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| Villa
Savoye: arquitetura e manifesto
(1) Carlos Alberto Maciel |
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| Carlos Alberto Maciel é arquiteto e mestre pela EA-UFMG, professor dessa escola e da Universidade de Itaúna-MG. Autor de projetos premiados em diversos concursos e premiações nacionais, dentre os quais o Centro de Arte Corpo (2001), o 4º Prêmio Jovens Arquitetos e a 4ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo |
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A Villa Savoye, obra do arquiteto franco-suíço Le Corbusier (Charles-Edouard Jeanneret-Gris, 1887-1965), é uma residência projetada e construída entre 1928-29 em Poissy, na região parisiense. Foi originalmente edificada para ser uma residência de fim de semana para um casal com um filho, residente em Paris. Representa um momento de síntese na obra de Le Corbusier, quando pela primeira vez o arquiteto teve a possibilidade de concretizar integralmente suas proposições apresentadas nos cinco pontos para uma nova arquitetura. Formulados em 1927, esses cinco pontos orientaram de modo parcial a concepção das suas primeiras casas, especialmente na definição de um repertório formal que se adequasse às novas possibilidades tecnológicas recém-surgidas, especialmente a impermeabilização e as estruturas em concreto armado. A importância da tecnologia na definição desse novo repertório formal é revelada pelo próprio arquiteto. Segundo Le Corbusier, ”a consideração da técnica vem em primeiro lugar, antes de tudo, e constitui sua condição o fato de ela trazer dentro de si conseqüências plásticas inevitáveis, e de levar algumas vezes a transformações estéticas radicais” (3). Anteriormente trabalhada por outros arquitetos, a estrutura em concreto armado e a impermeabilização das coberturas, criando terraços habitáveis, surgem no repertório corbusiano após sua temporada de trabalho no escritório do arquiteto francês Auguste Perret, um dos pioneiros no desenvolvimento destas novas técnicas. Le Corbusier se apropria daquele repertório tecnológico e o repropõe como um novo repertório arquitetônico, potencializando utilizações diversas através dos seguintes pontos:
A utilização destes Cinco Pontos para uma Nova Arquitetura aparece já nas primeiras casas projetadas pelo arquiteto, embora restrições diversas como dimensões reduzidas de terrenos ou excessiva complexidade programática tenham impedido sua realização integral (4). Apenas na Villa Savoye tais pontos são integralmente realizados, e o próprio Le Corbusier reconhece a casa como uma síntese do seu trabalho anterior, reunindo soluções criadas para vários de seus projetos de residências anteriores. Associado aos cinco pontos, o conceito da promenade architecturale, ou o passeio arquitetural, é fundamental para a compreensão desta residência. A valorização do percurso como uma estratégia conceitual, a ordenar tanto interna como externamente a Villa Savoye, é evidenciada desde a chegada, pontuando a experiência de fruição do objeto arquitetônico com surpresas constantes, seja a inflexão no percurso após o pequeno bosque, desvelando o volume da residência pousado sobre o tapete verde, seja na inversão da posição da entrada principal, contrária à chegada. O conceito se realiza através de um conjunto de propriedades materiais, trabalhado conscientemente com o objetivo de realizar a idéia de variação do percurso, obrigando a experiência do objeto arquitetônico em diferentes posições e pontos de vista e variando constantemente a relação entre o objeto e o fruidor. O próprio Le Corbusier revela a origem do conceito da Promenade:
No volume principal da casa, a grande massa branca garante a integridade da forma através do contraste entre o branco da alvenaria pintada e o escuro da abertura. Essa característica, associada ao pilotis, ao mesmo tempo assegura uma uniformidade entre as diversas fachadas e incorpora as complexidades impostas pelas articulações funcionais, revelando-as nas soluções específicas de cada fachada. As variações diversas que se verificam nessas aparentes contradições evidenciam respostas integradas a exigências relativas à utilidade dos espaços internos e à solução formal do edifício. Sob o bloco principal, o recuo do volume que articula as entradas define um espaço de transição entre o interior e o exterior, coberto, entre as colunas do pilotis, que se presta a diversas funções. Apresenta a utilidade mais imediata da proteção contra as intempéries de quem chega e cria a possibilidade de um caminho coberto para que o automóvel chegue até a garagem, passando pela entrada principal. Atende também à intenção do arquiteto de soltar o volume principal do terreno natural, reforçando a idéia da liberação do solo para o uso comum e a circulação, ainda que parcialmente. E estabelece uma diferenciação qualitativa do espaço, que se torna uma transição natural entre o exterior e o interior, sendo espaço aberto e iluminado naturalmente, porém coberto e em sombra, estando já sob a projeção do volume da