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| Capela
Pombo, Belém PA: interpretação e perspectivas (1) |
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| Domingos Sávio de Castro Oliveira, arquiteto (UFPA), Engenheiro Civil (CESEP), Especialista em Interpretação, Conservação e Revitalização do Patrimônio Artístico de Landi (UFPA/Fórum Landi). É servidor do Ministério Público do Estado do Pará e Professor da Faculdade Pan Amazônica, da disciplina Composição e Projeto Gráfico. |
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| O oratório na casa brasileira no século XVIII A presença da capela na casa brasileira tem antecedentes na casa nobre portuguesa. Segundo Carlos de Azevedo (2), a tipologia que integra a capela à fachada só encontrou no século XVIII sua melhor configuração. Essa solução esteve presente em Portugal, de norte a sul, durante todo o século. Os relatos a respeito de casas com capela anexa no Brasil aparecem já no século XVII e são referentes à ocupação portuguesa. Luis Saia (3), Aracy Amaral (4) e Carlos Lemos (5) têm estudos a respeito dessa tipologia no período colonial e, apesar de as pesquisas estarem concentradas nos exemplares do sudeste e sul do Brasil, não havia muita diferença com as demais, já que a prática religiosa era similar em todo o país, acontecendo somente adaptações de acordo com o clima de cada região. As grandes distâncias entre as propriedades rurais e o meio urbano ocasionavam o isolamento das famílias, que só frequentavam as cidades nos dias importantes, principalmente durante as festas religiosas. Isso não ocorria em Portugal e, forçosamente, obrigou a presença da capela nas residências rurais brasileiras, para uso diário da família, agregados e escravos. Ao longo do tempo, a localização da capela foi sendo modificada. Até o século XVIII, ela aparecia no interior da casa. A partir deste século, houve um deslocamento para além da residência, tornando-se, aos poucos, independente. Em meados do século XIX, ela passou a ser instalada nas proximidades desta. Com a perda de importância e com a proibição de seu uso, passou a ser substituída por um compartimento da casa – o quarto dos santos – ou por um oratório (6). Há registros da construção de engenhos de açúcar, no nordeste brasileiro, durante a ocupação da várzea do rio Paraíba, já no final do século XVI. Carvalho (7) analisa uma série de engenhos construídos entre os séculos XVII e XIX com capelas em suas instalações. Relatos descrevem a riqueza dos interiores dos templos, o que confirma sua importância. No Pará, existem relatos da presença de engenhos de cana-de-açúcar (8) em documentos do período colonial (9). Em alguns, a existência da edificação religiosa é conhecida. Barata (10) relaciona alguns deles e suas capelas: dos Santos Reis ou de Ponta de Pedras, na Ilha do Marajó, com capela dos Santos Reis Magos; Real de Burajuba ou Ibirajuba ou São Francisco de Boya, no rio Mojú, com capela de N. S. de Nazaré; Curussambaba, no rio Tocantins, com capela de N. S. do Pilar; Itabora, no rio Mojú, com capela de Santo Cristo; Juquiri-Assu, no rio Mojú, com capela de Santo Antônio; e Marauarú ou Maruarú, na ilha do Marajó, com capela de São Miguel. Marques (11) analisa quatro engenhos: Murutucu, Mocajuba, Uriboca e Jaguarari (12). Dos quatro, sabe-se que a presença da edificação religiosa ocorre em dois: no Murutucu, capela dedicada à Nossa Senhora da Conceição (13), e no Jaguarari (14), cujas ruínas estão em estado de destruição avançado. A existência de capelas nas habitações foi um fenômeno peculiar na arquitetura rural brasileira. Nas cidades, entretanto, esse equipamento deixaria de ter sua funcionalidade lógica, pois a comunidade não apresentava as mesmas características do meio rural, como também a igreja pública predominava sobre qualquer iniciativa particular. Exemplos de residências com capelas anexas no Brasil setecentista podem ser observados em Minas Gerais e no Maranhão. Em Sabará (MG), são conhecidos: o Solar do Padre Corrêa, sede atual da Prefeitura da cidade, no qual a capela fica situada em um dos salões na parte posterior da edificação, e a Casa Azul, em cuja sala-capela destaca-se um belo forro decorado. Em São Luis, no Maranhão, existe a Capela de São José anexa à Quinta das Laranjeiras. Originariamente, existiu um oratório ligado à casa-grande. No século XIX, o proprietário solicitou autorização ao Bispo para a construção de uma capela