Estádio do Pacaembu, São Paulo. Foto Victor Hugo Mori. CLIQUE AQUI PARA ÍNDICE GERAL
Héctor Vigliecca   Tiro de meta
 

Héctor Vigliecca, arquiteto (Escola de Arquitetura de Montevidéu, 1968), está radicado em São Paulo desde 1975. Participou de mais de 70 concursos nacionais e internacionais, recebendo 41 prêmios. Associado à arquiteta Luciene Quel, é titular de Vigliecca & Associados. Professor da cadeira de projeto na Escola de Arquitetura da Universidade Mackenzie desde 1992, é membro da atual diretoria do IAB/SP

paisagem construída
     

Héctor Vigliecca e Paulo de Arruda Serra diante do Allianz Arena, Munique, 2006

Possivelmente minhas raízes genéticas originárias da Judéia fizeram com que eu me tornasse levemente errante ou algo como o pintor Joaquim Torres Garcia escrevia: “no quiero nada, quiero que las coisas sean como son, estoy bien en todas partes, en todo lugar” (De Hechos, 1919) Isso se reflete na minha relação com o futebol: nunca tive um time do coração. Apenas nos jogos internacionais vivia uma espécie de patriotismo que talvez seja uma substituição ao verdadeiro sentido de pátria, como Mario Benedetti poetizara tão bem em Noção de Pátria: “Pátria é o buraco de minha cama, a árvore que vejo da minha janela”. Alguns podem até não acreditar em tanta insensibilidade vinda de um uruguaio; tenho medo que minhas apreciações sejam contaminadas por um frio quase cirúrgico, mas hoje assisto futebol quase como quem observa um jogo primitivo, algo como escutar aquela maçante música renascentista.

Claro que sei apreciar uma boa tática, uma boa jogada e um bom dribbling. Aprecio as regras que dão valor à espontaneidade, mas na verdade, e apesar de um raro constrangimento, o que mais aprecio é a arbitragem, a difícil tarefa de se ter leis fixas e escritas para serem aplicadas dentro da dinâmica do jogo.

 

Uma maravilha que faz de alguns poucos árbitros verdadeiros gênios na condução do jogo, incluindo as “interpretações”, nada mais absurdo e mais estúpido que as propostas de incluir um replay de TV para a arbitragem. Como dizia Nelson Rodrigues em Flor de obsessão, “a arbitragem normal e honesta confere as partidas um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larapio dá ao futebol uma dimensão nova e, se me permitem, shakespeariana”.

Então, todos os anos (e já são mais de trinta) quando joga Uruguai e Brasil escuto a mesma pergunta: Para quem você torce? Às vezes, só para satisfazer o ego sádico de quem me pergunta, pois sabe que o Uruguai não tem time à altura da seleção brasileira dos últimos tempos e é evidente que vamos perder, respondo: “pelo Uruguai, claro”. Mas no fundo, no fundo mesmo, eu torço pelo Brasil, revelando minha personalidade Zelig, onde meu corpo, minha mente e meu coração torcem de acordo com o âmbito que me habita.

 
 

Modernização do Conjunto Desportivo do Ibirapuera. Croqui Héctor Vigliecca
 
Arquiteturismo, nº 16ISSN 1982-9930. São Paulo, Brasil, junho de 2008 – Revista online mensal sobre turismo arquitetônico – Editores responsáveis: Michel Gorski e Abilio Guerra

Apesar dessa espécie de apatia em relação ao futebol e, contraditoriamente, talvez como uma espécie de castigo, meu destino está marcado por vários acontecimentos que para um torcedor fervoroso poderiam ser considerados como bênçãos, a começar por ter tido um pai grande jogador de futebol – até convidado por times profissionais, mas que desistiu sensatamente para seguir a carreira de odontologia –, um furioso torcedor de Peñarol. Então na minha infância eu dizia torcer pelo Nacional apenas para provocá-lo ouvindo como resposta: “mi hijo un bolsilludo” (termo depreciativo aos torcedores de Nacional Futebol Clube, arqui-rival de Peñarol de todos os tempos). Nunca lhe confessei minha indiferença à respeito do futebol.

Em 1964 quando o Santos jogava em Montevidéu pela Copa Libertadores de América (criada entre outros por um grande dirigente uruguaio chamado Washington Cataldi no ano de 1960), o time se hospedou no hotel Columbia, que ficava em frente ao nosso primeiro escritório de arquitetura, quando éramos ainda estudantes. Num belo dia, o então meu sócio Enrique Benech, torcedor roxo de Peñarol, grita: “mira Djalma Santos e Pelé!!!!”, e saímos correndo para pedir autógrafos e tirar fotos.