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Um
novo discurso para a megacidade. Projeto Praça do Patriarca
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| Maria Isabel Villac é arquiteta formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, em 1977. Especialista em Didática do Ensino Superior pela Universidade Mackenzie, em 1990. Professora de Projeto Arquitetônico e Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo, desde 1986. Doutoranda em Estética e Teoria da Arquitetura Moderna na Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona |
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| O enunciado atual da cidade “Urbe
imensa A cidade e a vida urbana não são a mesma coisa. E se, efetivamente, é mais fácil construir cidades que vida urbana (3), São Paulo contraria esta premissa. Cidade caótica, imensa, complexa em seus traçados, agressiva na exposição, mais ou menos aparente, de sua lógica e do ritmo desenhado por sua estrutura. Entretanto, uma grande metrópole. São Paulo é uma cidade que “é como o mundo todo” (4). Todas as cidades e nenhuma: a vida urbana que ensina a riqueza, a diversidade, o erotismo, a dispersão e o estranhamento; a moldura pós-moderna para o pesadelo obsceno da violência da miséria e do abandono, que são essas marcas do sorriso cínico do progresso imediato e sem inteligência do colonialismo interno; a cara metropolitana que é passagem para uma inteligência mais provinciana e afetiva. São
Paulo é uma cidade cosmopolita e singular, cuja íntima inscrição na
monumentalidade desse cosmopolitismo é uma trama recôndita, entranhada,
mais bem um tecido semperiano (5). Um primeiro olhar revela a sombra
de São Paulo, sua aparente invisibilidade e essa contrariedade e simetria
em ser uma moderna cidade do terceiro mundo e uma arcaica cidade do
novo mundo. Mas a vitalidade paulistana, sua sociabilidade, busca uma
mirada próxima. Uma mirada que, como uma membrana, penetre os interstícios
de sua vocação construtiva-destrutiva. Uma mirada aberta que se detenha
na sua sociabilidade e perceba um quadro impressionista anteposto à
visão da cidade cubista (6) [imagem
01] “A revalorização do Centro da cidade de São Paulo terá que amparar afirmações inventivas sobre o poder de comunicação das formas, um reviver da arquitetura urbana.” (7) Para
quem sobe as escadas rolantes da Galeria Prestes Maia que cruza, por baixo do viaduto, o Vale do Anhangabaú, o artefato que o arquiteto
projeta é um portal de acesso e uma moldura para a Praça do Patriarca. Para quem, em sentido
inverso, olha para o Viaduto do
Chá, o artefato abre a perspectiva em direção ao Centro Novo [imagem
02] Tornar visível a cidade, como o espaço da história e da possibilidade do prazer e da surpresa da vida urbana, é o desafio que a circunstância atual da Praça do Patriarca propõe. E é na Praça do Patriarca onde a arquitetura do arquiteto Paulo Mendes da Rocha já não acentua, no domínio e na densidade da matéria, o novo que quer despertar o entorno e se propõe como um fundamento que estima configurar menos a si mesmo que à atmosfera circundante. “Esta
estrutura se resolve com formas adequadas, leves e um tanto de aparência
instável, convocando sensações imprevistas.[...] A cor deverá ser clara.
