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| Casa e lar. A
essência da arquitetura Jorge Marão Carnielo Miguel |
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Jorge Marão Carnielo Miguel é doutor pela FAUUSP, coordenador e professor do Curso de Especialização “Arquitetura e pós-modernidade: composição e linguagem", da Universidade Estadual de Londrina |
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Cabanas,
domus, castelos, villas, palazzos, são denominações
históricas do espaço unifamiliar. São representativas da arquitetura mais
elementar, mais próxima e utilizável pelo ser humano, considerada a sua
real terceira pele, logo após a epiderme e a roupa que o protege do meio
ambiente onde vive. Entretanto, haverá uma palavra que, independente das
classes sociais, sintetizará toda noção de habitação privada: a casa. Primitivamente, o
conceito casa surge durante o Império Romano como sinônimo de cabana,
tugúrio, choupana, de característica rural, como antagonismo ao termo
domus que indicava a habitação urbana. Domus nos deu domicílio.
De domus originou-se dominius, “senhor”, porque o amo da
casa era o senhor. A progressiva degradação
das condições de vida, o refreamento das atividades econômicas, os periódicos
flagelos das guerras e das pestes durante a Idade Média, reduziram as
domus de pedra e mármore, até quase extingui-las por completo,
multiplicando-se as casae de madeira e barro. Até o século X, e
mesmo depois, as únicas construções em alvenaria foram os castelos e as
igrejas. Na cidade, a igreja distinguia-se por suas dimensões soberbas
e pela estrutura firme, merecendo o nome de domus, a casa do Senhor,
tendo ao seu redor uma extensão miserável de casae. Desde então,
chamou-se duomo (domo), domus, a morada de Deus e casa a
morada humana. Até o presente momento
não apresentamos a palavra lar como definidora do espaço privado, pois
se confunde, freqüentemente, o uso das palavras casa e lar, chegando às
vezes a uma total sinonímia. No entanto, existem pontos relevantes que
distinguem ambos os termos. Temos, hoje, o conceito
casa como um edifício ou parte dele destinado à habitação humana. Estar
destinado representa aqui um objeto construído à espera de um uso familiar
em que as relações do plano físico e a troca emotiva de seus moradores,
possam fazer da casa um lar. “Uma interrogante que aguarda uma resposta”
(1) como diria Eduardo Sacriste. Assim a casa apresenta-se como um espaço/forma
que busca estar adequada e ser resposta correta ao modo de vida de seus
moradores e às características climáticas da paisagem onde se instala.
A casa possui sempre um valor econômico a partir de fatores variáveis
como a sua localização, a qualidade dos materiais empregados, a sua própria
estética e os espaços propostos. A unidade casa é resultante
de um complexo processo no qual confluem fatores sociais, econômicos e
técnicos determinantes de sua conformação e também de suas mudanças. Não
somente os costumes e modos de vida dos povos orientam a configuração
e transformação da casa humana. Desde outros níveis e vertentes, menos
diretos porém de incidência igualmente sensível, a casa registra as alterações
históricas e sociais, as inovações técnicas, e logicamente a situação
econômica e o grau de desenvolvimento alcançado nesse aspecto por um estado
ou região. A configuração casa
representa um invólucro delimitador entre o público e o privado, pois
nos leva a um interior, representando a necessidade de estarmos situados.
Adverte-se assim que a casa relaciona-se intimamente com o homem, pois
sua configuração é dependente da situação e do modo de vida de seu habitante
e quando este lhe infunde seu hálito vital e a transforma em algo próprio
e pessoal, ela pode assumir uma dimensão simbólica. “A
casa segue sendo o lugar central da existência humana, o sítio onde a
criança aprende a compreender sua existência no mundo e o lugar de onde
o homem parte e regressa” (2), revelando, de diversas maneiras, as formas
de viver da pessoa ou grupo familiar que embaixo de um teto instalou sua
morada permanente. Eis aqui o princípio
e a própria essência da casa. Sempre vista como refúgio familiar, abrigo
de homens e mulheres, pais e filhos, patrões e empregados, família e indivíduo,
a casa pode ser vista como um microcosmo privado sempre em confronto com
um setor público, seja ele uma aldeia ou metrópole. A casa necessita de
paredes e cercas para imaginar-se uma existência não ameaçada. É ela quem
dá ao homem seu sítio sobre a terra. A casa é, simbolicamente, um castelo,
uma fortaleza, um lugar de defesa contra as agressões externas como um
local de descanso e prazer. Assim, a casa é um objeto construído que pode
ser vendido ou alugado. Um objeto inerte, não estabelecendo valores de
uso, convivência e entrosamento familiar. Projeta-se a casa, constrói-se
a casa. Os seus moradores podem fazer dela um lar. A palavra lar é uma
corruptela de lareira. A lareira primitiva que faz do seu fogo o elemento
inseparável da cabana rústica. O fogo que reúne ao seu redor todos os
integrantes de um laço familiar, sendo, de um modo figurativo, um manto
que aquece e une a todos num mesmo instante. A identificação do fogo está
presente nas cabanas rústicas como o elemento mais semelhante à vida.
