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| Arquitetura,
projeto e conceito (1) Carlos Alberto Maciel |
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| Carlos
Alberto Maciel é arquiteto e urbanista, mestre em Teoria e Prática de Projeto
pela EA-UFMG, professor no Unicentro Izabela
Hendrix e na Universidade de Itaúna,
possui projetos premiados em diversos concursos nacionais, como o Centro
de Arte Corpo, o 4o Prêmio Jovens Arquitetos e a 4a Bienal
Internacional de Arquitetura de São Paulo. |
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| A
idéia de um conceito que participe como elemento indutor do processo de
projeto é de modo recorrente compreendida como algo externo a essas premissas,
uma ficção, analogia, metáfora ou discurso filosófico que, servindo como
ponto de partida, daria relevância ao projeto e milagrosamente articularia
todos os condicionantes em uma forma significativa. Essa estratégia reduz
a importância de dados existentes do problema e valoriza elementos que
em princípio sequer existem como premissas necessárias para a realização
da arquitetura. Na ausência de um grande padrão ideal legitimador das
ações do arquiteto, já diagnosticada desde a emergência do pensamento
pós-moderno, a busca de ficções legitimadoras isoladas como algo que confira
qualidade à arquitetura tem sido uma estratégia usual tanto entre arquitetos
que ocupam posições dominantes no cenário internacional como na produção
local, prática e acadêmica. Em
contrapartida a essa tendência, proponho pensar o conceito como o esforço
do arquiteto em compreender, interpretar
e transformar os dados pré-existentes do problema arquitetônico, que
se constituem em fundamento para seu trabalho: o lugar, o programa, e
a construção. Esta abordagem não procura determinar um procedimento lógico
e racional que concatenaria uma seqüência de resultados obtidos cientificamente
a partir da observação dos condicionantes. Tal entendimento do processo
de projeto – e por conseqüência, do conceito -, em oposição extrema à
primeira abordagem citada, suporia a eliminação completa da subjetividade
do arquiteto. Contudo, no processo de projeto, a compreensão e interpretação
de cada aspecto colocado como premissa exige por parte do arquiteto a
tomada de sucessivas decisões. Cada uma dessas decisões é um ato racional,
operado a partir do conhecimento específico do problema, relativizado
pela experiência vivida do arquiteto e pelo momento em que se realiza
o projeto. Como esclarece Brandão acerca da leitura ou fruição de uma
obra acabada, “[t]oda
compreensão é histórica e emerge da situação existencial e da experiência
vivida por aquele que se propõe à tarefa de compreender ou interpretar
alguma coisa” (2). Assim, a aparente restrição que a delimitação clara
de um campo de ação sobre o qual o arquiteto opera durante o processo
de projeto não se constitui em eliminação da subjetividade, mas, pelo
contrário, exige um direcionamento desta subjetividade como algo operativo
sobre os problemas efetivamente colocados pelo mundo ao arquiteto. Enquanto
a busca pelo conceito por parte do fruidor ou
usuário parte da interpretação do objeto em si, no ato do projeto o objeto
é o que se busca realizar, e portanto não se
dá ao conhecimento do autor para que dele se extraiam, se compreendam
ou se estabeleçam conceitos. Sendo assim, é necessário recuar nesta busca
por algo concreto que, antes da realização do edifício, já esteja disponível
ao conhecimento do arquiteto e que permita sua interpretação. No caso
do projeto, o que se coloca como concreto à compreensão do arquiteto são,
na grande maioria dos casos, as demandas e determinações relativas ao
lugar, ao programa e à construção. Lugar E
delinearia meu projeto, tendo em conta a intenção dos humanos que iriam
me pagar; atento à localização, às luzes, às sombras e aos ventos; feita
a escolha do terreno, de acordo com suas dimensões, sua exposição, seus
acessos, terras contíguas, e a natureza profunda do subsolo... (3) A
geografia, a topografia e a geometria do terreno, sua conformação geológica,
a paisagem física e cultural, a estrutura urbana, o sol, os ventos e as
chuvas e ainda a legislação de uso e ocupação do solo são dados pré-existentes
que podem ser extraídos de uma análise cuidadosa do lugar. Cada um desses
aspectos se coloca de antemão ao conhecimento do arquiteto: tudo já está
ali, demandando apenas um esforço rigoroso de observação. Buscar compreender