com acesso pela rua para uso público. Em Belém, no Pará, há registros da existência de capelas particulares conforme cita o Bispo D. Fr. João Evangelista Pereira da Silva, em um ofício (15) datado de 1773. Nesse ofício, o religioso apresenta uma relação de sacerdotes, igrejas e capelas do Bispado e dentre essas, cita: “Nesta cidade [...] O oratorio nas casas dos herdeiros do [ilegível] de Campo Antonio Ferreira Ribeiro. Os das casas da viuva do Capitam Guilherme Bruum [?] de Abreu [?] na rua do Espirito Santo. O do Reverendo [?] Arcipreste Antonio Rodrigues”. Alexandre Rodrigues Ferreira, em 1784, também faz referência, em seu Diario da Viagem Philosophica, à existência de capelas particulares na cidade de Belém: “Oratorios publicos são o do Palacio do Bispo, o do Palacio do Governador e Capitão General, o do Seminario, o da Cadeya da Cidade, o do Capitão Ambrozio Henriques, alem de outros particulares, como o do defuncto Mestre de Campo Pedro de Sequeira, o do Capitão Luiz Pereira da Cunha, o de Manoel da Costa Leitão Xavier” (16). De todas essas, apenas a capela do Palácio dos Governadores e a do Capitão Ambrósio ainda existem. Da segunda, é do que se ocupa esse artigo. Caracterização histórica e atual da área Considerando a formação da cidade de Belém a partir da chegada dos portugueses, em 1616, sua ocupação se deu, inicialmente, nas proximidades do Forte do Presépio, formando o bairro da Cidade, atual Cidade Velha. Em seguida, ainda no século XVII, foi expandida para a área que corresponde à Campina, atual bairro do Comércio, sendo essas duas áreas, à época, separadas pelo alagado do Piri. A Campina surgiu a partir do eixo Rua Conselheiro João Alfredo (17) /Rua Santo Antônio. Outrora um bairro essencialmente residencial, foi, com o passar do tempo, sendo modificado para comercial, e, atualmente, conhecido como bairro do Comércio. A área é marcada por vias estreitas, característica do traçado inicial da cidade. Essas vias têm revestimento asfáltico (18) e calçadas recobertas com pedras de lioz, cimento ou ladrilho hidráulico. O tráfego de veículos e pedestres é intenso na área. O eixo principal - a Rua João Alfredo - e algumas transversais são restritos aos pedestres, sendo liberados aos veículos apenas aos domingos, feriados e após o horário comercial, tendo em vista a intensa ocupação do leito viário por vendedores do comércio informal. Há uma predominância de edificações de dois pavimentos, que ocupam os lotes quase totalmente, particularidade do período de ocupação da área. O uso das edificações do local é predominantemente comercial, porém é possível encontrar as modalidades serviço e uso misto (comercial/serviço/habitacional). Além disso, ainda se encontram raras edificações de uso institucional. O uso residencial exclusivo quase não existe e o religioso é marcado pela capela do Senhor Bom Jesus dos Passos e por uma igreja evangélica. Essa área está localizada no Centro Histórico de Belém, é tombada e regulamentada pela Lei N.° 7.709, de 18 de maio de 1994, e, como tal, possui várias edificações com interesse de preservação. O bairro tem população reduzida, situação comum aos Centros Históricos, mas conta com uma população flutuante, correspondente aos trabalhadores ou frequentadores do comércio. Embora receba grande fluxo de pessoas, a área, pelo estado de desordem física, visual e sonora, tem poucos elementos atrativos, a não ser aqueles que dizem respeito às funções de comércio e serviço, muitas vezes preteridos por outras opções na cidade. A capela do Senhor Bom Jesus dos Passos e o casarão contíguo estão situados na Travessa Campos Sales, antiga Rua do Passinho (19), no perímetro compreendido entre as ruas 13 de Maio e Senador Manoel Barata, Bairro do Comércio. As duas edificações – capela e sobrado - são apenas alguns dos possíveis atrativos do local; entretanto, o estado de conservação e a descaracterização em que se encontram, preocupam pela sua manutenção na paisagem urbana. Ao mesmo tempo, esse estado imprime ao passante um sentimento de desconhecimento e desvalorização dos edifícios, diminuindo o potencial interesse por eles, salvo pelo referencial simbólico ainda associado à capela, porém sem maiores relações ao prédio em si, mas pelo seu valor religioso, ainda vinculado a algumas festividades do calendário católico na cidade. Síntese histórica da Capela Pombo A história da Capela do Senhor dos Passos (20) ou do Senhor Bom Jesus dos