casa e sendo acessível a todos. No interior, enquanto a rampa central sugere uma organização simétrica para quem chega através da entrada principal, reforçando a expectativa produzida pela disposição dos volumes externos, a escada orientada em direção oposta e o hall assimétrico contrariam de imediato tal expectativa, indicando a complexidade das articulações do espaço interior. A inversão de sentidos entre escada e rampa evidencia o conceito da promenade architecturale, ou seja, em cada uma das possibilidades de percurso, as direções variadas fazem com que a fruição se dê de forma complexa, produzindo estímulos diversificados e qualitativamente distintos na medida em que se caminha no espaço interior. A experiência do percurso se faz mais importante do que a apreensão da forma estática, a relação entre espaço e tempo se faz efetiva também no interior da residência. A complexidade do espaço interior é conseqüência das exigências de uso, como insinuado por variações sutis nas fachadas, e é reforçada pelo tratamento variado e heterogêneo conferido aos elementos estruturais, ora explicitados, ora ocultos, ora associados ou transformados em equipamentos utilitários, como bancadas e armários. As soluções dos espaços internos revelam a máxima exploração do conceito da planta livre, através da manipulação consciente dos elementos de vedação, definindo nichos, armários e compartimentos, ao mesmo tempo em que potencializa a caracterização de ambientes diversos através da diferenciação entre estrutura e vedação. Essa busca constante por uma lógica interna é significativa por revelar a atitude projetual de Le Corbusier de criar o edifício de maneira integrada, concebendo-o como volume a ser fruído e também como espaço interior, a ser percorrido e vivenciado. Tal atitude revela uma profunda consideração das questões relativas ao uso, buscando propor uma nova forma de vida a partir de uma articulação diferenciada dos espaços internos. O trabalho consciente sobre as dimensões das diversas circulações que percorrem a casa, definido espaços com profundidades e larguras variadas, reforça a distinção entre os espaços sociais e íntimos. Essa disposição dos espaços, conferindo aos diversos aposentos gradações sutis de abertura e fechamento, expressando graus distintos nas relações entre espaços públicos e privados, entre individualidade e coletividade, é fundamental para a compreensão dessa arquitetura como um instrumento que regula as práticas sociais do ser humano, podendo portanto ser entendida como um artefato ético, mais que estético. Na cobertura, a presença retórica do solarium como grand finale da promenade architecturale revela a tentativa de preservar o fundamento da idéia original, em que a rampa finalizaria seu percurso no espaço destinado à suite do casal. Após diversas alterações do projeto, solicitadas pelos clientes em função de reduções de custos, o quarto do casal foi integrado ao pavimento nobre da casa, restando na cobertura as paredes curvas que serviram a delimitar e a proteger contra o vento um terraço cujo uso não é pré-determinado. A presença do solarium revela como o arquiteto realiza a adequação do projeto às diversas demandas de uso e economia, preservando o conceito original que preside a geração do espaço arquitetônico. A Villa Savoye torna manifesto um novo modo de ver e viver no mundo. Para isso, utiliza a tecnologia de ponta da época, tornando explícitos os operadores que permitiam a sua realização arquitetônica. É um manifesto de um novo modo de vida que se expressa em uma nova e diferenciada articulação dos usos que toma lugar nos espaços que o conceito da promenade architecturale possibilitava. O edifício foi construído utilizando-se de uma tecnologia inovadora do concreto armado que se mostrava através de um repertório formal sintetizado pelos Cinco Pontos por uma Nova Arquitetura. Contudo, as premissas de projeto definidas pelos Cinco Pontos, embora tenham sido apresentadas pelo arquiteto como requisitos para uma nova arquitetura, dita moderna, constituem-se apenas em um dos diversos repertórios formais possíveis. O próprio arquiteto, ao mesmo tempo em que fazia a Villa Savoye, desenvolveu o projeto da Casa Errazuriz (1930), no Chile. Ali, em virtude da escassez de mão de obra especializada e da dificuldade da utilização das tecnologias modernas, Le Corbusier opta pela utilização de elementos existentes no local: pedra, madeira e telha. Segundo o arquiteto, “a rusticidade dos materiais não é de modo algum um entrave à manifestação de um plano claro e de uma estética moderna” (6). Tal afirmação é extremamente significativa por revelar o mal entendimento que ocorreu na transposição daquele repertório inicial do arquiteto nos desdobramentos do International Style. É muito relevante também porque evidencia o fato de que o fundamento da arquitetura feita pelos primeiros modernos não se estabelecia no repertório formal, amplamente reproduzido, inclusive atualmente, através de modismos revivalistas neo-modernos e minimalistas, mas em uma articulação diferenciada do espaço arquitetônico, cujo fim se estabelece na criação de suportes físicos, construídos, que promovam a mediação entre as relações humanas, traduzindo na sua forma respostas inventivas aos sutis códigos de ética de um determinado grupo. Muito mais fértil para o entendimento do repertório formal resultante dos Cinco Pontos para uma Nova Arquitetura é a abordagem de Alan Colquhoun, que apresenta esse repertório como um deslocamento de diversos elementos da tradição arquitetônica anterior. Segundo Colquhoun,
