![]() |
![]() |
|
||||||||||||||||||||||||||||
| Casa
das Canoas de Oscar Niemeyer: fazendo a alma cantar (1) Cecília Rodrigues dos Santos |
|
|||||||||||||||||||||||||||
| Cecília Rodrigues dos Santos é arquiteta, doutoranda, professora da Faculdade de Arquitetura na Universidade Presbiteriana Mackenzie e consultora para a área de patrimônio cultural, crítica de arquitetura e co-autora de "Le Corbusier e o Brasil" | ||||||||||||||||||||||||||||
| Para
quem conseguiu nunca cantarolar Tom Jobim ao sobrevoar o Rio de Janeiro
vai ser mais difícil se render aos encantos desta casa que o arquiteto
Oscar Niemeyer projetou e construiu para morar, um marco da arquitetura
moderna. Mas vale a pena tentar. Vale a pena tentar descobrir a força
da natureza e da paisagem do Rio de Janeiro, bem como seu papel, fundamental,
no processo de transformação da cidade e de construção de uma cultura
carioca, muito brasileira. O deleite do olhar estrangeiro, a euforia por
se considerar finalmente merecedor do paraíso recuperado nos trópicos – exuberante de perfumes,
cores e tentações – perpassa relatos, povoa o inconsciente, manifesta-se
como herança em cada gesto criativo em direção à cidade. E a Casa das
Canoas é uma de suas melhores traduções. “Minha preocupação
foi projetar minha residência com inteira liberdade, adaptando-a aos desníveis
do terreno, sem o modificar, fazendo-a em curvas, de forma a permitir
que a vegetação nela penetrasse, sem a separação ostensiva da linha reta.
E criei para as salas de estar uma zona em sombra, para que a parte envidraçada evitasse cortinas e a casa ficasse
transparente como preferia”, resume o arquiteto. Projetada no início da
década de 50, e concluída em 1953, esta casa reúne assim os elementos
que estavam no cerne dos debates sobre a arquitetura moderna na época.
Debates que lembram a importância que o Brasil já teve no cenário da renovação
da arquitetura mundial. A
Casa das Canoas é um marco em um dos trechos do longo caminho profissional
trilhado por Oscar Niemeyer – aquele que se inicia no conjunto de Pampulha
em Belo Horizonte (1940/42), passa pelo Parque
do Ibirapuera em São Paulo (1951/54), culminando em Brasília (1957/61)
–, trecho este definido pelo arquiteto como uma caminhada em busca da
curva livre e criadora, de afirmação da plasticidade potencializada pelo
concreto armado e de pesquisas estruturais, Menção obrigatória,anuncia o desfecho da nova
capital, com a preponderância do lirismo e da liberdade plástica; simbolicamente,
Niemeyer mudou-se desta casa para Brasília em 1959, para viver e trabalhar
no canteiro de obras. A
laje branca do pavimento principal retoma as coberturas dos edifícios
da Pampulha e a marquise do Ibirapuera, em formas livres e sinuosas flutuando
sobre esbeltos pilotis, entrelaçando-se em projeção com o contorno livre
do espelho d’água e da piscina. Suas curvas são organicamente submissas
ao terreno, acomodando-se entre a vegetação e as pedras, contornando obstáculos
naturais, a ponto de confundir o observador sobre o que está dentro e
o que está fora, sobre rupturas e continuidade. Se para Niemeyer “arquitetura
é invenção”, nem por isso descuidou da organização dos espaços de convivência
cotidiano da família, acomodados no pavimento inferior. São três quartos,
banheiros e saleta organizados de maneira a funcionar bem e propiciar
o convívio. A
Casa das Canoas não poderia deixar de provocar a crítica internacional
no momento da sua conclusão. O suíço Max-Bill afirmou que “a forma livre
não se justifica. Só em situações excepcionais da arquitetura. A casa
de Niemeyer é um mero capricho puramente decorativo e não é obra válida
ou digna de qualquer interesse”. Para o arquiteto alemão Walter Gropius
tratava-se de “uma casa muito bonita mas que não era multiplicável”. E
para o critico italiano Ernest Rogers, a retomada das formas da natureza “orgíaca” local era uma
“confusão romântica”, admitindo porém
a liberdade do criador. Niemeyer
contra argumentou que o concreto armado reclamava coisa diferente do predomínio
dos ângulos retos, da rigidez estrutural, da ditadura da função sobre
a forma, entre outros princípios do racionalismo que para ele constituíam
empecilho à liberdade plástica. E Lucio Costa respondeu pela imprensa
diretamente ao crítico suíço: “trata no caso de barroquismo
de legítima e pura filiação nativa que bem mostra não descendermos de
relojoeiros, mas de fabricantes de igrejas barrocas”. E continuou, apelando
a argumentos, tão atuais, a favor da identidade local contra a uniformidade
globalizada: “no mundo mecanizado de hoje é desejável que tais diferenças
venham à tona a fim de neutralizar um pouco a generalizada uniformização”.
Não tivesse a arquitetura moderna carioca dos anos 40 e todo o movimento
que dela derivou, um dos grandes momentos da cultura brasileira, sido
forjada pelo gênio destes dois arquitetos que souberam ler Le
Corbusier “com devoção”, ler a cultura e a paisagem brasileiras com paixão,
para criar com liberdade. Protegida
por tombamentos estadual e municipal, a Casa das Canoas é hoje um espaço
cultural mantido pela Fundação Oscar Niemeyer, braços abertos para quem
quiser conferir sua sinuosa beleza polêmica. A Fundação procura manter-se
como guardiã de acervos de arquitetura moderna em geral, do arquiteto
em especial, desenvolvendo trabalhos de inventário, documentação e exposição
destes acervos. Foi Le Corbusier quem disse: “Oscar, você é generoso”.
Para além do trabalho de uma vida quase centenária, dispor da sua memória
e tentar dela fazer elemento de construção de um futuro mais justo e mais
belo é gesto de extrema generosidade. Carecendo de apoio e reconhecimento. Nota 1 |
|
|||||||||||||||||||||||||||
| | Autor | Assunto | Números | Página principal | Expediente | Vitruvius | | ||||||||||||||||||||||||||||