VOLTA AO MEU ARQUITETURA E CRÍTICA

fevereiro 2003 índice da edição
 
         
     

mmbb

ana luiza nobre

 
 


Agência DPTO em São Paulo, MMBB. Foto Walter Abreu


Clínica de psicologia em Orlândia, MMBB. Foto Nelson Kon


Clínica odontológica em Orlândia, MMBB. Foto Nelson Kon


Casa em Ribeirão Preto, MMBB. Foto Nelson Kon


Galeria Sesi em São Paulo, de Paulo Mendes da Rocha e MMBB, no Edifício da FIESP, escritório Rino Levi. Foto Nelson Kon

 

No rarefeito panorama contemporâneo da arquitetura no Brasil, o jovem escritório paulistano de Angelo Bucci, Fernando de Mello Franco, Marta Moreira e Milton Braga emerge com uma produção surpreendentemente forte e conseqüente. Fazem parte, eles também, do seleto grupo de arquitetos que trabalha em associação com Paulo Mendes da Rocha (1) numa série de projetos de porte, em parcerias que, no caso, envolvem desde o desenvolvimento de projetos executivos (a recuperação da Oca de Niemeyer no Parque do Ibirapuera, por exemplo) à co-autoria em projetos como o SESC-Tatuapé, o centro de serviços públicos do Poupatempo na estação Itaquera do metrô paulistano, o anexo do SENAC-Campinas e a intervenção no edifício-sede da Fiesp.

É uma combinação de forças que vem de meados dos anos 90, quando, diante da oportunidade de realizar operação de impacto no centro de São Paulo – um terminal de ônibus no Parque Dom Pedro –, os quatro arquitetos recém-associados tomam a iniciativa de convidar Paulo Mendes para participar do projeto. Episódio que interessa por dizer da perspectiva pela qual o vêem, e que naturalmente confirma o lugar de Paulo Mendes, hoje, no centro gravitacional de uma produção moça de alta qualidade. Pois além de ser reconhecido como referência primordial por muitos dos seus ex-alunos – mesmo os que dele divergem, e que afinal nem são tão poucos –, Paulo Mendes mantém atualmente com seus colaboradores o que ele próprio caracteriza como uma “assembléia crítica permanente” (2). Contribuindo, assim, para enfunar o espantoso trânsito existente entre boa parte dos arquitetos de São Paulo, o qual vem a ser pautado por uma rede de inter-relações muito peculiar ao meio local, tecida em parcerias e equipes que se fazem e se desfazem constantemente, em função, ao que parece, das ocorrências pessoais e dos trabalhos em curso. No fundo, em que pesem as singularidades individuais e as diferentes cifras poéticas, percebe-se em São Paulo uma vasta trama de relações pessoais que sustenta uma produção arquitetônica de rara coesão. Para a qual, é certo, contribuem também as escolas – entre os arquitetos do MMBB, por exemplo, todos se formaram nos ateliês da FAU-USP, todos foram professores do período áureo da Universidade Braz Cubas, em Mogi das Cruzes, e todos estão hoje vinculados à Escola da Cidade (Angelo e Milton também à FAU-USP, Fernando à Escola de Engenharia de São Carlos).

A formação dos quatro se deu em meio aos ecos e desdobramentos entre nós do debate pós-moderno, num período marcado pelo ar de deboche de Éolo Maia em Minas e pelo Citicorp Center de Croce, Aflalo & Gasperini na avenida Paulista. Ao mesmo tempo, recuperava-se para a FAU a presença física de Artigas, embora a sua histórica aula de reintegração ao quadro docente da faculdade não passe, para os quatro, de uma lembrança vaga, com a qual aliás se sentem em débito. Vivia-se então a crise de referenciais generalizada sob o curto-circuito do pós-moderno, e foi essa crise que os levou, recém-formados, a cumprir o ritual de passagem pela Europa. Com exceção de Angelo, os demais podem ser inscritos na “geração migrante” (3) identificada por Abilio Guerra – Marta passou uma temporada em Londres, onde Milton foi desenhista de CAD, e Fernando trabalhou com Emili Donato em Barcelona. Isso em pleno boom das Docklands e das olimpíadas espanholas.