Essa atitude de reproposição de cada elemento fazendo uso de deslocamentos ou reversões de seus modelos anteriores se constitui na invenção arquitetural que dá à obra de Le Corbusier a atualidade para os tempos de hoje. Colquhoun reforça o argumento da invenção, desenvolvendo-o a partir da identificação das estratégias utilizadas por Le Corbusier para realizá-la:
Sempre entendida como um manifesto por novas formas, como uma demonstração eloqüente do conceito da Promenade Architecturale, a Villa Savoye cumpriu esse papel de manifesto. Contudo, esse entendimento superficial por vezes impediu um aprofundamento na compreensão das complexas - e igualmente inovadoras - articulações de uso que as invenções formais e tecnológicas possibilitavam. Tais qualidades, mais do que o repertório formal sintetizado pelos Cinco Pontos, representam os fundamentos que permitem que a Villa Savoye – e às demais casas projetadas por Le Corbusier – seja ‘uma casa para ser habitada’. Sutis gradações de privacidade aparecem nas transições entre os espaços sociais e íntimos, seja na variação da largura das circulações, seja na criação do trecho avarandado e menor do terraço, promovendo a transição com o boudoir, seja ainda na inversão de sentido da disposição da escada em relação à rampa, que propicia um acesso mais privado às áreas intima e de serviço, em contraposição à eloqüência que a rampa iluminada assegura ao acesso principal. O binômio individualidade e coletividade é evidente no contraste entre a compartimentação da área íntima e a abertura e integração das áreas sociais. Por último, mas não menos importante, a associação entre intimidade e controle é marcante no boudoir, de onde se domina todo o terraço principal sem comprometer a privacidade que o espaço exige. Essa associação parece ter sido a tônica da caracterização de todo o pavimento principal da casa, garantindo uma visibilidade panorâmica do exterior e, ao mesmo tempo, assegurando uma separação em relação ao terreno, que é resultado da elevação da casa sobre pilotis. Assim, verifica-se que uma propriedade relativa ao uso do espaço se realiza devido a uma atuação inventiva do arquiteto sobre o conhecimento técnico do concreto armado, que permitiu tal solução. Intimidade e controle se realizam em conjunto através do equilíbrio entre abertura e fechamento, integração visual e isolamento físico, proteção material realizada pela separação e segurança psicológica, propiciada pela redução da vulnerabilidade do habitante pela possibilidade de visualização panorâmica do exterior. A resposta às demandas relativas à utilidade se fazem na Villa Savoye através da inclusão de valores relacionados à vida cotidiana, seja através da criação de equipamentos e suportes para os acontecimentos do dia a dia, como bancadas, armários, mesas e bancos, seja através da incorporação das inovações tecnológicas, como o automóvel. Tal inclusão elimina a possibilidade de leitura da obra corbusiana como arte pura, revelando a consideração de uma finalidade que é externa à própria forma. A Villa Savoye aponta para a possibilidade de que a arquitetura, através dos seus elementos tectônicos, possa regular as relações humanas e, mais importante, atingir um grau de invenção arquitetural na medida em que promove deslocamentos em todas as demandas que interagem na criação e na realização do edifício, o que sugere uma reinvenção dos modos tradicionais de mediação dessas relações e interações entre os homens, ou seja, uma reinvenção da finalidade a que a arquitetura deve atender. É manifesto, ainda hoje, por uma arquitetura que se realize para responder às demandas impostas pela vida cotidiana, sem recorrer a argumentos ou estratégias alienígenas aos aspectos imanentes ao fazer arquitetônico. Referências bibliográficas BANHAM, Reyner. Teoria e projeto na primeira era da máquina. Tradução: A. M. Goldberger Coelho. São Paulo: Perspectiva, 1979. BOESIGER, W.; GIRSBERGER, H (Org). Le Corbusier 1910-65. Barcelona: Gustavo Gili, 1995. COLQUHOUN, Alan. Essays in architectural criticism: modern architecture and historical change. Cambridge: Mit Press, 1995. CURTIS, Willian J. R.. Le Corbusier, ideas and forms. London: Phaidon, 1998. LE CORBUSIER; JEANNERET, Pierre. Oeuvre complète 1929-34. (4a ed). Erlenbach: Les Éditions d’architecture, 1947. MOREL-JOURNEL, Guillemette. La Villa Savoye: itinéraires du patrimoine. Paris: Éditions du Patrimoine, 1998. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 |
© Fotos Carlos Alberto Maciel |
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