O fogo cresce, move-se, aquece, destrói e é quente, uma das qualidades
fundamentais associada à vida humana. Quando o fogo se extingue, suas
cinzas tornam-se frias, do mesmo modo que esfria o corpo de um ser quando
morre. Há um paralelismo entre o conceito da alma que anima o corpo físico
e o fogo, o espírito que anima o corpo da casa, como podemos perceber
nesta definição de Ricardo Severo: “Para
agasalhar o primeiro lar, o rústico altar do fogo sagrado – que foi a
mais poderosa divindade dos primitivos cultos – edificou o homem a primeira
casa, a um tempo habitação e templo” (4). O fogo – representado
por Héstia, a deusa grega do lar – associa-se à casa para representar
a criação de um lar, que através de sua chama traspassa a imagem da fertilidade
e metáfora da vida. O fogo representa a alma da casa, sendo um símbolo
da fertilidade feminina e da vida, chama sagrada e benéfica. É no fogo
que está o âmago da visão orgânica de Wright como nos lembra Luis Fernandez
Galiano (5), onde a utilização do fogo passa a ser mais simbólica que
funcional. Nas Prairie Houses podemos notar o papel protagonista que nelas
desempenham as lareiras, foco em torno do qual se desenvolve o espaço
arquitetônico e a vida de seus moradores e as chaminés que apelam a uma
tradição primitiva que faz do fogo a alma e o símbolo do lar. O lar é uma condição
complexa que integra memórias, imagens, passado e presente, sendo um complexo
de ritos pessoais e rotinas quotidianas que constitui o reflexo de seus
habitantes, aí incluídos seus sonhos, esperanças e dramas Ao entendermos a casa
como a terceira pele individual, o lar é a pele coletiva, a que integra,
protege e une todos os integrantes do ramo familiar ao redor de um foco
centralizado, o focus, o fogo ardente, símbolo espiritual da união e da
integração. Para Vitruvio a essência
da arquitetura está associada à cabana que protege o fogo, que mantém
o fogo que aquece a família. A primeira habitação, a primeira casa seria
resultado do fogo protegido. O fogo físico aquece e integra, a família
é a resultante deste aquecimento. As palavras “lar” e “mãe” estão para
Lewis Munford associadas em todas as fases da agricultura neolítica, sendo
elas a base familiar, “foi a mulher que fabricou os primeiros recipientes,
teceu cestas e deu forma aos primeiros vasos de barro. Na forma, o lar
é criação sua...era o lar o ninho coletivo para o cuidado e nutrição dos
filhos” (6). A casa seria então
uma edificação recém-construída, vazia, com seus muros imaculados, faltando
a ela a vitalidade oriunda de seus futuros habitantes. “Quando projeto
uma casa, penso no lar”. Projetar uma casa é antecipar uma distribuição
espacial que possibilite um uso adequado, um lar na verdadeira concepção
onde está presente o elemento fundamental da formação do caráter e da
personalidade, aceitando-se que as recordações recônditas da vida em família
prenda-se ao ambiente em que se vive. Pormenores como o jardim, o quarto
de dormir, a bicicleta, os vizinhos e muitas outras imagens ficam gravados
na mente de todo ser humano. A casa é o objeto
construído, possui valor econômico, é o abrigo, o invólucro protetor,
é a parte integrante do sítio onde se integra. O lar, por sua vez, é a
vivência familiar dentro da casa, o aquecimento ou a frialdade; o ruído
ou o silêncio, a calma ou a tempestade emotiva, o equilíbrio ou a desarmonia,
o clima espiritual que ecoa nos ambientes concretos da casa. “Tudo
o que a casa almeja é a mirada agradecida do dono, que lhe reconheça a
serventia. Quem, senão ela, garante-lhe a intimidade amorosa, a exaltação
dos sentidos, o calor que emana das entranhas dos seus tijolos.” Assim,
