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| Entre
os cenários e o silêncio. Respostas arquitetônicas ao caos do mundo contemporâneo
(1) Edson da Cunha Mahfuz |
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| Edson da Cunha Mahfuz, arquiteto, professor de projetos da Faculdade de Arquitetura da UFRGS | ||||||||||||||||||||||||||||
1. O
mundo atual é percebido por muitos como algo caótico, desordenado e mesmo
hostil. Sensações de medo, desorientação e vazio parecem ser comuns a
todos em algum momento das nossas vidas. Violência urbana, crises políticas
e econômicas crônicas e consequente insegurança financeira e profissional
são causas conhecidas de todos. Pode-se perceber também que nossa é vida
é cada vez mais influenciada, se não dominada, por valores derivados de
processos sobre os quais não temos nenhum controle. Um deles é a chamada
ideologia do mercado, a partir da qual há uma tendência quase irresistível
a tratar todos os aspectos da vida como objetos de consumo, muito bem
embalados em imagens sem substância. Não
menos importante é a desorientação causada por cidades organizadas de
maneira confusa, sem hierarquia clara, povoada por uma esmagadora maioria
de edifícios equivocados na sua concepção, cuja aspiração à monumentalidade
e notoriedade só agrava a sensação de se estar em nenhum lugar. É
claro que a maioria de nós gostaria que o mundo fosse diferente, mas a
arquitetura faz parte do mundo real, com todos os seus problemas, e sua
capacidade de ajudar-nos a enfrentá-los, embora limitada, não é desprezível.
Este texto se propõe a apontar algumas maneiras em que a arquitetura e
o urbanismo têm respondido ao caos contemporâneo. Do
ponto de vista urbanístico, uma característica marcante das últimas décadas
tem sido a acelerada transferência de atividades normalmente realizadas
em espaços abertos da cidade para o interior dos edifícios: das praças
para os shoppings e centros culturais, ou espaços
similares. O espaço aberto, por conseqüência, perde seu valor e se restringe
a facilitar a circulação de pessoas e mercadorias. O espaço público deixou
de ser primordialmente um local de encontro, coração da vida social e
política, e passa a ser, na maioria dos casos, diretamente ligado ao consumo,
à comida e à diversão paga, em lugares segregados, monitorados e controlados;
local onde todos se sentem seguros e essa segurança é esperada. O próprio
termo espaço público perde significado nestas condições, passando talvez
a ser mais adequado falar-se em espaço coletivo. Essa
interiorização do espaço público coincide com a proliferação dos chamados
“não-lugares”: aqueles pelos quais ninguém sente um apego particular e
que não funcionam como pontos de encontro à maneira tradicional; são definidos
pela super-abundância e o excesso --espaços relacionados com o transporte
rápido, o consumo e o ócio (centros comerciais, supermercados, hotéis,
aeroportos, etc.) [figura 1]. Os museus talvez sejam uma exceção entre
os novos lugares do final do século XX, pois se tornam motivo de orgulho
para as comunidades que os constroem e em geral sua arquitetura é de qualidade
superior. Mas mesmo nesses templos da cultura se sente a penetração dos
valores consumistas da época, no sentido em que muitos museus têm se tornado
verdadeiros centros comerciais e gastronômicos. 2. No
que se refere às edificações em que vivemos e trabalhamos, a arquitetura
tem oferecido diferentes respostas ao caos da vida contemporânea. Uma
delas é a via nostálgica ou cenográfica, pela qual se constrói edificações
diretamente inspiradas na arquitetura do passado, fazendo questão de que
essa fonte de inspiração seja imediatamente perceptível. A idéia por trás
dessa atitude parece ser a de criar um ambiente reconfortante por meio
de imagens familiares. Essa prática já seria anacrônica e irrelevante
mesmo que o passado evocado por essas arquiteturas fosse ligado à tradição
local, mas em geral o que acontece é uma apropriação do passado de outras
culturas. A conseqüência é uma “disneyficação” do mundo, onde tudo é falso
