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-ISSN 1809-6298 . .
Texto Especial 313 – junho 2005
     
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Desflorestamento e arquitetura
Luis Bentancor

 

 
         
     

Luis Bentancor é arquiteto e reside em Miami, Flórida, Estados Unidos

 
       
 

O desflorestamento

Os bosques são um dos ecosistemas mais importantes e valiosos do planeta. A importância e o valor que eles possuem abrange aspectos ecológicos, climáticos, sociais e culturais. É impossível pensar no planeta Terra e a vida sem eles.

Todos os bosques em geral, em particular os bosques tropicais, desempenham um papel crucial no mundo:

  • Eles albergam 60% da biodiversidade do planeta e em alguns deles existem espécies de plantas e animais que ainda não foram descobertos pela ciência;
  • A existência dos bosques garante a presença de água, elemento vital para a vida; eles protegem as bacias e regulam a distribuição deste elemento pela superficie do solo.
  • Junto com os oceanos, cumprem um papel fundamental na regulamentação do ciclo hidrológico;
  • Eles acumulam carbono por meio do processo de fotossíntese, pelo qual resulta vital para balancear o dióxido de carbono presente na atmosfera e impedir o aumento do efeito estufa. Um hectare de bosque tropical pode neutralizar dez toneladas de dióxido de carbono ao ano. Calcula-se que todo o carbono armazenado em todos os bosques é dez vezes maior que todo combustível fóssil que foi queimado nos últimos cem anos;
  • Constituem uma fonte importante de matérias-primas renováveis, como madeira, alimentos, ervas medicinais, etc...
  • Muitas civilizações indígenas e povos dependem dos bosques, já que estes proporcionam refúgio, alimentos, medicinas e outros produtos; além disso, em torno deles foram fundados seus valores culturais e espirituais. É o único lugar possível para estes povos, que não podem viver sem os bosques, pois desapareceriam; isto implica também na desaparição de sua cultura, sua língua e seus conhecimentos.
  • Os bosques também têm um significado cultural para a maioria das civilizações do mundo.

Lamentavelmente os bosques estão desaparecendo por ação do ser humano. Estima-se que já foi destruído cerca de 80% dos bosques primários (1) do mundo e que da superfiície dos bosques original do planeta, menos de uma quinta parte permanece em seu estado natural.

Nos últimos 20 anos já foram perdidos 200 milhões de hectares e atualmente próximo de 15 milhões de hectares são destruídos anualmente. A África perde cerca de 4 milhões de hectares de bosques por ano e os bosques da África Ocidental já foram totalmente eliminados. A Europa perdeu grande parte de seus bosques durante o século XIX. Na América do Norte, milhões de hectares já foram arrasados pelo corte rasteiro. Em lugares como na América Central a taxa de desfloretamento é de 48 hectares por hora. Se continuar assim, calcula-se que dentro de 44 anos não mais existirão bosques nessa região. Na Amazônia o maior bosque primário da Terra, o desflorestamento de seu território avança rapidamente.

As conseqüências do desflorestamento são completamente negativas de todos os pontos de vista. O desflorestamento implica na desaparição de espécies animal e vegetal, devido à perda de seu habitat. Incide negativamente na conservação da água, originando inundações ou secas. Provoca a erosão do solo, assim como também o aumento de sua temperatura. Como conseqüência, rompe-se o equilíbrio ecológico. Todo isto prejudica nos povoados vizinhos as atividades como a agricultura, o gado e a pesca.

Também ocasiona um desequilíbrio ao ciclo hidrológico e ao clima global. O efeito estufa aumenta com o desflorestamento, pois diminui a quantidade de árvores disponíveis para captar o dióxido de carbono da atmosfera. Os bosques, ao serem incendiados ou cortados, liberam o carbono que já tem acumulado em forma de dióxido de carbono, assim a concentração na atmosfera deste composto aumenta, justamente o composto que mais contribui para o efeito estufa. Estima-se que o desflorestamento constitui um terço de todo o dióxido de carbono que a atividade humana libera na atmosfera. Desflorestamento e mudanças climáticas estão intimamente relacionados.

Do ponto de vista social e cultural, para os povos e comunidades indígenas que habitam e dependem dos bosques, o desflorestamento significa a perda de sua fonte de sobrevivência e traz consigo a desnutrição, o aumento de doenças, o êxodo e até a possível desaparição da própria comunidade.