a escritora Nélida Piñon, na crônica “O mistério da casa”, publicada no
jornal O Estado de São Paulo, em 11/04/98, reconhece a força e
o poder que as paredes exercem na casa, pois ela “impede que o vento despótico
disperse os haveres da família. Esconde a miséria, a humilhação diária,
a mesa pobre. Abençoa o homem com a fechadura da qual pende, trêmula,
a modesta chave. Tranca a porta, não deixa que a cobiça alheia, a intriga
malsã dos vizinhos, os arbítrios dos bárbaros, invadam o refúgio que se
designa de lar. E tudo que a casa almeja em troca é que a respeitem. Caso
seja um dia vendida, jamais a derrubem. Tratem-na, por favor, como a amiga
sob cujo teto, à noite, o homem busca o generoso abrigo”. Casa: a essência da arquitetura Como
seria projetar a primeira casa do homem? A idéia da primeira
casa, arquétipo e origem, está presente no pensamento dos arquitetos modernos
tanto como no dos tratadistas e teóricos da arquitetura de todos os tempos Vitruvio foi o primeiro
a procurar a essência da casa, situando no descobrimento do fogo a origem
da sociedade humana e com ela a origem da atividade construtora do homem.
No seu tratado De architectura libre decem relata que “com o fogo
surgiram entre os homens as reuniões, as assembléias e a vida em comum,
que cada vez ficaram mais concorridas num mesmo lugar e assim, de um modo
diferente dos outros animais, os homens receberam da Natureza o privilégio
de andar erguidos e não inclinados e a atitude de fazer com grande facilidade,
com suas mãos e órgãos de seu corpo, tudo aquilo que se propunham”. Para Vitruvio a cabana
primitiva e o fogo revelam-se inseparáveis. É o fogo o elemento protoarquitetônico,
sendo a partir dele que a arquitetura nasce como mito, rito e consciência.
“O sol e o fogo, criados para o fomento natural, fazem mais segura a vida”. Vitruvio inaugura
a linha mestra que une o impacto do fogo à invenção da linguagem e das
artes como atividades sociais, o desenvolvimento da técnica a partir de
fragmentos de impressões sensoriais e a sucessão de passos lógicos que
estas impressões provocam nos homens primitivos até que dominem o entorno,
observando a natureza exterior associada a seus próprios corpos. “Começaram
a levantar coberturas utilizando ramos de árvores, a cavar grutas nos
montes e a fazer, imitando os ninhos dos pássaros, com barro e ramos,
recintos aonde pudessem guarnecer-se”. Tão essencial quanto
o planejamento do primeiro princípio é o momento seguinte em que a cabana
primitiva, segundo Vitruvio, desliga-se da mera implantação no terreno
e do simples uso funcional, convertendo-se em arte: “Com
o trabalho diário, os homens foram fazendo suas mãos mais ágeis na prática
de edificar e, aperfeiçoando e exercitando seu engenho, unido à habilidade,
chegaram ao conhecimento das artes e alguns mais aplicados e diligentes
passaram a ser artífices da edificação”. A partir do Renascimento,
a recuperação da obra vitruviana será somente um ponto de apoio para o
desejo humanista de definir os verdadeiros princípios da arquitetura.
Assim, a idéia da arquitetura como arte da imitação desembocaria, de modo
automático, no mito da cabana primitiva. Os arquitetos renascentistas
encontram um outro modelo para o qual Vitruvio já não apresentava base:
o modelo antropomórfico. Partindo desta premissa
vamos encontrar Leon Batista Alberti (1404-1472) apregoando que o princípio
básico da arquitetura está no teto e na parede: fecha-se o invólucro protetor,
diferenciando-se espaço amplo e espaço fechado. Deste modo o homem elege-se
como escala de seu espaço. Para ele a união de teto e parede é o princípio
da “congregação dos homens” e não como “alguns disseram a água e o fogo”.
