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Novo
ecletismo de fim de século |
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| Rogério Pontes Andrade, arquiteto e mestre pela UnB, professor de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo e Projeto de Arquitetura no UniCEUB, Brasília DF |
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| Arquitetura da razão “O genuíno e autêntico estilo do nosso século já estava constituído por volta de 1914” (1), anunciou Nikolaus Pevsner coincidentemente ao início do recorte proposto pelo historiador Eric Hobsbawn para “o breve século XX: 1914-91” (2). O estilo único ganhou impulso e o perdeu pari passu ao projeto socialista global (3), evidente entre 1917-1968 (4). Isto nunca caracterizou vínculo de causalidade. Demonstrou que ambos projetos se desenvolveram num mesmo substrato ideal-racional e anti-histórico, em circunstâncias filosóficas propícias à razão e à superação dos arcadismos artísticos e sociais. O anti-historicismo social romperia com as relações de poder consolidadas pelas classes dominantes: com o domínio teocrático, com a propriedade da terra e dos meios de produção. Manfredo Tafuri explica o anti-historicismo artístico como recurso hegeliano ao fim do domínio da intuição na arte, a ser contraposto: “Pela autoconsciência, pelo criticismo e pela racionalização dos processos criativos. O anti-historicismo das vanguardas modernas não seria, portanto, o produto de uma escolha arbitrária, mas a saída lógica da experiência que teve epicentro na revolução brunelleschiana e as suas bases no debate que durante mais de cinco séculos se desenvolveu na cultura européia” (5). Aceitou-se a estética internacional como alternativa coletivista e ideal-racional ao individualismo eclético, de arbitrário e desestruturador relativismo desde o fim do século XIX (6). Divulgou-se o estilo definitivo, que substituiu o sistema eclético manipulador de tipos históricos pela operação racional que estabelecia lógicas entre diretrizes projetuais e formas geométricas abstratas. Ambos processo de projetação iniciavam-se com uma opção conceitual eminentemente racional: fosse pelo objeto do “redesenho tipológico” (eclético) ou por determinar um “partido de projeto” (moderno) (7). Ao redesenho tipológico precedia-se definir um tipo adequado às determinantes construtivas, programáticas, culturais ou locais. O partido também definia as diretrizes projetuais tectônicas, funcionais, estéticas ou topológicas. A diferença surgia na materialização dessas diretrizes em formas matemáticas (geométricas), visando a que a conceituação e a formalização fossem lógicas, autônomas e universalmente inteligíveis, transcendendo o esoterismo estilístico do ecletismo. Na década dos vinte, sistemas artísticos puramente abstratos tornaram possível a estética racional, que corroboraria a racionalidade construtivo-programática evidenciada já antes do racionalismo estrutural de Viollet-Le-Duc (8):
Tal racionalidade construtiva e programática encontraria sua correspondente racionalidade plástica no primeiro pós-guerra, quando vanguardas artísticas européias caracterizavam sistemas estéticos com avançadas abstração e geometrização, integrando seus princípios artísticos de composição, equilíbrio e expressão à lógica construtiva industrial e à projetação racionalista. O racionalismo abstrato estabeleceu-se como abordagem hegemônica na arquitetura erudita ocidental graças à profícua geração de repertório pelos pioneiros que, em algumas décadas, produziram alternativas sintáticas racionalistas para milênios de tradição histórica tipológica. Foram surpreendentes o desempenho do sistema arquitetônico racionalista e as relações possibilitadas entre técnica, estética, contexto e sujeito moderno. Sua historiografia Com o estilo racionalista abstrato fundou-se sua historiografia, talvez a mais consistente abordagem teórica arquitetônica do século XX, com dissensões efetivas apenas nos anos sessenta. A organização da exposição International Style (1932) definiu a estética ligada à produção dos pioneiros nos anos vinte. A coordenação lógica entre a conceituação teórica e a estética resultante – somadas ao crescente campo de aplicação daquelas pressuposições – motivou Pevsner, em Pioneers of the modern movement (10), de 1936, à dedução do estilo definitivo. A tese foi aceita e enriquecida pela historiografia do primeiro pós-guerra com Space, time and architecture (11), publicado em 1941 por Sigfried Giedion, que especificou as interfaces sociais pelo conceito de Existenzminimun. A partir de sua gênese unívoca, o racionalismo expandiu-se e ampliou o escopo, contrariando a unicidade à medida que se difundiu em espaço e tempo. Bruno Zevi, com Storia dell‘architettura moderna, de 1950, alternou a consolidação teórica desempenhada pelos historiadores do primeiro pós-guerra com a atuação crítica e a historiográfica: “O equívoco mais difundido na historiografia da arquitetura moderna está na valoração das personalidades e das obras do período racionalista – 1920-33” (12). Atentou para as vertentes estéticas que fundamentaram a expressão da racionalidade arquitetônica moderna: “o cubismo, o neoplasticismo, o expressionismo, o purismo e, em pequena quantidade, o futurismo” (13). Relativizou a unicidade inicial ao apresentar as alternativas organicistas de Wright e Aalto como abordagens que incorporavam os âmbitos culturais e topológicos. Henri Russel Hitchcock, com Architecture, nineteenth and twentieth centuries (14), de 1958, e Leonardo Benevolo, com Storia dell’architettura moderna (15), de 1960, reiteraram a visão historiográfica de Zevi, embora em menor intensidade crítico-propositiva, mas preservaram o determinismo supra-histórico que caracterizava o projeto moderno universalista. A despeito da cisão que a crítica pós-moderna promoveu na década de sessenta, abordagens racionalistas e idealistas prosseguiram até findar o século. Flexibilizaram o estilo único para absorver a pulverização de tendências significativas mas importunamente diversas. Foi sintomática a integração – proposta por Pevsner – de Gaudí e Sant´Elia na edição brasileira de Pioneiros do desenho moderno, de 1962:
