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| severiano porto e a arquitetura regional haifa yazigi sabbag |
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Para fazer uma casa, Severiano Mário Porto só precisava de algumas toras de madeira, algumas pranchas e os sarrafos que sobravam. A luz entrava diluída e o ar corria livremente para espantar o calor tal como faziam as várias gerações de habitantes da Amazônia. Entusiasmado, se deixou envolver pelas condições ambientais e geográficas da região para onde as circunstâncias de trabalho o levaram. Lá, ele forjava os projetos de acordo com o clima, as técnicas e materiais locais. Do Rio de Janeiro, levou o conhecimento acadêmico e adaptou-o à maneira simples de construir, à memória e sabedoria dos artesões locais, transmitidas “de pai para filho”. Sem caráter folclórico, essa arquitetura tem despertado interesse em regiões com particularidades ambientais semelhantes, principalmente na América Latina, como demonstram os inúmeros convites de palestras ou mesmo as reproduções de suas obras, aqui e no exterior, até na longínqua Noruega. Severiano viveu durante 36 anos em Manaus. Para lá se transferiu em 1965, mas conheceu a cidade dois anos antes quando fora de férias, “com passagem aérea de cortesia”. Profundamente tocado pela natureza quase primitiva que cercava a cidade de então 250 mil habitantes,recorda que a beleza e a suntuosidade da Amazônia, onde o silêncio só é comparável às suas proporções, “torna o homem muito pequeno”. Seu percurso ocorreu de maneira pouco comum. “Dei sorte na vida”, confessa. Filho de pais pernambucanos, nasceu em Uberlândia, Minas Gerais em 1935, para onde a família havia se transferido. Depois, já no Rio de Janeiro, cursou arquitetura na Faculdade Nacional de Belas Artes, num período muito rico da história da arquitetura brasileira, em que a construção do Ministério da Educação era o tema das escolas. Fazia, com os colegas, cenários para as peças que se apresentavam no Teatro Municipal, e ali podia assistir aos espetáculos encenados. Ainda estudante, Severiano trabalhou na Construtora Britto como desenhista estagiário e, durante mais 11 anos, como arquiteto, acompanhando todo o desenvolvimento das obras. Entretanto, um fato acabou direcionando sua vida profissional. Vizinho do professor amazonense Arthur César Ferreira Reis, foi por ele convidado para projetar a representação do governo do Amazonas na avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Seguiu-se então o convite para a reforma do Palácio do Governo e da Assembléia Legislativa de Manaus; logo depois o projeto para o estádio municipal, programa que ele conhecia bem como desportista. Normas estéticas, doutrinas, conceitos ou filiação a escolas e tendências, nunca foram sua preocupação. Afirma ele que sempre se pautou pelo que acha recomendável, “a idéia vem depois do programa”. Os trabalhos foram acontecendo, com os respectivos graus de dificuldade, e ele se sentia preparado para enfrentar desafios. “Tinha muita vivência de construção, sempre acompanhei de perto minhas obras”. Com tantos materiais e técnicas à disposição, Severiano diz que aconteceu a madeira na Amazônia porque existe em abundância na região. Para construir seu abrigo, o homem sempre tirou da mata o que necessitava, de maneira inteligente, com ferramentas muito simples. No Encontro Regional de Tropicologia, ocorrido no Recife em 1985, o arquiteto afirmava que seu aprendizado partiu da observação da integração do homem com o rio, com a casa e o barco mas mantinha soluções estéticas ligadas à funcionalidade, como a construção de varanda e outros detalhes. “Quando o rio sobe, o caboclo constrói um assoalho mais alto, quando o rio desce, ele desfaz o assoalho, adaptando a casa ao movimento das águas”. No interior da floresta, a casa é feita de palha, com aberturas para sair o ar quente e a própria palha agindo como elemento isolante. No início, o arquiteto foi erguendo pequenas e rústicas obras em madeira. A pedido da Secretaria de Agricultura fez um projeto experimental para empregar mão-de-obra e madeira locais. Escolas, alojamentos, capela, serrarias, etc, foram construídos pelos habitantes da região, com ventilação cruzada, telhados com aberturas, assoalhos de madeira e muros como fundações. Confessa Severiano que precisou quebrar muitos tabus e resistências para que essa interpretação da cultura regional acontecesse. Projetos doados ao governo de escolas pré-fabricadas foram recusados porque poderiam ser qualificados como “barracos”. Nas construções urbanas, até mesmo em escolas, copiavam-se modelos publicados em revistas, com coberturas de concreto e sem beirais, inadequados ao clima. Foi somente após sua primeira premiação pelo IAB, em 1966, com um restaurante rústico, e a grande repercussão do prêmio em Manaus, é que pôde mostrar diversidade de situações e soluções em áreas que os arquitetos poderiam atuar. Essa obra simples, o restaurante Chapéu de Palha, foi uma das mais gratificantes experiências. Surpreendeu o arquiteto a habilidade da mão