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| Geração
Migrante – Depoimento 4. De São Paulo a Barcelona Affonso Orciuoli |
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Affonso Orciuoli, arquiteto, mestre pela Universitat Politècnica de Catalunya, professor na Escola Superior d'Arquitectura de Barcelona |
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A
convite de Abílio Guerra, trato de transmitir aos leitores de Vitruvius
uma espécie de depoimento, bastante informal, que resume aspectos da experiência
de estar vivendo, trabalhando e estudando em Barcelona desde 1991. Florianópolis Ao
acabar a faculdade de arquitetura Mackenzie resolvi ter uma experiência
fora da cidade de São Paulo. Em janeiro de 1990, um mês após o término
do último ano do curso, resolvi me mudar para Florianópolis, entusiasmado
em começar a trabalhar como arquiteto já “formado”. O fato de não conhecer
ninguém nesta cidade me obrigou a buscar trabalho de porta em porta. Em
fevereiro começava a trabalhar em um escritório de arquitetura. Pouco
a pouco o cotidiano de “viver na ilha” foi se transformando em uma necessidade
de estar em uma cidade que tivesse mais oferta cultural. Pelo menos uma
vez por mês ia a São Paulo, e comecei a descobrir que no fundo era uma
pessoa cosmopolita e apreciava uma espécie de anonimato, o que era difícil
em Florianópolis. A ilha me asfixiava. Europa Em
junho de 1991, atraído em parte pelas obras olímpicas, em parte pela oferta
em estudos de pós-graduação, decidi ir a Barcelona. A idéia principal
era de ter uma experiência no exterior, tentar conseguir um trabalho e
estar pela Europa pelo menos uns 2 anos. A escolha foi como uma espécie
de zoom. Primeiro, que seria na Europa, segundo
que fosse uma cidade à beira mar, e terceiro que me aportasse conhecimentos
à minha profissão. Um dos fatores que me levaram a escolher Europa era
o de viver dentro de um sistema em que a maioria da população fosse classe
média. Minha experiência profissional no Brasil estava muito ligada a
projetos para uma classe alta, que quase sempre resultavam em projetos
de residências em que o gosto do cliente, bastante duvidoso, me fazia
sentir mal. Muitas vezes me parecia que no Brasil a arquitetura começava
de um muro para trás. Queria ver se havia algo diferente, uma arquitetura
mais democrática, se pode dizer. Comentava-se
muito a presença do espaço público em Barcelona, com processos de revitalização
de praças, estações de trem, parques; uma cidade em que a rua era algo
a ser explorada, ao contrário do que ocorria em São Paulo. Percebi que
as pessoas caminhavam, que o espaço público era algo fundamental para
o próprio funcionamento da cidade. Outro fator que me atraia era poder
ter acesso a edifícios históricos, à exposições das mais diversas e à
informação específica no campo da arquitetura, urbanismo e design. Barcelona Cheguei
sem saber que em Catalunha se falava outro idioma, tão pouco sabia falar
castelhano. Fiquei morando no albergue da juventude, algo bem barato.
Consegui um trabalho de colocar cartazes na rua. Era verão, muito calor,
e eu descobrindo a cidade, colocando cartazes. No
final, este trabalho me serviu muito. Conheci a cidade, a forma de ser
das pessoas, o nome das ruas, os bairros. Paralelo a esse trabalho, eu
comecei a enviar currículos, mais uma vez bater de porta em porta. Atraia-me
muito a aventura, o fato de não ter nenhum tipo de contato. Tudo dependia
de mim. Em
setembro de 1991, três meses depois de haver chegado em Barcelona, consigo
um trabalho em um escritório de arquitetura. Lembro-me que ao arquiteto
dono do escritório lhe chamou a atenção o fato de eu ser estrangeiro,
naquela época bastante jovem, e de ser brasileiro. Pediu-me para fazer
uma prova. Isso era uma segunda-feira. Ao final da tarde me disse: volte
amanhã. Assim se passou aquela semana. Na sexta-feira pela tarde me chama
para conversar, e me pergunta se gostaria de trabalhar com ele. Aí fiquei
mais de um ano. O
escritório se chamava Ojinaga. Os projetos eram de apartamentos e casas
residenciais, às vezes alguma obra comercial e stands para feiras. O escritório
era pequeno, quatro pessoas trabalhavam no depto. de projetos. Fizemos
alguns trabalhos relacionados com as olimpíadas também. O ambiente do
escritório era excelente, me pagavam relativamente bem, o que me permitiu
começar a viajar pela Europa. Na
verdade, a adaptação não foi tão difícil. Os espanhóis têm uma forma de
trabalhar mais “relaxada”, menos estressante do que havia sido minha experiência
de 5 anos trabalhando com arquitetura no Brasil. Os projetos se trabalhavam
com calma, perseguindo uma boa qualidade. Meu chefe me dava bastante liberdade
e comecei a fazer visita de obras e a me adaptar com a forma de ser deles.
