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| Um
“big-bang” multidisciplinar
(1) Antonio-Manoel Nunes |
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| Antonio-Manoel Nunes é doutorando de Literatura Comparada na UFRJ |
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| Relações
binárias e influências entre textos são meros retratos na parede do comparativismo
literário. Há décadas que a questão metodológica que imprimia uma relação
de puro confronto entre obras, autores ou temas foi se esvaziando. Termos
como fonte, origem, influência, autonomia, dependência, metrópole e periferia
perderam o seu peso, para flagrar na atual virada de século uma rota que
se dá pela acumulação das formas de criação artística e literária: uma espécie
de aglutinação informacional que, ao invés de comparar pelo sinal de subtração,
utiliza o valor de somatório para a sua operação estética. Com efeito, o caminho a ser trilhado pela Literatura Comparada, hoje, precisa levar em consideração a idéia wagneriana de arte total, embutida na arte contemporânea. Em sua prática de arte total, Richard Wagner afirmava a capacidade que cada meio de expressão artística tem em atravessar suas fronteiras formais, transpassando histérica e herculeamente os seus limites, à procura do pleno da arte, da plenitude do excesso (2). Este excesso, que acumula sem discriminar uma diversidade de vozes, parte do pressuposto de que a expressividade dos objetos artísticos, se dá justamente na apreensão globalizante de sua construção. Não sendo ermo detalhe, nem harmonia perene, a obra é efeito de um todo internamente em confronto e em diálogo com diversos sistemas discursivos. A estética do excesso nasce, assim, dentro de sistemas culturais abertos que ignoram um centro fixo como valor da conformação e irradiação das simetrias. Tais sistemas descentrados organizam-se assimetricamente e ativam forças que ultrapassam seus limites. Portanto, os estudos comparativistas descobrem a estética do excesso e sua imprescindível atuação na análise dos produtos discursivos e disciplinares. Tais produtos seguem sua rota de expansão, baseando-se em um movimento equivalente à teoria física da Grande Explosão primordial. No “Big-Bang”, a origem do universo é concebida a partir de uma explosão primeira, ocorrida entre 15 e 20 bilhões de anos atrás. Esse “instante zero” do “Big-Bang” pode ser definido como uma situação de extrema compressão e temperatura extremamente alta, onde as leis da física habitual não são válidas. O resultado desse processo foi, então, a progressiva estruturação da matéria, das partículas elementares aos átomos mais simples, até a formação das galáxias, dos planetas e da vida. A descoberta do “Big-Bang” ocasionou os avanços recentes da investigação científica, trazendo novos elementos de reflexão sobre os conceitos de ordem e desordem, lógica e acaso na natureza. Nasce o caos ou, mais precisamente, o comportamento caótico, fruto da descoberta de que a maioria dos sistemas dinâmicos não segue um comportamento regular e previsível, mas um comportamento altamente complexo, com características aleatórias. A arte comunga também com o caos. Observando-se a dicotomia/complementação que Nietzsche analisa em A origem da tragédia (3), Apolo e Dionísio seriam, respectivamente, a “ordem” e “desordem”. Da mesma maneira, o compositor experimental paulista Livio Tragtemberg comenta em relação à música:
Assim, se o caminho da música ocidental aponta para o lado apolíneo, “no sentido da uniformização e do estabelecimento de um repertório controlado a priori da criação propriamente dita”, hoje se pode inverter a seta para o lado dionisíaco. Tragtemberg, na criação musical operada pelo caos, sugere que, “a partir dos equipamentos eletrônicos, é possível interferir na natureza acústica básica do som, a ponto de simular nela procedimentos não-lineares e aleatórios que perturbem desde a formação da própria freqüência até o timbre”. O que comumente se chamaria de ruído é um fenômeno sonoro cujos formantes combinam-se de maneira irregular, “incorporando equações complexas que não são redutíveis a um ou mais padrões predominantes (5). Totem exemplar desse universo em expansão, onde aguçados graus de imprevisibilidade varrem sua lógica interna, sua comunicabilidade, a obra Galáxias, de Haroldo de Campos, foi produzida ao longo dos anos de 1963 a 1975, convivendo tanto com composições elíptico-concretistas quanto com obras de alta carga redundante do poeta-crítico-tradutor. Às cinqüenta páginas impressas das Galáxias correspondem os cinqüenta cantos/fragmentos. O primeiro e o último canto são denominados por Haroldo de “formantes”, numa clara alusão à terminologia musical, retirada do maestro e compositor contemporâneo Pierre Boulez.
