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importância dos museus e centros culturais na recuperação de centros urbanos
(1) Ceça Guimaraens e Nara Iwata |
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| Cêça
Guimaraens é arquiteta, doutora em Planejamento Urbano e Regional
e professora-adjunto PROARQ/DPA – FAU/UFRJ Nara Iwata é arquiteta, mestre em Arquitetura PROARQ – FAU/UFRJ |
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Construindo a cultura na idéia de centro A perspectiva de sucesso do movimento de revitalização dos centros denominados históricos ou tradicionais, apesar de impressa em idéias protecionistas e preservacionistas, visa o crescimento da economia das cidades por meio da ampliação das "ofertas" ou possibilidades de investimento. Desse modo, a "sustentabilidade" urbana, decorrente da criação e da manutenção de ótimas condições de uso de museus, teatros, salas de concerto e outros tipos de edifícios e lugares cuja finalidade enquadra o "espaço cultural", é assegurada com a parceria de gestores públicos e privados. Ao verificar-se os fatores que induzem museus e centros culturais a desempenhar importante papel no sistema que configura os países e as cidades, observa-se que tanto a população em geral quanto os intelectuais e cientistas contribuem para a idealização da imagem desses espaços. Isto porque a cultura, ou seja, o conjunto das representações de diferentes naturezas da produção material das sociedades sempre distingue institucional e "museologicamente" as formas de regular (ou romper) as ordens do poder hegemônico e, em conseqüência, do pensamento dominante. Para tanto, há dois séculos, os surtos de criação de espaços museológicos acompanham as fases de grande concentração de capitais aliando-as à necessidade de exibir a produção geradora e representativa de expansão econômica e comercial. O museu e o centro cultural vieram, sob inúmeros pontos de vista, transformar, de novo, o centro de cidade em praça de comércio. Nesta praça, o mercado de arte e cultura resgata uma dimensão apenas aparentemente perdida: aquela que, ao estabelecer o constante uso do "espírito", garante a sobrevivência dos artistas ao mesmo tempo em que assegura a ordem futura. De outro lado, é inegável que as mudanças sociais, políticas e econômicas induzindo a dinâmica da cultura e de seus suportes físico-espaciais, encontraram, nas áreas centrais em arruinamento, os lugares ideais para o exercício da construção de novas expressões do dito "quanto mais se muda mais se permanece". Este paradoxo leva o estudo dos edifícios de museus a considerar a necessidade da crítica à incerta liberdade que poderia justificar, ou seria dignificar?, uma atitude submissa representativa da idéia de que a cultura, da mesma forma que sua construção, resulta de um desejo de ordem e, portanto, de "civilização" (BAUMAN, 1998, 160-176). Pode-se, então, afirmar que não foi à toa nem em vão que a instituição da cultura do consumo de museu, particularmente integrada à instituição da cultura do consumo da cidade e de seu centro, hoje ocupa com muito mais competência o lugar que a igreja manteve até há bem pouco tempo. Objetivos da pesquisa O conhecimento das formas de gestão, conteúdo e funcionamento dos museus e centros culturais e o reconhecimento da sua importância para constituição da imagem das cidades definem o eixo da pesquisa no âmbito do campo do planejamento urbano e regional. Dessa perspectiva, a verificação da propriedade da mudança do uso original e das reais possibilidades da adequação física e técnica dos edifícios para a função cultural é o principal objetivo da pesquisa. Este aspecto da arquitetura é fundamental às análises da importância das atividades museológicas e do papel dos projetos culturais na economia da cidade e da região desde 1960. O período estudado enquadra o final da década de 1980 e a de 1990, atendendo ao fato desta ter sido a época em que a produção e a promoção de atividades culturais atravessaram períodos de renovação conceitual. Desse modo, busca-se estudar