Na verdade, os espanhóis têm muito que ver com os brasileiros, em sua
forma de ser, mas sentia uma maior seriedade nas questões relacionadas
ao trabalho. O respeito que os arquitetos têm aqui diante da sociedade
não tem comparação com o Brasil. Em
1992, no dia em que começa as Olimpíadas de Barcelona, inicio minha primeira
viagem. Comprei o famoso Europass (não sei se ainda existe) e realizei
uns dos propósitos da minha vinda à Europa. A viagem foi toda aventura,
sem nenhum planejamento. Viajava só (coisa que até hoje costumo fazer),
dormia em albergues e trens (algumas vezes cheguei a dormir em estações
de trem) e sem fazer muitos roteiros. Digamos que as coisas iam acontecendo.
Depois de subir ao norte fui à Itália e desde aí à Grécia. Total foram
2 meses em que tive que trocar de tênis 2 vezes. De
volta a Barcelona, depois das típicas férias espanholas de verão, começo
o que logo seria meu último trabalho junto ao Ojinaga. A direção do stand
Phillips, na Feira de Barcelona. Quase 3000 m2 de recinto expositivo,
o que me serviu como experiência de estar trabalhando diretamente com
os operários espanhóis. Lembro-me que me surpreendeu muito o nível de
vida deles, e de como a obra era organizada. Percebi o capricho de como
trabalhavam, do respeito do trabalho de um pelo outro. Comparava com os
operários com quem havia trabalhado no Brasil. Paralelo
ao dia a dia do escritório, estava fazendo o curso de Master na UPC. Por
aqueles tempos o trabalho estava sendo mais interessante que o curso,
freqüentava a faculdade esporadicamente. Acabei não concluindo este curso
de Master. Em
outubro de 1992, o arquiteto Gilberto Bleggi, um grande amigo, me chama
para trabalhar num escritório de urbanismo. Desde a época em que estudava
no Mackenzie tinha interesse em trabalhar nesta área. A oportunidade era
interessante, e o salário quase que o dobro do anterior. Não tive dúvidas. INFRAES
é um escritório que trabalha com infra-estrutura urbana. Desde canalização,
arruamento, muros de contenção de terras, sinalização urbana, paisagismo,
mobiliário urbano, estacionamento, etc. Também fazíamos projetos de estradas,
túneis e pontes. Outro fato que me interessou em trabalhar neste escritório
foi o de que utilizavam computadores. Desta forma, pude recuperar uma
pequena experiência, de 1989, de trabalhar com suporte informático. O
escritório era grande, trabalhavam umas 20 pessoas sendo que metade deles
falava em catalão, o que foi positivo para mim. Recife Em
1994 bate uma grande “saudade” do Brasil. Tinha interesse em conhecer
um pouco melhor o “meu país”, mas que não fosse uma cidade do sudeste
ou sul. Por motivos diversos acabei “caindo” no Recife. Era uma sexta-feira
de Carnaval, me interessou de imediato a cidade, seu calor, tudo o que
tem a ver com o trópico: comida, festas, estilo de vida, este ser calmo
e tranqüilo do nordestino. Depois de 10 dias de busca de trabalho, começo
a colaborar num escritório de arquitetura, que também era um diller de AutoDESK. O acesso à informática que tinham me surpreendeu.
Atuavam vários profissionais do mundo CAD, que sabiam bastante. Apreendi
muito e comecei a trabalhar em 3D. Conheci Pernambuco, o Sertão, a Zona
da Mata, e evidentemente o litoral. A vida no Recife era muito boa, rapidamente
me entrosei bem com os recifenses. Começo
de 1995. Uma vez mais, sinto que Recife se havia esgotado para mim. Decido
que era hora de voltar a Barcelona, desta vez para estudar. Desço de Recife
até Florianópolis de ônibus: 2 meses pela costa brasileira. Em
São Paulo passo uns três meses, preparando-me para voltar a Barcelona,
junto à família. Participo de um concurso com Eduardo Orciuoli (meu tio)
de casas habitacionais com sistemas de pré-fabricação. Por fim pude trabalhar
em algo “popular”. O projeto é um dos vencedores do concurso, e se fariam
casas-piloto. Nova York Decido
a fazer o Master La Cultura de la Metrópolis, na UPC, em Barcelona.
O curso começaria em junho de 1995, e vejo que mais da metade das aulas
seriam em inglês. Vejo a necessidade de ter experiência numa cidade em
um país anglo-saxão. Na primeira semana de março de 1995 chego para passar
uma temporada de 3 meses em Nova York. Os objetivos era de estudar inglês,
conhecer a cidade, e porque não, trabalhar em um escritório de arquitetura.
Consigo um estágio em Barthos & Rhodes, um escritório muito bem estruturado,
com um ambiente de trabalho que não pude voltar a experimentar. No dia
seguinte em que começo a trabalhar, me convidam a fazer um projeto de
reforma de um apartamento, em frente ao Central Park. No mesmo dia vou
tomar as medidas do apartamento, e só chegando aí, vejo que o metro não
é um metro, mas está em polegadas!!!! Total perdi uma semana para descobrir
que para projetar em polegadas, há que pensar em polegadas. Como tinham
computador, comecei trabalhando em metros, depois transformava para polegadas.