Pouco depois, os quatro seriam alvo da polêmica suscitada pelo concurso nacional para o Pavilhão do Brasil na Expo 92 de Sevilha, cujo júri, encabeçado por Paulo Mendes, selecionou o projeto de Bucci (em associação com Angelo Puntoni e José Oswaldo Vilella), e conferiu o segundo lugar à proposta apresentada pelos outros três arquitetos (em associação com Vinícius Gorgati). Desde então, e lá se vão dez anos, ao currículo dos quatro foram se somando outras distinções. Dentre elas o Prêmio Ex Aequo da IV Bienal de Arquitetura de São Paulo pelo equacionamento de um programa ainda raro no Brasil, e ainda mais raramente conduzido por arquitetos: a garagem subterrânea sob a Praça Alexandre de Gusmão (Parque Trianon, SP). Da praça preservada intacta, a não ser por acessos discretos e de implantação cirúrgica, é impossível adivinhar a mega-estrutura de concreto protendido capaz de conter 500 carros em três níveis, totalizando 13.400 m2 de área construída. A aeração é perfeita, a circulação de veículos e de pessoas é desembaraçada e eficiente. De repente o olho fisga um longo plano solto, em azul profundo, que anuncia os espaços de administração e controle. A essa altura, já estamos contaminados.

 
         
 


Casa em Aldeia da Serra, São Paulo, MMBB. Foto Nelson Kon


© Foto Nelson Kon


© Foto Nelson Kon


© Foto Nelson Kon


© Foto Nelson Kon

Veja projeto completo

 

Casa em Aldeia da Serra

Não há dúvida de que esta casa – um dos projetos mais recentes do escritório, e dos últimos em que se mantém a sociedade com Angelo Bucci – dá prosseguimento à linhagem arquitetônica paulista iniciada com Artigas. Entendendo-se com isso não uma mera dicção, claro, senão a consciência da herança de uma prática engajada numa rigorosa ética projetual que aproxima Paulo Mendes da Rocha, Joaquim Guedes e Eduardo de Almeida. Logo se vê que o projeto não se esquiva deste contexto e, no entanto, tampouco se deixa acomodar a ele. Ao contrário, o gosto de seus autores parece estar na elaboração de um desvio, quando não de uma inversão mesmo, de algumas das premissas cultivadas como matrizes da escola paulista, da qual são tributários confessos.

O raciocínio, a rigor, é comum a um conjunto de obras produzidas nos últimos anos pelo escritório, entre as quais se poderia incluir o edifício do DPTO, a clínica odontológica em Orlândia e a mais recente residência em Ribeirão Preto. São obras que a princípio operam num regime de estrita economia, e se resumem a pouco: um único volume prismático suspenso do solo por um mínimo de apoios (ou, no caso do DPTO, assentado sobre uma base neutralizada), envolvido por uma membrana diáfana em contínua metamorfose. Permanece o regime planar que está na base da arquitetura moderna paulistana. Mas o plano vai sendo gradualmente sondado; aqui se desprega como uma casca, ali se volatiliza como a nevoenta São Paulo. E tudo indica ser aí, propriamente, que o projeto começa a se adensar: a incidência da luz e o ângulo da visada, somados, fazem ver ora uma vértebra, ora um véu; ora desdobram-se em transparências, ora realizam corpo, massa, peso. De maneira que nos vemos todo o tempo às voltas com a alteridade: há sempre uma outra feição latente, um outro de impulso contrário mais adiante. Algo que não está ali mas que a todo instante se vislumbra, numa trama sedutora de que logo somos presa. Assim é que ao mesmo tempo em que se perseguem os limites do retângulo, investigando sua resistência enquanto forma, a essa contenção formal se contrapõe uma expansão inquietante, sobretudo na medida em que excêntrica, em todos os sentidos, ao cerrado meio paulistano. Sob certo ponto de vista, esta arquitetura já encontra até mais correspondências com a produção holandesa contemporânea. Ou ao menos arma um diálogo com a Villa dall’Ava de Rem Koolhaas.

