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| Expo.02 –
ImagiNation ou nação imagética Inês Moreira |
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Inês Moreira é licenciada em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Pós-Graduada em Arquitectura e Cultura Urbana pela Universidade Politècnica da Catalunya. Desenvolve tese de Mestrado sobre relações entre Arquitectura, Corpo Humano e Novas Tecnologias, nas áreas de Teoria e Crítica da Arquitectura em Barcelona (UPC). Co-comissária do evento “Arquitectura – Prótese do Corpo”, Janeiro 2002, na Faculdade de Arquitectura U. P. e na Casa das Artes do Porto. Co-editora do catálogo com o mesmo nome. Exerce nas áreas de Arquitectura e Cultura Urbana em Barcelona e no Porto |
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A
Confederação Helvética organizou este ano um evento efêmero que, por 159
dias, propôs repensar a(s) sua(s) Identidade(s) Nacional(is). Localizada na plural e multicultural região
dos 3 lagos (Biel, Neuchâtel e Morat), em 5 diferentes cantões, em 4 cidades, a Expo.02 (1) (des)centraliza-se na
zona ocidental suiça, entre as Suiças Alemã e Francesa. No
contemporâneo mundo global e perante esta pluralidade local, a construção
de um discurso expositivo-arquitectónico que cristalizasse uma Identidade
Nacional estabilizada e unitária, seria ingénua e redutora. Pensando
que “a identidade é uma ratoeira na qual cada vez mais ratos têm de partilhar
o queijo original que, numa leitura mais próxima, pode ter estado vazia
desde há séculos” e, simultaneamente, “a identidade deriva da substância
física, da história, do contexto, do real, e nós de certo modo não podemos
imaginar que algo contemporâneo - feito por nós - possa contribuir para
ela” (2), pode-se explicar a estratégia do comissariado. A expo procura
não recriar os anteriores contundentes discursos nacionais, mas antes
reflectir sobre um conjunto de tópicos/perguntas que abram
espaço à análise/interpretação do “estado das coisas” e à procura de respostas
para o futuro - “uma exposição nacional não pode providenciar respostas
e receitas pré-fabricadas; se o fizesse, degeneraria num exercício vazio
e compulsivo” (3). Expos
proto-Expo.02 expo
Suíça. A Suíça tem uma história de 120 anos de 6 exposições nacionais
(4). A primeira, em Platzspits (Zurique 1883) seguindo os exemplos das
exposições/feiras de Paris e Londres, comemorava a abertura do tunel Gothard
e procurava transparecer como imagem Suiça o progresso da indústria mecânica.
No mesmo local, em 1893 construiu-se o Museu Nacional Suiço, peça fundamental
para a cristalização de uma ideia Nacional unitária. Numa segunda Expo
(Genebra 1896), apresentou-se já a nação Suíça. Foi exposta a indústria
mecânica, mas a identidade foi a peça central a expor, através da criação
in loco de uma “aldeia suiça” pela instituição que é hoje a agência
do património nacional. Em 1914 (Berna), para além da identidade, a Expo
celebrava a estabilidade económica que a agricultura, indústria, arte
e exército proporcionavam. A estabilidade económica/progresso voltou a
ser celebrada em 1939 (após a crise económica que em 1933 levou a adiar
a exposição). Nesta expunha-se uma dupla identidade: a suiça inventiva
e moderna, e a tradicional nação agrícola. Em 1964 realizou-se em Lausana
a quinta exposição, explorando simultaneamente a visão industrial progressista
e confiante e a visão mais crítica em que surgiam algumas dúvidas quanto
ao futuro. expo
Universo recentes. Ambas Expo 92 (Sevilha) e Expo 98 (Lisboa) se instalaram
em zonas de esvaziamento industrial/sector secundário e se estabeleceram
como catalizadores para a instalação do sector terciário e habitacional
através do desenvolvimento urbanístico. Seguindo o mesmo modelo das Olímpiadas
Barcelona-92, foram entendidas como estratégia para canalização de fundos
para a conversão de zonas degradadas introduzindo novos usos pós-industriais.
