Estádio do Pacaembu, São Paulo. Foto Victor Hugo Mori. CLIQUE AQUI PARA ÍNDICE GERAL
Abilio Guerra   O sobrinho do Marciano
 

Abilio Guerra, arquiteto, professor da FAU Mackenzie, editor do Portal Vitruvius e do Arquiteturismo

viagem de formação
     
Foto aérea do Estádio La Bombonera, Buenos Aires. Fonte: Google Earth

Abilio Guerra no Estádio La Bombonera. Foto Silvana Romano [passar mouse sobre imagem]

 

Como todo brasileiro, adoro futebol. E como todo norueguês ou venezuelano, não torço por time nenhum. Uma idiossincrasia tola, mas cuja recompensa é assistir os jogos sem o risco de me decepcionar com a derrota. Um prazer desconhecido pelo torcedor comum, que pode ir, em apenas uma fração de segundo, da alegria inflamada ao desespero angustiante se a bola chacoalhar a rede da trave errada. Ao contrário deste, que se filia irracionalmente a uma camisa antes da puberdade e a ela prestará fidelidade que não dedica à mulher alguma, prefiro simplesmente me divertir.

Seria desonesto omitir que na ausência de uma predileção clubística – após anos assistindo jogos de futebol de variados campeonatos, torneios, regiões, divisões e categorias – eu acabei desenvolvendo um método para acompanhar as contendas com mais interesse: escolher um time provisório para torcer. A escolha, que pode durar um campeonato ou um jogo, considera o melhor futebol, mas também a geografia, pois vai do particular ao geral – primeiro os times da minha cidade, depois do meu Estado, do meu país, do meu continente... Algumas situações sui generis derivam desse rigor protocientífico: para desespero de amigos e familiares, torci pela Argentina na final da Copa de 1986.

 

Foto aérea do Estádio do Morumbi, São Paulo. Fonte: Google Earth

Santos jogando no Morumbi [passar mouse sobre imagem]
Arquiteturismo, nº 16ISSN 1982-9930. São Paulo, Brasil, junho de 2008 – Revista online mensal sobre turismo arquitetônico – Editores responsáveis: Michel Gorski e Abilio Guerra
 

Foto aérea do Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro. Fonte: Google Earth

Brasil x Equador, Maracanã. Foto: Rogério Santana, 2007. Fonte: Suderj [passar mouse sobre imagem]

Como um Zellig macunaímico, ao invés do corpo é a cor da minha camiseta que se metamorfoseia em outras, e o distintivo estampado no seu lado esquerdo passa por diferentes formas, reagindo em uníssono com as oscilações do coração interesseiro, sempre batendo para o clube de melhor futebol. E tal situação me permite recordar com orgulho dos meus times do coração: o Santos de Robinho, Diego e Elano; o Palmeiras de Cafu, Rivaldo e Muller; o São Paulo de Cafu, Toninho Cerezo e Muller; o Corinthians de Sócrates, Zenon e Casagrande; o Guarani de Zenon, Renato e Careca; o São Paulo de Zé Sérgio, Renato e Careca. Bem, parece que alguns compartilhavam comigo da volubilidade... Há uma expressão popular que me defini bem: o vira-casaca. Essa condição me tem permitido, ao longo da vida adulta, freqüentar como se fosse meu os estádios mais variados, acompanhando algum torcedor mais convencional – um amigo corintiano, uma filha palmeirense, um filho são-paulino, etc. Já tentei ensinar meu ecumenismo, mas constatei que não é possível: quase apanhei da torcida corintiana com minha filha torcendo entusiasmada pelo Santos em um Morumbi neutro; e em um Moisés Lucarelli transbordando de pontepretanos, uma amiga artista plástica estreou nos estádios se apaixonando pelas bandeiras do time adversário.