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-ISSN 1809-6298 . .
Texto Especial 215 – fevereiro 2004
     
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  Favela: retrato da exclusão social
Érico Costa
 

 
         
      Érico Costa é arquiteto e urbanista (UFRJ, 2000), atualmente cursando MBA em gestão Ambiental na Fundação Getúlio Vargas  
       
 

De acordo com o novo relatório global sobre assentamentos humanos realizado pela ONU, o número de favelados no mundo, que atualmente está na casa de 1 bilhão de pessoas, possivelmente dobrará nas próximas 3 décadas, vindo a representar 32% da população mundial. No Brasil, assim como na maioria dos países em desenvolvimento, o problema habitacional é umas das questões urbanas mais preocupantes, refletindo-se na formação de aglomerados pobres, sem infra-estrutura e socialmente segregados. Conforme é anunciada diariamente nos principais meios de comunicação, a quantidade de novos assentamentos irregulares vem crescendo avassaladoramente, provando que a taxa de crescimento da população favelada não só extrapola em muito a de crescimento da cidade formal como também que os governos federais, estaduais e municipais estão totalmente despreparados e desarticulados para enfrentar um problema desta magnitude.

O aumento da população favelada está relacionado ao aparecimento de novas favelas, a expansão física daquelas já existentes e principalmente devido ao adensamento das unidades residenciais. Pesquisas feitas nas regiões metropolitanas revelaram que o crescimento das favelas desde 1980 não pode ser relacionado meramente ao processo de migração, que certamente diminuiu a partir a década de 60. Contrariamente, a maioria dos moradores se mudou para as favelas através de uma filtração descendente (1). O aumento do valor da terra assim como sua escassez, o empobrecimento da população, a mobilidade social descendente e os movimentos intra-metropolitanos bem como a dificuldade de acesso ao mercado imobiliário formal são fatores importantes relacionados ao crescente número de favelas na última década (2).

Elas são certamente um dos maiores desafios urbanos e podem ser compreendidas como uma expressão da exclusão social (3) às quais estão relacionadas questões emblemáticas como a violência urbana, degeneração do meio ambiente natural e construído, falta de saneamento entre outros. De acordo com Maricato, a exclusão social se expressa através da segregação espacial, configurando pontos de pobreza ou grandes regiões onde a miséria é disseminada.

O significado da habitação vai certamente muito além de sua função de abrigo. Apesar de seu objetivo principal ser a de proteger o ser humano, os valores sociais e psicológicos a ela relacionados são obviamente bem maiores do que este conceito inicial. A moradia representa o homem no mundo e é através do seu endereço fixo que ele confirma seu lugar no espaço urbano e na hierarquia social. Os significados são interpretados pela sociedade através de uma semiótica complexa que contribui para a estratificação social da metrópole. Assim sendo, da mesma forma que as condições de vida de uma pessoa se reflete na qualidade da sua habitação, a relação da sua habitação com o resto da cidade reflete a própria relação social entre o indivíduo e sua sociedade.

Para se desvendar os meios pelos quais os processos de interação sociais acontecem, são utilizados conceitos clássicos de espaço e de distância social na qual se sobressai a concepção sociológica onde a distância social entre os indivíduos resulta das relações das posições sociais nas quais estão inseridas (4). Segundo Bourdieu, “a sociedade é formada por relações de proximidade e separação que são, antes de mais nada, relações hierárquicas”. Assim sendo, “a estrutura social se manifesta, em contextos mais diversos, sob a forma de oposições espaciais, o espaço habitado funcionando como uma espécie de simbolização espontânea do espaço social. Não há espaço uma sociedade hierarquizada que não seja hierarquizado e que não exprima as hierarquias e as distâncias sociais” (5).

Embora não haja uma explicação unânime para a segregação social, é evidente que a cidade formal sempre manteve um posicionamento contrário à favela, sugerindo a formação de uma cidade à parte pela presença desses assentamentos. A partir da década de 40, as favelas começam a ser vistas pelos moradores da cidade formal como “aglomerados invasores” (6) e “ocupações ilegais de terra” (7) embora a crítica à chamada “teoria da marginalidade” tenha buscado mostrar o equívoco dos discursos dualistas sobre as favelas a partir da década de 70 (8).

De qualquer forma, a visão dualista por parte da cidade formal ganhou novo fôlego com a inclusão do narcotráfico e da violência urbana (9) e foi dotada de legitimidade social pela utilização freqüente pela mídia de metáforas como “cidade partida” e “desordem urbana” (10). De fato, a partir da primeira metade do século 20, o próprio estado mudou sua forma de encarar as favelas, baseando-se em políticas de controle e repressão sendo os aglomerados usualmente comparados a “doenças sociais” (11). Por outro lado, ao mesmo tempo em que políticas de remoção das favelas são postas em práticas em vários estados, emergem demandas por parte de governo e instituições não governamentais de novos discursos que subsidiem a política de “integração da favela ao bairro” (12).

É exatamente nesse contexto que programas de urbanização das mesmas como o Favela-Bairro, desenvolvido pela prefeitura do Rio de Janeiro começam a ser implementados. Apesar de todos os avanços alcançados pela implementação desses programas de intervenção, que possibilitaram às comunidades um maior acesso à infraestrutura básica e a serviços públicos essenciais, o buraco social não foi diminuído e a integração da cidade formal com tais comunidades não se concretizou.