Branca.” (8) “Ó
formas alvas, brancas. Formas claras.” (9) [imagem
03] A nova cobertura que Paulo Mendes da Rocha projeta para a Praça do Patriarca é o primeiro projeto do arquiteto cuja materialidade "única", em aço, contraria a preeminência do concreto aparente. O desenho do artefato proposto se compõe de um pórtico rígido – quase porta – e uma lâmina – quase arco – que no pórtico se encaixa e no qual se pendura distendida e articulada. O conjunto metálico da Praça do Patriarca abre uma nova ordem na materialidade das obras de Paulo Mendes e busca, na precisão e alta resistência da leveza que se expressa na cor branca, a determinação e a expansão de sua virtude. Diferente do concreto aparente, que mostra sua robustez material e exibe o áspero e primitivo de sua textura para concentrar e deter a expressão, despertar e aprofundar vazios internos, o metal é leve, resvaladiço, e não reclama um olhar tátil. Sua visibilidade, que é a propriedade física que o constitui, é da ordem do deslizamento, da reflexibilidade e da condutibilidade. O concreto aparente possui um arcaísmo concentrado, uma certa resistência a uma mirada distraída que, nas obras do arquiteto, até o projeto da Praça do Patriarca, é a materialidade que expõe a exigência de mudanças sociais. A nudez do concreto, quando é estrutura, muro e vedação, não permite sublimações, conduz a uma atitude introvertida, reflexiva, e sua intensidade material é, no Brasil, a metáfora do conflito entre a vontade de uma distinta ordem social e a resistência à mudança. O metal, por sua parte, pode estruturar-se com muito pouca matéria. É uma substância na qual os esforços fluem com tal sutileza, que a tensão estrutural não se percebe como resistência, senão como tenacidade técnica e potente leveza. A cor branca, além do mais, devido à sua propriedade refletora, não torna mais densa a presença da forma que recobre, e lhe retira qualquer evocação ao processo de desgaste e ruína advindos do tempo [imagem 04]. A gravidade sem peso do artefato que o arquiteto Paulo Mendes projeta para a Praça do Patriarca, leve e ágil, se estrutura de forma sintética, possui uma solidez transigente, de aparência instável, que busca surpreender o contexto circundante. Talvez porque a cidade seja compacta, construída sobre si mesma, o artefato que o arquiteto inventa para a Praça do Patriarca flutua, quer mover-se com o vento, de forma literal. Talvez seja esta decisão, orientada pela quase imaterialidade do aço e configurada pela forma simples, pela luminosidade solar da cor branca e pela tendência ao movimento, a gentileza necessária para restaurar o espaço propício à vida urbana. A leveza instável que se propõe é a inflexão, o novo da contemporaneidade, a diferença que se mostra como marco: uma forma delicada, luminosa, capaz de adotar o conteúdo do entorno, e que se abre à lógica mutante da cidade. Esta leveza e simplicidade pode tornar visível a vocação da cidade (10), pois propõe abrir espaço e render seu tributo à relação que existe entre contemporaneidade e patrimônio arquitetônico e urbanístico. A forma do artefato está plasmada pela dinâmica "intra e extra arquitetura", e o que está em questão não é somente a arquitetura como construção, senão a contemporaneidade como tal, sob os aspectos com que a arquitetura constrói e interpreta espacialmente a cidade. Isso envolve uma antropologia do espaço, ligada, diretamente, tanto ao tema funcional a que se refere o projeto, como à amplitude temática que quer abarcar e simbolizar. O artefato se mostra assim, somente estruturado: aberto à percepção do diferente no igual. Isso o torna muito estruturado, vazio, receptivo ao contexto do construído e à sociabilidade que povoa o espaço da cidade e deve servir de referência ao Projeto de uma urbanidade sempre renovada. Como se a forma estruturada tornasse possível alcançar a cidade em seu desenho, originar-se conjuntamente com ela para voltar a fundá-la, a uni-la. Desenhá-la outra vez, para que seu complexo tecido alcance a máxima visibilidade do gesto e do texto vivo de sua fundação. E também, porque não?, ensinar sua geomorfologia, seu potencial paisagístico, sua estrutura; mas voltando a escrever o mesmo texto do movimento e da textura de uma sociabilidade inaugural [imagem 05]. Elegia à cidade
