VOLTA AO MEU ARQUITETURA E CRÍTICA

outubro 2001 índice da edição
 
         
     

ausência eloqüente

haifa yazigi sabbag

 
 

 
“Por sua importância, o World Trade Center deve tornar-se uma representação viva da confiança do homem na humanidade, de sua necessidade de dignidade individual e de sua crença na cooperação entre os homens, por meio da qual ele é capaz de alcançar a grandeza.”
Minoru Yamasaki (1)

É duro acreditar. Mas as imagens não param de se multiplicar, diante e dentro de nós, e a cada dia a elas vão se sobrepondo toda sorte de análises e especulações, tentativas talvez ingênuas ou ilusórias, mas obrigatórias e vitais, de explicar o inexplicável e confirmar o inverossímil. No dia 11 de setembro de 2001, o mundo envelheceu. Com o colapso das torres irmãs do World Trade Center foi-se o último viço do século XX: os restos daquele otimismo herdado do Iluminismo que, bem ou mal, havia sobrevivido a duas guerras mundiais e aos graves confrontos entre sistemas culturais que hoje fazem do atlas mundial um complexo campo de batalha que dificilmente conseguimos compreender. Como se a celebrada determinação construtiva do homem, emblematizada naqueles dois monolitos colossais, fosse liquidada de vez por sua própria potência destrutiva, a qual – por incrível que pareça – ainda não conhecíamos inteiramente.

Resta à nossa frente aquele skyline mutilado, que rebaixou a grandiosidade glamourosa de Manhatan à escala de uma cidade qualquer. E talvez seja este um dos efeitos mais sórdidos deste ato de guerra, dificilmente previsto mesmo por seus autores: a brutal redução da escala da América. Embora, paradoxalmente, tão eloqüente quanto a grandeza e a opulência da cultura norte-americana seja, afinal, a própria ausência das torres. Todos nos impressionamos fortemente com a falta que fazem, e se há um mês atrás muitos de nós tínhamos uma idéia um tanto quanto vaga do projeto de Minoru Yamasaki (2) (antes reconhecendo-o como cartão-postal que como objeto de estudo), em pouco tempo aprendemos a amá-lo. No transcorrer daqueles minutos dolorosamente vivenciados via satélite torcemos, perplexos, para que a estrutura resistisse e os edifícios não viessem abaixo. E ainda nos instantes que se seguiram ao desabamento queríamos acreditar que eles fossem ressurgir daquela gigantesca nuvem que enegreceu para sempre o céu da América. Como se a natureza racional da arquitetura fosse capaz de suportar tudo – o choque, o incêndio, o terror – e triunfar sobre a insanidade, para salvar uma civilização supostamente humanista.

Que as cidades perecem é coisa que já Tucídides sabia, mas custa-nos crer que Nova York seja tão perecível quanto Cabul. Porque por mais que o “deserto do real” tenha sido antecipado pelo cinema, conforme bem notou Slavoj Zizek (3), quem poderia aceitar que o real fosse tão cruel? Até o momento não há certezas quanto à autoria dos atentados, mas não há dúvida quanto à sua sinistra eficácia: além da baixa de milhares de civis, apagou-se um ícone do poder econômico e do propalado welfare state norte-americano, tão representativo a ponto de ter sido por duas vezes, em menos de dez anos, tomado como alvo de um atentado terrorista. E nisso o ataque atingiu também as próprias raízes da arquitetura, naquilo que ela tem de simbólico.

Não pode deixar de ser lembrado que, conquanto por motivos contrários, foi também carregada de simbolismo a demolição de um outro projeto de Yamasaki: o conjunto habitacional de Pruitt-Igoe, construído em St Louis, Missouri, no começo dos anos 50 a partir dos princípios arquitetônicos disseminados pelo CIAM, e à época premiado pelo Instituto dos arquitetos americanos. Por representar, em termos arquitetônicos, um foco de violência e vandalismo, a hipótese de sua recuperação foi, sem mais, descartada, e com sua implosão Charles Jencks (em The Language of Post-modern Architecture, Academy, Londres, 1977) fixou, com franca ironia, a data da morte da “arquitetura moderna”: às 15:32 do dia 15 de julho de 1972.