Na realidade, o distanciamento social entre a cidade formal e as favelas continua sua curva ascendente. A barreira invisível entre estas e a cidade, materializa-se através da auto-segregação da classe média em condomínios exclusivos e somam-se aos muros invisíveis da estigmatização e do preconceito geradas pela associação simplista entre favelas e tráfico de drogas (13). Segundo Marcelo de Souza, o ingrediente principal para esta fragmentação do tecido sócio-político-espacial encontra-se na multiplicação de enclaves territoriais controlados por traficantes de drogas de quem se necessita a anuência para que sejam viabilizados quaisquer tipos de intervenção estatais (14).

Embora não seja prerrogativa das favelas a existência do tráfico de droga e sua conseqüente violência, a falta de governança nessas áreas empobrecidas encorajou o surgimento de um novo poder paralelo que desafia constantemente o poder público oficial e espalha o terror por todo o território urbano (15). De fato, o comprometimento do poder público com a cidade formal em detrimento das populações mais carentes, resultou em assentamentos irregulares de tipologia urbano-arquitetônica característica. A alta densidade desses assentamentos juntamente às precárias condições de vida traduziu de forma contundente o descaso de toda a sociedade com a população mais empobrecida. Se por um lado a cidade formal cresceu dentro de parâmetros urbanos definidos, por outro, as favelas se multiplicaram em um estado de completa desordem (16) impossibilitando a integração com o resto da urbe e perpetuando o ciclo de pobreza e exclusão. “A proximidade espacial com bairros de classe média alta, urbanisticamente organizados e providos de equipamento e serviços urbanos, produziu forte contraste social, servindo de evidência autodemonstrada da existência de duas cidades” (17).

As escassas fontes de financiamento, o difícil acesso à regularização da propriedade em comunidades de baixa-renda além da especulação imobiliária crescente, tornou a cidade formal intangível para muitas pessoas. A “lista interminável” mencionada por Maricato inclui não apenas a diminuição das oportunidades de trabalho mas também a exposição à violência, a falta de transporte, justiça, saúde, educação, lazer, educação e cultura levando o problema a deixar de ser apenas econômico mas adquirir também uma conotação social, a qual envolve segregação e perda de identidade por parte do indivíduo.

Como se pode ver, há muitos aspectos que contribuem para a consolidação do “problema-favela”. Apesar de estar certamente relacionado ao arcaico modelo capitalista de produção em que vivemos, parece-nos um tanto quanto irrelevante imaginar que o problema foi causado meramente por questões econômicas ou devido a um governo descomprometido. Todos os cidadãos são de alguma forma responsáveis pelo agravamento desta situação, seja pela indiferença à pobreza alheia, seja pela visão preconceituosa contra as favelas. Assim sendo, compreender o papel desempenhado por cada ator social não significa apenas reconhecer passivamente as nossas culpas, mas principalmente identificar e utilizar as potencialidades de cada um, visto que qualquer ação está fadada a ser simplesmente paliativa sem o esforço comum de toda a população.

Notas

1
TASCHNER, S.P.; VÉRAS, M.P.B. Evolução e mudanças nas favelas paulistas. Revista Espaço e Debates. São Paulo, no. 31, 1990.

2
SILVA, M. O. da S. Políticas de Habitação e Preço da Terra. SEMINARIO INTERNACIONAL DA TERRA URBANA E HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL. Anais. Campinas: FAU-PUC, 2000.

3
MARICATO, E. Metrópole na periferia do capitalismo. São Paulo: Hucitec, 1996.

4
RIBEIRO, L.C. de Q; LAGO, L.C. A Divisão Favela-Bairro no Espaço Social do Rio de Janeiro. Cadernos Metrópoles/Grupe de Pesquisa PRONEX. São Paulo: EDUC, 1999.

5
BOURDIEU, P. La Distinction. Critique du Jugement. In: RIBEIRO, L.C. de Q; LAGO, L.C. A Divisão Favela-Bairro no Espaço Social do Rio de Janeiro. Cadernos Metrópoles/Grupo de Pesquisa PRONEX. São Paulo: EDUC, 1999.

6
BLANK, G. Brás de Pina – experiência de urbanização de favela. In: VALLADARES, L.P. Habitação em questão. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980.

7
TASCHNER, S.P Favelas e Cortiços no Brasil: 20 anos de pesquisas e políticas. São Paulo: FAU-USP, 1993.

8
RIBEIRO, L.C. de Q; LAGO, L.C. Op. cit.

9
ZALUAR, A.; ALVITO, M. (orgs). Um século de favela. Rio de Janeiro, Editora FGV, 1998.

10
RIBEIRO, L.C. de Q; LAGO, L.C. Op. cit.

11
LEEDS, A.; LEEDS, E. A Sociologia do Brasil Urbano. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.

12
RIBEIRO, L.C. de Q; LAGO, L.C. Op. cit.

13
SOUZA, M.L. Mudar a Cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

14
SOUZA, 2002. Op. cit.

15
MAGALHÃES, S. Sobre a cidade: habitação e democracia no Rio de Janeiro. São Paulo: Pro Editores, 2002.

16
ZALUAR, A.; ALVITO, M. (orgs). Op. cit.

17
RIBEIRO, L.C. de Q; LAGO, L.C. Op. cit., p.160

 


Barraco de favela. Foto Fábio Costa


Desenho da favela desenho de Felipe, aluno da 4ª série da Escola Municipal Francisco Alves, 1997


Favela carioca. Foto Fábio Costa


Favela Parque Royal, 1995. Foto Fábio Costa


F avela sob viaduto. Foto Fábio Costa

 
         
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