de que maneira o financiamento da atividade cultural exerce importante papel na economia e no fortalecimento da imagem e vocação da cidade do Rio de Janeiro. Roteiro e material: método e teoria O escopo dos trabalhos procura articular de forma sistemática as atividades de ensino e pesquisa, construindo metodologia de trabalho na qual os estudantes são vistos não somente como depositários mas ativos participantes do processo de produção do conhecimento. Consolidamos uma idéia de arquitetura "construída" a partir da análise de temas de projeto específicos dos tipos arquitetônicos identificados na condição de museu e centro cultural e nela vimos ajustando a teoria e o método que envolvem as investigações. As maneiras de desenvolver a pesquisa derivam da adaptação aos nossos casos de práticas exitosas encetadas por autores e equipes reconhecidamente competentes no campo dos projetos arquitetônico, museográfico e museológico no Brasil e no exterior. Essa adaptação é elaborada após estudo, verificação em documentos e por meio da realização de entrevistas e visitas possibilitando, assim, a comparação de projetos e resultados. Estudando o entorno de edifícios de museus Nesse processo analítico, admite-se que a articulação entre as instituições museológicas do centro do Rio constitui uma rede de edifícios cuja arquitetura estabelece um conjunto representativo da importância regional e nacional da cidade. Portanto, o roteiro para verificação das condições de reabilitação do entorno imediato percorre as seguintes atividades: – delimitação
conceitual e física de entorno; Aqui apresenta-se o estado atual da etapa de verificação das condições de uso e a viabilidade econômica da adequação técnica dos edifícios. A coleta de informações e dados sobre a origem e formas gerenciais e as possibilidades de retorno da aplicação dos recursos financeiros realiza-se junto às instituições governamentais promotoras das leis de incentivo fiscal, empresas de projetos culturais, firmas de construção e restauração e equipes e profissionais do setor patrimonial. Nas visitas aos edifícios e áreas públicas são aplicados questionários e realizadas entrevistas com os diretores e responsáveis de modo a permitir uma avaliação da propriedade dos diversos tipos de uso considerados adequados para a finalidade cultural e sua relação com os espaços originais. Além disso, a pesquisa acerca da renovação de uso do edifício e do espaço público implica na verificação das condições de reabilitação do seu entorno imediato. Resultados: o Museu Histórico Nacional Prioriza-se a experimentação dos parâmetros de análise no MHN não apenas devido ao fato deste possuir constância e diversidade programática, mas pelo fato de seu entorno estar integrado ao maior e mais novo projeto de renovação das cercanias da praça Quinze: a Frente Marítima. Do ponto de vista da importância histórica e social, e, portanto, simbólica, o Museu Histórico Nacional é considerado o maior e mais antigo museu do Centro da cidade do Rio de Janeiro. Criado por Gustavo Barroso, polígrafo e político que antecedeu Rodrigo Melo Franco na defesa institucional do patrimônio histórico e artístico brasileiro, pois foi também o criador da Delegacia de Monumentos, o edifício é, na verdade, identificado na condição de conjunto arquitetônico constituído pelo prédio do antigo Arsenal de Marinha, construído em 1764, e da Casa do Trem, depósito de material bélico da artilharia portuguesa na época. O museu foi instituído na época das comemorações do Centenário da Independência, em 1922, quando o conjunto foi reformado segundo o projeto de estilo neocolonial dos arquitetos Archimedes Memória e Francisque Couchet. Esta reforma e as inúmeras alterações motivadas pelos diversos usos talvez sejam os motivos do conjunto ter sido "agraciado" com o tombamento federal apenas no dia 19 de maio de 2001. Configurado por salas conectadas e pátios internos distribuidores, o museu "sobreviveu" em meio às intervenções urbanas, consideradas radicais, que incidiram sobre o Centro da cidade e às demolições