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| eduardo de almeida: uma arquitetura na sombra, são paulo, brasil haifa yazigi sabbag |
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Embora com poucos projetos, obras ou textos publicados, Eduardo de Almeida é bastante respeitado no meio arquitetônico de São Paulo, onde vem atuando por mais de 40 anos, de maneira precisa, investigativa, elegante, seja em aulas, colóquios ou desenhos. A divulgação em maior âmbito desse trabalho, mesmo que tardia, abre um panorama para reflexões e, entre outras questões, à avaliação dos atalhos em que a arquitetura atual vem enveredando. Eduardo de Almeida participou de vários certames, foi vencedor do concurso para o novo campus da Fundação Getúlio Vargas em 1995; fez várias escolas, indústrias, inúmeras residências, obteve, em 1997, menção honrosa no concurso internacional para o Museu Constantini em Buenos Aires, foi convidado para o concurso fechado de anteprojetos do Museu de Arte Contemporânea da USP, em 2001. Mas não gosta de aparecer em revistas, reluta em falar sobre seu trabalho, em dar entrevistas, “não tenho o que dizer”. Por insistência e aos poucos, foi alinhando lembranças esclarecedoras para a compreensão de seu processo de crescimento, interrompendo compromissos para recuperar seu acervo, aqui editado. Durante o encontro, descreveu em poucas palavras sua forma de trabalhar – o projeto vai surgindo de uma sucessão de pensamentos, de papel riscado, no momento em que o desenho passa a apreender questões do programa, da topografia do terreno, do sítio. “Cada coisa vai sugerindo uma série de possibilidades, cada reflexão, um caminho”. E revela que sente cada projeto como se fosse o primeiro, cada detalhe surge como algo novo, “olhando para trás, me surpreendo, não sei como fiz essas casas, esses edifícios sem maior importância”. Então, uma confissão surpreendente, “sou muito inseguro, demoro para projetar, não tenho método”. Mais adiante, a constatação de que “liberdade dá muito trabalho”. Sua obra desmente o rigor desse julgamento. Dentro dos princípios da arquitetura moderna contemporânea, ela traz a expressividade simples e rigorosa de seu traço, seja no planejamento dos espaços, seja nos detalhes – elementos vazados, brises afastados das fachadas, estruturas aparentes em concreto, pilotis, telhados em duas águas, lanternins. Das muitas residências, todas com funções claramente definidas, algumas foram resolvidas com estrutura metálica, uma ousadia no início da década de 70. O conjunto residencial Gemini, edificado em 1970, e pensado com técnica em escala industrial, acabou como tema de seu doutorado. |
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Paulistano, formado na FAU/USP em 1960, Eduardo de Almeida viveu um período muito rico da história da cultura brasileira, compartilhando expectativas e anseios desse período efervescente pré-Brasília. Na faculdade, então situada no palacete eclético da rua Maranhão, professavam aqueles que iriam influenciar gerações de arquitetos na construção de um novo pensamento, de um novo desenho, de uma nova organização espacial, como Artigas e Maitrejean, entre tantos outros e, de quem, ele não hesita em afirmar, recebeu muita influência. Revela a admiração que sentia, enquanto estudante, por Niemeyer, Richard Neutra, Wright; o aprendizado, no contato direto com professores, a descoberta de Carlos Millan, então no Mackenzie; o convívio enriquecedor com os colegas; coisas novas com alunos, intrigantes, provocativas, mesmo outras maneiras de projetar. Exemplifica com um fato: ao participar da banca de mestrado de Luciano Margoto, passou a entender com profundidade o processo projetual de Álvaro siza, tema da dissertação. Embora perceba muita fragmentação na obra do mestre português, Eduardo reconhece nela uma somatória de conhecimentos, de tradição, que Siza re-interpreta intuitivamente. Ele gosta, mesmo, da nova geração de arquitetos portugueses. Também admite admiração por Paulo Mendes da Rocha, e Giancarlo Gasperini, por quem tem o maior respeito. “Ele não se atemoriza em inovar, responde a grandes propostas comerciais com trabalhos de alto nível”. Interessam-lhe os jovens que, segundo ele, estão fazendo atualmente a melhor arquitetura, “mais seletiva, mais austera”. Cita Ângelo Bucci, do grupo MMBB, os arquitetos do Una. Eduardo é muito cauteloso ao falar, não faz críticas, mas, diante de uma pergunta provocativa, reconhece que as cidades não têm nada a ver com a arquitetura em que acredita. “Os colegas, os bons profissionais, não estão sendo chamados para trabalhar” observa, com certa mágoa. Do exterior, pega ao acaso alguns nomes, faz referência ao trabalho extraordinário de Renzo Piano, de Norman Foster, do norueguês Sverre Fehn, de alguns arquitetos holandeses, japoneses, do chileno Mathias Klotz, do mestre mexicano Barragán. Quando visitou em Bilbao o Museu Guggenheim, de Gehry, conta que se surpreendeu e gostou muito. A origem familiar teve grande importância na formação cultural do arquiteto. O pai, Tácito de Almeida, participou ativamente da Semana de 22, fundou a revista Klaxon, foi amigo de Oswald de Andrade, era irmão do poeta Guilherme de Almeida. A mãe, Nina von Riesenkampf de Almeida, nascida na Rússia, era pianista, estudou com Souza Lima e Antonieta Rudge. Antônio Joaquim de Almeida, que pertencia ao ISPHAN, interessou o sobrinho na preservação do patrimônio, levando-o ainda menino à Sabará, Ouro Preto e a todas cidades históricas de Minas Gerais. O trabalho com alguns colegas acentuou essas influências. Ainda estudante, ele abriu escritório com Dácio Ottoni, Fajardo Netto, Ludovico Martino e Henrique Pait. Alguns anos depois, já formado, teve oportunidade de conhecer melhor o método de projetar de Sérgio Bernardes, quando, a convite de Ennes Silveira Mello em 1962, acompanhou por dois anos o trabalho do arquiteto carioca em São Paulo, passando a admirar seu procedimento pessoal de projetar, a capacidade de transmissão de conhecimento e, principalmente, a preocupação com os materiais, os detalhes da construção, da técnica, a qualidade dos espaços, a luz. Enfim, toda uma abordagem didática surpreendente de quem sempre se mostrou visionário. Reafirma o arquiteto que contribuíram com idéias todos com quem trabalhou, como Pedro Paulo de Mello Saraiva, Jacó Ruchti, Miguel Badra Jr., embora por tempo curto. E Arnaldo Martino, seu sócio durante nove anos (1977 a 1986), com quem compartilhou projetos importantes. Iniciando seu próprio escritório em 1969, deu continuidade à atividade de professor na FAU, onde lecionava desenho industrial, disciplina que havia estudado em Florença, Itália, para onde fora como bolsista, já casado e com um filho, em 1962. Nessa rara oportunidade, recebeu aulas de História do Renascimento com Benevollo. O design já se manifestava aqui desde então; ele lembra que Artigas, Abrahão Sanovicz entre outros, haviam trazido para a FAU essa disciplina relativamente nova, abrindo novos campos de trabalho e estudo. Atualmente, Eduardo de Almeida leciona no Departamento de Projeto de Arquitetura, junto com antigos alunos ligados à pesquisa. |
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