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| Rosário
e seus vínculos com o debate internacional: uma análise
do Parque España (1979-1993) |
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Formado em Sociologia pela Universidade de Buenos Aires (UBA). Bolsista do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET) – Centro de Estudos Desenvolvimento e Território (CEDET) – Universidade Nacional de San Martín (UNSAM). Doutorado em Ciências Sociais, Faculdade de Ciências Sociais (UBA), mestrado em História e cultura da arquitetura e da cidade, Universidade Torcuato Di Tella. Editor da Revista Serie Urbana do Instituto de Pesquisa em Humanidades Dr. Gerardo H. Pagés. Colégio Nacional de Buenos Aires – Universidade de Buenos Aires. Tradução de Felipe Contier, revisão técnica de Flávio Coddou |
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| (leia versão em espanhol) | ||||||||||||||||||||||||||||
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Perspectiva do anteprojeto do Parque España (MBM). Fonte: Diario La Nación 27/8/1980 |
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| Introdução Nos últimos anos a cidade de Rosário ocupa um lugar destacado no que se refere a atuações urbanísticas e arquitetônicas, muitas vezes enquanto contraposição a Buenos Aires (1). Diversos autores dão conta da crescente importância da cidade apontando, entre outros aspectos, fatores como a continuidade nas gestões urbanas, o papel das gestões socialistas e a produção arquitetônica recente de algumas figuras destacadas. Vários passos se sucedem avançando na recuperação pública da relação entre a cidade e o rio. Os gestos do primeiro prefeito eleito após a volta à democracia, Horacio Usandizaga, ao solicitar ao Centro de Arquitetos de Rosário candidatos para ocupar a Secretaria de Planejamento, criar a Oficina do Plano Diretor, o Plano Estratégico e as mudanças de planos na Faculdade de Arquitetura que incorporam a lógica morfo-tipológica, se destacam como parte de uma peculiar articulação entre políticos, técnicos e acadêmicos em relação à temática urbana. Grande parte da mudança do modo de intervir na cidade ocorre após a volta da democracia. Assim, assinala-se a complementaridade entre as mudanças políticas e urbanas. De fato, não é possível ignorar o estímulo que mudanças de tal natureza representam para o desenvolvimento de certas ideias urbanas; entretanto, a gestão urbana, a arquitetura e a própria cidade se desenvolvem numa temporalidade que, embora se vincule a episódios políticos, possui uma dinâmica própria. Nesse sentido, observando alguns momentos anteriores ao restabelecimento da democracia, destacam-se diversos episódios de relevância, assinalando uma mudança que, logo, na democracia, ocupará um lugar mais hegemônico (2). São episódios vinculados ao contexto internacional de modos distintos: tanto a partir da presença de arquitetos estrangeiros na cidade – como Oriol Bohigas e seu anteprojeto para o Parque España com Josep Martorell e David Mackay –, como através de viagens de arquitetos “locais” a centros difusores de ideias sobre temáticas urbanas, que ao retornar a Rosário as desdobram de diversas formas. Por sua vez, algumas outras iniciativas permitem visualizar elementos do debate internacional reprocessados em torno de problemas e tradições “locais” (3). Planos e projetos para a orla Dentre estes episódios nos interessa estudar o Parque España que será, uma vez construído, um catalisador de intervenções sobre as margens do rio Paraná, induzindo uma mudança na imagem da cidade num sentido público (4). Isto não significa que a preocupação com os vínculos entre a cidade e o rio e com a falta de espaço verde se dê a partir do anteprojeto do Parque España. Tampouco significa que a área onde se desdobra o anteprojeto nunca tenha sido alvo de intervenção. Estas preocupações e os projetos para essa área são recorrentes na cultura urbana de Rosário, estudada por arquitetos e urbanistas tanto rosarinos como estrangeiros, tais como Bouvard e Hegemann, em sua visita a Rosário em 1931. Em 1873, já se desenvolvia