de exemplares híbridos existentes nas imediações, ocorridas até a década de 70. A tendência de modernização do MHN é confirmada no desenho recente para os jardins e praça que limitam o acesso principal e fachada norte do conjunto, elaborado pelo escritório Burle Marx; e na reformulação constante do espaço interno que busca formas e perspectivas de períodos anteriores melhor adequadas aos projetos museográficos contemporâneos. Em paralelo, existe projeto arquitetônico que prevê a expansão dos espaços expositivos e da reserva técnica junto com a construção de edifício comercial de três pavimentos no terreno vizinho onde funcionou a antiga Secretaria de Fazenda. Considerações No Centro do Rio de Janeiro aceleraram-se a reciclagem de edifícios históricos e a regeneração de setores degradados. De maneira geral, a renovação ou alteração de usos transformou esses espaços em lugares onde realizam-se atividades culturais e exposições de obras e acervos de naturezas diversas. A integração das atividades de profissionais de várias áreas do conhecimento e de recursos de entidades governamentais e privadas no setor museológico envolve a proteção do patrimônio edificado; portanto, da perspectiva do planejamento urbano, esta ação relaciona-se não apenas à educação, formação da cidadania e produção de conhecimento, mas ao turismo "de entretenimento e lazer", fonte de empregos e de lucro. Embora as verificações parciais possam determinar que, até o momento, nenhum "grande museu" do Centro do Rio formulou ações definitivas no sentido da modernização programática e físico-espacial, consideramos que o MHN tem possibilidade para tanto. A importância social da instituição – tradicionalmente geradora de atividades de ensino e cultura –, o valor histórico-simbólico do edifício e do entorno, e a condição de maior museu histórico brasileiro são características do MHN que destacam-se na pesquisa. O fato de terem como gestor a União e serem vinculados ao IPHAN é determinante no formato de gerenciamento de alguns dos principais museus brasileiros, o MHN entre eles. Os investimentos oficiais na especialização e atualização de técnicos e na modernização física são cada vez mais reduzidos. Para a manutenção das atividades, no caso do MHN, os recursos são advindos de eventos administrados pela Associação de Amigos – por meio de aplicações do reconhecimento de isenção fiscal –, e do aluguel dos espaços para eventos sociais. Nota 1 Bibliografia A cultura em números: um olhar sobre a cultura brasileira. Rio de Janeiro, Associação de Amigos da FUNARTE, 1998. ALBINI, F. "A arquitetura dos museus e os museus e a urbanística moderna: in Habitat, n. 15, São Paulo, 1954, p. 29-31. BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, p. 160-176. Fichas de inventário realizadas pelos alunos da disciplina Museus e Centros Culturais, DPA-FAU/UFRJ no período 1997 a 2001. GUIMARAENS, C.; POLLY, V. Inventário dos museus do Rio de Janeiro: sobre conceitos e alguns resultados. Comunicação apresentada no V Seminário de História do Urbanismo, Campinas, SP; em NUTAU'98, São Paulo; e no Congresso do ICOM-Brasil, Petrópolis. 1998. KESSEL, C. "Suntuoso palácio, infecto bairro" in: Anais do Museu Histórico Nacional. Rio de Janeiro, v. 30, 1998, p. 231-244. :"Manter o patrimônio é bom negócio" in: Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 dez. 1996. Suplemento Minas por Minas, p. 8. MONTANER, J. M. "Museu contemporâneo: lugar e discurso" in: Projeto, n. 144, São Paulo, 1991, p. 34-41. MONTANER, J. M. Museus para o século XXI. Madrid, Gustavo Gili, 1995. POLLY DA SILVA, V. A arquitetura de museus no centro do Rio de Janeiro (mestrado). Rio de Jnaeiro, PROARQ, 2000. SCHVASBERG, B. Espaço e cultura: equipamentos coletivos, política cultural e processos urbanos (mestrado). Rio de Janeiro, IPPUR, 1989. ZEIN, Ruth V. "Duas décadas de museus" in: Projeto, n. 144, São Paulo, 1991, p. 30-33. ZEIN, Ruth V. "Museus em sete versões" in: Projeto, n. 144, São Paulo, 1991, p. 42-48. |
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