as implicações de cada um destes aspectos nas relações de uso e no processo
de construção é fundamental tanto sob o ponto de vista técnico como conceitual. Sob
o ponto de vista pragmático e técnico, a compreensão do lugar em todos
os aspectos citados traz o conhecimento necessário para se evitarem equívocos
banais que podem comprometer a habitabilidade
dos espaços, gerando incompatibilidades em relação ao clima e à natureza,
que interferem na vida cotidiana e exigem remendos posteriores, nem sempre
pertinentes. Essas correções a posteriori, na
maioria dos casos, interferem nas soluções formal e construtiva pretendidas
para o edifício e chegam a comprometer a arquitetura nas suas relações
de uso. Esses mesmos equívocos decorrentes da desconsideração do lugar
podem implicar ainda em graves incompatibilidades técnicas na relação
entre a construção e o sítio, agindo negativamente sobre o equilíbrio
das forças naturais e acarretando ao edifício desgaste mais acelerado
pela ação do tempo em virtude da inadequação da sua inserção, seja no
que diz respeito à relação com o terreno natural ou com os aspectos do
clima ou mesmo com uma estrutura urbana pré-existente. Podem acarretar
ainda aumentos consideráveis no custo de final de construção e manutenção
do edifício, comprometendo sua viabilidade e por vezes inviabilizando
sua construção. Sob
o ponto de vista conceitual, a compreensão e a interpretação do lugar
podem contribuir para gerar o espaço arquitetônico, na medida em que tem
o potencial de induzir modos diferenciados de ordenação da construção
e das relações de uso que ali acontecem. A conformação pré-existente do
terreno natural, sua planimetria e altimetria,
e ainda a sua relação com a estrutura urbana, com a paisagem e com os
aspectos naturais inerentes ao sítio, relativos ao clima, permitem a identificação de diretrizes latentes de ordenação do espaço e da forma.
Tais diretrizes, uma vez interpretadas pelo arquiteto, podem se repercutir
diretamente na configuração final do objeto arquitetônico,
seja de modo a reafirmar os aspectos espaciais e formais pré-existentes
no lugar, seja de modo a negá-los, ou ainda de modo a incluí-los como
referência parcial à realização da construção, em uma dialética permanente
entre as determinações do lugar, do programa e da construção. Programa Acreditava
que um navio, de algum modo, deveria ser criado pelo conhecimento do mar,
como que moldado pela própria onda!... Mas, na verdade, esse conhecimento
consiste em substituir o mar, em nossos raciocínios, pelas ações que ele
exerce sobre um corpo, - como se se tratasse,
para nós, de descobrir as outras ações que a essas
se opõem, defrontando-nos tão somente com um equilíbrio de poderes, uns
e outros extraídos da natureza, onde não se combatiam utilmente (4). Os
usos e atividades que geralmente dão origem à demanda por um edifício
são em geral colocados no início do processo de projeto. Também são colocadas
as restrições relativas à economia, um aspecto geralmente desconsiderado
ou subestimado pelos arquitetos (5). Desconsiderar
as definições relativas às limitações econômicas ou entendê-las como uma
restrição à criação é recorrer à exclusão do problema para buscar uma
solução mais simples e fácil (6). A consideração das questões de economia,
quando se opera com recursos limitados, característica recorrente no contexto
brasileiro, é antes de tudo uma premissa que pressupõe a viabilidade da
construção. Sendo assim, ignorar as restrições e limitações de ordem econômica
representa em um contexto de escassez um ato de irresponsabilidade em
relação ao usuário, no caso de uma relação particular entre arquiteto
e cliente, ou em relação à sociedade, no caso em que o cliente se trate
de uma instituição pública. Representa ainda um descompromisso
do arquiteto com a realização concreta de sua obra. A necessidade da atenção
à economia remete à questão do decoro, apontada por Vitruvio:
“o decoro é o aspecto correto da obra, que resulta da perfeita adequação
do edifício, no qual não haja nada que não esteja fundado em alguma razão”
(7). Mesmo em situações em que a escassez não é condição para a realização
da arquitetura, o dispêndio excessivo e supérfluo implica em última instância
na inserção direta do trabalho do arquiteto no mundo do consumo desenfreado,
a promover a não preservação dos recursos naturais disponíveis para o
homem no planeta. Como aponta Moneo, A
construção de um edifício requer um empenho enorme e um grande investimento.