A já histórica caixa transparente de vidro aparece agora reenvolvida por uma pele hipersensível a provocar a vizinhança, em especial quando é noite e o interior se acende, em expansão. Porque a casa se dá ao voyeurismo metropolitano, mas ao mesmo tempo toma distância, soberana, de tudo que a rodeia – das casas vizinhas, da rua, do próprio terreno. Nada abala o seu alheamento altivo em relação ao mundo sem expressão dos condomínios da periferia. E se ela acaso pretende atuar sobre ele não é por oferecer um campo de troca, mas por excitar a todo momento o olho que passa, compelindo-o a seguir, dia e noite, a intimidade de um homem, uma mulher e uma criança.

Enfrenta-se, desde logo, um paradoxo: um lote num dos novos condomínios que vão se sucedendo como alternativa de vida nas franjas da cidade, mas que conserva características da malha urbana tradicional (não mais que 800 m2, com vizinhos por todos os lados). E é da impossibilidade de praticar um diálogo produtivo com tal entorno valorado negativamente que se constrói um mundo à parte, depurado e polido, espécie de universo paralelo a insinuar uma outra versão da esfera doméstica. Muito do combustível desta casa advém do que daí, de uma maneira ou outra, resulta: a corrosão silenciosa mas permanente do meio circundante.

Ao mesmo tempo, aparentemente não há obstáculo, nem visual nem físico. Desde o ingresso no lote, abrem-se percursos na horizontal e na vertical, de modo que à rotação centrípeta determinada pela planta cêntrica opõe-se uma força centrífuga que estende o movimento em direção ao topo e ao fundo, fazendo extravasar a caixa edificada. É um processo de deslocamento contínuo que se dá ao amparo de uma luminosidade sedosa, minuciosamente calibrada, que tudo envolve e abraça. Em verdade deseja-se (e consegue-se) desnaturalizar a luz natural. Mas o controle de uma voltagem tão flutuante gera uma atmosfera a tal ponto homogênea e uniforme que chega a causar estranhamento e por pouco não nos paralisa. Nisto, a operação se faz inversa à de Paulo Mendes da Rocha (tome-se a casa Milan, onde a luz natural investe sobre tudo e tudo domina, num redemoinho extasiante de infinitas variações e reflexos do qual ninguém sai ileso). Quando entramos na casa de Aldeia da Serra, tudo fica em suspenso – luz, cor, matéria, respiração. Não há clímax, não há sobressalto, não há escândalo. É como se os arquitetos ensejassem uma sintonia perfeita, e como tal irreal, entre todos os dispositivos da arquitetura, por meio da qual, quem sabe, fosse possível fazer esvanecer os conflitos e a as angústias da vida cotidiana. E então a casa parece muito perto do gozo da promessa de que se alimentam este e todos os condomínios fechados. Não fossem as suas frestas, por onde o imaginário escapa.

Notas

1
Os outros escritórios são Ricoy Torres e Colonelli, Piratininga Arquitetos e Metro Arquiteto. Ver, a propósito, mesa-redonda com Mendes da Rocha e componentes destas quatro equipes in: Projeto Design nº 275, São Paulo, jan. 2003.

2
O termo é usado por Paulo Mendes da Rocha na entrevista publicada in: Projeto Design, nº 275, São Paulo, jan. 2003.

3
Ver editorial e depoimentos na editoria Arquitextos nº 30, nov. 2002.

 
         
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