VOLTA AO MEU ARQUITETURA E CRÍTICA

maio 2001 índice da edição
 
         
     

o pós e o depois

ana luiza nobre

 
 
Paolo Portoghesi
 

Está em vias de ganhar edição brasileira a investida mais contundente contra a arquitetura moderna. Trata-se de Dopo l’Architettura Moderna, texto-manifesto de Paolo Portoghesi escrito em 1979, paralelamente à organização, pelo autor, da polêmica exposição "A presença do passado" na Bienal de Veneza. Difícil separar os dois eventos. Tanto quanto a exposição, o ensaio suscitou ira e entusiasmo, e teve longo alcance: foi traduzido para várias línguas, e só na Itália já mereceu 11 edições.

Tanto interesse mostrou-se sintomático, em razão do alardeado fracasso dos inúmeros excessos erigidos em nome dos pressupostos teóricos de Le Corbusier, Gropius, Mies e demais protagonistas da arquitetura do século que passou. Mas a exposição do texto à luz de hoje exige uma reavaliação mais rigorosa dos termos usados na defesa da superação da arquitetura moderna, tal como preconizados por Portoghesi e a partir dele.

Com efeito, a par com os escritos seminais de Robert Venturi (Complexity and Contradiction in Architecture, 1966) e Aldo Rossi (L’Architettura della Città, 1966), que desencadearam, na década seguinte, a publicação de uma série de avaliações críticas da arquitetura moderna, tais como os livros de Charles Jencks (Modern Movements in Architecture, 1973 e The Language of Post-Modern Architecture, 1977) e Peter Blake (Form Follows Fiasco, 1974), Dopo l’Architettura Moderna enfeixa uma série de questões resultantes da reflexão sobre o fazer arquitetura no contexto da chamada condição pós-moderna. No entanto, note-se que ao contrário do "gentle manifesto" de Venturi, fruto da dedicação de anos à pesquisa e à observação, o livro de Portoghesi torna-se ainda mais sintomático por ter sido escrito de ímpeto, com um discurso de caráter panfletário, algo impreciso mas de importância por seu intuito declarado de livrar-nos da malquista "ortodoxia do Movimento Moderno" e de seu "estatuto funcionalista".

Segundo o autor, foi "o dogmático afastamento das formas da história que privou a arquitetura moderna do principal instrumento de compreensão popular: a referência à memória coletiva". Tal argumento seria a chave para justificar a necessidade de corrigir os rumos da arquitetura, passando a limpo uma tradição de arrogância e onipresença: "O Pós-Moderno é mais evolucionista que revolucionário; não nega a tradição moderna mas a interpreta livremente, integra e revê criticamente suas glórias e erros. Contra os dogmas da univalência, da coerência estilística pessoal, do equilíbrio estático ou dinâmico, contra a pureza e a ausência de todo elemento "vulgar", a arquitetura pós-moderna revalida a ambigüidade e a ironia, a pluralidade dos estilos, o duplo código que lhe permite atender ao mesmo tempo o gosto popular, através da citação histórica ou vernacular, e os especialistas, através da transparência do método compositivo e do chamado ‘jogo de xadrez’ da composição e decomposição do objeto arquitetônico."

Por outro lado, é nos jargões da ecologia, no despropósito do desperdício e dos desequilíbrios da sociedade industrial que Portoghesi se apoia para desqualificar os axiomas repetidos, com algumas variações, pelos heróis da arquitetura moderna. "A filosofia do Movimento Moderno identifica a arquitetura com os objetos utilitários. Le Corbusier definiu a casa como uma "máquina de habitar", e não poucas vezes perseguiu-se a industrialização da produção edilícia com uma espécie de fervor religioso. O distanciamento da natureza, a opção por materiais artificiais, a relação visual e funcional com o universo da máquina constituíram os objetivos das correntes dominantes, os quais tiveram profundo impacto sobre a transformação do território e sobre a nova fisionomia urbana. (...) Uma civilização que queira realmente reparar o desequilíbrio ecológico e a devastação dos recursos naturais não pode dar-se ao luxo de construir com tais métodos e ideais. O uso generalizado do metal, por exemplo, não pode continuar eternamente: o alumínio com o qual milhões de arranha-céus foram empacotados em todo o mundo logo se tornará o mais raro dos metais preciosos, e até mesmo as reservas de ferro um dia se extinguirão. Um luxo ainda mais inaceitável diz respeito ao custo de manutenção e gestão de energia em edifícios com grande quantidade de componentes metálicos. Enquanto um edifício em alvenaria tem uma duração e velocidade de obsolescência mensurável em centenas de anos – prova disso é o fato de que ainda vivemos em cidades construídas na Idade Média –, um edifício moderno já está decrépito depois de trinta ou quarenta anos, e requer a substituição de vários dos seus elementos. A soberana indiferença dos arquitetos face à ação destruidora da atmosfera – em particular da chuva, que os levou a banir telhados e caixilhos – resultou num tipo de arquitetura de jovialidade efêmera, incapaz de envelhecer com dignidade: uma arquitetura transitória, a ser sempre substituída em função da moda, assim como uma roupa ou um automóvel."

Em que pese o radicalismo presente nos termos dessa argumentação, é, em suma, um exercício crítico a que Portoghesi nos convoca, naturalmente fazendo uso do dom italiano da oratória. Crítica demasiado afoita, distorcida por uma visão francamente marxista? Mas é assim que o texto ganha força, e tanto mais à medida em que o autor parece dar-se conta do possível alcance do seu enunciado inquisidor: "O elemento ideal que originalmente justificava e banhava de luz heróica a univalência da linguagem arquitetônica moderna era o mito da reforma social, a esperança de transformar a sociedade através da arquitetura, e assim evitar – segundo a teoria de Le Corbusier – a revolução política. Desmoronado o mito e a esperança, que sentido pode ter essa univalência?"