Arquitetura em princípio, quase por princípio econômico, deve ser durável.
Os materiais devem assegurar vida longa aos edifícios. Antes um edifício
era construído para durar para sempre ou, pelo menos, certamente não esperávamos
que desaparecesse (8). Ao
se estabelecer um programa, surge a necessidade
da determinação de dimensões dos espaços a fim de acomodar as diversas
atividades propostas para o edifício. Esse dimensionamento se constitui
em parte fundamental da interpretação do programa. Como aponta Le Corbusier, a noção da dimensão deve ser algo que ultrapassa
a abstração da reprodução de padrões métricos universalmente aceitos,
considerando as dimensões e a escala do homem como referência para a determinação
dos espaços: O
metro é apenas uma cifra sem corporeidade [...] As cifras do Modulor
são ‘medidas’, e, por conseguinte, feitos em si que têm corporeidade;
[...] os objetos que se deve construir [...] são, de qualquer modo, ‘continentes
do homem’ ou prolongamentos do homem. Para escolher as melhores medidas
vale mais ‘vê-las e apreciá-las com a separação das mãos’ do que pensá-las
somente (isso para as medidas muito próximas da estatura humana). [...]
A arquitetura (e com essa palavra englobo a quase totalidade dos objetos
construídos) deve ser tão carnal e substancial como espiritual e especulativa
(9). Para
além das questões relativas às proporções da forma, o domínio efetivo
das dimensões permite a atuação ativa do arquiteto sobre a construção
a fim de definir espaços qualitativamente distintos. A definição da ambiência de um espaço de permanência ou de um percurso
e a demarcação de seu caráter público ou privado são diretamente determinados
pelas suas dimensões. Portanto o dimensionamento é fundamental, em primeira
instância, para um domínio das demandas de espaço a que correspondem as
diversas atividades e, em segunda instância, para a definição de hierarquias
e demarcação de diferenciações claras entre os espaços de naturezas distintas. Em
relação aos usos e atividades demandados em um programa, para além de
um atendimento imediato às questões utilitárias entendidas em um sentido
funcionalista, é possível buscar como parte desta estratégia conceitual
a investigação dos diversos modos de vida dos usuários, conhecidos ou
imaginados, a fim de buscar nesses modos de vida as especificidades que
sugiram o espaço mais apropriável e mais adequado para que estes hábitos
tomem lugar. Como aponta Brandão, Os
conceitos, como aqueles que elaboramos durante a produção de um projeto,
não surgem do nada, mas da reflexão sobre a nossa própria experiência
dos espaços e daquilo que nos fornece a tradição que lhes concerne. Assim,
(...) cumpre elaborar a reflexão sobre nossa experiência desses espaços,
sobre a imagem, os significados e sentidos que a tradição nos transmite
e que se depositou como repertório da cultura (10). Essa
compreensão da tradição pode aqui ser tomada como uma interpretação do
repertório acumulado da cultura a fim de transformá-lo em proposições
adequadas para o presente, ao invés de reproduzir padrões de espaço culturalmente
desenvolvidos ao longo da história para esta ou aquela finalidade. Nesse
sentido, parece mais fértil, como sugere Valéry,
construir o navio a partir da compreensão das forças que o mar lhe impõe,
ou seja, pensar o espaço fisicamente construído a partir das forças e
tensões que as diferenciações entre os domínios do individual e do coletivo
nele determinam. A partir deste entendimento, parece possível interpretar
e interferir nestes diferentes modos de vida, a partir da reelaboração
dos padrões recorrentes na tradição, promovendo articulações variadas
entre as atividades e os domínios territoriais, a fim de estabelecer no
espaço físico continuidades e descontinuidades, integrações, separações
e fragmentações, ora controladas pelas necessárias transições, ora justapostas
em demarcações e rupturas violentas entre os domínios do público e do
