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Práticas
quotidianas aceleradas, ou onde vive Kazuyo Sejima? (1)
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Inês
Moreira (1977) licenciada em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura
da Universidade do Porto. Pós-Graduada em Arquitetura e Cultura Urbana
pela Universidade Politécnica da Catalunha. Desenvolve tese de Mestrado
sobre relações entre Arquitetura, Corpo Humano e Novas Tecnologias, nas
áreas de Teoria e Crítica da Arquitetura em Barcelona (UPC). Co-comissária
do evento “Arquitetura – Prótese do Corpo”, Janeiro 2002, na Faculdade
de Arquitetura U. P. e na Casa das Artes do Porto. Co-editora do catálogo
com o mesmo nome. Exerce nas áreas de Arquitetura e Cultura Urbana em
Barcelona e no Porto. Yuji
Yoshimura (1977) licenciado em Arquitetura pela
Chubu University, Nagoya. Recebeu 1º prêmio de projeto de licenciatura
da J.I.A.(Japanese
Institute of Architecture).
Pós-graduado em Arquitetura e Cultura Urbana pela Universidade Politécnica
da Catalunha. Desenvolve tese de Mestrado sobre relações entre Arquitetura
e Economia. |
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| O
projeto de Toyo Ito “Nomad Women Housing
for Tokyo” propõe, e simultaneamente problematiza,
um novo entendimento de tempo e de práticas quotidianas no Japão. É bastante
conhecido: um sistema efêmero, portátil, flexível, modular
destinado a uma cosmopolita mulher solteira que vive em Tóquio.
Um terço dos agregados familiares de Tóquio são indivíduos sós. O modelo
nas fotografias é a arquiteto Kazuyo Sejima,
então colaboradora de Toyo Ito. Em sua casa
não necessita de frigorífico, máquina de lavar nem sala de estar; todos
estes serviços são providenciados por instalações públicas em espaços
públicos. Seguindo este processo, começou um círculo fechado, em que os
espaços públicos são apropriados e se tornam interiorizados e os espaços
privados são reduzidos ao mínimo. A dinâmica acelerada da vida quotidiana
mudou as estruturas de sociabilidade e as relações público/privado,
e criou uma disrupção entre as rotinas hierárquicas
e as estruturas de tempo. Extrapolando esta realidade, toda a cidade de
Tóquio tende a tornar-se num grande e genérico hotel superplano.
A superplaneidade (2) é “um mundo sem dimensões
transcendentais, no qual a estrutura social piramidal falhou em favor
de modelos horizontais e onde as rotinas da vida quotidiana caem numa
situação de indiferença” (3). É
impossível pensar sobre tempo e quotidianos acelerados no Japão sem considerar
os principais programas que hoje o estruturam. Tendo uma casa tão pequena,
onde é que Kazuyo Sejima realmente
vive? O
Japão tem um conhecido programa de superfuncionalismo
capitalista alargado a (quase) todos os campos da sociedade (economia,
política, produção, educação, construção, entretenimento). O indivíduo
é visto como um potencial consumidor e a sua individualidade
é lida pela/através da sua relação com
objetos e bens de consumo. A apropriação de bens produzidos em massa define
a individualidade e a identidade. Isto pode ser entendido como um modelo
de distopia tecnológica. Tanto a ilusão de liberdade
de escolha como o forte poder econômico escondem uma total submersão num
duro sistema hiper-tecno-capitalista que se
alimenta deste modo de suave “liberdade”. Existe um paradoxo de fundo:
quanto mais submersos na homogeneidade e no genérico, e quanto mais fetichizados são os objetos, mais carismática e visível de
torna uma identidade própria. Mesmo o tempo é um importante subproduto
da mercantilização generalizada. Neste
contexto, combinando consumo e tempo, as redes de konbini (loja de
conveniência em japonês) são uma infra-estrutura de importância crescente.
