Aurélio
Capim,
designação genérica das gramíneas silvestres, é palavra de origem
tupi (ka+píi, ou "folha delgada"). São eles vários: capim barba-de-bode,
capim-açu, capim-agreste, capim-amonjeaba, capim-amargoso, capim-azul,
capim-balça, capim-bambu, capimpuba, capim-bobó, capim-branco, capim-catingueiro,
capim-cheiroso, capim-de-burro, capim-de-cheiro, capim-do-pará, capim-elefante,
capim-flecha, capim-gordura, capim-guiné, capim-jaraguá, capim-limão,
capim-marmelada, capim-membeca, capim-mimoso, capim-sapé, capim-trapoeraba,
etc. A maioria dessas espécies tem a inflorescência em espigas, as
folhas lineares, agudas e recurvadas, e a haste filiforme. Quase todas
são originárias das Américas ou da Ásia.
Periplanetas
Os capins são indesejados, invasores, forrageiros e cosmopolitas,
e provavelmente constituem a maior parte da área verde das cidades
brasileiras. São arrancados por jardineiros, coletados por lixeiros,
queimados por incendiários e odiados por paisagistas.
Humanizadores
A vontade idealizada pelos arquitetos raramente se torna realidade.
A ordem sempre é negada por acidentes e acasos que fogem do controle
dos planejadores. "Puxados", infiltrações, atalhos, subversões de
uso etc. pavimentam o caminho das coisas involuntárias, sendo elas
nem sempre prejudiciais ao projeto. Estas são as coisas que nos falam
sobre o "crescimento" de um edifício ou de um desenho urbano, e sobretudo
das coisas que acontecem após a fase de implementação. Um projeto,
entretanto, sempre será artificial. Ele não nasce, ele é concebido
por um indivíduo. Talvez aceitar o caráter inorgânico da arquitetura
seja o mesmo que aceitar a colaboração das coisas orgânicas, tomando
partido do que é inesperado, do que é discutível ou do que é perigoso.
Na contramão de todas as apologias do determinado e do previsível,
poderíamos aceitar um espaço urbano ou um edifício assim como ele
está, para depois perguntar, parafraseando Kahn, "o que ele quer ser".
Patrocinando sua evolução, testando sua adaptabilidade e incentivando
sua abertura.
Ruínas
Qualquer ruína é mais misteriosa que um edifício bem conservado, assim
como determinadas arquiteturas ficam bem melhor depois de solapadas
pela condição de construção que não merecia persistir. Os capins,
juntamente com o desgaste dos pisos, os muros envelhecidos, as paredes
com tons já esmaecidos, a ferrugem e demais resquícios da passagem
do tempo são marcas que podem enriquecer e humanizar mesmo a mais
desumana das arquiteturas, mesmo a mais inóspita das cidades. Dificilmente
um projeto leva em consideração o que o tempo pode trazer de bom para
ele, e é exatamente por isso que os arquitetos preferem fotografar
seus edifícios quando recém-inaugurados, de preferência sem a presença
de qualquer ser humano.
Cinza
Os capins são o verde, mas um verde considerado ainda mais cinza que
o asfalto. São tidos como (e realmente são) uma erva ainda mais daninha
do que qualquer processo de urbanização descontrolada. Anti-estéticos,
transformam toda paisagem árida das calçadas e lotes desmatados em
uma única e uniforme espécie de pasto urbano sem utilidade, mas certamente
menos agressiva. Insistentes, voltam a atacar em todos os canteiros
não muito bem mantidos, não importando qual espécie ali estava anteriormente.
Default
Os capins são as áreas verdes que se tornaram verdes por default.
Eles são de fácil remoção, nascem em qualquer solo (ou mesmo sobre
o "cimentado") e dispensam qualquer tipo de manutenção. Entretanto,
é importante notar que, apesar de atuarem por default em qualquer
lugar, os capins formavam a mata nativa da região de várias cidades.
Brasília, Belo Horizonte, Ribeirão Preto e Corumbá, por exemplo, foram
construídas sobre capins (antes entremeados por umas poucas árvores
de tronco retorcido).
Imprevisíveis
Colaborando para a idéia de lugares "espontâneos" e contrariando a
utilização induzida dos espaços; oferecendo liberdade de uso e patrocinando
a mudança, os capins são as áreas não-produtivas da cidade que teimam
contra sua domesticação, apesar de, paradoxalmente, sempre estarem
abertos à idéia de espaço "eficiente".
Dados
Na taxa de área verde por habitante das secretarias do meio-ambiente,
os capins não são computados, fato que deturpa a taxa real e acentua
ainda mais o déficit de verde urbano por habitante. Na verdade, as
cidades não são tão cinzas como nos fazem crer as estatísticas. A
quantidade de oxigênio liberada por 10 touceiras de capim-gordura
pode ser comparada à de um ipê amarelo, por exemplo. Dado que eles
representam (especulativamente) 40% da clorofila urbana, então eles
produzem 40% do oxigênio do verde urbano, o que é uma percentagem
nada desprezível. Devemos a qualidade de nosso micro clima urbano,
feliz ou infelizmente, aos capins.
Pecuária
Alhures, servem de alimento para os mamíferos herbívoras e onívoros,
para insetos e aves. Não precisam nem de muito sol nem de muita sombra,
nem de muita terra nem de muita água, e convivem bem com qualquer
outra espécie vegetal. São largamente utilizados como alimento para
os bovinos, mas estes requerem uma densidade media de 1.000 m2/rés,
taxa esta de baixíssima densidade e aquém de qualquer parâmetro de
ocupação urbana. Na verdade, apesar de muito cultivado no campo, o
capim é sempre evitado nas cidades.
Naturezas
mortas
Os capins estão nas áreas públicas residuais - lugares que funcionam
como compensações para um crescimento urbano descontrolado -, ficando
abandonados à deriva, à dinâmica da "natureza urbana" depois de intervenções
radicais como viadutos, trevos e pontes.
Entropia
Segundo a lei da termodinâmica, qualquer sistema isolado tende a deslizar
para um estado de crescente desordem – e nunca para o estado de ordem.
Divida uma piscina ao meio com alguma barreira, encha uma metade com
água e a outra com tinta, retire a barreira e, pelo movimento aleatório
que sucederá, tinta e água acabarão por se misturar. A mistura nunca
volta atrás, água e tinta para sempre permanecerão misturadas. Conhecido
por entropia, esse conceito é a principal característica dos capins.
Ele enxerga a desorganização como uma tendência inequívoca de um sistema:
o abandono da infra-estrutura urbana dá vez à entropia, ou seja, a
manutenção e a ordem podem ser vistas como reações contra a entropia
latente das coisas.
Menos
é mais
Apesar disso, alguns abandonos podem ser incorporados pelo projeto.
Um paisagismo que incorpora o capim é aquele que privilegia um encontro
direto entre os usuários e a natureza. Um encontro que não procura
uma disposição arcadiana das plantas, como nos jardins onde não podemos
caminhar ou tocar as plantas, mas sim a disposição com algo a menos:
menos barreiras, menos perfeições, menos manutenção, menos composições,
menos desenho – e talvez mais abandono.