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novo paradigma na arquitetura: a linguagem do pós-modernismo (1)
Ana Paula Baltazar |
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| Ana Paula Baltazar é arquiteta formada pela UFMG onde também completou seu mestrado em 1998. Atualmente é bolsista da CAPES fazendo doutorado na Bartlett School of Architecture na University College London. Desde 1993 vem desenvolvendo pesquisa no LAGEAR (Laboratório Gráfico para o Ensino de Arquitetura da EAUFMG). Em 1997 fundou juntamente com um grupo de arquitetos o IBPA (Instituto Brasileiro de PerformanceArquitetura) e vem investigando o potencial da performance como estratégia no processo de design arquitetônico. Desde 1999 é membro do London Virtual Reality Group. Tem apresentado e publicado diversos artigos no Brasil e no Exterior |
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O novo paradigma na arquitetura (“The new paradigm in architecture”) é o título da sétima edição do bestseller de Charles Jencks escrito originalmente em meados dos anos 70, no começo do movimento pós-moderno na arquitetura. A linguagem do pós-modernismo (“The language of post-modernism”) passa a ser o subtítulo dessa edição recente, que além de ter passado por seis edições que contextualizavam a abordagem nos respectivos momentos, agora foi completamente reescrita e complementada com dois capítulos novos. É no mínimo curioso que o livro O novo paradigma na arquitetura seja uma revisão da abordagem de Jencks nos anos 70. Vale a pena observar que o título dessa nova edição é o novo paradigma "na" arquitetura e não "da" arquitetura. Parece-me que há um certo cuidado na escolha da preposição, e desta forma Jencks não se compromete em dizer que há uma mudança do paradigma da arquitetura, embora ele nos induza a tal conclusão. O novo paradigma é na verdade o paradigma científico da complexidade (ciências da complexidade), que segundo Jencks é indubitavelmente um novo paradigma, e que vem sendo apropriado pela arquitetura de maneiras diferentes. Jencks não apresenta uma arquitetura do novo paradigma nem estabelece o novo paradigma para uma nova arquitetura, mas trabalha entre arquitetura e ciência, na margem do levantamento histórico e da previsão, colocando-se numa condição bastante confortável para desenvolver o argumento (como no caso do pós-moderno), sem comprometer-se em afirmações duvidosas, que ficam por conta do leitor. O tema central da abordagem de Jencks ainda é a complexidade, que impulsionou o movimento pós-moderno desde a contra-cultura dos anos 60 e vem sendo discutida no urbanismo a partir do trabalho de Jane Jacobs e na arquitetura a partir do trabalho de Robert Venturi. Desta vez a complexidade é analisada em seu status de novo paradigma científico e Jencks nos apresenta um paralelo entre o paradigma científico Newtoniano e o paradigma arquitetônico modernista (mecanização do mundo, formas simples), sugerindo que seguindo o paradigma das ciências da complexidade logicamente um novo paradigma da arquitetura seria estabelecido (assumindo que se é que existe um novo paradigma, ele vem de outros campos fora da arquitetura). A demanda da complexidade na arquitetura e urbanismo é então analisada em paralelo ao desenvolvimento das ciências, e assim Jencks nos apresenta como tal demanda começa a ser respondida por uma série de projetos complexos ajudados pelo computador e (no meu ver) fazendo uso formal de metáforas vindas das ciências. Essa "nova" arquitetura é geralmente de forma curva, arqueada e fractal, e segundo ele é também mais voltada para o convívio, mais sensual e articulada que a arquitetura moderna que ela vem questionar. Segundo Jencks, o principal ponto da nova edição é a identificação de sete tendências ou sete arquiteturas atuais que se apropriam das ciências, cujos precursores são arquitetos como Frank Gehry, Daniel Libeskind e Peter Eisenman. As sete arquiteturas contemporâneas identificadas com uma nova complexidade são: 1. Fractal (2), cujos exemplos são na maioria projetos de Libeskind e Eisenman usando fractais na geração de forma (planta, fachada, volumetria e padronização de revestimento); 2. Organitech, ecotech ou green architecture, cujo precursor é Ken Yeang com seus projetos de edifícios hightech com preocupação ambiental (outro exemplo dado é Norman Foster e o projeto polêmico para