Passos (21) está ligada ao ilustre Coronel Ambrósio Henriques (c.1750-1820), ilustre senhor de engenhos, português, que se mudou para Belém na segunda metade do século XVIII. Diz a tradição que por ele foi mandada construir, anexa ao sobrado de sua propriedade, a fim de que a família pudesse participar da missa e de outras cerimônias religiosas, acompanhada dos amigos e dos escravos. A data de sua construção não é conhecida. Teria sido concluída em 1790 (22) quando, de acordo com Tocantins (23), teria ocorrido sua sagração, embora já existisse em 1784, tendo sido referida pelo naturalista baiano Alexandre Rodrigues Ferreira (24). Barata (25), a respeito da Capela escreveu: “esta capela foi ereta em 1793, sob a invocação de N. S. da Conceição” (26). Ambrósio Henriques casou com Antonia Joaquina de Oliveira e Silva, com quem teve dois filhos: João Florêncio e Maria do Carmo Henriques. Maria do Carmo, de quem provém a secular tradição da família Pombo, casou-se em 1801 com o português Joaquim Clemente da Silva Pombo, um dos homens mais discutidos da época. A Capela dos Pombos, ou simplesmente Capela Pombo, assim chamada pela população, por associação ao nome da família proprietária da mesma, teve vários responsáveis ao longo de sua existência e, durante os anos, foi sendo passada aos descendentes do Coronel Ambrósio. É, hoje, a única capela particular existente em Belém. Para Meira Filho (27), sua significação, seu nome, seu destino histórico, seu valor como obra de arte e patrimônio da cidade, estão intimamente ligados à evolução de Belém, sob diversos aspectos. A capela foi local de muitas cerimônias religiosas e atendia a várias dessas manifestações da população do entorno. Embora privativa, seus proprietários a cediam às famílias amigas para que ali realizassem diversas celebrações. Ao longo do tempo, foi importante monumento e se incorporou à vida da cidade. Durante certo período, muitos Prelados designados para a diocese paraense, ao desembarcarem no porto de Belém, vinham diretamente ao Santuário, a fim de se paramentarem e, então, dirigirem-se aos cerimoniais de posse na Catedral (28). Tocantins (29) relata
que, na década de A importância do edifício como monumento e jóia da arquitetura é incontestável e confirmada pelas referências que autores como Donato Melo Júnior (31), Augusto Meira Filho (32), Leandro Tocantins (33) e Isabel Mendonça (34) fazem a seu respeito, inclusive atribuindo sua concepção projetual arquitetônica e estilística ao arquiteto italiano Antônio José Landi (1713-1791), a partir da análise de suas características e de comparações com a capela do Palácio dos Governadores, também em Belém, projeto, comprovadamente, do italiano. Ao observar as características tipológicas e decorativas do monumento, quer da sua fachada, quer do seu interior, pode-se encontrar uma grande quantidade de elementos utilizados por Landi em muitos dos edifícios comprovadamente de sua autoria. O arquiteto chegou a Belém em 1755, integrando a Comissão Demarcadora de Limites para a qual foi contratado como “desenhador”. Na cidade, desenvolveu inúmeros projetos de arquitetura religiosa, civil e militar. Tendo realizado sua formação na Academia Clementina, em Bolonha, recebeu influências da família Bibiena (35), além do movimento tardo-barroco, dominante na época. Foi ainda influenciado pelo estilo pombalino, quando de sua permanência em Lisboa, no período que antecedeu sua vinda ao Brasil. A análise dos elementos decorativos utilizados por Landi em suas obras confirma que ele não se limitou à arquitetura, mas seguiu a tradição bolonhesa de dar atenção à decoração de fachadas e de interiores. Por estar vinculado à pintura de quadratura (36) e à cenografia, o artista mostrou em sua produção essa tendência, através da utilização de elementos decorativos e arquitetônicos, com a constante utilização das ordens clássicas nas suas versões ornadas. Apresenta, com frequência, ornatos do barrochetto, versão italiana do rococó (37), e uma preferência por elementos decorativos inspirados em Jean Bérain (38). Análise tipológica e arquitetônica: o sobrado e a capela A análise arquitetônica da Capela não pode ser feita de forma isolada, já que a mesma está inserida entre dois casarões, os quais formam um conjunto marcado pela simetria e harmonia de formas (Fig. 2 e Fig. 3 ). A Capela é um edifício do tipo que Camillo Sitte (39) chama de “encaixado” entre outros edifícios e tem