De um modo mais imediato, a Expo 2000 de Hanover expôs produtos pós-industriais:
novas tecnologias e a sociedade de consumo. A
expo.02 não é nem um núcleo centralizado catalizador de desenvolvimento,
nem um parque temático conciso, mas um evento efémero disperso, uma “cidade-festival-territorial”,
que para além de expor, problematiza. Expo.02 Sob
o título ImagiNation (leia-se Image-Nação), faz-se uma experiência
interdisciplinar que, através de um discurso imagético, coloca questões
e procura imaginar respostas para um vazio identitário. Como Koolhas,
em vez de pensar sobre (as tradicionais vantagens da) Identidade perguntaríamos
quais as desvantagens da Identidade e quais as vantagens/possibilidades
de um vazio? A
ImagiNation explora pares conceptuais icónicos, através
de imagens e da imaginação. Distribui-se por 5 áreas, Arteplages, que
materializam 5 diferentes slogans através de conteúdos expositivos e,
mais retoricamente, através da Arquitectura. Quatro “praias artísticas”
são semi-praias-lacustres (Expopark ou áreas de Expo em terra seca) e semi-plataformas-sobre-os-lagos
(Fórum ou palafitas onde se localizam arquitecturas-icónico-simbólicas).
Estas paisagens artificiais (5), constituindo um forte contraste com as
estereotipadas paisagens de fundo, estão fortemente articuladas com as
cidades que lhes dão nome. Yverdon-les-Bains: o Universo e Eu Elevada
sobre o lago, uma núvem de nevoeiro artificial domina a paisagem. Projecto
volátil da dupla americana Diller e Scofidio, constitui-se por uma complexa
estrutura metálica ovóide estirada por tirantes e apenas apoioada na água
em quatro pontos, materializando uma concepção estrutural Buckminsterfulleriana.
O edifício incorpora 31.400 jactos de vapor que criam uma etérea forma-miragem.
A estrutura liga-se à margem através de passadiços que conduzem a uma
paisagem artificial criada pelos West 8. Aqui vegetação e tecnologia multimédia
combinam-se, estimulando sentidos, memórias e sonhos. Eu e meus
sonhos, as minhas sensações e o meu corpo, são os temas que se propõe
ler, sendo possíveis múltiplas interpretações oníricas/subjectivas em
cada Universo pessoal. Neuchâtel: natureza e artificialidade Concebida
pelo colectivo Multipack também esta Arteplage se organiza em terreno
natural e artificial. O fórum consiste numa enorme plataforma sobre estacas
onde três escultóricos colchões insufláveis suspensos cobrem a área de
exposição. Com forma ovóide, estes elementos necessitam de ventiladores
gigantes para os manter insuflados. O discurso expositivo trata a ciência
e a ficção, o corpo e as tecnologias, a natureza e a hibridização homem-máquina,
o que, de resto, é interessante que aconteça na pátria dos relógios, o
invento que, pela quantificação do tempo, possibilitou a crescente artificialização
da natureza. Murten-Morat:
instante e eternidade Um
enorme cubo de aço corten flutua na água, apenas acessível por barco.
Projecto de Jean Nouvel, este elemento abstracto assemelha-se conceptual
e formalmente ao monolito que em 2001 - Odisseia no Espaço havia surgido,
flutuando, problematizando origem, identidade, tempo e lugar. Nas
margens foi criada uma paisagem expositiva que se hibridiza com a antiga
aldeia Murten-Morat. O uso de materiais perecíveis e a ideia de disfarce/camuflagem foram as técnicas
com que os novos elementos foram adicionados transformando a sua efemeridade
numa coerente integração com a paisagem. Biel-Bienne:
poder e liberdade Esta
Arteplage está dominada pela linguagem urbano-progressista do fórum. As
3 icónicas torres de 40 m de Coop Himmelb(l)au: Poder, Dinheiro, Autoridade,
estão ligadas por uma passerelle aos conceitos de liberdade, coragem e
criatividade no Expopark. Diriamos que o tema problematizado é o homem
e os seus valores. Arteplage Mobile du Jura: significado e movimento Barco
“pirata”, concebido pelo luso-descendente Didier Fiuza Faustino para conectar
por água os 4 locais anteriores, potencia a ideia de pirataria intelectual,
possibilitando o acesso a todos os locais para, através do movimento,
convidar à reflexão do visitante e à procura de um significado para o
todo expositivo. Estando
a expo baseada num discurso imagético fragmentário, a busca de um sentido
global pode ser difícil. O conjunto de temas não é de interpretação directa,
por vezes pode parecer carecer de rigor conceptual. A
chave da ligação entre os temas parece residir efectivamente no título
proposto: ImagiNation (a imaginação, ao contrário da memória,
que é automática, consiste na associação de resíduos de memória do observador). A
enorme colecção de imagens apresentada sobre questões para as quais
se espera imaginar futuras respostas, necessita que resida também alguma
imaginação na formulação das próprias perguntas. A
Expo.02 aposta nas segundas leituras e na reflexão permitidas pelas possibilidades
de um vazio, não de sentido, mas de resposta. Por agora. Notas 1 2 3 4 5 |
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