um arranha céu espiral em Londres); 3. Computer science, que é o uso da computação para gerenciar dados no intuito de integrar maior diversidade de fatores, nesse aspecto Jencks aponta Rem Koolhaas como grande exemplo da consideração e manipulação de dados para integração da cultura no espaço (outros exemplos incluem MVRDV e Ben van Berkel, e Jencks enfatiza principalmente os livros S, M, L, XL de Koolhaas e Metacity datatown de MVRDV); 4. Blob (dobra e blob), a tendência dos leitores de Deleuze, cujo maior expoente é Greg Lynn, e diversos escritórios tais como Will Alsop, Frank Gehry, Peter Eisenman e etc., vêm adotando; 5. Landforms, waves, cuja atenção é voltada para a complexidade de ondulação do piso, e aqui Jencks cita a estratégia adotada por Enric Miralles criando uma série de seções consecutivas em vez de trabalhar com curvas de nível (outros exemplos incluem Yokohama Port Terminal do FOA e um projeto de paisagismo do próprio Jencks); 6. New cosmogenic, que refere-se a aplicação dos modelos atuais de investigação do universo na arquitetura, diversos exemplos incluindo jardins do próprio Jencks e a obra de Neil Denari, cuja forma identifica-se com o modelo dobrável do universo (manyfold universe) proposto por Stephen Hawking no livro The universe in a nutshell; e finalmente 7. New form monumental building, cujo exemplo mais popular é o Museu Guggenheim de Frank Gehry em Bilbao. Depois de apresentar as diversas investigações auxiliadas pelo computador, cuja maioria é formal, Jencks termina sua palestra com duas considerações. Uma primeira referente ao potencial do computador em permitir a emergência de formas não inteiramente controladas pelas mãos do arquiteto, o que Jencks acredita ser um passo em direção a um novo paradigma, questionando a explicação Cristã da criação do mundo, onde tudo teria sido criado a partir das mãos de Deus-arquiteto. E uma segunda deixando aberta a questão: "Isto é um novo paradigma?" Eu responderia que ainda não, essa elaboração formal das metáforas científicas que Jencks apresenta não é suficiente para definir um novo paradigma, mas aponta vários caminhos interessantes para futuros desenvolvimentos que possivelmente implicarão num novo paradigma. Se considerarmos que desde o Renascimento a arquitetura tem estado envolvida no mesmo mito, que segundo Maria Lúcia Malard é o "mito das aparências" (3), entenderemos que essas aplicações ou transposições da aparência dos modelos científicos para a arquitetura não apenas se enquadram no mesmo mito como também levam o mito das aparências ao extremo. O trabalho de Jencks é precioso por levantar as diversas manifestações atuais das inovações do que ele chama de complexidade na arquitetura ajudada pelo computador, e ele mesmo admite a ênfase formal de tais arquiteturas, mas considera esse momento como uma possível sobreposição de paradigmas. Porém, o leitor deve estar atento para não tomar essas "inovações" além do limite delas mesmas (além do mito das aparências) banalizando o potencial do uso do computador e da complexidade da arquitetura (o que impediria uma real mudança de paradigma). Voltando a primeira das considerações finais de Jencks, "emergência" é sim um fator fundamental a ser trabalhado e potencializado pelo computador na arquitetura, mas não necessariamente deve ser restrita à geração de forma. Se considerarmos mais cuidadosamente o papel de Deus-arquiteto na criação do mundo, perceberemos que na verdade este arquiteto não criou o mundo como ele é hoje, ele teria criado os seres animados e os elementos, e a partir daí tem início um processo evolutivo baseado na inter-relação das diversas criações entre si, onde a principal "emergência" é da inter-relação e não da forma em si. Um exemplo de "emergência" na arquitetura além de geração da forma é o Fresh Water Pavilion do NOX (4), onde o computador é parte do objeto arquitetônico e o ambiente emerge (é completado e recompletado) a cada interação do usuário com o edifício. Nesse caso a "emergência" que o computador propicia é trabalhada no nível do evento e não da substância (5), e o arquiteto realmente abre mão de um controle total sobre a forma (aparência) final do objeto. Curiosamente esse exemplo foi omitido na palestra de Jencks. Links interessantes MVRDV - http://www.archined.nl/mvrdv/ Notas 1 2 3 4 5 |
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