apenas uma das faces livre. É um edifício singular na área, dada sua função diferenciada – capela em meio a edifícios comerciais. O casarão à esquerda da Capela, pertencente à tipologia “casa comprida” (40) (Fig. 2 ), tem no pavimento térreo alguns estabelecimentos comerciais e, ao centro, o acesso a um estacionamento, que originalmente seria a entrada principal. O casarão à direita (Fig. 3 ), um exemplar da tipologia “casa com capela anexa” (41), tinha comunicação com o templo. A edificação ainda possui claras linhas da arquitetura luso-brasileira do século XVIII: planta horizontal, (não entendi) dois pavimentos e fachada longa. São elementos de destaque: os azulejos que revestem a fachada, hoje apenas no piso superior; sua localização em lote de esquina; as cimalhas; o beiral; e os vãos com arco pleno no pavimento superior (Fig. 5 e Fig. 5). A data de construção desse sobrado não é conhecida. Alexandre Ferreira (42), ao descrever as residências existentes em Belém em 1784, faz referência a um casarão que pode ser esse em tela. Hoje, sua fachada é azulejada (43), alteração possivelmente realizada no século XIX. Ainda segundo Mello Júnior (44), em 1970, o casarão foi adulterado no térreo. Em 1991, sofreu sua maior descaracterização quando um dos locatários efetuou uma reforma. Foram retirados os azulejos portugueses da fachada do pavimento térreo e alteradas as aberturas dos vãos das portas, inclusive os arcos, outrora abatidos e, hoje, com vergas retas (Fig. 5 ). A fachada da Capela Pombo tem pano (45) único e é rasgada no eixo central por uma portada e um vão superior, ambos com arco abatido. Essa tipologia guarda semelhança com as fachadas da Capela do Palácio dos Governadores (Fig. 5 ) e da Igreja de São João (Fig. 5 ), ambos projetos de Landi em Belém. Apesar de as cimalhas da capela e do sobrado serem coincidentes, a fachada da capela é independente da do sobrado e é suntuosa, em contraste com a simplicidade dele. Essa característica diverge do que é observado na citada capela do Palácio, que tem sua fachada discreta e integrada à fachada lateral da edificação. A capela possui dimensões modestas – “a menor das capelas [...] de Belém” (46) –, se comparada com outras capelas existentes na cidade. A planta é retangular, com nave (47) única e pequena sacristia na área posterior (Fig. 5 ). O prédio possui, no interior, duas portas que ladeiam o retábulo e dão acesso à antiga sacristia, hoje, depósito. Segundo Pombo, “por atraz do altar fica a sacristia que se comunica com a capela por duas portas, uma das quais preparada para servir de confessionário; quando fechada, fica o sacerdote na sacristia e o penitente na capela” (48). Essa adaptação da porta, hoje, não mais existe. A tipologia retábulo ladeado por duas aberturas é recorrente na obra de Landi e pode ser vista na Capela do Palácio dos Governadores (Fig. 5 ) e no salão dos Pontificais da Igreja da Sé, em Belém, e nos projetos para as capelas tumulares do Governador Ataíde Teive e de Santa Rita de Cássia, ambas em Belém, e para o altar lateral da igreja matriz, em Barcelos. Ao acessar a nave, observa-se, acima, um balcão (49) (Fig. 5 ) ocupado pelo coro, cuja ligação com a residência era feita por uma porta, hoje fechada. Este balcão tem balaustrada e piso de madeira e era utilizado pela família e amigos, enquanto o povo e os escravos ficavam na nave. A respeito desse espaço, Tocantins diz: “a área foi suficiente para adotar a solução de um coro, à semelhança das capelas dos palácios de Portugal” (50). A composição da fachada é simétrica (Fig. 11 ) e lembra uma composição retabular. Suas linhas gerais são essencialmente tardo-barrocas, marcadas por elementos arquitetônicos movimentados, como as volutas; pelo uso da linha curva (51) associada à linha reta de forma elegante; pelo uso livre das ordens arquitetônicas; e pela sobreposição de elementos escultóricos como rosetas e bossagens, colunas e pilastras. A fachada é enquadrada por pilastras assentadas sobre pedestal elevado e arrematadas por entablamento ornamentado com tríglifos intercalados com rosetas (Fig. 11 - Det. 4). Acima do friso, há uma linha de dentículos (Fig. 11 - Det. 1). Um corpo central ladeado por volutas coroa a fachada. O corpo tem frontão em arco, seguido de segmentos de reta. Lateralmente, há segmentos de frontões seccionados que coroam as pilastras e, sobre estes, vasos (52) tipo fogaréu (Fig. 11 ). Composição semelhante ao