Giulio Carlo Argan, em L´arte moderna. Dall´Illuminismo ai movimenti contemporanei (17), de 1970, situou expressões artísticas e arquitetônicas do século XX como concludentes do projeto de modernidade anunciado no renascimento, efetivado no iluminismo e esgotado (18) na sua noção de arte válida no modernismo. Para Argan, o apogeu do projeto, fundamentado na “racionalidade natural da sociedade” (19), caracterizou-se, em matrizes variadas, na arquitetura da década dos vinte: a matriz formal (França), a metodológico-didática (Alemanha), a ideológica (URSS), a formalista (Holanda), a empírica (Escandinávia) e a orgânica (EUA) (20) relacionadas às vertentes de Zevi (1950). Manfredo Tafuri e Francesco Dal Co, com Architettura contemporanea, de 1976 (21) – reiteravam a noção de projeto histórico. Kenneth Frampton, com Modern architecture – a critical view, de 1980, aprofundara-se em temáticas específicas. Agrupou autores e tendências em capítulos autônomos, embora comprometidos em “ilustrar de que modo a arquitetura moderna evoluiu como esforço cultural contínuo” (22). Resolveu a questão da época – diversidade e inter-relação de instâncias mundiais e locais modernistas – ao propor sintetizá-las no conceito de regionalismo crítico. William J. R. Curtis, em Modern Architecture since 1900, de 1982, minimizaria as mais recentes reações ao modernismo, atribuindo-lhes incapacidade de suplantar o discurso divergente em formas não extensivas de proposições recorrentes no século (23). Rumo ao novo ecletismo As reações citadas por Curtis configuraram-se nas extensões da crítica pós-modernista coincidentes ao refluxo histórico individualista gestado nos anos sessenta.
Em decorrência disso a historiografia do século XX abrigou, simultaneamente à continuidade racionalista, dissensões pós-modernas.
Prosseguiriam nos anos setenta as dissensões ao projeto moderno. A arquitetura erudita se reatou a valores tradicionais da ordem neoliberal: conformismo social e individualismo. Após ter sido relegada a coadjuvante pela superação ideal-racional, a história seria reintegrada como protagonista do novo sistema.
Robert Venturi, em Complexity and contradiction in architecture, de 1966 (27), propôs reengajar à cena erudita a individualidade essencial ao gosto popular norte-americano e seus signos históricos, vernaculares, publicitários e cotidianos mais tradicionais. Paolo Portoghesi, em Dopo l´architettura moderna, de 1976, explicaria as reflexões de Venturi como decurso de tendências identificadas na produção tardia de Corbusier, Gropius e Kahn:
Charles Jenks, em The language of post-modern architecture, de 1977, reuniu todos como dissidência rumo a um ecletismo legítimo:
Contraposto ao recurso oportunista do relativismo arbitrário, o legítimo ecletismo teve gênese conceitual na revolução francesa e difundiu-se na arquitetura do século XIX como abordagem erudita capaz de integrar valores regionais fundados na figuração do redesenho tipológico.
Nos ulteriores desenvolvimentos das abordagens historiográficas, Josep Maria Montaner, em seu livro Después del movimiento moderno. Arquitectura de la segunda mitad del siglo XX, de 1993, relatou “a dispersão das posturas arquitetônicas” (31), que diluiu as últimas propostas metodológicas de Rossi, Venturi e Eisenman nos anos oitenta:
As atitudes de jovens arquitetos na década de noventa retornaram a redesenhos de tipologias, elementos ou fragmentos arquitetônicos preexistentes, embora prescindissem do apuro metodológico pretendido pelo autor, que concomitantemente propôs:
Montaner confirmou o processo de expansão identificado na unicidade inicial do racionalismo abstrato com gênese nos anos vinte e no curto período em que aquela síntese ideal-racional da arquitetura, da sociedade e das ciências pareceu possível. Iniciado o processo de expansão, tudo conspirou para dissolver o cosmo racionalista do século XX: a dispersão de posturas arquitetônicas, o retorno ao individualismo liberal e até mesmo a física quântica (34), ainda que sob veemente protesto de Einstein: “Deus não joga dados”. Um novo ecletismo concluiu o século. Enriqueceu-se pela experiência racional abstrata, se comparado à edição do fim do século XIX. Permitiu autonomia metodológica calcada em exercitar a racionalidade além da mímesis tipológica. As “posturas individuais” que Montaner identificou à la fin de siècle sugerem possibilidades de expansão bem maiores que a limitada diversidade estilística eclética característica do século XIX. O pêndulo histórico reincidiu sobre o pluralismo e tangenciou o absoluto relativismo. As precauções poderiam ter sido as usuais: erudição capaz de assegurar criticismo e pertinência de experiências metodológicas – a poucos – ou delineamento e adoção de matrizes metodológicas claras e seguras – à maioria. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 |
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