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| Ultraecletismo? |
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| Artur Rozestraten, arquiteto e urbanista (FAUUSP, 1995), Mestre e Doutor junto ao Depto. de História da Arquitetura e Estética do Projeto (FAUUSP, 2003 e 2007). Professor junto ao Depto. de Tecnologia da FAUUSP, São Paulo (2008). |
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Ilustrações Daniel Bueno |
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| Uma arquitetura que, antes de tudo, atende ao desejo daqueles que detêm o poder financeiro, materializa seus sonhos, e funda, assim, um mutualismo entre clientes, seus arquitetos e lojas, que ultrapassa a obra e ganha visibilidade social como expressão de status; Uma arquitetura que preza a liberdade compositiva e usa todo o repertório formal anterior – mesmo das produções mais recentes – como referências plásticas. Com isso, revigora a noção de estilo, e pretende conferir consistência histórica à sua própria produção; Uma arquitetura que consegue conjugar a marca pessoal do arquiteto às flutuações do gosto, e é mais resistente ao “novo novíssimo” do que à ressurreição do “velho novo de novo” revivido, agora, como “clássico”; Uma arquitetura que se funda na tecnologia, no conforto, nas possibilidades da indústria, e na avidez pelos últimos lançamentos e novidades do mercado da construção civil; Uma arquitetura que supervaloriza as superfícies com intenções narrativas e decorativas – especialmente as fachadas voltadas para as vias públicas –, assim como supervaloriza o espaço privado no interior das edificações, em detrimento do espaço externo, possivelmente público; Uma arquitetura que se espelha em padrões estéticos e ambientais – tomados como modelo de civilização –, e pretende caracterizar seus proprietários como agentes avançados, representantes desse modelo superior, em seu meio. Todas essas características parecem próprias de uma parte da produção arquitetônica contemporânea nas grandes cidades brasileiras. As revistas de arquitetura – em especial aquelas voltadas ao público leigo –, várias obras recém concluídas nos bairros mais valorizados da maioria das cidades de grande porte, e as imagens de divulgação de parte significativa dos lançamentos imobiliários parecem reforçar tal interpretação. No entanto, as características citadas acima se encontram dentre as “Considerações sobre o Ecletismo na Europa”, feitas pelo arquiteto e historiador da arquitetura Luciano Patetta, publicadas em português em 1987 no livro “Ecletismo na Arquitetura Brasileira”, organizado por Annateresa Fabris e editado pela Nobel e Edusp (1). Caberia, então, interpretar parte da arquitetura contemporânea como um Neoecletismo, se é que se trata de um neo e não do velho Ecletismo ainda ativo (pois não se trata de revival, mas de survival) e aperfeiçoado como uma espécie de Ultraecletismo? Mais do que frente a um retorno do Neoclassicismo, não estaríamos frente a uma continuidade do Ecletismo – entendido como fenômeno artístico de longa duração –, que, resumidamente, incorporou a experiência moderna reduzindo-a a mais uma alternativa estilístico-formal? Desde o início, o movimento moderno colocou-se como único filho legítimo da Revolução Industrial, e caracterizou o Ecletismo como seu rival passadista a ser derrotado. Esse embate, gerado no séc. XIX, se acirrou ao longo das primeiras décadas do séc. XX, anos 20 e 30, quando algumas vanguardas europeias combateram duramente a ideia de uma arquitetura elitista, o historicismo, o ornamento e a noção de estilo. Ao que parece, tal luta foi desigual, talvez muito longa para o pouco fôlego do enérgico, afoito e contraditório movimento moderno. A eventual vitória dependia da multiplicação de esforços, ampliados como força coletiva, capaz de romper a estrutura social e transformar a sociedade pela arte. Para uma pequena, mas entusiasmada torcida, cada golpe dos heroicos modernistas parecia o anúncio inequívoco da vitória final. Mas, vistos à distância, tais esforços podem parecer pequenos face ao abraço lento e sufocante de desdobramentos do Ecletismo. Hoje, tomando por exemplo a arquitetura construída em cidades como São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto, o Ecletismo parece ter vencido pelo cansaço, minando, lenta e continuamente, a oposição modernista. Nessas cidades – assim como em outras grandes cidades brasileiras –, uma parte significativa da arquitetura contemporânea dita Neoclássica segue princípios ecléticos de composição. Como se, conforme a lógica da indústria cultural, o vórtice eclético houvesse incorporado o oponente em si mesmo, tornando-o mais uma possibilidade plástica de seu próprio caleidoscópico repertório arquitetônico. E não se trata de um fenômeno exatamente contemporâneo, afinal, desde meados do séc. XIX, o Ecletismo parece ter reduzido convenientemente a arquitetura à moda, ao sabor do gosto pessoal, e tal redução agradou plenamente à cultura cumulativa e consumista do mundo moderno. Mais recentemente, a partir dos anos 50 – com a internacionalização do American Way of Life – a experiência arquitetônica moderna perdeu