São Paulo é um "palimpsesto" (12) e, como tal, foi reconstruída várias vezes. Progressista e em contínuo processo de ruptura consigo mesma (13), São Paulo apresenta uma modernidade sempre contemporânea, tecnológica e vanguardista. Decadente, a cidade cresceu sem visão de conjunto, sem controle, e não se articula como um organismo, o que gera um sentimento de impropriedade e abandono. Seu espaço como território único define, por tanto, no momento contemporâneo, uma cidade de vocação "atópica" e caótica, uma não-cidade. O pórtico/arco da Praça do Patriarca é uma referência a essa São Paulo de muitos movimentos, mas ao mostrar-se contrário aos seus extremos, propõe um ponto de equilíbrio a esta complexidade: o artefato estrutura a reta e a curva, o portal e o arco, o vazio e o cheio, o objeto e a cidade. Na fronteira entre a arte e o urbanismo, a simplicidade de uma linha e de uma superfície curva conecta a praça à perspectiva, propriamente urbana, da cidade e recompõe a fissura do tecido urbano em constante desestruturação [imagens 06 e 07]. A arquitetura que se propõe para a Praça do Patriarca estranha a atopia, mas não é indiferente a ela. A obra abre e torna transparente uma possível urbanidade ao articular um desenho que, sem apagar as contradições nem as ambigüidades, aceita o caos como parte da realidade e se propõe a habitá-lo como conciliação. Seu desenho delicado se opõe à opacidade do construído, abre espaço para conectar a espacialidade da paisagem. Como se houvesse estado sempre aí, formando parte da praça, o artefato aceita a eloqüência da voz e do texto da urbanidade paulistana, reconhece a sintaxe dos paulistas (14). Sem que se perca o dinamismo, que é a matriz renovadora da cidade, o artefato reivindica para São Paulo o zelo e o sentimento que originaram o arquétipo metropolitano, contido no ambiente vanguardista (15) e na qualidade racional e construtiva de seus planos urbanísticos (16) da modernidade da primeira metade do século. Com uma mirada afetiva em relação à opacidade que cobriu e enclausurou o coração de São Paulo, propõe que a articulação do caos e da atopia seja a poética da vida urbana e o raciocínio da cidade como arquitetura construída segundo princípios artísticos (17). “Não simplesmente restaurar, também criar novos desenhos que abriguem, amparem e expressem hábitos, símbolos urbanos contemporâneos, do tempo em que vivemos.” (18) Uma obra arquitetônica, isolada em uma praça, tende a ser escultórica e monumental. Não obstante, sua monumentalidade adquire uma qualidade complexa quando seu atributo é a interpenetração que permite articular os edifícios do entorno. Desde a ordem interna de seu próprio desenho, desde sua determinação em emoldurar uma nova mirada, o pórtico e o arco do projeto da Praça do Patriarca – duas formas tradicionais – criam uma figura espacial cuja estrutura é a solenidade do vazio dentro de um marco que se expande. Sua substância imaterial é vibrante, ativa, projetada [imagem 08]. O pórtico/arco se coloca como uma entidade plástica que, embora guarde sua autonomia, se ampara na intenção de ser um elemento ativo, extensivo ao entorno, porque atua com expressividade centrípeta e torna potente o espaço, antes difuso, para criar uma situação de espaço envolvente. Para conseguir esse efeito, introduz o sentido do movimento como orientação; permite tanto um descobrimento gradual como uma visão súbita, porque estrutura o centro de sua geometria em imagens que preenchem seu interior e se prolongam além dos limites da forma. A obra adverte um novo movimento no contexto urbano: não se funde com o espaço circundante, mas o acolhe como fundamento de seu sentido na justaposição, de sua escala e forma, à experiência particularmente recôndita dos espaços contíguos. Sua leveza e transparência remetem tanto ao permanente como ao intermitente, tanto aos registros como as marcas. Assim logra que a espacialidade que propõe acomode o uso, o hábito e os símbolos urbanos aos desígnios de sua própria consistência. É o pórtico/arco que devolve à praça seu caráter compacto e íntimo. A praça, que ainda mantêm a escala tradicional e provinciana dos inícios do século XX, encontra, no projeto de Paulo Mendes da Rocha, a afirmação da escala da pequena igreja e da escultura de Ceschiatti. Por outro lado, os edifícios, anteriormente mudos, fechados em si mesmos como construções unitárias, se "reinauguram" na dimensão do fluxo do tempo e, voltam a participar da ordem urbana, se reintegram. E assim recuperam a importância do sítio urbano como espaço antropológico necessário à morfologia da cidade e ao conhecimento que se desenvolve, no tempo, sobre a noção e o valor do patrimônio histórico [imagem 09]. “[...] a cidade,
com as conquistas a nível estético, representa uma conquista popular”
(19). Mas o pórtico e o arco da Praça do Patriarca também querem restituir a noção mais elementar de patrimônio (20) e elege a vaidade como tributo à monumental cidade cuja beleza se escondeu. São Paulo, quando definiu sua "voraz" vocação industrial, a partir da segunda metade do século XX, parece que associou a noção de progresso e eficiência à imagem de uma cidade feia e a idéia de restrição ao que é sério e essencial. E