Em seu livro De re aedificatoria, coloca que o homem primitivo
“buscou um espaço de sossego em alguma região segura e encontrando esta
área cômoda e agradável para sua necessidade assentou-se ali. Não quis,
porém, que todos os afazeres domésticos e individuais realizados ocupassem
o mesmo ambiente, mas sim que o local de dormir fosse diferente daquele
usado para fazer o fogo. Começou a imaginar como se colocaria o teto,
para que estivesse coberto do sol e da chuva e posteriormente construiu
as paredes”. Filarete, em seu Trattato
di Architettura(1464) associa as origens da casa à tradição cristã:
depois da expulsão do paraíso, Adão será o primeiro arquiteto e construtor
da cabana rústica. Mostra como Adão constrói com suas mãos uma proteção
contra a chuva, segue a representação de uma cabana em forma de tenda
de campanha e finalmente a de cabanas cujo teto descansa sobre troncos
em forma de forquilha. “Devemos
supor que quando Adão foi alojado no paraíso estava chovendo. E como não
tinha proteção, levou as mãos à cabeça para defender-se da água. E do
mesmo modo que a necessidade o obrigou a encontrar comida para seguir
vivendo, assim também a habitação foi uma habilidade para defender-se
do mal tempo e da água. Alguns dizem que não chovia antes do dilúvio.
Eu creio o contrário, pois se a terra produzia frutos era necessário que
chovesse. E como a alimentação e o alojamento são habilidades necessárias
para viver, devemos crer que Adão, ao fazer um teto com suas duas mãos,
considerando a necessidade de fazer uma habitação, buscou fabricar uma
vivenda que o defendesse das chuvas, assim como do calor do sol”. Para Filarete, o primeiro
a representar a cabana primitiva, a essência da arquitetura está representada
por uma cabana cujo teto se apóia em troncos em forma de forquilha. Define
os troncos como a origem das colunas e ilustra esta idéia com a estrutura
da cabana primitiva que consta de quatro troncos verticais sobre as quais
assentam-se os troncos horizontais. Para Filarete o comprimento da “coluna
primitiva” tem sua origem nas medidas dos homens, significando que estas
proporções estariam de acordo com as proporções humanas. Enquanto Vitruvio
e Filarete definiam a coluna (e não o muro) como formadora da base estrutural
arquitetônica, em sua fase primitiva, Alberti acreditava que este sistema
estava amparado no teto e na parede, sendo as pilastras e colunas meros
artifícios de embelezamento, quando, segundo Vitruvio, o processo é exatamente
o inverso, ou seja, das colunas e que derivam todos os sistemas de proporções. Andrea Palladio (1513-1570),
por sua vez, mostra uma casa “primitiva” de duas plantas, construída toscamente
e com um frontispício. Naturalmente conhecia muito bem os textos de Vitruvio
que citou no prefácio do primeiro de seus Quatro Livros, explicando
porque iria se ocupar, em primeiro lugar, das casas particulares: “Posto
que elas sugeriam o método para desenhar edifícios públicos, posto que
é muito provável que os homens viveram, no início, isolados e ao ver que,
mais tarde, tinha vantagens ao contar com a ajuda de outros homens para
obter aquelas coisas que poderiam fazê-lo feliz (se é que se pode falar
de alguma felicidade aqui em baixo), ele (o homem) chegou de modo natural
a desejar e amar a companhia de outros homens. E assim, os grupos de casas
se converteram em aldeias e os grupos de aldeias em cidades”. A reflexão em torno
à natureza, seus mecanismos de funcionamento e a firme crença de que o
progresso humano depende do que o homem seja capaz de regular seu comportamento
individual e social de acordo com tais leis naturais constitui um dos
eixos em torno do qual se articula o pensamento da Ilustração. Os escritos e desenhos
que se estabeleceram no período iluminista, suscitaram discussões polêmicas
que no fundo eram a interrogante da essência da arquitetura e do futuro
caminho que ela deveria trilhar, repensando conceitos teóricos. A questão colocada
é se existia ou não, para a arquitetura, regras que pudessem ser deduzidas
da própria natureza e que, em conseqüência, seria obrigação complementar
para os novos arquitetos da Razão. O aceite de semelhante hipótese implica,
ao mesmo tempo, por parte dos teóricos ilustrados da arquitetura, uma
revisão da história da mesma em função de maior ou menor aproximação a
tais supostas regras naturais. Neste sentido haverá uma força renovada
no século das Luzes, um mito bem mais antigo que a própria Ilustração:
o da cabana primitiva, o primeiro edifício aonde seriam encontradas e
sintetizadas as regras naturais da arquitetura. O descobrimento do
continente americano e a conseqüente abertura de um autentico horizonte
de “primitivismo” terá, por outro lado, uma evidente repercussão sobre
algumas versões posteriores do tema da cabana. Assim, já em pleno século
XVII, uma clara mostra deste impacto é a obra de J. Caramuel, no seu tratado
Architectura Civil Reta y Oblicua, publicada em 1678. Caramuel
mantém a idéia da cabana primitiva como origem da arquitetura, porém a
ilustra com exemplos dos índios americanos. A filosofia iluminista
atribuiu à natureza uma importância quase sagrada fazendo com que a arte
e a arquitetura buscassem a pureza sublimada que irão encontrar no primitivismo.