conjunto descrito anteriormente é encontrada em várias obras de Landi, dentre as quais a pintura de quadratura dos altares laterais da Igreja de São João, em Belém, e o projeto para a fachada da Igreja paroquial de Cametá, no Pará. A portada, central, é encimada por um elemento decorativo composto por volutas e concha (53) (Fig. 11 - Det. 6). Sobre esta, há um frontão triangular, ladeado por dois segmentos de reta, apoiados em mísulas na forma de volutas, vistas de frente e de lado (Fig. 11 - Det. 3). Acima desse frontão, rasga-se a janela com guarda-corpo de balaústres, ladeada por pilastras assentadas em bases de perfil arredondado e decoradas com folhas de acanto (Fig. 11 - Det. 2). Os fustes das pilastras são decorados com bossagens (54) em forma de anéis e estrelas (Fig. 11 - Det. 5), semelhantes a elementos das cenografias dos Bibiena. A tipologia do frontão sobre a porta de entrada é semelhante àquelas existentes nas tribunas da Capela do Palácio dos Governadores. O interior da capela segue as mesmas linhas da fachada, predominantemente tardo-barrocas. As paredes da capela são molduradas por painéis de argamassa e encimadas por frisos. São assentadas sobre base onde se inserem os pedestais arredondados das pilastras. As pilastras dividem as paredes laterais em três panos, sendo o central (Fig. 11 ) ocupado por um painel moldurado e enquadrado com arco pleno, coroado com segmentos de frontão e pedra de fecho que serve de apoio a uma peanha, hoje, não utilizada. Acima desse painel, há uma falsa janela-nicho, encimada por segmentos de frontão em arco, ladeados por segmentos de reta, elemento aconcheado e uma flor que lembra uma rosa, símbolo mariano. Segundo Mendonça (55), o painel moldurado da parede lateral direita seria originalmente a porta de comunicação com o piso térreo da residência. Leandro Tocantins (56) também se refere a uma porta na nave da capela que servia de acesso à residência, sem, entretanto, precisar sua localização. Teixeira (57) faz ainda uma referência à porta de comunicação com a senzala que teria sido fechada em 1973, por ocasião de uma reforma, não precisando, entretanto, sua localização. Hoje, assim como a fachada, o interior é totalmente branco, diferente do passado, conforme o jornal A Palavra: “Entramos e... pasmamos com a limpeza! As paredes caiadas com frisos amarelos” (58). Repetindo a fachada, elementos aconcheados também aparecem no interior, nos arremates das molduras das portas e nas paredes laterais (Fig. 14 ). Conforme relato de Pombo “na parede da frente, ao lado da porta de entrada existe uma pia para água benta” (59); hoje, essa peça ainda existe, apesar de deteriorada pela ação do tempo. As imagens de santos, hoje presentes na capela, são recentes. Segundo Teixeira (60), as originais, em parte, foram destruídas por cupins e outras estão em poder da família. A imagem do Senhor Morto que ficava no altar e que durante anos ficou desaparecida foi recuperada e faz parte do acervo do Museu de Arte Sacra do Pará. Na parede posterior, à entrada, há um retábulo de argamassa que, assim como a fachada, é marcadamente simétrico. Tem características tardo-barrocas, o que pode ser observado no uso livre das ordens clássicas, combinadas com elementos cenográficos de influência bibienesca. O retábulo (Fig. 14 ) é marcado por pilastras sobrepostas de capitel jônico e fuste estriado assentadas sobre bases de seção arredondada. Essas pilastras servem de base a volutas laterais. No centro do retábulo, há um nicho pouco profundo, com peanha, coroado com elementos florais e figura angelical (61) (Fig. 14 - Det. 4), ladeado por pilastras com fustes decorados com escamas sobrepostas, bases em forma de volutas e arrematadas por placas de volutas convergentes (Fig. 14 - Det. 7), que servem de apoio a capitéis jônicos, dos quais pendem grinaldas de flores. No interior do nicho, existem elementos decorativos de argamassa. Abaixo dele, há um elemento composto por volutas ascendentes e descendentes (Fig. 14 - Det. 8). Acima, um resplendor com a pomba do Espírito Santo (Fig. 14 - Det. 6). Encimando o resplendor, há uma cártula com elementos aconcheados, que adornam o monograma mariano (Fig. 14 - Det. 5). Esse conjunto – cártula e monograma - é arrematado por uma figura angelical e ladeado por volutas ascendentes. Vários desses elementos estão presentes em outras obras do arquiteto italiano. As placas de volutas convergentes, por exemplo, podem