privado. A
demarcação de territórios com caracterizações distintas em suas relações
de privacidade evoca a premissa de que a arquitetura se funda na
necessidade de mediação das relações humanas (11). A partir desse entendimento,
é possível superar uma visão funcionalista, que definiria o espaço como atendimento
objetivo a atividades específicas, passando ao entendimento da questão
dos usos e da ocupação humana do espaço edificado a partir da compreensão
das diversas possibilidades de vivência do edifício no cotidiano. Habitamos
simplesmente o espaço, mesmo quando nele momentaneamente não desenvolvemos
qualquer atividade, ou seja, o habitar não passa pela noção da função
ou da utilidade imediata. A
arquitetura pode surgir do conhecimento e da interpretação dos condicionantes
impostos pela vida cotidiana. Quando entendida assim, resulta mais circunstancial
e menos ideal. Nesse sentido, cada projeto é um ato único, que deve incorporar as contradições específicas surgidas
do embate entre seus condicionantes. A forma é portanto algo que resulta deste embate, e é mais relevante
quando evita os gestos retóricos que procuram, por um lado, a determinação
de uma linguagem a priori e, por outro lado, a caracterização de um discurso
sobre algum dos aspectos envolvidos na sua realização. A
arquitetura pode prescindir do discurso, desvestir as pretensões excessivas
que extrapolam seus fundamentos primeiros e cuidar daquilo que lhe é mais
caro, e tem sido mais abandonado, que é a importância do conhecimento
da construção como o único meio de viabilização do espaço físico destinado
à habitação pelo homem. Construção Eupalinos
era senhor de seu preceito. Nada negligenciava. Prescrevia o corte das
tábuas no veio da madeira, a fim de que, interpostas
entre a alvenaria e as vigas que nelas se apoiassem, impedissem
a umidade de penetrar nas fibras, embebendo-as e apodrecendo-as. Prestava
a mesma atenção a todos os pontos sensíveis do edifício. Dir-se-ia tratar-se
de seu próprio corpo. Durante o trabalho da construção, raramente afastava-se
do canteiro. Conhecia todas as suas pedras: cuidava da precisão de seu
talhe, estudava minuciosamente todos os meios de evitar que as arestas
se ferissem ou que a pureza dos encaixes se alterasse. Ordenava a prática
da cinzeladura, a reserva dos calços, a execução de biséis
no mármore dos adornos, dispensava o mais fino cuidado ao reboco que aplicava
nos muros de simples pedra (12). A
definição das fundações, da estrutura, das proteções contra as intempéries,
das instalações complementares, dos processos construtivos e dos detalhes,
bem como a eleição dos materiais, são escolhas do arquiteto que visam
a viabilizar a realização do espaço imaginado e resultam na forma arquitetônica.
Assim como nos aspectos relativos ao lugar e ao programa, é possível identificar
diretrizes latentes de ordenação
do espaço e da forma em cada aspecto relacionado à construção. Pensar
cada um desses aspectos para além de suas determinações técnico-funcionais,
da viabilização do abrigo, implica em pensar o elemento da construção
como gerador de espaço, e não o contrário. Respeitar as especificidades
de cada solução técnica, compreender o comportamento dos elementos em
relação às forças da natureza, em especial a gravidade, implica em explorar
conceitualmente as possibilidades da construção. Nesse sentido, cabe concordar
com Joaquim Guedes, que aponta que “[h]á que
aprender a imaginar o objeto e ao mesmo tempo inventar sua construção”
(13). O
conhecimento da construção é a única possibilidade de se viabilizar concretamente
a idéia do objeto arquitetônico. Sua desconsideração é a garantia da falência
da arquitetura – e do arquiteto -, na medida em que deixa para outro a
responsabilidade fundamental das definições que em última instância implicam
na geração da forma visível e tangível do edifício, e na definição da
ambiência e da conformação do espaço interior destinado à vida humana.