Menos de um ano depois – em abril de 1973 – inaugurava-se o conjunto do WTC, depois de mais de seis anos em construção. Desde então, as torres conviveram com controvérsias: se por um lado renderam a Yamasaki a capa da revista Time, também colocaram-no no centro de uma série de vigorosas críticas às megaestruturas, consubstanciadas no alerta de Peter Blake em Form Follows Fiasco: “A primeira alternativa para o dogma moderno deve ser obviamente uma moratória da construção de torres. É ultrajante que torres com mais de 100 pavimentos estejam sendo construídas num momento em que nenhum engenheiro ou arquiteto honesto, em qualquer ponto do planeta, pode dizer com certeza qual será o impacto dessas estruturas sobre o meio-ambiente – no que diz respeito à congestão monumental dos serviços (incluindo o sistema viário e o transporte coletivo), às correntes de ar ao nível da calçada e aos perigos de incêndio, bem como em termos de colocar em risco as vidas dos que se encontram dentro ou fora do edifício” (4).

Hoje, ao mesmo tempo em que advertências como esta nos assombram, arma-se um debate sobre o vazio subitamente aberto no coração da cidade. Há quem argumente a favor da reconstrução apontando para a cuidadosa recomposição do campanário da Piazza San Marco, em Veneza, depois de seu desabamento completo em 1902, ou o reerguimento de Chicago após o incêndio de 1871 – do qual, justamente, surgiram os primeiros arranha-céus. Mas é certo que nenhuma ocorrência no passado encontra comparação com o momento presente, e é por isso que, em resposta ao New York Times (23/set), Bernard Tschumi não hesitou em declarar-se a favor da reconstrução das torres, sugerindo, porém, um edifício “maior e melhor”. É da mesma opinião Terence Riley, curador de arquitetura do MOMA. Assim como Peter Eisenmann: “não podemos recuar”. Afinal, a construção de um edifício significativamente ainda mais alto vai resgatar para o WTC – e conseqüentemente, para Nova Iorque – o status de “maior edifício do mundo”, perdido para a Sears Tower de Chicago e hoje tributado às também gêmeas torres de Cesar Pelli em Kuala Lumpur (as quais já se vêem ameaçadas por um projeto em andamento em Chicago, patrocinado por Donald Trump). É claro que esses argumentos, reunidos no calor das primeiras horas, têm base numa convicção que vem sendo partilhada por muitos de que é preciso recuperar – e mais que nunca sustentar – a imagem hegemônica dos Estados Unidos. A reconstrução das torres, quer em sentido literal ou não, viria, assim, coroar um movimento coletivo no sentido de reconduzir o mundo à via da razão através da reafirmação de valores institucionalizados por uma sociedade altamente competitiva e narcísica que se reconhece (e se quer reconhecida) por sua grandeza. Claro, já ninguém fala em construir bunkers, como no auge da guerra fria; ao contrário, nessa estranha guerra de agora tratar-se-ia de construir mais e mais alto, num crescente e febril desafiar da técnica, dos códigos mais elementares de segurança e das leis inapeláveis da física. Como se fosse possível aplacar, com uma expressão de superioridade, uma tremenda e insuperável demonstração da fragilidade de todos nós.

Diante dessa postura, que não deixa de ter algo de infantil, e até de patético, cabe indagar se, e até que ponto, o caráter simbólico pode ser advogado em detrimento do componente funcional da arquitetura, cujo sentido primordial e universalmente válido, seja lembrado, continua sendo o de dar abrigo. O que, aliás, qualquer dicionário resume como proteger de dano, ameaça, perigo. Não seria então hora de admitir, não sem dificuldade, que também a técnica tem seus limites, sob pena de ver também por terra aquilo que, a rigor, é o próprio fundamento da arquitetura? Ou será nossa condenação erigir estruturas cada vez mais gigantescas e verticais, mais próximas de obeliscos que de abrigos?