uma primeira intenção de abertura do Passeio Ribereño: a lei nacional n. 11623 postulava o saneamento dos terrenos adjacentes à Avenida Belgrano e a realização de obras de embelezamento edilício aproveitando os barrancos naturais do rio Paraná. No século XX haverá uma mudança no modo de propor as intervenções, que se enfocam sobre a orla a partir de um reordenamento do transporte ferroviário e da atividade portuária. Entre 1925 e 1940 muitos projetos se apropriam da orla como tema e lugar “na medida em que a orla, como espaço de representação, provisão de espaços abertos e públicos e tratamento do verde urbano ocupa um lugar preferencial nas ideias técnicas e culturais sobre a cidade que se discute no âmbito nacional e internacional” (5). A centralidade temática da orla está ligada “à indecisão entre dois projetos de desenvolvimento da cidade: a extensão a oeste ou a consolidação do centro simultânea à revitalização dos bairros ribeirinhos” (6). Uma linha abordada por grande parte das propostas de intervenção aponta para a cidade que dá as costas ao rio, inserindo essa problemática num espaço mais amplo. Deste modo, a chave para a recuperação é dada por um novo plano ferroviário que permitirá obter maior superfície de espaço verde e uma vista adequada do rio. À luz do Plano Regulador de 1935 podem ser entendidos alguns projetos e abordagens a respeito da orla(7). Antes do Plano Regulador de 1935, supunha-se um deslocamento das atividades manufatureiras e ferroportuárias ali localizadas, com a finalidade de incorporar à atividade do mercado imobiliário um setor da área central, edilícia e funcionalmente degradado. Dois temas projetuais são característicos destes projetos: “o aproveitamento paisagístico da ribeira e a formação de parques na orla alta” e “a construção de uma avenida na orla baixa” (8). O que se modificará então será o modo e a conjuntura em que se pensavam as intervenções. Ali radica uma das particularidades do anteprojeto do Parque España: a possibilidade de intervir através de projetos de arquitetura onde, num contexto internacional, o “urbanismo moderno” e seus instrumentos de intervenção vinham perdendo força, e, num contexto local, onde a atividade ferroportuária, antes pensada como causa da dificuldade de intervir, se encontrava em franco retrocesso. Circulações de ideias urbanas As condições da difusão de uma postura como a de Bohigas – ao redor do papel do espaço público e crítica ao planejamento modernista, postulando a intervenção através de projetos de arquitetura – não achavam então um espaço “ótimo” no meio político e institucional para estender-se (9). No entanto, com o surgimento de novas ideias sobre o urbano e sobre os modos de intervir na cidade a partir da arquitetura, a atuação de Bohigas, no contexto de outros episódios, destaca vínculos com a discussão internacional. O debate a respeito do papel da arquitetura na cidade, que se desenvolveu na Itália nas décadas de 60 e 70, e seus vínculos com a Espanha e com as transformações em Barcelona (10), são elementos que se combinavam de diferentes modos em Rosário. Com menor visibilidade em relação às visitas de Bohigas, por volta de 1975-6, Manuel Fernández De Luco e Isabel Martínez de San Vicente, logo ocuparão um papel relevante na expansão de novas formas de abordar o urbano tanto na gestão pública (11) como em espaços acadêmicos (12). Eles partem a Roma e Veneza com bolsas de pesquisa onde entram em contato direto com o debate italiano, particularmente com a corrente de “análise urbana” (13). Aquele movimento, centrado no papel da arquitetura na cidade, foi se desenvolvendo em Rosário em diferentes espaços. Isto ficou mais evidente a partir da volta à democracia, embora possamos encontrar anteriores traços dessas posições. O caso do anteprojeto do Parque España é significativo e adquirirá particular relevância uma vez construído, sendo “continuado” através de projetos impulsionados pela Secretaria de Planejamento. No mesmo sentido podem ser destacadas outras experiências, como o desenvolvimento de uma “Confrontação de ideias e debate sobre o