempre adequando seu estilo às circunstâncias. Na França projetou a Fundação Cartier, em Paris; edifício de apartamentos em Nîmes, com 16 variações de plantas; o hotel termal de Dax, entre outros trabalhos de projeção. (Contemporay European Architects, da editora Taschen).

 
         
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