é por isso que o projeto para a Praça do Patriarca se desvencilha do preconceito contra a beleza e
reclama uma São Paulo mais bonita e legível para os usuários. Com um
desenho orientado para o futuro, resposta à profundidade lógica e à
complexidade técnica, o artefato propõe uma São Paulo que quer ser de
novo uma bela cidade, e cuja sociabilidade se deseja mais evidente,
mais luminosa. “A sociedade rejeita, mas a cidade não!" (21) Vale lembrar que a cidade é o traçado da materialidade permanente. O vazio é o espaço público por excelência. Se a cidade é a materialidade construída e pensada como artefato, o vazio é o que define a vitalidade urbana, o espaço das relações humanas, o povoamento da cidade. O vazio é a condição para o livre acontecimento do encontro, o "a través de" necessário para os sucessos e contingências que tornam propícia a vida urbana. E é por isso que, como um contorno que enquadra e, ao mesmo tempo, é antagonista com a saturação do já visto, a forma que define o pórtico/arco é porosa, vazia, liminar: aberta à paisagem, abre um espaço de transparência e se mostra receptivo. O pórtico/arco define um plano que deve ser transposto. A leveza luminosa e dúctil da equação estrutural pórtico/arco da Praça do Patriarca é uma tendência ao movimento. E este movimento, que o artefato abriga e que a forma sugere, é um jogo complexo entre a superfície e a profundidade, que não fixa a história como permanência e marca o projeto como uma relação fluida entre o sujeito e o espaço urbano. Se a sociabilidade de São Paulo se esconde na obscuridade de uma visão trágica, o pórtico/arco propõe educar o sentimento (22) de pertencer à cidade e, assim, recordar ao cidadão comum sua qualidade de ator principal na construção de seu traçado, homenageá-lo como guardião da vida urbana e dos laços que se estabelecem em seu exercício. O pórtico/arco tem uma escala reduzida, sua visualidade plena recusa a leveza como algo frágil: tem corpo, elasticidade, sólida capacidade de tensão, e sua forma contem o gesto do abrigo. E é esta escala, corporeidade e presença protetora, que configuram a dimensão íntima do artefato e inauguram sua receptividade em relação ao sujeito. O pórtico/arco, como um quadro, uma fissura que interrompe o anonimato, constitui um monumento ao cidadão; abre a perspectiva de recebê-lo dentro da amplitude e visibilidade do espaço público. O artefato é um rito de passagem, um torii (23), uma porta que define, momentaneamente, um centro, e este enfoca a humanidade do homem como necessidade premente. Habitar o pórtico transforma ao transeunte na chave do sentido de existência da urbanidade: o aproxima da perspectiva da cidade, o convida a ocupar seu mesmo campo e o enquadra na perspectiva de sua importância humana. A sociabilidade e o novo discurso para a megacidade
O pórtico/arco é receptivo, mas também expressivo. Diante da cidade, a arquitetura do pórtico/arco espera ser compreendida, em sua singularidade e historicidade, como ação diante da realidade, ou seja, como desdobramento da memória e do imaginário, onde o que está em jogo é a própria cidade e o sujeito; "todos", como objeto do discurso. O pórtico/arco não tem interior nem exterior. Sua arquitetura é côncava e convexa e se define por contornos que, entretanto, estruturam um núcleo íntegro que não opõe resistência. Integrada à paisagem e receptiva à sua realidade palpável, o pórtico/arco, que é a própria forma da transitoriedade, "arquiteturiza" a efemeridade do tempo. Uma forma proposta como limite aberto e como materialidade flexível que projeta um espaço orientado para multiplicar relações e indicar direções [imagem 10]. O pórtico/arco contêm urbanidade e humanidade. Sua igualdade de dimensão entre individualidade íntima e magnitude pública é o entendimento da vida urbana e sua sociabilidade. E é esta configuração que abre a possibilidade de um lugar como locus, e que se quer permanente, pois é a simultaneidade e coexistência de dimensões que cria a possibilidade de conexão de um com o todo. Lugar fronteiriço, portanto, o pórtico/arco enfatiza a tênue passagem que entrelaça distintos tempos – passado, futuro, o agora – e distintas qualidades de espaços – ordem e imprevisibilidade. Seu projeto é despertar a percepção impressionista, recordar e alimentar a cidade interior em cada transeunte: imagens dessa São Paulo do passado, do presente, do futuro em conexão; vivências, visões interiores e perspectivas de ser cidadão, projetos de um “sonho feliz de cidade” (25). Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 |
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