Constatou-se, com que este sentido obsessivo, que se sabia muito pouco,
ou quase nada, da arquitetura primitiva. Dos escritos de Vitruvio deduzia-se,
inequivocamente, que a coluna, e não o muro, fosse a base da estrutura
arquitetônica na antigüidade. Esse foi o erro fundamental de Alberti:
basear todo o seu sistema da arquitetura renascentista no muro, sendo
as pilastras e as colunas meros artifícios de embelezamento, quando, segundo
Vitruvio, o processo seria o inverso, ou seja, das colunas e das ordens
arquitetônicas é que derivam todo o sistema de proporção. Os tratadistas
do século XVIII ao olharem ao seu redor encontravam uma arquitetura baseada
numa série complexa de reentrâncias e saliências dos muros, estuques imitando
pedra e uma ornamentação tão espessa que ocultava por completo a estrutura.
Haveria a necessidade de eliminar o ornamento: a arquitetura deveria voltar
à sua essência. Durante o século XVII
e princípios do XVIII o tema da cabana encontrará um desenvolvimento privilegiado
no âmbito da riquíssima teorização arquitetônica. Claude Perrault, no
seu Ordonnance des Cinq Espèces des Collones, apresentou uma separação
entre a construção como reposta a uma necessidade humana imediata e arquitetura
como procedimento artístico, entendendo que seria errôneo derivar a segunda
da primeira. Criticava a idéia da arquitetura ser uma arte imitativa,
o que o levava, conseqüentemente, a negar a teoria da origem da cabana
primitiva. “Não
é da imitação que dependem a beleza e a graça da arquitetura, porque se
assim fosse ela deveria ter mais beleza quanto mais exatas fossem estas
imitações. As colunas não recebem a aprovação do gosto quanto mais se
parecem ao tronco de uma árvore que servia de coluna às primeiras cabanas”. Neste contexto, Michel
de Frémin apresenta, no início do século XVIII uma preocupação pelos aspectos
construtivos e funcionais. Para Frémin, no tratado Mémoires Critiques
d’Architecture de 1702, posiciona que a origem da arquitetura está
associada pelo uso que será destinada à ela. “Como
na instituição da arquitetura os primeiros homens começaram suas construções
segundo os usos a que se destinavam...Quiseram fazer seus edifícios cômodos
e sãos, e com esta idéia dispuseram-no em consonância com seu uso”. A
conclusão vem no sentido de um protofuncionalismo, justificado pelo mito
da cabana primitiva: “Assim, segundo os homens que foram os inventores
da arquitetura, a primeira coisa a resolver num edifício reduz-se a fazer
a obra segundo o uso próprio ao que deve servir”. No entanto, o grande
codificador da teoria da cabana primitiva como base da arquitetura será
o abade Marc-Antoine Laugier (1713-1769) ao publicar em 1753, de forma
anônima, seu influente Essai sur l’Architecture, que dois anos
mais tarde, em 1755, seria objeto de uma Segunda edição revisada, quando
o autor já identificava seu nome. Laugier formula a hipótese de que toda
a arquitetura tem sua origem na cabana primitiva, sendo o princípio e
medida de toda a arquitetura. O desenvolvimento da coluna, do entablamento
e do frontispício suprimindo os muros de fechamento, faz surgir a cabana
primitiva, contendo toda a lógica construtiva. A única ilustração
deste livro apresenta a musa da arquitetura mostrando a uma criança (supostamente
a primeira da espécie humana) a “cabana rústica”, base de toda forma arquitetônica,
ou seja, uma estrutura límpida formada por pilares e vigas, oriundas dos
troncos de árvores. Para Laugier, essa cabana primitiva era a origem da
arquitetura, sendo a arte da estrutura pura, cujos elementos essenciais
são a coluna, a arquitrave e o frontão, os quais hão de cumprir suas funções
estruturais de origem, não havendo razão alguma para aplicação de ornamentos. “O
primeiro homem quis fazer um alojamento que lhe cobrisse, sem sepultá-lo.