destino urbanístico dos terrenos do antigo Moinho Yerbatero Martin”, no ano 1982. Ali, se desdobra a preocupação em torno da problemática da arquitetura do espaço urbano, buscando “abandonar atitudes estéreis baseadas na intenção de transformar o conjunto urbano em sua totalidade, para formular hipóteses de reproposição, diversas das soluções usuais, mas possíveis de serem adotadas, sobre conjuntos setoriais que conformam a vida e a morfologia urbanas” (14). Aquela convocatória, organizada pelo Centro de Arquitetos de Rosário – âmbito de particular relevância em torno da geração de debate no contexto de ditadura militar – buscava precisar critérios de intervenção arquitetônica apoiando-se em uma afirmação do papel do arquiteto e da arquitetura na conformação do fato urbano, ou “como afirmara Rossi, no conceito da própria cidade entendida como uma arquitetura” (15). As alusões a Rossi percorrem o documento da convocatória e se afirma a aproximação às instalações do antigo Moinho, utilizando a nomenclatura do arquiteto italiano e sua teoria da estrutura dos elementos urbanos. A questão da preservação em Rosário Entre outras preocupações presentes na cultura urbana rosarina pode-se mencionar aquela desenvolvida em torno da preservação do patrimônio. Isto reaparecerá em alguns elementos do anteprojeto do parque España, como no uso dos túneis já existentes – o que não significa que se trate de um projeto conservacionista. Enquanto alguns elementos prévios se mantêm, outros não. A preocupação face às demolições e à perda do patrimônio era um dado que, já em 1978, arquitetos como Horacio Quiroga (16) – que logo será o ganhador do concurso para a realização do projeto executivo do parque España –, Ernesto Yaquinto e outros, denunciavam publicando artigos sobre as demolições de peças arquitetônicas em Rosário. De fato, em um artigo de 1985, Quiroga interpreta o projeto do Parque España ressaltando os elementos “conservacionistas”, sustentando que “a obra se apresenta mais do que como uma simples construção, mas como restauração, onde não somente são corretamente restaurados os edifícios funcionalistas ingleses da ferrovia, mas também são atenciosamente cuidados os elementos estruturais existentes” (17). Concurso e participação de escritórios rosarinos A relação do escritório catalão com as linhas arquitetônicas desenvolvidas em Rosário se dará no concurso para a execução do anteprojeto. Bohigas participa, ao lado de Martorell e Ledesma – do Centro de Arquitetos de Rosário –, do jurado que designará o anteprojeto vencedor. No ano de 1980, o Estudio H e Quiroga & Asociados serão escolhidos em um concurso regional de propostas para desenvolver, respectivamente, o projeto Paisagístico e Viário e o edifício do Parque España. O Estudio H (18) era então um escritório de trajetória importante em Rosário, contando com uma ampla quantidade de obras e prêmios em diversos concursos. Mais adiante, já na democracia, muitos de seus integrantes seriam sucessivos reitores da Faculdade de Arquitetura e Planejamento. Com uma longa experiência prévia, este escritório foi constituído entre 1967 e 1970, a partir do escritório do arquiteto Hernández Larguía, pelos arquitetos De La Torre, Moliné, Santanera, Vidal, Torio e Utges. Um projeto dentro da trajetória do grupo H que interessou especialmente a Bohigas foi a ampliação da Associação Médica, onde o escritório apresentou novas intervenções sobre edifícios antigos. Por outro lado, Quiroga contava com uma ampla experiência em construção de escolas na província de Santa Fe, tendo anteriormente ganhado um concurso nacional para uma instituição cultural: a biblioteca Vigil. Por sua vez, tinha se empenhado na docência em História da Arte e da Arquitetura, e trabalhou com Hernández Larguía, um dos protagonistas da modernidade arquitetônica em Rosário. Além disso, contava com antecedentes em torno da preservação do patrimônio no interior do Centro de Arquitetos de Rosário. Esta temática preocupava também a Bohigas, embora com alguns matizes, como veremos em suas conferências de Rosário, em 1979, onde sustentava que “a significação dos objetos a conservar não depende de seu valor histórico permanente com caráter objetivo, mas daquela função que tiveram em respeito à cidade. (…). As raízes históricas desta cidade devem ser encontradas em pequenas coisas de meados ou finais do século passado (…) naquelas coisas que configuravam realidades urbanas consistentes” (19). Do Plano Regulador ao Plano Diretor No campo do urbanismo se estava operando uma série de mudanças em relação à concepção proposta pelo Plano Regulador de 1967. Em 1980, a primeira legislação municipal em torno do Parque España circunscreve a “aparição” do mesmo dentro de uma concepção que o entende principalmente como paliativo do déficit de espaços verdes (20). Nesta legislação é mencionado o Plano de 67, cuja concepção é diferente daquela que sustentará a criação da direção do Plano Diretor e seu escritório técnico no ano 1985, na qual se desdobraram algumas das novas ideias sobre os modos de intervir na cidade (21). Se o Plano Regulador de 67 fixava a expansão de Rosário mediante instrumentos para canalizar o desenvolvimento, com um código urbano que definia a população ótima em torno a 2,3 milhões de habitantes, perspectivas como a do Escritório do Plano Diretor trabalham sobre outra lógica. Centrando-se na temática da gestão da cidade, buscam poder se antecipar de alguma forma aos problemas e tentar se beneficiar dos mesmos. O próprio De Luco (22) ressalta algumas diferenças entre a visão ideológica e cultural do Plano Regulador e da gestão contemporânea. No Plano Regulador, sustenta, a abordagem enfoca o distante e estático, quantificável e finito. O progresso é entendido como constante unidirecional e a cidade física como homogênea, sem descontinuidades, conflitos nem contradições, como variável disponível e neutra. Em sua base ideológica, o Estado concentra e impõe papéis, ele sintetiza a estrutura do poder e pode dirigir os papéis dos principais atores. A técnica de planejamento ali expressa extrapola o processo de passagem do presente ao futuro. A outra perspectiva está vinculada à ideia de ser seletivo, priorizar a ação constante e não direcionada mediante uma postura permanente em relação a processos que variam. Deste modo propõe bases ideológicas e técnicas distintas. A ideia de futuro é construída sobre o presente, buscando atuar sobre processos em curso, selecionando projetos possíveis em função de possibilidades reais, e apresentando políticas que se efetivem circunstancialmente em projetos. Isto marca uma ruptura com a cultura do planejamento modernista e destaca o papel da gestão urbana nestes processos. A postura sustentada pela Secretaria de Planejamento propõe que o planejamento a longo prazo não conduza a uma gestão urbana democrática efetiva (23), o que não significa, segundo Martínez de San Vicente, (24) o abandono da figura do plano, mas uma “concepção renovadora” do mesmo. Apesar das diferenças nas concepções em torno ao Plano, a proposta do Escritório do Plano Diretor retoma alguns elementos já destacados no Plano Regulador, embora questione sua instrumentalização (25). Projeto e gestões em torno do Parque España O tempo transcorrido entre o anteprojeto catalão (1979) e a finalização do Parque España (1993) é permeado por diversas vicissitudes. Os vínculos entre as sucessivas gestões da Municipalidade e a Secretaria de Planejamento com o projeto do Parque España mudam ao longo do tempo. Se em seus primórdios era entendido como paliativo do déficit de espaços verdes (26), na democracia primará outra concepção, mais ligada à temática do espaço público. Logo, com De Luco como Secretario de Planejamento, a intervenção do Parque España será continuada tanto ao Norte como ao Sul (27). Antes do retorno à democracia, as gestões referentes ao parque sofreram diversas dificuldades, porém, logo as mudanças institucionais e a reunião com o então Presidente da Nação, Raúl Alfonsín, viabilizaram politicamente o projeto. O mesmo devia destravar-se institucionalmente, já que os terrenos onde se construiria pertenciam a diversos órgãos nacionais e provinciais (28). Uma