ser encontradas no altar-mor da Igreja da Ordem Terceira do Carmo e no da Igreja de Sant’Ana, e no átrio da Capela dos Pontificais, na Sé, todas em Belém. O conjunto formado pelo resplendor com a pomba do Espírito Santo ao centro pode ser visto na pintura de quadratura do altar-mor da Igreja de São João e no altar-mor da capela da Ordem Terceira do Carmo, além de ser encontrado também nos projetos do altar-mor e da capela do Santíssimo, da Igreja da Sé, todos em Belém. A guirlanda de flores é outro elemento recorrente nos projetos landianos e pode ser observada na pintura de quadratura do altar-mor da Igreja de São João e no projeto para a Portada da Alfândega, edifício não construído, ambos em Belém. Importante é observar que o trabalho de Landi em Belém apresenta, paralelamente, as duas correntes do barroco tardio, a de tendência classicizante e a de influência borromínica, que caracterizavam a arquitetura de Roma naquela época. Segundo Oliveira: “Se a vertente classicizante inscreve-se diretamente no contexto de sua formação na Academia Clementina de Bolonha, a sedução dos temas borromínicos, ao que tudo indica, poderia estar relacionada com a breve estadia em Lisboa entre 1750 e 1755, à espera do embarque para a Amazônia” (62). Para Braga (63), pelas influências que sofreu, Landi se valeu de elementos do tardo-barroco italiano, associados, às vezes, a elementos de influência portuguesa em composições simples e sem muitos ornamentos, talvez pela escassez de materiais na região, o que pode ter limitado o resultado final da obra, no que concerne aos elementos decorativos. Considerações finais O presente artigo reforça a importância da Capela Pombo e seu conjunto nos aspectos arquitetônico, artístico e histórico, e busca contribuir para reforçar a necessidade de sua preservação e consequente requalificação de seu entorno. Do ponto de vista arquitetônico, o bem precisa ser valorizado, tendo em vista ser o único exemplar da tipologia casa com capela anexa ainda existente em Belém. As pequenas dimensões do edifício, o desconhecimento de sua existência por parte da população, o fato de estar perdido no emaranhado de elementos visuais do seu entorno e estar encaixado entre residências podem ser os responsáveis pelo esquecimento por que passa o edifício. Sendo suas características arquitetônicas e artísticas singulares, é importante promover a disseminação dos conhecimentos sobre o mesmo, como forma de registro do período de formação da cidade e de possibilitar a revelação dos valores artísticos e culturais a ele intrínsecos. As já citadas reduzidas dimensões e a delicadeza de suas formas podem servir de diferencial para sua revalorização. Redescobrir esse bem e revelá-lo à comunidade, ampliando seu uso, hoje reduzido, mostrando a importância do mesmo, pode, então, ser o meio através do qual sua valorização pode ser alcançada e, a partir de sua singularidade, tornar-se um ponto de atração na área. Com relação aos questionamentos quanto à autoria de seu projeto, atribuída a Landi, nada pode ser confirmado; porém, a partir das comparações realizadas, não há como negar que há muitas semelhanças com as tipologias e os elementos utilizados pelo arquiteto em suas obras. E, sabendo-se ser o italiano o único arquiteto conhecido na região à época, é inevitável a ele atribuir sua autoria. Entretanto, não é totalmente descartável a possibilidade de ter o arquiteto deixado discípulos e de tal obra ter provindo de um desses, embora os documentos se calem quanto a isso. O monumento está em condições físicas que inspiram cuidados. Medidas preservacionistas precisam ser tomadas de forma imediata, no sentido de tirá-lo do estado de abandono físico em que se encontra e evitar que mais um bem do patrimônio da cidade seja perdido. Independente da autoria de seu projeto arquitetônico, o bem por si só já acumula, como se viu ao longo deste trabalho, qualidades ímpares que lhe conferem importância. Várias são as formas de entender o monumento, várias as interpretações. Muitos são os significados que a capela possui, frente a seus usuários. A capela, apesar da falta de maiores cuidados, continua viva e escrevendo a história da Travessa Campos Sales, do bairro do Comércio, da cidade de Belém. Porém, quanto maior seu uso, maior seria sua participação na construção dessa história. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 |
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