Alguns ramos cortados no bosque foram os materiais adequados para o seu
desenho. Escolheu os mais fortes e os levantou perpendicularmente formando
um quadrado. Colocou encima outros quatro transversais e sobre estes,
outros inclinados, em duas vertentes, formando um vértice no centro. Esta
espécie de teto foi coberta com folhas para que nem o sol e nem a chuva
pudessem entrar e estava assim o homem alojado. É certo que o frio e o
calor fizessem sentir incomodidade na casa aberta por todas as partes
e assim colocou-se palha entre os pilares e assim ficou seguro...A pequena
cabana rústica que descrevi é o modelo sobre o qual se tem imaginado toda
a magnificência da arquitetura. E aproximando-se, na execução da simplicidade
deste primeiro modelo, como se evita os grandes defeitos, como se alcança
a verdadeira perfeição. Jacques-Francois Blonde,
no seu livro Cours d’Architecture de 1771 escreve que “os
homens fizeram ao princípio alguns refúgios contra a severidade das estações
e ao ataque de animais ferozes. Com este fim construíram choças e cabanas:
juncos, canas, ramos de árvores, folhas, cortezas e barro foram
quase os únicos materiais que empregaram para construir seus alojamentos”. Blondel elabora uma
teoria a partir do surgimento da cabana primitiva que redundaria no surgimento
dos espaços urbanos: “Ao crescer as famílias, cresceram suas amorfas
habitações. Logo, os homens sentiram a necessidade a que deu lugar à sociedade,
aprendendo a implantar alojamentos mais cômodos e duradouros. Assim, suas
casas que até então estavam separadas por vastos desertos, agruparam-se
em aldeias e logo converteram-se em burgos e desta vez em cidades”. Jean-Nicolas-Louis
Durand, no livro Précis des Leçons d’Architecture, escrito em 1819,
define que há uma coisa que se deve evitar a todo custo em arquitetura:
a imitação. Negando os aspectos tradicionais, diz que a utilidade pública
e privada, a felicidade, a economia e a preservação dos indivíduos e da
sociedade seriam os princípios maiores da arquitetura. E continua dizendo
que o econômico sistema arquitetônico descansa sobre uma base mais sólida
que a “imitação da cabana primitiva ou do corpo humano”. O mais influente dos
teóricos da arquitetura italiana de fins do século XVIII foi Francesco
Milizia (1725-98). Em 1768, na introdução do seu tratado Memorie degli
architetti antichi e moderni, declara-se partidário da teoria da imitação,
no sentido de Laugier, respeitando o valor da cabana primitiva como modelo
para toda a arquitetura. Milizia conduz a teoria da imitação a um desenvolvimento
maior que Laugier, reconhecendo dois princípios da arquitetura que se
refere à natureza: o grego como imitação da cabana primitiva e o gótico
como imitação do bosque. “Onde
se encontram casas fabricadas pela natureza e que os arquitetos possam
ter como exemplo a imitar? O palácio de um monarca não está modelado sobre
o palácio do universo, do mesmo modo que a harmonia não está modelada
sobre a música dos corpos celestes, cujo som não chegou, pelo menos até
agora, a ouvido algum. À arquitetura falta, na verdade, o modelo formado
pela natureza; porém existe outro modelo formado pelos homens, seguindo
a industria natural de construir suas primeiras habitações. A tosca cabana
é a arquitetura natural, a tosca cabana é a origem da beleza da arquitetura
civil”. Definindo a arte como
um sistema de conhecimento reduzido a regras positivas e invariáveis e
a ciência como um conhecimento das relações que podem manter entre si
certo número de fatos. Estes fatos são descobertos pelo sentido exclusivamente,
porém, afirma que o caráter primitivo de seu primeiro descobrimento não
deve depreciar os esforços dos primeiros homens. “Transcorreram
muitos séculos em choças, umas cônicas, outras cúbicas, em diversas variantes...Edifica-se
de um modo, ora de outro...olhando primeiro a comodidade, a seguir a estabilidade
e finalmente a beleza”. Em seu Dictionary
of architecture, Quatremère de Quincy, de 1832, posiciona que segundo
o clima e os costumes, o homem adotou certos estilos de edificação superiores
aos refúgios que lhe oferecia a natureza, como as covas e as árvores.
