VOLTA AO MEU ARQUITETURA E CRÍTICA

junho 2002 índice da edição
 
         
     

sérgio bernardes: a subversão do possível
ana luiza nobre

ana luiza nobre

 
 


Sergio Bernardes com Ivo Pitanguy na celebração dos 80 anos do arquiteto, em 09 de abril de 1999. Foto Otávio Leonídio


Hotel Tambaú, João Pessoa, 1966


Bairros Verticais, parte da proposta para o "Rio na era da cibernética", publicada na revista "Manchete" em 1965


Bairros Verticais, parte da proposta para o "Rio na era da cibernética", publicada na revista "Manchete" em 1965


VII Bienal de Artes, Sala Especial Sérgio Bernardes, São Paulo, 1963

 

O espírito inovador de Sergio Bernardes (1919-2002) fez dele um eterno provocador (1). Não no sentido demolidor das vanguardas artísticas, mas da curiosidade inesgotável do cientista. Sem dúvida o mais intrigante em sua obra é justamente sua pulsão irresistível por vencer desafios, sua tara pública pelo risco. E no entanto neste lançar-se com voracidade ao desconhecido, a aparente “irresponsabilidade” do arquiteto nunca deixou de ser compensada pela conjugação entre a busca permanente da beleza e a dedicação à análise, ao cálculo e ao método. Sergio Bernardes investiu como poucos entre nós na pesquisa e no estabelecimento de uma rigorosa metodologia a ser aplicada ao processo projetual. E na medida em que acompanhou e vivenciou os avanços da Ciência e o alargamento da cultura de massa foi deixando para trás a postura de fundo nacionalista pela qual a arquitetura moderna brasileira num primeiro momento se fez reconhecer.

Ao graduar-se como arquiteto em 1948, após um curso que, entre idas e vindas, prolongou-se por nove anos, Sergio Bernardes vive o otimismo gerado pelo amplo reconhecimento internacional da produção arquitetônica brasileira: o emblemático Ministério da Educação está inaugurado, o conjunto da Pampulha erguido, e a exposição Brazil Builds já correu mundo conferindo prestígio à arquitetura de Oscar Niemeyer, Lucio Costa e irmãos Roberto, entre outros. O momento revela-se tão favorável à produção e divulgação da arquitetura brasileira que ainda um ano antes de concluir o curso de arquitetura Sergio Bernardes tem um de seus projetos – o Country Club de Petrópolis – publicado na L’Architecture d’Aujourd’hui, em número duplo consagrado “exclusivamente à nova arquitetura brasileira”. Ao lado do Ministério da Educação, do Pavilhão do Brasil em Nova York, da Pampulha, do Park Hotel, dos Institutos Sedes Sapiantiae e Vital Brazil, o projeto de Bernardes ganha destaque por tratar-se de projeto “em ossatura metálica, material raramente utilizado no Brasil”.

Seu ingresso no circuito profissional ocorre, pois, num momento em que a arquitetura moderna no Brasil não só já tem sua vitória consolidada sobre o ecletismo e o neocolonial como se vê livre do descompasso, tão flagrante nas primeiras casas de Warchavchik, entre o discurso em favor da implantação da arquitetura moderna e os recursos técnicos aqui disponíveis. Contando já com certo avanço tecnológico e com o início de aquecimento da produção industrial brasileira, Sergio Bernardes trabalha com uma ampla gama de sistemas construtivos e materiais – aço, alumínio, fibro-cimento, plástico, tijolo, madeira, pedra, concreto. E se tal disposição por manejar simultaneamente vários materiais e sistemas cedo o distingue entre seus contemporâneos, também põe em evidência o elevado grau de autoconfiança propiciado pelos sucessos da arquitetura brasileira. Ao mesmo tempo em que denota uma crescente desinibição em relação ao peso da tradição que Giulio Carlo Argan distingue como própria do povo americano.