Mas os resultados das medidas eram “estranhos”. Não teve jeito: tive que
pensar mesmo em polegadas. Durante
um mês, baixo a supervisão esporádica do pessoal do escritório, faço o
projeto. E quando o apresento, o pessoal do escritório vê que sei trabalhar
em três dimensões. No dia seguinte, começo a dar “aulas” de 3D. Enfim,
a coisa foi divertidíssima, pois com meu inglês péssimo consegui ensinar
o que havia aprendido no Recife, e descobri que gostava de dar aula. Na
minha última semana em Nova York, me convidam para seguir trabalhando
no escritório. Agradeço o convite, e digo que viria a Barcelona fazer
um curso de Master. Durante
este período consigo alugar um pequeno apartamento em Manhattan, compartindo
com uma pessoa “nativa”. Durante estes 3 meses, estudava pelas manhãs,
trabalhava pela tarde e conheci a cidade pela noite e fins de semana. Barcelona Volto
a São Paulo, e em junho de 1995 volto a Barcelona. Desta vez decido não
trabalhar, para poder dedicar-me em tempo integral ao Master. Paulatinamente
começo a dar aulas particulares para alunos de arquitetura da UPC. Compro
meu primeiro computador. Começo a colaborar com Óculum, fato que me abriu
determinadas portas. Em 1996, curso o 2º ano do Master, começo a trabalhar
em minha tese, que só seria apresentada em 1999. Decido
começar a trabalhar, em 1996, por minha conta. Faço pequenos projetos
e sigo dando aulas particulares de informática aplicada à arquitetura.
Em 1997 abro uma pequena empresa de construção, dedicada a pequenas reformas.
Monto uma equipe relativamente boa, com pedreiros, eletricistas, encanadores,
pintores. A coisa vai funcionando. Em
1998, me convidam a dar um pequeno curso de VRML na ESARQ – Escola
Superior d’Arquitectura, na UIC – Universitat Internacional de
Catalunya. Sigo colaborando com a Óculum, e escrevo um pequeno artigo
para a AU. Em 1999, ESARQ me pede para fazer parte do departamento de
informática aplicada à arquitetura. Começo a dar mais aulas. Em
1998 participo, junto com alguns ex-alunos do curso Metrópolis de um concurso
para o Japão. O projeto acaba não chegando a tempo, mas no ano seguinte
envio o projeto para concorrer ao prêmio do IAB, jovens arquitetos. O
projeto ganha um prêmio, como “Destaque”. Acabo
optando pela “vida acadêmica”, fechando a pequena empresa de construção.
A ESARQ me solicita com freqüência, e começo a gostar cada vez mais de
trabalhar em um centro universitário. Participo eventualmente em alguns
concursos. Assumo a direção da seção “Digital Life”, na webzine iAZ (internet
architectural zone) e colaboro com WAM. No
ano 2000 curso o Doutorado Historia, Arquitectura y Diseño del Mundo
Moderno y Contemporáneo, na mesma ESARQ onde leciono. Em
2001, organizo junto à Universidade Mackenzie um intercâmbio cultural
com 25 alunos da ESARQ. O ateliê se dá durante o mês de julho, e foi uma
experiência riquíssima em poder estar em São Paulo acompanhado pelos alunos
barceloneses. Pela primeira vez me hospedo em um hotel, na “minha cidade”.
Recomendo. A visão que tive de São Paulo foi totalmente diferente. Me
senti um turista. Começo a dar conferências relacionadas com meu campo
de investigação, o das novas tecnologias aplicadas à arquitetura. Em
2002 começo a dar aulas e colaboro com a organização do curso de Master
“Arquiteturas Genéticas”, na mesma ESARQ. Até o momento trabalhava como
professor adjunto, que significa que não havia um contrato de trabalho.
Neste ano a faculdade me faz um contrato, como investigador. Atualmente
estou organizando cursos, workshops, trabalhando na minha tese de doutorado
e sigo dando aulas. Durante estes quase 12 anos que vivo fora de São Paulo,
ao menos uma vez por ano vou ao Brasil. Muitas vezes me dizem: Brasil
está muito longe. Respondo que está há 10 horas, mesmo tempo em que demorava
para ir de ônibus de Florianópolis a São Paulo. Futuro:
não tenho a menor idéia. De momento, tenho coisas interessantes a fazer
por aqui. Sobretudo apresentar minha tese de doutorado. O futuro simplesmente
virá. Leia também da série Depoimentos da Geração Migrante GUERRA, Abilio. Depoimentos de uma geração migrante SPADONI, Francisco. Geração Migrante – Depoimento 1. Kenzo Tange e uma peniche no rio Sena LEONIDIO, Otavio. Geração Migrante – Depoimento 2. Em Paris, chez Christian de Portzamparc ORCIUOLI, Affonso. Geração Migrante – Depoimento 4. De São Paulo a Barcelona OIWA, Oscar Satio. Geração Migrante – Depoimento 5. Arte sem fronteira MOREIRA, Pedro. Geração Migrante – Depoimento 6. Brasil, Inglaterra, Alemanha – 15 anos DIETZSCH, Anna Julia. Geração Migrante – Depoimento 8. Uma dupla experiência nos Estados Unidos |
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