A resposta à "atitude profética, severa e prescritiva dos mestres do Movimento Moderno", para Portoghesi, estaria na "contaminação entre a memória histórica e a tradição do novo". Ou, noutras palavras, na "recontextualização" da arquitetura, mediante o restabelecimento de uma relação dialógica entre os edifícios e o ambiente onde são construídos.

Não raro, a disseminação afobada dessa concepção teve como corolário uma miscelânea de interpretações errôneas e risíveis. Quando transportado para o Brasil, onde a arquitetura moderna sabidamente se fez "contaminar" de história, algo do discurso de Portoghesi tenderia, em princípio, a parecer fora de lugar. Se não por outro motivo, pela percepção, desde o Lucio Costa dos anos 30, da potencialidade do restabelecimento dos laços com uma tradição supostamente genuína, definido pela interseção entre a memória e o novo. Mas para que disso nos déssemos conta teria sido preciso que entre nós a compreensão da nossa própria produção moderna em arquitetura estivesse um passo à frente. Naquele momento, contudo, as versões em circulação acerca da história da arquitetura moderna no Brasil de uma maneira geral ainda reproduziam, sem maiores reflexões, uma narrativa oficial que Philip Goodwin e Henrique Mindlin haviam se encarregado de fazer circular pela Europa e Estados Unidos. Basta lembrar que a primeira pesquisa sistemática sobre a arquitetura moderna no Brasil, por sinal produzida por um paleontólogo francês, foi publicada aqui só em 1981 (refiro-me, evidentemente, à Arquitetura Contemporânea no Brasil, de Yves Bruand), um ano depois da exposição de Portoghesi em Veneza, portanto. Sendo assim, talvez a insipiência da nossa reflexão possa explicar parte da ressonância que a concepção de Pós-moderno de Portoghesi cedo encontrou aqui, mesmo a despeito da exclusão, em sua análise, da experiência latino-americana como um todo – e do evento de Brasília, em particular. Mas também convém lembrar que vivíamos então o começo da abertura política, e não estranha que a "strada nuovissima" de Portoghesi tenha se afigurado para alguns como uma chave para a saída do difícil impasse vivenciado pela arquitetura brasileira; de um lado, tomada de reverência pela obra ímpar de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, de outro, movida pelo componente de rebeldia próprio da geração de arquitetos formados justamente no período mais negro da ditadura militar.

À distância de duas décadas, contudo, mesmo os mais "pró-pós-modernos" já constatam o esclerosamento de muitas das afirmações sintetizadas por Portoghesi. Em prefácio providencialmente acrescentado em 1998, não se furtou ele próprio de assinalar a banalidade do modismo que se seguiu à sua provocação: "vinte anos depois, pode-se dizer que o pluralismo triunfou e a univalência do projeto moderno mostrou-se, de fato, irrecuperável. É verdade, contudo, que sob o rótulo do Pós-moderno proliferou, por mais de uma década, uma interpretação superficial, que consistia em acrescentar às usuais tipologias modernistas alguns sinais da nova vulgata: uma abóbada de vidro, uma clarabóia piramidal, um tímpano desproporcionado aplicado à cobertura." Portoghesi se apressa em enumerar, contudo, uma série de atribuições do Pós-Moderno que considera ainda vigentes: "superar a equação desenvolvimento = progresso; redimensionar o caráter redentor atribuído à produção industrial; conter os processos parasitários do consumo energético e da poluição; recompor, numa visão global, a relação entre o Ocidente industrializado e o resto do mundo; proteger ao mesmo tempo a identidade dos grupos étnicos e seu direito à integração."

Nitidamente, Portoghesi vê a atualização de seu discurso como condição mesma da sua permanência, e mais, procura renovar-lhe o sentido "emendando-o" com termos que se aproximam de uma interpretação multiculturalista, supostamente despojada de preconceitos e, para todos os efeitos, "politicamente correta". Nestes termos, parece-lhe legítimo seguir advogando o estatuto do Pós-moderno, enquanto meio para o descortinamento de um horizonte, diria-se, saudável. E é neste sentido que o autor vai agora defender o que chama de "Geo-Arquitetura", uma arquitetura que "recolhendo a herança histórica das diversas culturas, inclusive a da arquitetura orgânica, e o diagnóstico cultural do Pós-moderno (não a sua insatisfatória versão consumista), saiba afirmar-se como expressão da ‘nova aliança’ do homem com seu planeta."

Estratégia que a princípio soa extremamente porosa, tanto mais se comparada à reflexão e à dura auto-crítica a que o conjunto da literatura Pós-moderna, bem ou mal, nos forçou. Pois se ao reler Dopo l’architettura moderna é inevitável pensar em todos os desvarios que também foram erguidos em nome de um rompimento explícito e por vezes ostensivo com a arquitetura moderna, deixando uma série de interrogações em suspenso permanece aquela inevitável, diante da qual me vi ao ser incumbida pela editora Martins Fontes da nova tradução do texto de Portoghesi:

Depois do moderno, o pós; depois do pós, o quê?

 
         
| A.C | Arquitextos | Concurso | Documento | Drops | Entrevista | Evento | Institucional | Minha Cidade | Livraria | Resenhas | RG Editora | Vitruvius |