As causas do desflorestamento se podem dividir em duas, as causas diretas e as causas indiretas. Entre as principais causas diretas estão:

  • A exploração madeireira dos bosques. A madeira quando se leva a cabo com fins indústriais, se realiza em grande escala, convertindo-se em uma das principais causas de desflorestamento a nível mundial;
  • A substituição dos bosques para a agricultura e o gado. O solo dos bosques é um solo pobre para ditas práticas, por que aos poucos anos se converte em uma terra totalmente degradada;
  • A urbanização;
  • As minas e a atividade petroleira;
  • A construção de infraestruturas, represas hidroeléctricas onde se inundam áreas de bosques, estradas, etc.;
  • Os incêndios florestais;
  • A chuva ácida.

As causas indiretas são aquelas permitem que as causas diretas existam. Algumas delas, dentre muitas outras, são:

  • Os modelos de produção e consumo, que originam uma grande demanda de madeira, principalmente nos países desenvolvidos;
  • Políticas econômicas e sociais equivocadas, algumas delas estimulando a substituição dos bosques pela agricultura e pelo gado em larga escala, com fins de abastecer o mercado internacional, outras, ao contrário, forçam a muitos trabalhadores rurais pobres a destruir os bosques para poder cultivar a terra e sobreviver;
  • A industrialização incontrolada que provoca contaminação e ocasiona as chuvas ácidas.

A madeira certificada

Conscientes dos problemas do desflorestamento e suas conseqüências, em 1993 se reúnem em Toronto, Canadá, representantes de organizações ambientalistas, organizações indígenas, indústrias madeireiras, comerciantes de produtos florestais e outros grupos e instituições, pertencentes a 25 países. Criaram o sistema de certificação florestal FSC, cujas siglas em inglês significam Forest Stewardship Council (Conselho de Administração Florestal), com propósito de melhorar o manejo dos bosques para tentar salvar o planeta do desflorestamento.

A certificação florestal é um sistema de monitoramento que certifica que os produtos de origem florestal foram extraídos de bosques após manejo adequado do ponto de vista ambiental, econômico e social, a partir de certos standards estabelecidos. Garante que os produtos certificados não contribuem para aumentar todos os problemas que giram em torno dos bosques e do desflorestamento. Os produtos certificados recebem uma etiqueta com um selo. A certificação é um sistema técnico, independente e sem fins lucrativos.

Ainda que a madeira certificada seja mais cara do que a não certificada, a certificação assegura benefícios ambientais, econômicos e sociais tanto para os produtores e consumidores de produtos florestais, como para toda a humanidade.

Hoje em dia existem diversos sistemas de certificação, tanto regionais como nacionais (Pan European Forest Certicate – PEFC, Canadian Standard Association – CSA, etc.), porém é o FSC o mais importante e reconhecido dentre eles, e é o único aplicável a nível internacional.

Sem dúvida, para muitas ONG a certificação não vai na direção correta, já que se concentra basicamente na maneira de devastar e depende de que os consumidores queiram comprar madeira certificada para que o sistema seja vitorioso, quando realmente se deveria tratar de reduzir o excessivo consumo de madeira no mundo. De toda maneira, se pode dizer que a certificação é ao menos uma iniciativa para tentar solucionar os problemas existentes.

A arquitetura

À primeira vista a arquitetura não parece relacionada com o relato acima exposto. Na realidade, está e de maneira significativa. Nos países industrializados da América do Norte, na Escandinávia e em muitos países do Pacífico, a madeira é o material mais utilizado para a construção de casas. Por outro lado, a madeira sempre é usada de diversas e variadas maneiras, em todas as etapas do processo construtivo e em todo o mundo.

De acordo com o World Watch Institute de Washington, 25% da madeira anualmente extraída das florestas são destinados à indústria da construção. É evidente então que a arquitetura ocupa um papel importante na demanda de madeira, portanto tem sua cota de responsabilidade no processo de desflorestamento. Portanto, a arquitetura pode contribuir de forma significativa na diminuição e prevenção deste processo.

