| Abilio Guerra | O sobrinho do Marciano |
| Como todo brasileiro, adoro futebol. E como todo norueguês ou venezuelano, não torço por time nenhum. Uma idiossincrasia tola, mas cuja recompensa é assistir os jogos sem o risco de me decepcionar com a derrota. Um prazer desconhecido pelo torcedor comum, que pode ir, em apenas uma fração de segundo, da alegria inflamada ao desespero angustiante se a bola chacoalhar a rede da trave errada. Ao contrário deste, que se filia irracionalmente a uma camisa antes da puberdade e a ela prestará fidelidade que não dedica à mulher alguma, prefiro simplesmente me divertir. Seria desonesto omitir que na ausência de uma predileção clubística – após anos assistindo jogos de futebol de variados campeonatos, torneios, regiões, divisões e categorias – eu acabei desenvolvendo um método para acompanhar as contendas com mais interesse: escolher um time provisório para torcer. A escolha, que pode durar um campeonato ou um jogo, considera o melhor futebol, mas também a geografia, pois vai do particular ao geral – primeiro os times da minha cidade, depois do meu Estado, do meu país, do meu continente... Algumas situações sui generis derivam desse rigor protocientífico: para desespero de amigos e familiares, torci pela Argentina na final da Copa de 1986. |