Leitura linear ou em fragmentos, o texto foi concebido por seu autor para ficar no limite entre a prosa e a poesia, entre a harmonia e a melodia, entre o plano do conteúdo e o plano da expressão, construindo em rompantes uma estética do excesso. E cada canto/fragmento, mesmo lido separadamente, irá espelhar o seu conjunto, sua totalidade: “galáxias”. É Haroldo quem relata: “cada um possui a sua diferença específica. Há uma vértebra geral que é o livro como viagem e a viagem como livro” (7). A vocação barroquizante de Campos – nem tanto em relação à linguagem, porém, mais em relação à proliferação das imagens e dos torneios de significantes inclusos – aproxima as Galáxias à teoria do “Big Bang”. Numa radical multidisciplinaridade comparativista, a obra ultrapassa a si mesma, rompendo as fronteiras de sua mídia primeira e expande-se. Expande-se para outras mídias tecnologicamente mais sofisticadas e de apelo massificante. Dezesseis fragmentos da obra foram lidos pelo autor no compact-disc Isto não é um livro de viagem (8). Se o oitavo fragmento serve de motivação ao título [“isto não é um livro de viagem pois a viagem não é um livro de viagem / pois um livro é viagem...”], o ruído pela utilização do novo meio permite a ironia que se instalou na capa do CD: “isto não é um livro; é a própria viagem”. Por outro lado, a relação dos concretistas [Décio, Haroldo, Augusto] com a música popular e a música erudita brasileiras estreita-se e, também, surpreende as Galáxias – que tem alguns de seus fragmentos [ou parte de] musicados ora por Edvaldo Santana e Péricles Cavalcanti, ora por Lívio Tragtemberg e por Caetano Veloso no décimo quinto canto: “Circuladô de Fulô”:
Do som viaja-se às imagens. Novamente, é esse menestrel da eletrônica quem lê passagens da epopéia digital no filme “Os Sermões”, de Júlio Bressane. Haroldo reduplica-se no Pe. Antônio Vieira, sob a lente neobarroquizante do cineasta e parceiro. São eles que, no vídeo “Veredas do Grande Sermão”, de Cássio Morandei e Gil Hungria, discutem a transposição dos Sermões, de Vieira, para o cinema. Em termos de radicalidade estética, as Galáxias se prestaram para a produção de três vídeos instigantes pelo processo formal apresentado. O primeiro deles é o mais simples. Realizado como uma videocolagem, como uma videorreportagem sobre o lançamento do CD Isto não é um livro de viagem, o vídeo “Ouver galáxias”, de Moradei e Hungria, reúne as idéias estéticas e de comportamento caótico de Haroldo e do músico Tragtemberg em contraponto com imagens da festa. Passando da esfera documental para a esfera dramático-experimental, têm-se Bressane e Haroldo de Campos surgindo como “videomakers” e, juntos, produzindo os vídeos “Galáxia Albina” [1990] e “Infernalário: Logodédalo, Galáxia Dark” [1992]. “Galáxia Albina” – com Bete Coelho, Giulia Gam e Tânia Nomura – é o primeiro de uma trilogia sobre as Galáxias, transposição de uma viagem solitária de palavras e de papel para imagens sonorizadas em VHS. Já a parte II desta trilogia galáctica, “Infernalário: Logodédalo, Galáxia Dark” – com Bete Coelho e Mariana de Moraes –, apoia-se numa estética “dark” que retira da obra de Campos sua “matéria-escura” para combiná-la às imagens rarefeitas do cineasta e às marcações marionetizadas das atrizes: lusco-fusco mítico, cênico e interpretativo. Nessa galáxia negra, é perceptível o mundo lido pelo taoísmo chinês: a multiplicidade é concebida como manifestação da Unidade, que, por sua vez, é gerada pelo Vazio – um vazio impenetrável ao raciocínio, mas paradoxalmente pleno de virtualidades. O universo primordial era pura energia. A partir daí, desenharam-se cenários mais e mais complexos das dramáticas transformações do cosmo em sua estruturação material. A criação das Galáxias segue, por analogia, o “modelo inflacionário” do “Big Bang” e a estética do excesso que representa a arte finissecular do final do século vinte e do início deste. Da palavra primordial a gerar escritura, aos cantos/galáxias que se expandem e proliferam, esta obra de Haroldo não reluta em transpassar linguagens, mídias, fronteiras: universo em expansão. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 |
Pinturas do alemão Ferdinand Leeke (1859-1925), encomendadas em 1889 por Siegfried Wagner, para ilustrar cenas das Óperas de seu pai, o compositor Richard Wagner |
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