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| Duas
lembranças de Éolo Maia Pedro Moreira |
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| Pedro Moreira (1965), Arquiteto, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 1987-88. Atuação profissional no Brasil, Inglaterra e Alemanha. Sócio em Nedelykov Moreira Architekten, Berlim. Supervisor de Projetos Internacionais das Oficinas da Fundação Bauhaus-Dessau (2001). Artigos publicados e Conferências no Brasil, Argentina e Alemanha | ||||||||||||||||||||||||||||
O
espaço sempre será pouco para relembrar um amigo. Permito-me reavivar
duas memórias de Éolo, de épocas distintas. A
primeira é de meus tempos de estudante, no início dos anos 80, FAU-USP.
Todos nós, Geração Coca-Cola saindo das fraldas, caíamos no mundo embalados
pela Diretas Já, enroscados nos restos de Libelus e de PCs e PCsdosBs,
tentando entender a absurdidade da "recondução" de Artigas,
de Paulo e Maitrejean ao templo que eles haviam erigido. Morreu Artigas,
de desgosto, morreu Tancredo. Nossos dilemas oscilavam entre as roupas
dark e a estrelinha do PT, saída do forno. E queríamos saber o que era
Arquitetura. Mofo
institucional, de direita e de esquerda, ressentimentos dos quais não
queríamos ser herdeiros. Ao Merino chegavam os primeiros caixotes de livros
importados. Procurávamos ar fresco, e nesse momento aparecia o livro de
Éolo. Eclético, vital, cheio de projetos de cunho social feitos na raça,
com cor e forma nova, nova para nós. Vinda de Minas. Capela de Santana
do Pé do Morro, acenando para Lúcio Costa. Glórias ao Bispo de Mariana.
Viaduto residencial de estrutura metálica (uau!), alvenaria auto-portante
com materialidade romântica, janela triangular em parede amarelo-ovo e
rosa-choque, barrado verde, lógico. E palestras, bolsa a tiracolo, cabelo
comprido, sorriso aberto. A
segunda, quinze anos depois, aconteceu na Alemanha. Já assentado por aqui,
tive em 1997 a oportunidade de convocar quatro escritórios brasileiros
para um concurso internacional visando a reestruturação do Bairro Amarelo
em Berlim Oriental, um conjunto habitacional de pré-fabricados de concreto
com 3.200 habitações. Tarefa sensível e difícil num contexto social em
flamas, depois da bancarrota do socialismo real. E era a chance de restabelecer
uma presença brasileira depois do nosso isolamento do mundo. Optei por
chamar colegas que, com as mais diferentes linguagens e atitudes, introduziram
novas vitalidades no panorama nacional: Anne Marie Sumner, Brasil Arquitetura
(ganhadores do concurso), Éolo Maia e Jô Vasconcellos, e Marcos Acayaba
(que infelizmente não participou). Se
bem me lembro, foi a primeira vez que o Éolo saiu da América do Sul. O
que caminhamos naqueles dias! Éolo de olho arregalado, comendo tudo o
que via, mas com aquele silêncio humilde do mineiro que conhece o mundo,
mas quer ver para comprovar. Em Hellersdorf, o que mais fiz foi traduzir
suas perguntas às crianças do bairro sobre o lugar onde moravam, e sobre
o lugar que imaginavam. Era 1º de fevereiro, um frio "dus diabo",
tudo o que queríamos era um café em lugar aquecido. Éolo não havia terminado
com suas entrevistas, sumiu, e conseguiu com pernas e braços pedir, num
quiosque de vietnamitas, garrafinhas de vodka para todos nós. Salvou o
dia. Voltou em abril com seu projeto, e os alemães, que imaginavam já
ter visto tudo, tiveram que respirar fundo. Não ganhou, mas voltou para
casa com mais um baú de idéias, e falando em como solucionar o problema
habitacional no Brasil. A priori, Éolo não negava nada nem ninguém. Não comprava briga, os outros é que se sentiam acuados por sua falta de falsos pudores. Deixou uma obra extensa, heterogênea, a ser investigada. E um trem de amigos. |
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