e culturalmente irrelevante, além de não representar qualquer atitude
positiva perante o caos exterior. Os cenários em cor pastel podem até
proporcionar algum alívio temporário, mas como qualquer droga, só constituem
uma fuga inconseqüente. Mas o pior desta atitude é que, sendo regressiva
e antimoderna, infantiliza e corrompe os usuários, pois não os educa e
os mantém num estado primitivo de cultura visual. Criando
objetos que pretendem atender de modo literal a uma suposta preferência
do cliente, o arquiteto deixa de cumprir o seu papel de interpretar e
qualificar as necessidades sociais e impede o desenvolvimento de uma relação
ativa entre usuário e arquitetura. Uma das principais características
da arte moderna, da qual a arquitetura é um caso específico, é a de apresentar
uma ordem que lhe é própria, não dependente de nenhum sistema externo
a ela, e isso significa que a participação do usuário é fundamental para
o seu completamento. A arquitetura cenográfica retira do usuário a possibilidade
de engajamento ativo com a obra de arte, e o torna um receptor passivo
de imagens pasteurizadas. A
via cenográfica é originária da América do Norte [figura 2], mas sua penetração
pode ser sentida em qualquer grande cidade do nosso continente. A grande
maioria dos empreendimentos residenciais recentes nas capitais brasileiras
segue algum estilo histórico (mal) adaptado. É comum que a propaganda
desses empreendimentos fale em ‘estilo californiano’, ‘arquitetura toscana’,
etc. Todas as cidades brasileiras são afetadas por esse fenômeno, mas
em nenhum lugar ele é mais perceptível, na extensão da sua vulgaridade,
que na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, verdadeiro circo dos horrores
da arquitetura contemporânea. A falta de cultura visual da maioria das
pessoas que pode contratar um arquiteto em nosso país, somado a um complexo
de inferioridade perante o poder econômico das potências do Primeiro Mundo,
faz dos clientes presa fácil de profissionais que não entendem o papel
cultural da arquitetura, e a atrelam ao mundo da moda e da publicidade. 3. Outra
atitude corrente, especialmente no primeiro mundo, é a de tomar o caos
contemporâneo como fonte de inspiração de edifícios que são propostos
como representação do mundo atual. Assim, vemos proliferar nas cidades
européias e americanas objetos de forma estranha, baseados em geometrias
complicadíssimas, cheios de diagonais, pontas, pisos inclinados e outras
complicações formais, configurando objetos que se parecem com qualquer
coisa menos com um abrigo protetor. Além dos problemas práticos de realizar
uma arquitetura desse tipo, o principal problema dessa atitude me parece
ser o fato que sua resignação em relação ao mundo atual tem como resultado
uma materialização do caos que todos percebem como problemático. Ou seja,
ao caos percebido como condição cultural se soma a exacerbação da desordem
visual das cidades. Todos os edifícios descritos como deconstrutivistas
correspondem à essa definição. Neles, a qualidade parece ser medida pelo
grau de excentricidade da sua forma, não importando a sua pertinência
a uma determinada situação [figura 3]. Essa arquitetura envolve um esforço intelectual do usuário muito maior do que a discutida anteriormente. No entanto, o esforço para interpretar formas complicadíssimas não resulta na descoberta de uma lógica relacionada com os aspectos específicos do problema, pois ela nunca existe. A interpretação da ‘forma pela forma’ deixa um sabor amargo ao final do processo, pois raramente há qualquer correlação entre forma e conteúdo, para usar um termo fora de moda. 4. É
muito comum também, especialmente em nosso meio, a busca de uma arquitetura
‘interessante’ por meio de manipulações formais não relacionadas com nenhuma
das condições que lhes deram origem. Assim, vemos as cidades serem crivadas
de edifícios cuja forma não tem qualquer lógica visual, além de pouco
terem a ver com o programa que abrigam ou os lugares onde se inserem.