Konbini é uma loja
multifuncional que apóia os novos estilos de vida quotidiana. Está direcionada
para hábitos de consumo japoneses tradicionais: não armazenar, mas comprar
todos os dias. As redes substituíram praticamente todo o comércio tradicional
e os grandes centros comerciais. Os seus principais clientes são indivíduos
sem estruturas familiares nucleares e estudantes com dinâmicas nômades
after-hours. Os
konbini vendem-lhes
tanto os produtos como o tempo de que necessitam. Através
das tecnologias de informação os konbini introduziram uma mudança
nos ciclos de consumo: a passagem do modelo de consumo de massas taylorista e totalitário, para um modo de consumo direcionado
para o indivíduo, garantido por uma rede de POS (points of sale information).
Este sistema baseia-se na coleta e registro de informação individual dos
movimentos, compras e pedidos de cada consumidor de modo a especificar
horários e necessidades de clientes tipo. Atento às necessidades específicas,
o POS, contribui para adaptar progressivamente cada loja à sua vizinhança,
fidelizando clientes. Os
Konbini
estendem-se para além da própria loja, podendo ser entendidos como uma interface físico interativo: terminal de compras e vendas
virtuais, terminal de serviços públicos, ATM, cybercafé,
centro de downloads.
Simultaneamente é um novo espaço de sociabilidade. É um dos espaços em
que a inversão interior/exterior do espaço público
acontece: funciona como uma íntima sala de estar, um lugar de encontro,
e ao mesmo tempo um lugar de deriva onde um novo tipo de flânerie encerrada acontece. Konbini
é um paradigma do Japão superplano-hiper-capitalista.
Referindo-se ao seu projeto de mediateca, Toyo Ito disse: “quanto a Sendai,
pretendo uma loja de conveniência da cultura” (4). Ito pretende “produzir”
arquitetura como konbini.
Neste sentido, os conceitos de arquitetura são completamente diferentes,
não se relacionam com significado, volume, escala nem com as
relações público/privado ou interior/exterior.
O que Ito pretende é “uma loja de conveniência que organize
todas as suas partes como uma loja, e que possa racional e homogeneamente
atingir a secura ou a funcionalidade que os arquitetos tentam procuram
faz tempo” (5). Estes são tempos e declarações Supermodernos.
Tal como o modernismo usou o taylorismo como metáfora funcionalista para os seus espaços,
com o konbini
pode estar a trasladar-se um outro modelo da economia para a sociedade
contemporânea. Soluções não-arquitectônicas
para espaços ditadas pela gestão e pelo mercado são referências para novas
arquiteturas. Mas,
enquanto o conceito de superplaneidade se refere
criticamente à sociedade, parece-nos que o conceito de konbini é usado
como metáfora acrítica para discursos e práticas
arquitetônicas. O que deve ser sublinhado é que o konbini
é provavelmente o exemplo mais expressivo da superplaneidade
Japonesa. E, uma vez mais, a superplaneidade
foi um forte conceito crítico dirigido à sociedade Japonesa. É perigoso
ser seduzido, especialmente por um conceito tão insidioso: ao mesmo tempo
em que propõe ferramentas para a hiper-organização de tempo e de espaço,
e que contém qualidades de um modelo de sociabilidade, é um forte instrumento
para manter a alienação e a “presentificação”
de estruturas recentemente impostas (E arriscaríamos dizer que é revelador
que Ito tenha usado uma sua colaboradora mulher para ilustrar este projeto). Após
17 anos, a casa nomâde é ainda contemporânea.
A casa, ainda que fluída – está fisicamente dispersa por Tóquio e complementada
por diferentes espaços fragmentados – é rígida, apenas funciona, e perpetua,
um presente cristalizado. É uma compacta cápsula do tempo do hiper-capitalismo.
A casa (house) não necessita ser conectada ao passado nem a uma idéia
de lar (home).
Ela chega mesmo a negar-se agressivamente. E sendo estritamente planejada
para/por indivíduos, não permite ser moldada, não projeta,
nem se projeta, (n)um futuro diferente. Diríamos
que esta casa ilustra um impasse geral. Das macro
às micro estruturas sociais e espaciais, o projeto está preso no presente.
E, mais do que em diferentes espaços, é neste único layer de tempo onde (e quando) Kazuyo Sejima ainda vive. Sayonara! Notas 1 2 3 4 5 |
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