de obra local em trabalhar a madeira e o envolvimento dela na construção. Escolhendo o material, esculpiam por conta própria desenhos nas toras de aquariquara da estrutura, árvores com 18 metros de comprimento, presas no centro por tirantes de ferro e cobertas de palha buçu. Sentindo a alegria que o trabalho produzia, Severiano passou, de arquiteto, a observador. Esse trabalho, reproduzido em Roraima sem o seu conhecimento, gerou problemas de autoria, mas Severiano conclui, com aquele seu jeito afável e sossegado de falar, que era a primeira vez que se copiava uma construção regional de palha e madeira. A partir das premiações – Severiano Porto também recebeu reconhecimento internacional com prêmio na Bienal de Buenos Aires de 1985 – houve significativa mudança de mentalidade na região. Lembra também ele que a arquitetura alternativa poderia ser excelente resposta em inúmeras situações: “as construções populares regionais existem porque são boas e baratas, não acontecem por acaso”. A falta de informação e a estrutura montada nas universidades, segundo ele, bloqueiam certas soluções. “Técnicas regionais, como a taipa, não são ensinadas, não existe literatura didática a respeito”. O hotel da Ilha de Silves (1979/83), erguido no meio da floresta, a uma hora vôo de Manaus e também premiado pelo IAB/RJ, foi projetado inteiramente em madeira, na forma circular das ocas indígenas, e coberto por cavacos. Em 1971, Severiano construiu a casa em que viveu até há poucos anos. Ela foi toda estruturada com madeira sucupira em lajes e pranchas de três polegadas, com colunas de maçaranduba e lajes de concreto apenas nos banheiros do segundo pavimento. Ao redor do jardim interno, onde a chuva cai, desenvolvem-se todos os espaços; “a casa está eternamente aberta e o vento circula por ela dia e noite”. Janelas pequenas, basculantes, tipo gelosia, com vidros amarelos para reduzir a luminosidade, tornam a casa mais fresca e extremamente agradável. A Universidade do Amazonas, projetada em 1973, menção honrosa do IAB/RJ (1987), constitui referência importante de conciliação de conceitos regionais e universais. Situada em uma área de 6,7 milhões de metros quadrados nas bordas da floresta, é conformada por pequenos módulos espalhados mas interligados, para melhor aproveitamento dos ventos. Protegidos por dupla cobertura isolante, são servidos por muito espaço aberto para a livre circulação do ar. O conjunto integra-se à natureza, cria condições naturais de conforto ambiental e se acomoda ao terreno, evitando movimentação de terra e desmatamento. A preocupação de Severiano na Amazônia centrava-se não somente no emprego dos materiais, mas no aproveitamento dos ventos, na proteção máxima contra o sol e nas condições topográficas. “Questões como natureza e clima são inerentes à profissão do arquiteto”, observa ele, afirmando que para se fazer arquitetura brasileira não é preciso sair do país. “Copiamos, no Equador, o que se faz no Japão... por exemplo, vitrines voltadas para a rua, quando o calor é tanto que não se pode ficar parado olhando”. Como paradigma da elaboração da arquitetura em harmonia com o clima, cita João Filgueiras Lima–Lelé e os hospitais projetados por ele com climatização natural. Além da madeira, Severiano utilizou concreto quando este material era pertinente e abóbadas de tijolo em técnica aprendida com o mestre uruguaio Eladio Dieste, utilizada na Escola de Música de Fortaleza e na Assembléia Legislativa de Porto Velho. Explica que arquitetura também é questão de comportamento.”Na região amazônica ou numa região fria, a atitude é semelhante: estudar os meios e buscar as soluções adequadas”. Em concreto e com adaptações ao clima, ele projetou o ambulatório médico do Ipasea, com brises na fachada e pé-direito alto para ventilação livre, agências de bancos, a Assembléia Legislativa, o estádio Vivaldo Lima, reservatórios de água de Manaus, cujo projeto, fruto de concurso, repetiu-se inúmeras vezes em outros pontos do Estado. Na sede da Suframa – Superintendência da Zona Franca de Manaus – o arquiteto elaborou uma série de módulos de concreto em forma de tronco de pirâmide oca que funcionam como coifas para tiragem do ar quente. Ao se transferir definitivamente para Manaus, Severiano Mario Porto manteve seu escritório no Rio de Janeiro com o arquiteto Mario Emílio Ribeiro, com quem trabalha até hoje. Nele desenvolviam-se os projetos complementares. O arquiteto saiu de Manaus há dois anos – “já era hora de voltar”. Atualmente, mora em Niterói. |
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![]() Arquiteto Severiano Porto |
Severiano
Mário Porto é mineiro nascido em Uberlândia,
no ano de 1928. Formou-se arquiteto pela Universidade do Brasil, Rio de
Janeiro, em 1954. Na década de 60 se estabeleceu em Manaus, onde
passou a desenvolver uma arquitetura pertinente à realidade local,
incorporando materiais e técnicas regionais a sua arquitetura,
de orientação racional. Em sociedade com Mário Emílio
Ribeiro, projetou e construiu |
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