A princípio parece, portanto, mais razoável o ponto de vista de Rafael Viñoly, que põe-se à margem da corrente do “maior e mais alto”, sugerindo que o vazio seja preenchido “com uma arquitetura que assuma seu potencial como arte pública”, e seja capaz de “restaurar os valores de inovação, pragmatismo e beleza.” Premissa essa que, por sua vez, também precisa ser vista com cautela, uma vez que nos coloca diante da nossa dificuldade de lidar com o dilaceramento das nossas próprias noções culturais, conforme observa, correndo o risco de contradizer-se, o mesmo arquiteto: “Não podemos continuar a afirmar os termos das nossas convenções culturais e sociais, porque estes foram rompidos em suas bases no dia 11 de setembro”.

Sem dúvida a ausência das duas torres agora faz parte da existência (e da memória) da cidade, e neste momento assume na esfera particular de cada um de nós, seus habitantes e visitantes, um significado tão ou mais profundo que o valor patrimonial que ao longo do tempo outorgamos a esses mesmos edifícios, como elemento caracterizante da paisagem novaiorquina e referência já insubstituível do seu espaço-tempo urbano. Amanhã, talvez, essa ausência nos dirá da extraordinária capacidade de auto-organização e dos mecanismos de agregação de uma cidade que, sob ameaça sem precedentes em sua história, mostrou-se incrivelmente madura, inclusive quanto a seu aparato de comunicação. Motivo pelo qual, na avaliação de Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio, o perfil de Manhatan deve permanecer como está: “seria ainda mais trágico apagar o que foi apagado”, supõem. Caberia então fazer da área devastada um Memorial Park, como no caso do edifício de Oklahoma? Ou uma profusão de memorial parks por todo o território dos Estados Unidos seria aquilo que neste momento os terroristas mais adorariam ver? – pergunta-se um site que já promove um concurso de idéias para o World Trade Center II (5).

Nada nos tranqüiliza. Mas seguir quotidianamente esta discussão, e alargá-la, de algum modo nos convence de que (ainda) estamos vivos, enquanto ensaiamos as primeiras reações depois do trauma que nos lesou.

Notas

1
Apud HEYER, Paul. Architects on Architecture: New Directions in America, p. 194-195I.

2
Minoru Yamasaki (1912-1986) nasceu em Seattle, graduou-se pela Universidade de Washington e fez pós-graduação na Universidade de Nova Iorque. Depois de trabalhar em dois dos maiores escritórios de Nova Iorque – Shreve, Lamb e Harmon, autores do Empire State Building (então o edifício mais alto do mundo), e Harrison, Fouilhoux e Abramovitz, autores do Rockfeller Center – estabeleceu-se em Detroit em 1945, onde ergueu seu primeiro arranha-céu, para a sede do Michigan Consolidated Gas Co., em 1963. Seu extenso currículo inclui vários projetos na Arábia Saudita (Dhahran Air Terminal, 1961; Saudi Arabian Monetary Agency Head Office em Riyad, 1981; Eastern Province International Airport, 1985) e Japão (consulado dos EUA em Kobe, 1955; Founder’s Hall, 1982). Ver em especial entrevista com o arquiteto, realizada em 1959 <http://artarchives.si.edu/oralhist/yamasa59.htm> e o site do seu escritório, que segue em atividade <www.m-yamasaki.com>.

3
ZIZEK, Slavoj. “Bem vindo ao deserto do real”, artigo publicado no caderno “Mais!” da Folha de São Paulo, 23 de setembro de 2001.

4
BLAKE, Peter.Form Follows Fiasco. Boston-Toronto, 1974.

5
Architectural CADD <www.architecturalcadd.com/cup.htm>.

 
         
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