Estádio do Pacaembu, São Paulo. Foto Victor Hugo Mori. CLIQUE AQUI PARA ÍNDICE GERAL
Ana Paula Spolon   Dilema de turista
 

Ana Paula Garcia Spolon é consultora hoteleira, tradutora e professora universitária. Formada em Hotelaria pelo SENAC, é doutoranda e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela USP, onde desenvolve pesquisas sobre turismo, estética arquitetônica e valorização imobiliária. Atua na área de planejamento e desenvolvimento de projetos turísticos e hoteleiros há 15 anos

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Da janela do avião, a Cordilheira dos Andes. Foto Caio Romano Guerra

Daniel Piza, no delicioso blog Cultura, futebol e, vá lá, política, chama de amadora a arte de viajar. Diz que “ler e caminhar, ambos sem muita ‘objetividade’, fazem a diferença entre o bom e o mau turista. É com olhos livres e sapatos gastos que se faz uma viagem marcante. Não basta visitar os lugares manjados e comer os pratos típicos; é preciso estar aberto ao novo, correr os riscos, ter a paciência de não sair catalogando o que vê como ‘maravilhoso’ ou ‘decepcionante’ e nada mais”.

Tenho que – e quero – concordar. Não é fácil ser turista. Para sê-lo com propriedade, é preciso despir-se corajosamente de medos, preconceitos e até de certas idéias que, bem de dentro, surgem como verdades absolutas.

O turista é uma figura muito peculiar. Tem hábitos previsíveis, usa roupas que o delatam e ele mesmo, ao abrir a boca, entrega-se sem que ninguém possa duvidar da sua tão particular identidade. Em seu íntimo, entretanto, há uma complexidade sem fim. Bem difícil compreendê-lo e quase impossível satisfazê-lo, em todo tempo e lugar.

 
 

Alain de Botton, misto de historiador e filósofo com uma roupagem contemporânea, tenta fazê-lo. Dizem muitos que sua linguagem é simplista e que seu grande erro é tentar transformar a filosofia em uma popular forma de auto-ajuda. Bem, de minha parte, acho sempre mais adequado um texto simples que alcance o maior número possível de pessoas, do que um tratado vernacular que não seja apreendido por ninguém. Sim, a linguagem de Botton é muito simples e direta. E em sua clareza e limpidez, segue arrebatando fãs no mundo inteiro.

Suíço radicado em Londres desde os oito anos, Botton é um jovem e talentoso filósofo da contemporaneidade. Com oito livros publicados em pouco mais de 13 anos, cinco deles transformados em produções para a TV, Botton colabora assiduamente com revistas e jornais, em vários países. É um autor difícil de classificar. Não é um acadêmico, mas também não pode simplesmente ser rotulado de cronista. Escreve ficção e não ficção. É ao mesmo tempo um terapeuta do cotidiano e um observador arguto do dia-a-dia das pessoas e dos cenários, em especial o das grandes cidades.

 
 

Em pinceladas, o autor nos apresenta o dizer ou o expressar-se de escritores, artistas e pensadores, em uma busca agradável do que pode ser considerado um esboço de receita para a viagem perfeita.

Divididas em cinco seções – Partida, Motivos, Paisagens, Arte e Retorno – as crônicas de Botton exploram as expectativas que envolvem a prática do ir e vir, a forma como o turista acaba por projetar estas expectativas nos lugares que visita, as razões pelas quais se escolhe um destino, a dinâmica que orienta a maneira pela qual se absorve e depreende as paisagens, a arte de ver um mundo diferente do habitual e a satisfação da volta para casa, para o encontro com o cotidiano tão opressor e ao mesmo tempo tão tranqüilizador.

Nesta viagem, o autor passa por lugares tão variados quanto as docas de Londres e Barbados, Madri e o Deserto do Sinai, Amsterdã e a Provença. Saindo e voltando para o seu habitat, o distrito de Hammersmith, na zona oeste de Londres.

 
Arquiteturismo, nº 15ISSN 1982-9930. São Paulo, Brasil, maio de 2008 – Revista online mensal sobre turismo arquitetônico – Editores responsáveis: Michel Gorski e Abilio Guerra

O website Contemporary Writers, editado pelo British Council e especializado na disponibilização de dados sobre autores britânicos vivos o descreve como um autor “com uma habilidade brilhante de avaliar as razões das pessoas para fazerem determinadas coisas e de descrevê-las através de uma linguagem bastante acessível. Ele sempre leva o leitor, de uma forma implícita, a pensar: você não se reconhece nesta situação?”

É o que acontece em A arte de viajar, publicado em 2002 e traduzido para o português pela Rocco em 2003 (em excelente trabalho de Waldéa Barcellos). O livro parte de uma premissa geral: se viajar é uma idéia tão empolgante, por que a realidade concreta das viagens é em geral responsável por tantos turistas insatisfeitos? Por que os lugares de trânsito – aviões, aeroportos, estações de metrô, hotéis e a própria rua – podem ser tão enfadonhos? Esta dicotomia entre satisfação e decepção permeia os nove capítulos, melhor classificados de crônicas. E, sim, nós todos nos reconhecemos nelas.