Desconhecer os procedimentos para a construção do objeto é operar apenas
sobre a imagem pretendida para o edifício e seu espaço interior, é o simulacro
da decoração e do ornamento supérfluo. Se há algum caminho possível para
a arquitetura nesse momento, acredito ser sua realização através da manipulação
ativa de sua lógica de construção, operando a partir de seus fundamentos
para atingir uma resposta concreta, fisicamente edificada, que faça repercutir
no objeto arquitetônico, de modo complexo, o conhecimento, a interpretação e a transformação de todas as restrições
e determinações do lugar, do programa e das próprias possibilidades de
construção. O
desenho como mediador Sou
avaro em divagações. Concebo como se executasse (14). A
representação gráfica é, e parece que por muito tempo continuará sendo,
o modo de mediação entre a idéia e a sua realização concreta, a construção.
Portanto, o desenho é o ponto crítico no processo, pois não é apenas a
representação final de uma idéia pensada de antemão, mas é a própria construção
da idéia. Enquanto desenha, o arquiteto testa
hipóteses de resolução das diversas contradições que surgem do embate
entre as demandas impostas pelo sítio, pelo programa e pela construção.
Como confirma Brandão, a
expressão gráfica (...) não é apenas representação de uma idéia mas um
momento de compreensão e construção dessa idéia. (...)Dizer
que essa relação é dialógica significa dizer que ela se desenvolve a partir
do jogo de perguntas e respostas que são colocadas entre os dois momentos.
Esse jogo se desenvolverá também para estabelecer a relação entre o projeto
e a obra e, depois, entre a obra e o habitante. Cumpre reafirmar, desde
já, que a própria definição do conceito é mediatizada
pelas perguntas colocadas pela construção, pela contextualização e pela
fruição da obra (15). Como
mediador que visa a concepção e a realização
do edifício, o desenho deve explicitar com clareza os procedimentos para
a construção do objeto. Se tratado de modo abstrato e desvinculado da
lógica e das implicações da construção, o desenho perde sua relação direta
com o objeto arquitetônico, e deixa de ser o meio para sua realização.
Arrisca-se assim a não realização do edifício como previsto, por mera
impossibilidade ou divergência entre a técnica possível e o espaço e volume
imaginados. A deficiência da representação decorre do desconhecimento
da construção. Portanto, a representação, para ser suficiente e para viabilizar
a construção de um edifício qualquer, deve se fundamentar no conhecimento
de todas as premissas que interferem nesta realização do objeto. Rafael
Moneo confirma essa hipótese: Muitos
arquitetos atualmente inventam processos e ensinam técnicas de desenho
sem a preocupação com a realidade da construção. A tirania dos desenhos
é evidente em muitos edifícios em que o construtor procura seguir literalmente
o desenho. A realidade pertence ao desenho, não ao edifício. [...] Os
edifícios se referem tão diretamente às definições do arquiteto e estão
tão desconectados com a operação da construção que a única referência
é o desenho. Mas um verdadeiro desenho de arquitetura deve implicar
sobretudo o Conhecimento da construção (16). A
necessidade do conhecimento acumulado associado à observação acurada dos
aspectos específicos que dizem respeito a cada projeto sugere uma possibilidade
de abordagem metodológica do projeto arquitetônico. O ato de projetar
pode ser entendido como um trabalho reflexivo, um esforço de equilíbrio
entre o construir, o habitar e o pensar colocados
como premissa para este debate. É um ato
de pensar a construção, o hábito e o lugar, de modo a transformar
a situação pré-existente em algo novo, que configure um suporte habitável,
no sentido pragmático da configuração do abrigo e da proteção que o conhecimento
da técnica viabiliza, e no sentido específico da mediação das relações
humanas, que somente se realiza a partir do conhecimento da vida cotidiana
e da atuação intencional do arquiteto sobre as articulações físicas do
espaço e da construção. A linguagem e a forma surgem como decorrência
imediata, mas não óbvia, deste trabalho reflexivo sobre os dados pré-existentes
do problema. Fiar-se
em relatos legitimadores externos, ainda que eleitos caso a caso,
é cometer o mesmo erro dos herdeiros desavisados de arquiteturas
do passado, que entenderam a arquitetura de sua época como um padrão baseado
em um repertório formal a ser reproduzido, reduzindo a importância da
consideração efetiva dos condicionantes reais que surgem da vida cotidiana. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 |
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