força, decaiu como “Estilo Internacional”, e foi diluída em meio à produção massiva de edifícios muito mais afeitos aos humores do mercado imobiliário do que às questões éticas e estéticas do racionalismo moderno. Depois da queda do muro de Berlim, então, os ideais socialistas dos núcleos de vanguarda, definitivamente, não conseguiram mais fazer frente à predominância da onda eclética fin-de-siècle XX que, na virada do milênio e primeira década do séc. XXI, ganhou força com o globalitarismo (2), o predomínio dos interesses do mercado sobre as questões públicas locais, e o entendimento limitado da arquitetura como produto planejado para um certo mercado consumidor. Não custa lembrar que o Ecletismo, desde meados do XIX, constituiu uma parte significativa da produção arquitetônica do mundo moderno, e nunca houve, em larga escala, o abandono das referências historicistas preconizado pelos arquitetos modernistas, logo reabilitadas por vertentes pós-modernas, por exemplo. No mar de edificações urbanas, edifícios exemplares da arquitetura moderna no Brasil, como o Esther, o conjunto de Pedregulho, e o Copan, não deixam de ser exceções. O que garantiu sobrevida à arquitetura eclética – e constitui a sua principal diferença com relação aos revivals do séc. XIX –, é que esta não definiu exatamente um estilo arquitetônico, mas sim um procedimento de composição sintético e inclusivo, que se apropria dos vários estilos e elementos identificados pela história da arte e da arquitetura como referências para projetos “originais” afinados com o gosto de quem os adquire. Atualizado, esse procedimento projetual da somatória de partes constitui o método compositivo de certas vertentes da produção contemporânea de arquiteturas, que, assim como o “moderno Prometeu” de Mary Shelley (1797-1851) (3), entende a beleza plástica no sentido cumulativo – a soma de belas partes deve resultar em um todo ainda mais belo –, e costura suas criaturas. Parece ter sido justamente a continuidade da relação simbiótica entre arquitetura e poder financeiro, ao longo do séc. XX, que garantiu a perpetuação do Ecletismo como a principal vertente arquitetônica da modernidade. No horizonte, não parece haver motivos para mudanças, o que reforça a ideia do Ecletismo como vigoroso fenômeno de longa duração. Aparentemente, a arquitetura eclética continua a satisfazer os anseios de uma minoria privilegiada, ávida por uma arquitetura imaginativa, fantasiosa, e lastreada na ideia de história e cultura. E uma das caraterísticas centrais dessa arquitetura é conseguir conjugar, com habilidade inigualável, a modernidade e a tradição, incorporando lentamente as oposições como variações possíveis de sua própria estética abrangente. No interior paulista, por exemplo, casas e edifícios em estilo dito “clássico contemporâneo” ou “neoclássico” reeditam, agora com o dinheiro da cana de açúcar, as antigas casas-sede das fazendas e os palacetes urbanos da segunda metade do séc. XIX, à moda ultraeclética. E se no início do séc. XX, o engenheiro vanguardista Flávio de Carvalho reclamava que os arquitetos de então não sabiam projetar com compromisso construtivo, hoje, o racionalismo construtivo – menina dos olhos do movimento moderno na arquitetura – orienta a aplicação de placas pré-moldadas com relevos ornamentais simplificados e grosseiros a estruturas independentes, em edifícios de planta livre, repletos de sancas de gesso. Também cabe lembrar que a ambiguidade, a multiplicidade, a efemeridade, a resignificação, a simulação e a liberdade compositiva – características que no discurso contemporâneo pós-estruturalista associam-se à arquitetura contemporânea –, constituem a própria essência do Ecletismo. (4) Tais reflexões sobre a arquitetura contemporânea, no entanto, não pretendem conduzir à uma resignação quanto a uma suposta condição eclética, mas sim provocar uma revisão crítica de certos princípios do movimento moderno, e uma reavaliação de posições, sem renegar as contradições e paradoxos que lhe são inerentes. Para tanto, reconsideram-se os seguintes aspectos:
Tal ignorância mantém condições culturais favoráveis à proliferação de pseudo-arquiteturas modernas, maneirísticamente travestidas em arquitetura contemporânea, já que o que vale é a aparência das superfícies (5). No universo privado da arquitetura elitizada, a superliberdade estilística apregoada pelo ultraecletismo parece uma compensação à falta de liberdade que a condição urbana impõe como resultado das desigualdades sociais. Na moda arquitetônica tudo é possível, até porque o urbanismo parece ter se tornado impossível. Falta liberdade aos que têm muito, e se protegem atrás de muros, assim como falta liberdade aos que não tem nada a perder.
É claro que neste terreno só há opiniões, e nenhuma verdade. O que se tem aqui é apenas uma reflexão possível, que não encerra e, quando muito, pode estimular outras reflexões e opiniões sobre o tema. Para finalizar, uma questão: que características deveria ter uma arquitetura adequada aos valores da sociedade de consumo contemporânea? Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 |
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