vez conseguido o “apoio político”, reaparecem problemas de tipo econômico: os contextos de crise e inflação dificultaram o desenvolvimento, e por isso os impulsores do mesmo decidiram recorrer à Espanha em busca de fundos (29). Numerosas viagens, conferências e exposições foram realizadas, entre outros, por Horacio Quiroga junto a Gerardo Illanes Hernández – chanceler do Consulado da Espanha em Rosário – impulsionando o projeto em diversos âmbitos. Com esse trabalho conseguem fazer com que a Espanha decida terminar a obra no âmbito da comemoração do 5º Centenário. Conferências e anteprojeto de Bohigas As características do anteprojeto estão em sintonia com as conferências que Bohigas ministrou em 1979. Organizadas pelo Centro de Arquitetos de Rosário, seus temas eram “A arquitetura na cidade”; “A cidade na arquitetura”; e “Persistência tipológica”. Em relação ao primeiro tema, se propõe a projetar atendendo às qualidades urbanas do entorno. Cada projeto como resposta ao entorno urbano ou como proposta de entorno urbano: o teto-terraço do edifício do Parque España aponta nesse sentido. Nesta temática, Bohigas manifesta sua predileção pela cidade antiga, “na qual existem ruas e praças e não à solução urbana que o movimento moderno provocou” (30). Apesar da certeza da impossibilidade de reproduzir a cidade pré-industrial, a proposta tem a ver com o reencontro de características urbanas tradicionais. Ali se aborda a “sua” saída à crise do “movimento moderno”: trata-se de reconsiderar a cidade em termos tradicionais, e a adaptação ao entorno urbano como ponto de partida no processo de projeto. Com relação à “cidade na arquitetura”, Bohigas defendia que os elementos tradicionais e prestigiosos da cidade podem converter-se em temas geradores da própria arquitetura, como o fizera em relação aos túneis que fariam parte do Parque España. Por sua vez, defende que o conceito de persistência tipológica é um elemento inspirador do processo projetual. Os modelos são tipos que se repetem ao longo da história, são pontos de partida para o projeto. O projeto, em sua concepção, não se produz a partir do zero, porém existe uma evolução sobre tipos já existentes dados historicamente. A tipologia aparece como tema fundamental nos anos 1970 na polêmica arquitetônica e Bohigas a toma em contraposição com a metodologia indutiva. O ponto de partida é, então, a análise da experiência histórica produzida pela própria arquitetura. O tipo mantém a sua validez através da sobreposição de correções sucessivas (31). A paisagem que origina o anteprojeto tem uma dupla estrutura. Transversalmente, se divide em quatro zonas: a primeira, mais próxima à cidade, absorve problemas de circulação e serve de transposição entre a aglomeração urbana e a zona de parque. A segunda é uma faixa linear na qual predomina o verde em setores de vazio continuo e massas de árvores e arbustos, buscando recriar um ambiente de paisagem natural isolado da circulação e da cidade. A terceira faixa linear é um grande passeio pavimentado à margem do rio, no qual se recupera o caráter urbano dentro da tradição dos grandes passeios marítimos. A quarta zona é a faixa pavimentada com paralelepípedos na cota baixa aproveitando as antigas docas. Longitudinalmente, o parque se divide em três grandes setores: o setor Leste constitui o acesso ao parque e concentra aspectos culturais que se articulam a partir da memória e da presença ativa da cultura espanhola, assim ocorre com o Centro Cultural Hispânico, o itinerário de monumentos e o mirante. O setor Central se organiza tendo como peça fundamental o espaço para exposições, integrado na reabilitação e reutilização do edifício da Estação de Rosário Central. O setor Oeste inicia a passagem ao setor mais informal com elementos paisagísticos de caráter pitoresco, em torno a um lago e uma montanha artificiais, cujo uso é basicamente recreativo (32). Como vemos, não se limita a um incremento de espaço verde, nem a uma “simples” recuperação do patrimônio existente. Contemplando tais questões, o anteprojeto se propõe a abordar temáticas de diversas índoles: assim, proporciona uma solução ao nível viário, habilitando um túnel do Parque España como via automotriz até a Rua España, sem interferir nas funções cívicas do parque (33). Por sua vez, o anteprojeto tem uma sensibilidade em relação aos aspectos geográficos: as escadarias do mesmo conectam os desníveis da ribeira. Por outro lado, são criadas instituições culturais e o próprio edifício, ou melhor, a sua cobertura é o desdobramento de uma escadaria que se divide em duas partes, uma sobre os túneis e outra sobre o novo edifício, criando um espaço público que possibilita visuais privilegiadas do rio Paraná. Outros setores do anteprojeto não se desenvolverão, ainda que partes não desenvolvidas serão retomadas pela Secretaria de Planejamento, com ampliações ao Norte e ao Sul. O anteprojeto contemplava uma superfície maior do que o que fora efetivamente construído, e um dos elementos que não se materializaram é o mirante que atravessava parte do Parque España. Este simbolizava o fluxo do vínculo entre España e Rosário e, por sua vez, ajustava a direção da quadrícula com a nova peça: quadrícula ligada à presença “originária” da Espanha na América. Contudo, outros elementos do parque farão alusão à presença espanhola. As colunas, que neste caso não “sustentam” nada, aparecem como referência ao mito de Hércules e como memória da presença espanhola na América. Daquilo efetivamente construído, vários elementos do anteprojeto sofreram mudanças, alguns dos quais por conta das modificações no programa de necessidades. A reforma educativa na Espanha obrigou uma necessidade de ampliação do edifício e seu uso. Recordemos que no interior do mesmo funcionaria o Colégio Espanhol de Rosário, o qual oferece formação argentino-espanhola. Quiroga resolve a necessidade de mais espaço mediante a construção de um andar a mais, com o qual se perde o jogo visual resultante do desnível entre os dois setores do terraço-passeio. Se o anteprojeto não é idêntico ao construído, tampouco Bohigas será o mesmo entre 1979 e a finalização do projeto, em 1993. O anteprojeto é anterior a suas intervenções mais relevantes em Barcelona. De fato, Pampinella e Rigotti (34) hipotetizam uma influência do rio Paraná nas atuações de Bohigas em Barcelona. Isto era comentado por Bohigas, em reportagens em jornais locais, quando lhe perguntavam sobre possíveis imagens de Barcelona no projeto para Rosário: “Eu creio que é ao contrário. Há experiências de Rosário que logo foram aplicadas em Barcelona. Esta preocupação da abertura da cidade ao rio ou ao mar eu creio que nosso escritório começou em Rosário e logo as concretizou não somente em Barcelona, mas em outras cidades. É uma linha que aqui se intuiu prematuramente, mas neste momento é a preocupação de todas as cidades” (35). Conclusões Analisamos algumas características que a cidade de Rosário foi adotando em relação ao debate internacional e em torno das novas formas de pensar e intervir sobre a cidade. O processo através do qual circulam, se desenvolvem e cristalizam aquelas ideias não é linear. Diversas histórias confluem numa rede que, se por um lado vincula-se aos acontecimentos políticos e econômicos, por outro tem sua própria temporalidade. Nessa rede, percorremos o caminho que seguiram aquelas ideias, que não respeita fronteiras nacionais nem locais. Assim, consideramos ideias e figuras internacionais que são retomadas e reelaboradas em contextos particulares. O caminho das novas ideias, como pretendemos assinalar, entrelaça múltiplas histórias de âmbitos urbanísticos, arquitetônicos e de gestões urbanas. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 MARTÍNEZ DE SAN VICENTE, Isabel. La naturaleza arquitectónica de las ciudades de reciente formación. Hacia la construcción de una teoría interpretativa. Rosario, Cuadernos del CURDIUR, n. 6, FAPYD, UNR, 1985. MARTÍNEZ DE SAN VICENTE, Isabel. La formación de la estructura colectiva de la ciudad de Rosario. Rosario, Cuadernos del CURDIUR, n. 7, FAPYD, UNR, 1985. 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 |
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