A madeira teria sido, para todas as sociedades primitivas, o material
de construção natural. Segundo Quatrèmere, a cabana teria sido, inicialmente,
construída com ramos das árvores e, posteriormente, com os troncos das
árvores. “E essa cabana simbólica, que chegaria a ser o tipo da arquitetura
grega, não expressa mais do que os primeiros ensaios da arte de carpintaria,
quer dizer, de uma habilidade mecânica”. Assim, haveria três arquétipos
de edifícios: a tenda, a cova e a cabana ou obra de carpintaria. “A
tenda é adotada por chineses, uma arquitetura de construção rápida e muito
afetada para ser imitada. A cova é o arquetipo egípcio, conduz a uma arquitetura
pesada e indiferenciada para merecer aprovação. A armação de madeira,
adotada e melhorada pelos gregos, é o único digno de imitação.” Para Quatremère, a
madeira era o material ideal para uma arquitetura que era, ao mesmo tempo,
diferenciada e sólida. A cabana, antes de ser imitada em pedra, tinha
que passar por um processo de racionalização e desenvolvimento. “A
transposição da madeira à pedra é a razão principal que nos proporciona
a arquitetura grega, e este prazer é o mesmo que encontramos, tão desejável,
em outras artes de imitação”. Para Viollet-Le-Duc
(1814-1879), houve um tempo muito distante em que o homem errante andava
desvalido sobre a face da terra, com medo dos fenômenos naturais, que
sua pouca inteligência não chegava a penetrar, e temeroso das feras perigosas
que dividiam o mesmo território. Numa forma lenta e dolorosa foi superando
as etapas difíceis. “A
chuva descarregada das nuvens densas bate implacavelmente nas rochas,
inunda a terra e aviva os verdes das árvores. Um grupo de homens pálidos,
desvalidos e temerosos apertam-se ao redor de uma árvore qualquer, procurando
abrigo, retira em seguida os ramos inferiores, esforçando-se por fixá-los
ao solo com terra. Algo foi alcançado, porém a chuva castiga o mísero
reparo, irrompe através da folhagem e inspira ao mais robusto desses homens
a idéia de construir um refúgio mais seguro contra a violência do temporal. Banister Fletcher,
no livro A history of architecture (1896), posiciona que a primeira
habitação do homem foi um conjunto de apoios provisórios colocados sobre
uma superfície rochosa que os primeiros homens realizaram para definir
uma proteção contra as intempéries e seus diversos inimigos. “A arquitetura...deve
Ter tido uma origem simples no esforço primitivo da humanidade por alcançar
uma proteção contra a inclemência do tempo, animais selvagens e os inimigos
humanos”. A maioria dos tratadistas
dos séculos XVII, XVIII e XIX, como Claude Perrault, Jacques François
Blondel, William Chambers, Gottfried Semper e J.N.L.Durand, além dos já
citados, desenvolveram o tema da cabana primitiva ao estabelecer as origens
da arquitetura. Durante o século XX
vamos encontrar alguns arquitetos que buscam discutir esta temática, sempre
tendo como referência o discurso já apresentado. Como exemplo podemos
citar um desenho de Oscar Niemeyer, intitulado “o abrigo”, que se aproxima,
categoricamente, do pensamento de Viollet-Le-Duc. Oscar dá à essência
da arquitetura a mesma noção de cabana primitiva oriunda da junção de
dois ramos de árvores. Desta união delimita-se um espaço interior, gera-se
o espaço interno, nasce a arquitetura de um modo direto e simples. Frank Lloyd Wright
tem a casa como origem do refúgio, um abrigo no qual o ser humano busca
amparo ou se retira, como se fosse uma cova, para proteger-se da chuva,
