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| O
fracasso da arquitetura do controle (editorial) Affonso Orciuoli |
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| Affonso Orciuoli, arquiteto, mestre pela Universitat Politècnica de Catalunya, professor na Escola Superior d'Arquitectura de Barcelona |
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| (leia a versão em espanhol) | ||||||||||||||||||||||||||||
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Num intervalo de duas semanas, o Brasil se
viu por duas vezes ligado à televisão, acompanhando passo a passo o desenrolar
das notícias sobre o seqüestro do apresentador Sílvio Santos, no dia 30
de agosto e o atentado terrorista ao World Trade Center e ao Pentágono,
no dia 11 de setembro. Ambas notícias revelam vários aspectos em comum,
como o impacto que causaram na mídia, além da fragilidade da vida ante
a violência e a ineficácia dos meios de vigilância. No
incidente com a família Abravanel, o que mais chamou a atenção foi a facilidade
com a qual o seqüestrador conseguiu entrar na mansão do Morumbi. Contando
com poucos recursos, o delinqüente foi capaz de montar tamanho alvoroço
na mídia, fazendo com que o governador do estado interviesse pessoalmente.
A partir deste episódio e de outros seqüestros que já são comuns na cidade,
deve estar havendo, provavelmente, uma maior demanda de equipamentos e
medidas de segurança em espaços públicos e principalmente privados. Há
um aumento significativo dos sistemas de alarme, das portas automáticas,
do número de funcionários de segurança e dos tipos de urbanizações amuralhadas
de origem feudal e comuns no Brasil: os condomínios fechados. No
caso das Twin Towers do WTC nenhuma autoridade ligada às normas de segurança
imaginava que poderia acontecer um atentado terrorista da forma como sucedeu.
Provavelmente, a imensa cúpula geodésica sobre Manhattan, de Buckminster
Fuller, será um projeto de referência para que se possa, efetivamente,
construir uma grande borbulha. Com ela, não apenas se protegeria a cidade
da radiação nuclear, como também se controlaria a entrada de toda persona non grata por meios terrestre,
marítimo ou aéreo. Em
ambos os episódios, verifica-se a fragilidade dos sistemas de segurança,
principalmente em seus aspectos tecnológicos. Observa-se também o fracasso
da marcação do limite, do muro, da fronteira e dos meios de vigilância.
Como conseqüência, viveremos num mundo cada vez mais dotado de infra-estruturas
de controle. A
opinião pública é tomada pelo medo, exige proteção, imediatismo. Disporemos
de tantos muros, câmaras, detetores, celulares, gps, armas, polícia, carros
blindados e helicópteros? Responderá a arquitetura e a cidade com mais
delegacias, prisões, grades, condomínios fechados, câmaras e outros artefatos
de controle? Diz-se
aqui na Europa que não serão medidos os esforços para aumentar a segurança
dos espaços públicos. Se antes desperdiçávamos em um aeroporto uma hora
em um desembarque internacional, agora o tempo de desembarque, se estima,
será de três horas. Claro, num ambiente totalmente civilizado,
com ar condicionado, entretenimento e lojas. Enquanto isso, se registram
nossos objetos, corpos e, acima de tudo, nosso passado. No
caso da cidade de São Paulo foi visível como as autoridades, a mídia,
o secretário de segurança pública e o governador do estado anunciaram
que deveriam tomar providências para reforçar a presença dos instrumentos
de controle e punição. Shopping Centers e condomínios fechados
se proliferam, numa ambiência em
que o espaço público desaparece por completo. Espera-se,
portanto, um aumento significativo dos recursos tecnológicos para a segurança
e a proteção, para o controle e a vigilância das grandes cidades, dos
aeroportos, das fronteiras, dos condomínios, das mansões. Os gastos que
se estão estimando na Europa são altíssimos, assim como o dispêndio de
energia e o contingente de pessoal. Tempo e paciência são incalculáveis.
Estes fatos conduzem a edifícios e espaços públicos cada vez mais munidos
de sistemas de segurança. Tudo
indica que o controle e a vigilância de muitos aspectos do cotidiano,
em suas escalas local, global e digital, se farão cada vez mais presentes.
A arquitetura se coloca a serviço da sociedade do controle. A descrição
aterrorizante da vida sob a vigilância constante do Big Brother já não
é ficção. |
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