Programas simples como o de um edifício de escritórios terminam sendo
abrigados em edifícios cujas formas complicadas e contorcidas, além de
nem sempre funcionarem satisfatoriamente, criam mais confusão visual na
já poluída paisagem visual de nossas cidades. A busca de uma arquitetura
‘interessante’ indica um desconhecimento de que as boas cidades do mundo
apresentam uma mistura composta de uma maioria de edifícios simples e
discretos, que abrigam os programas mais corriqueiros, e uma minoria de
edificações com uma arquitetura mais elaborada, que abrigam os programas
de maior relevância coletiva. Hoje qualquer edifício de escritórios ou
apartamentos aspira à condição de monumento! Por trás de toda tentativa
deliberada de obter uma arquitetura interessante há sempre decisões
arbitrárias, falta de lógica e consistência (2). Sua conseqüência direta
é a produção de uma arquitetura culturalmente irrelevante e a exacerbação
do caos visual urbano. Como dizia Mies van der Rohe, “o objetivo do arquiteto
não é fazer arquitetura interessante, mas sim fazer boa arquitetura”. 5. A
resposta arquitetônica ao caos do mundo contemporâneo mais promissora
e relevante neste final de milênio é representada pelo que poderia ser
chamado de arquiteturas silenciosas. A alusão ao silêncio se explica de
duas maneiras. Por um lado, pelo fato de que essas arquiteturas rechaçam
a concepção artística promovida pela pseudo-cultura mediática atual, que
resulta em uma agressão histérica aos sentidos e, ao contrário, afirmam
uma concepção de arte contemplativa em que a introspecção é o modo pelo
qual nos enfrentamos com o mundo artificial e natural. Entendendo que
o meio urbano já possui um excesso de formas e estímulos visuais, opta-se
por uma arquitetura em que a simplicidade resulta em uma grande intensidade
formal, e um conseqüente aumento de legibilidade. A falsa simplicidade
dessa produção afasta aqueles que buscam gratificação imediata dos sentidos
e gratifica a persistência dos que se permitem um envolvimento emocional
mais prolongado com a arquitetura. Por outro lado, esse modo de projetar
não trata a arquitetura como veículo de afirmação individual ou de realização
de obsessões pessoais, retirando-a, ainda que em poucos casos, da esfera
do espetáculo para retorna-la ao campo da cultura. Uma
das características principais da chamada arquitetura silenciosa é a abstração,
no sentido em que se concentra no essencial, deixando de lado tudo o que
é acessório. Para este modo de conceber a arquitetura, a forma se identifica
com o conceito moderno de estrutura
(disposição e ordenação geral das partes de um objeto) ao contrário das
outras atitudes aqui analisadas, para as quais a forma é entendida como
figura (conceito que se refere à aparência, ou conformação externa,
de um objeto) (3). Deriva desse pensamento estrutural a concepção do ato
de projetar como o estabelecimento de um sistema de relações entre elementos
--isso vale tanto para as relações internas entre as partes de um edifício
quanto para as relações desse edifício com os componentes do lugar do
qual fizer parte. Ao
contrário da arquitetura pré-moderna e de certas tendências pós-modernas,
a forma não deriva de nenhum sistema prévio exterior a ela; tampouco é
o objetivo da atividade criadora. Na arquitetura ‘silenciosa’, herdeira
direta do modernismo, o projeto é uma atividade totalizadora que sintetiza
na forma os requisitos do programa, as sugestões do lugar e a disciplina
da construção. Por meio da abstração, o saber disciplinar acumulado historicamente
se torna parte da produção cultural contemporânea, que não se vê obrigada
a abrir mão de suas raízes históricas. Do
ponto de vista da sua constituição, essa arquitetura se caracteriza por
uma economia de meios que privilegia formas elementares definidas por
um número reduzido de elementos, constituindo objetos enganosamente simples
cuja complexidade vai sendo revelada na medida em que nos familiarizamos
com eles. A precisão com que é projetada e construída, e o rigor com que
se concentra no que é relevante em cada caso são também fatores determinantes
da sua alta qualidade [figuras 4 a 8] (4). 6. Das
três estratégias mencionadas acima, a alternativa cenográfica é a mais
popular, pela facilidade de se entender objetos que nos parecem familiares.
No entanto, padece de ingenuidade e de irrelevância pois, ao se atrelar
à lógica do mercado, decreta a obsolescência dos seus produtos às vezes
antes de serem construídos. A
alternativa da complexidade formal pode ter o seu interesse do ponto de
vista visual, como em alguns dos exemplos mais competentes, mas falha
pela sua preocupação excessiva em fazer da arquitetura um meio de representação
do mundo exterior e da forma o seu objetivo principal. Já
o que chamo de arquitetura silenciosa, quando autêntica (5), ao se voltar
para sua própria especificidade e para uma acentuação poética da relação
do homem com o mundo, parece oferecer as melhores possibilidades de intermediação
positiva daquela relação. Notas 1 Alguns instrumentos dessa busca do ‘interessante’ são: ângulos que rompem a ortogonalidade arbitrariamente, diferenças de plano (muitas vezes associadas à mudanças de cor e/ou material), adições ou subtrações volumétricas de pequeno ou grande tamanho, sobreposição de padrões abstratos ao volume do edifício, nenhum deles derivado de aspectos programáticos, construtivos ou de relação com o entorno. 3 4 5 |
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