do vento e da luminosidade intensiva. Nesse pequeno espaço pode recolher-se
e sentir-se em segurança completa, tal como um animal em sua toca. Le Corbusier apresenta
seu selvagem ideal como um homem que ao se deter numa determinada planície
decide que aquele é um bom lugar para sua morada. Escolhe uma clareira
no bosque, corta as árvores que necessita, aplaina o terreno e abre um
caminho até o assentamento de seus companheiros da tribo que acabara de
deixar. A estrutura de sua tenda descreve um retângulo cujos quatro ângulos
são iguais. Le Corbusier dá à essência da casa o mesmo princípio dos templos:
“Olhem um desenho de tal cabana num livro de arqueologia, ali tem o plano
de uma casa e o plano de um templo. É exatamente a mesma atitude que encontraram
numa casa pompeyana ou num templo de Luxor. Não existe homem primitivo,
há unicamente meios primitivos”. Para Francoise Choay
o mito de origem da construção está diretamente associado ao fogo. A cabana
primitiva e o fogo primitivo revelam-se como inseparáveis. O rito, o mito
e a consciência nascem, para a humanidade, da associação da casa e do
fogo. Carl Gustav Jung (1875-1961)
traduz todo o pensamento da essência casa quando está ocupado com a construção
de sua verdadeira morada, situada na face norte do lago de Zurich: “Tive
que reproduzir em pedra minhas idéias mais íntimas e meu próprio saber
ou fazer uma confissão em pedra”. A primeira idéia consistiu em levantar
uma espécie de cabana primitiva onde o fogo ardesse entre duas pedras
e dessa idéia surgiu a primeira casa circular de 1923. “Somente depois
vi o que havia surgido e que ela possuía uma forma razoável: um símbolo
da integridade psíquica. Senti o íntimo desejo de chegar a ser o que eu
mesmo sou”. É interessante percebermos que a materialização de sua realidade
interior possuiu a forma circular de uma mandala, o símbolo de si próprio,
o quadrado-circulo que encerra um centro e que Jung experimentou tanto
em sua própria pessoa como em seus pacientes. Para encerrarmos esta
pequena resenha histórica apresentamos uma parábola de Reyner Banham,
apresentada por Luis Fernandez Galiano, cujo relato refere-se a uma tribo
primitiva relegada a um clarão no bosque, onde os integrantes projetam
passar a noite. Neste clarão existem ramos caídos e alguma madeira. A
tribo encontra-se frente a um dilema: empregariam a madeira para levantar
um pequeno abrigo ou a utilizariam como lenha para acender um fogo? Podemos dizer que,
para estes pensadores, construir a primeira casa do homem surgiu inicialmente
da união cabana e fogo, sendo este o símbolo e o elemento de união entre
os seres, estando sempre posicionado no foco central do espaço construído.
A casa surge, também, como a incorporação de elementos naturais, derivando
deles um sistema estrutural (pilares, vigas e cobertura) que transforma
o espaço fechado num invólucro protetor frente a uma natureza ampla e
agressiva. Bibliografia complementar BLASER, Werner. Patios
– 5.000 años de evolución. Barcelona:Gustavo Gilli, 1997. GALLO, Paola. Lofts
in Italy. Milão:Lárchivolto, 1998. RYBCZYNSKI, Witold.
Casa: pequena história de uma idéia. Rio de Janeiro:Record, 1996. SCHOENAUER, Norbert.
6.000 años de hábitat. De los poblados primitivos a la vivienda urbana
en las culturas de oriente y occidente. Barcelona:Gustavo Gilli, 1984. ZABALBEASCOA, Anatxu.
La casa del arquitecto. Barcelona:Gustavo Gilli, 1984. Notas 1 2 3 4 5 6 |
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