Mas como pode a arquitetura ajudar a combater o problema do desflorestamento e suas conseqüências? De diversas maneiras e ao longo de todas as etapas do processo arquitetônico, desde a etapa do desenho, durante a etapa construtiva do projeto, até o final da vida do edifício. Algumas medidas podem ser tomadas para minorar tais efeitos e algumas delas são:

  • No memorial de projeto as especificações técnicas devem exigir o uso de madeira certificada;
  • Durante o processo de construção se pode elaborar um plano para separar todos os desperdícios produzidos, entre eles os recortes de madeira, e enviar este material às fábricas de reciclagem;
  • É possível realizar novas edificações aproveitando certos elementos de antigas construções. Elementos estruturais, pisos, janelas e outros elementos de madeira que ainda estão em bom estado em edifícios abandonados, podem ser readaptados a novos projetos e geralmente podem ser adquiridos a baixo custo.
  • Em projetos de reciclagem e remodelação, tratando de salvar e utilizar a maior quantidade possível de elementos de madeira existentes em um edifício.
  • Quando se realiza uma demolição é importante ver que os elementos podem ser resgatados para ser reutilizados em outros projetos. Esta medida, em conjunto com as três anteriores, diminui a demanda de madeira nova.
  • Na medida do possível, quando se projetam novos edifícios ou urbanizações, o desenho pode adaptar-se as árvores existentes e incluí-las no projeto, ao invés de cortá-las, limpando totalmente o terreno.
  • Pode-se substituir a madeira por outros materiais alternativos que se encontrem na região. Por exemplo: em muitos países existe bambu abundante, importante material de construção, ainda mais se levarmos em conta que um pinheiro demora 40 anos para produzir em metro cúbico de madeira e o bambu aos 5 anos já produz material utilizável, o que torna evidente que o uso deste último é uma opção muito mais sustentável.

Aplicando estas medidas, a arquitetura contribui para a diminuição da desflorestamento.

Salvar o mundo do desflorestamento e suas terríveis conseqüências, não se consegue somente aplicando umas poucas medidas, porém se com a soma de todas as pequenas medidas isoladas que cada habitante do planeta pode realizar em seu fazer diário e em sua atividade profissional. Os profissionais da arquitetura terão a possibilidade e a responsabilidade de contribuir com um grão de areia na busca desse objetivo.

Nota

1
Bosques primários são aqueles que existiram sem a perturbações humanas significativas a outros tipos de distúrbios durante períodos de tempo maiores ao período normal da vida de árvores adultas.

Bibliografia e referências

BARNETT, Dianna Lopez; BROWNING, William D. A prime on sustainable building. Rocky Mountain Institute, 1999.

FALCK, Nelly Belinda. Nuevas alternatives en materiales para construcción y en la protección del medio ambiente, dez. <www.monografias.com>.

Greenpeace <www.greenpeace.es>.

Movimiento Mundial por los bosques tropicales <www.wrm.org.uy>.

Revista Enviromental Design + Construction, Volumen VI, n. 7, nov./dez., 2003.

ROODMAN, David M.; WORLDWATCH, Nicholas Lensen. A building revolution, paper 124 – World Watch Institute, mar. 1995.

WWF – World Wildlife Fund <www.wwfca.org>.

 


Bosque tropical de Niebla, Reserva de Santa Elena, Costa Rica. Foto Félix Grande. Fonte: WWF Centroamérica


Floresta em Belize. Fonte: World Rainforest Movement


Catarata, Bahía de Waffer, Costa Rica. Foto Javier Ordóñez. Fonte: WWF Centroamérica


Floresta no Equador. Fonte: World Rainforest Movement


Humedal, Guatemala. Foto Peter Rockstroh. Fonte: WWF Centroamérica


Niebla, Bosque tropical de montaña, Parque Nacional Chirripó, Costa Rica. Foto Félix Grande. Fonte: WWF Centroamérica


Reserva indígena dos Pataxós, Brasil. Fonte: World Rainforest Movement


Desmatamento por queimada. Fonte: World Rainforest Movement


Desmatamento ilegal para criação de gado no Mato Grosso, Brasil. Foto Alberto César. Fonte: Greenpeace


Desmatamento ilegal para plantação de soja em Novo Progresso, Pará. Foto Alberto César. Fonte: Greenpeace


Casa Helio Olga, São Paulo, 1990. Arquitetura com madeira certificada, arquiteto Marcos Acayaba. Foto Nelson Kon


Casa Helio Olga, São Paulo, 1990. Arquitetura com madeira certificada, arquiteto Marcos Acayaba. Foto Nelson Kon


Casa na Praia de São Pedro, Guarujá, 1997. Arquitetura com madeira certificada, arquiteto Marcos Acayaba. Foto Nelson Kon


Casa na Praia de São Pedro, Guarujá, 1997. Arquitetura com madeira certificada, arquiteto Marcos Acayaba. Foto Nelson Kon

 

 

 
         
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