Em Sergio Bernardes, tal postura implica assumir, aos poucos, uma especificidade em face da esfera carioca, notadamente dominada desde o século XIX pela cultura artística francesa. Se bem que tenha administrado suas discordâncias com os protagonistas da cena carioca, Sergio Bernardes cultivou uma posição algo marginal ao romper com vários dos pressupostos que até então se encontravam na essência da produção arquitetônica local, tanto quanto com o discurso erguido em torno da questão da brasilidade, a qual vinha sendo reposta desde a década de 20, pelo menos. Não há dúvida que seus primeiros trabalhos como arquiteto – dentre os quais ganham destaque projetos residenciais como a casa do diretor do Conjunto Sanatorial de Curicica e a residência Guilherme Brandi – revelam franca adesão aos preceitos costianos, na mescla do sistema corbuseriano com elementos do vocabulário plástico da arquitetura colonial brasileira – treliçados, amplo telhado cerâmico, varanda. Mas ainda no decorrer dos anos 50 ganha corpo em sua obra o gradual abandono desses em favor de uma crescente imersão na pesquisa autônoma, onde mais importa a experimentação que qualquer compromisso estabelecido de antemão. Cada vez mais, já não é o problema da identidade nacional o móvel de sua obra, senão o próprio ímpeto criativo e a confiança no progresso ilimitado identificados com a cultura americana, seus arranha-céus, suas indústrias, seu espírito jovem, progressista e empreendedor.

Reconhecendo-se como homem americano, Sergio Bernardes programa sua operação na ausência de qualquer inibição, assumindo uma visão global indiferente ao problema histórico formulado pelo grupo de arquitetos reunidos no âmbito do SPHAN. E para entender a liberdade inusual com que opera basta tomar sua intervenção, nos anos 70, num casarão eclético na Gávea – a residência Clara Jopert. Mantidas as linhas da fachada frontal e a volumetria geral, tudo o mais foi transfigurado, da relação entre cheios e vazios aos eixos de circulação e toda distribuição espacial interna. É uma intervenção quase descrente da idéia de restauro, senão sutilmente irônica em relação a ela.

Por outro lado, uma parcela considerável dos projetos de Sergio Bernardes a partir dos anos 60 parece ter se beneficiado do interesse pela esfera não-racional do pensamento introduzido no campo cultural americano pelo Surrealismo. Ao menos no sentido de afrouxar o rigorismo da disciplina racionalista que até então exercia pressão sobre a maior parte da produção arquitetônica local, até certo ponto condicionando a prática projetual de não poucos arquitetos. De resto, a produção de Sergio Bernardes também vai identificar-se com o questionamento neoconcreto e com sua manobra no sentido de conquistar uma autonomia frente aos modelos culturais dominantes. Sendo significativa a amizade criada entre Lygia Clark e o arquiteto, em cujo escritório a artista desenvolveu vários de seus projetos, como a “Casa do Poeta” e “Construa você mesmo seu espaço para viver”.

Afinal, não é difícil perceber na arquitetura de Bernardes o mesmo “exercício experimental da liberdade” que Mário Pedrosa encontra na produção artística de Oiticica, Clark e Pape. O que talvez ajude a compreender o caráter subversivo da sua ação. Na verdade, percorre sua obra uma crítica latente que aponta para a crise da cultura artística européia no pós-guerra e, dentro dessa, para as interrogações lançadas à arquitetura moderna desde que jovens arquitetos na Inglaterra começaram a acusá-la publicamente de estagnação e perda de viço, por volta de meados dos anos 50.

O certo é que não há, no circuito arquitetônico brasileiro, produção que se equipare à de Sergio Bernardes, nem quanto ao volume de propostas projetuais e/ou teóricas nem quanto ao que estas contém de recusa anárquica ao estabelecido. São projetos imprevistos e perturbadores; sem dúvida corajosos. Muitos deles – como os Bairros Verticais, os Anéis de Equilíbrio e o mais recente Projeto Atlântida, todos pensados para o Rio de Janeiro - afiguram-se como planos utópicos, quase irrealizáveis. Daí sua fácil aproximação com cenários de ficção científica. E daí também o significado fundamental de sua obra, que está justamente em forçar os limites do possível. Para Sergio Bernardes, nada vale mais que o princípio que atravessa as barricadas de 68: “o impossível é o mínimo a exigir”. Em suma, pode-se dizer, a própria natureza propositiva e ultra-arriscada do projeto, levada ao extremo por um grande arquiteto.

Nota

1
Sérgio Bernardes morreu em sua casa na manhã do dia 15 de junho de 2002 com 83 anos.

 
         
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