![]() |
![]() |
|
||||||||||||||||||||||||||||
| Arquitetura
em Belo Horizonte. Sylvio Emrich de Podestá, o “gambá” bem humorado (editorial) Roberto Segre |
||||||||||||||||||||||||||||
| Roberto Segre, arquiteto e crítico de arquitetura, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro |
||||||||||||||||||||||||||||
|
A recente aparição de dois livros sobre a obra de Sylvio de Podestá (1) induz a reflexionar sobre a significação, não somente da sua obra arquitetônica e literária, mas também sobre a projeção dos profissionais mineiros no sistema cultural e estético deste meio século de arquitetura brasileira. Na América Latina é ainda persistente a presença dos modelos externos, tanto das produções da vanguarda como dos hábitos e comportamentos dos arquitetos. Temos na mente, e nas imagens que aparecem em livros e revistas, a idéia que o arquiteto é um personagem sério, adusto, em geral mal humorado e vestido de terno. Lembremos de Mies, que maltratava a sua mulher, de Le Corbusier e Wright, que não eram personagens simpáticos, mesmo se tinham substituído a tradicional gravata pela borboleta ou o laço estilo cowboy do mestre americano. E nos ídolos atuais, pouco se fala do mau caráter de Koolhaas, Einsenman, Nouvel ou Tschumi, só preocupados com a sua colocação no ranking do jet set mundial. No Brasil, não é exatamente assim, já que o jeitinho local facilita as comunicações pessoais, mas os arquitetos não abandonam a imagem de seriedade se que manifesta com a roupa de griffe. A primeira particularidade que caracteriza os mineiros Sylvio e seu mestre Éolo Maia, é que são os dois únicos arquitetos hippies do país, com uma grande dose de bom humor e que desde os anos oitenta, nunca renunciaram ao inconformismo, à rejeição das instituições formais, e como falou na sua juventude Ruth Verde Zein (1985), lutaram por “varrer o entulho autoritário”. Este caráter boêmio deles, se evidencia na presença cotidiana no bar Pelejando do bairro Santo Antônio em Belo Horizonte, que no futuro vai ser lembrado como o cenário intelectual dos arquitetos, semelhante à rua Bahia que congregava os literatos modernistas mineiros nos anos trinta. A reação de Sylvio, Éolo, Jô e a turma dos “gambás” (Veveco, Penna, Almada, Diniz, Araújo Teixeira) contra o autoritarismo não foi só contra a repressão política e intelectual da ditadura militar, mas também contra a repressão “estilística” surgida em Pampulha e Brasília, que impôs a idéia de “brasilidade” nas formas curvas e livres produzidas por Niemeyer. E também contra a tese que a antropofagia tinha acabado nos anos trinta, e que desde o início do modernismo local não era mais necessário olhar para o exterior. Nestas duas décadas recentes, como evidencia o monte de obras e projetos publicados nos livros de Sylvio, a equipe mineira tentou encontrar seu caminho próprio liberando-se do peso e responsabilidade que significava ser Belo Horizonte e Pampulha as fontes principais da arquitetura moderna brasileira. Para isso, olharam para a tradição, o barroco mineiro, a história, a racionalidade “comtiana” do plano de Aarão Reis para a cidade, e também para as tendências da vanguarda internacional: o posmodernismo, a high tech, o minimalismo, o deconstrutivismo e as manifestações do supermodernismo. Neste sentido Sylvio não aceita o isolamento e a marginalização da periferia e afirma que a nossa sociedade tem que procurar a aproximação entre Bill Gates e Ze Mané; e que o arquiteto tem que ficar numa trincheira, não somente estética mas também social. Ele e o grupo foram criticados pelas excessivas assimilações formais externas em alguns dos prédios construídos, mais temos que aceitar que isto se justificou como um ato de protesto arquitetônico: por exemplo à heterodoxia de colocar na Praça da República a pós-modernista “Rainha da Sucata”, na frente dos curvilíneos apartamentos de Niemeyer. Sylvio é uma personalidade pouco comum na profissão de arquiteto: a imagem dele aparece mais nos filmes americanos: viria a ser uma espécie de “Rambo” ou “Gladiador”, mais que luta por uma causa justa: criar e divulgar a realização de um bom urbanismo e uma boa arquitetura, como expressão das necessidades sociais e estéticas da comunidade. Olhando os dois livros, é impressionante à criatividade, imaginação e produtividade dele, sempre tentando de procurar novos caminhos, novas soluções. Mas o que é ainda surpreendente é o seu desejo de difundir, não somente a sua obra, mais as manifestações dos colegas e as aportações mais importantes da tradição moderna de Minas Gerais: desde os anos oitenta, publicou sem descanso revistas e livros: primeiro Pampulha, logo 3Arquitetos e desde 1994 AP, que acabou em 1997. Não se desmoralizou com as dificuldades econômicas que acabaram fechando as publicações e criou a editora AP Cultural, que tem divulgado as obras de alguns arquitetos mineiros que não são conhecidos no Brasil: Rafaello Berti e Saul Vilela. Sem dúvida, os dois livros vão ser de grande utilidade para os estudantes e os arquitetos das novas gerações. As obras apresentadas demonstram como não existe um “estilo” brasileiro, mais, como afirma Sylvio, respostas concretas á condições técnicas, climáticas, ecológicas, culturais, que num país do tamanho do Brasil são muito diferentes segundo a região onde se constrói. Não é casual que os livros estejam dedicados aos arquitetos do Piauí, Paraíba, Rio Grande do Sul e do Norte, ou seja, as fronteiras do país. A sua trajetória tem acompanhado a evolução acelerada das transformações acontecidas na arquitetura deste meio século, sempre elaborando uma interpretação própria dos diferentes movimentos: nos anos setenta, experimenta um duplo relacionamento com a experiência lecorbusierana e as tradições locais que se manifestam em casas de sabor regionalista. Nos oitenta, com Éolo, ficam inseridos na exuberância do postmoderno, e também no rigor das composições geométricas que desde Kahn evoluem até as planimetrías de Rossi e Botta: por exemplo, o projeto do Museu do Homem Americano em São Raimundo Nonato, PI (1987). Considero que a etapa mais criativa de Sylvio, acontece na década dos noventa, com a liberdade compositiva e formal que permite as geometrias dinâmicas das curvas, tangentes e volumes articulados da linguagem construtivista: entre as obras mais coerentes citemos a casa apresentada na Segunda Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (1993), e o recente projeto da sede COHAB/SEHADU em Belo Horizonte (2000). Com o debate que está gerando o projeto de Bernard Tschumi para o MAC de São Paulo, é oportuna a publicação destes livros, que permitem conhecer a obra de um arquiteto, que segundo Aracy Amaral num recente artigo (Bravo!, dezembro 2001), pertence aos grandes nomes brasileiros que estão na sombra. E ao mesmo tempo, se evidencia que em Belo Horizonte tem um grupo de projetistas que lutam por o desenvolvimento de uma autentica arquitetura brasileira, que acompanha a dinâmica mundial. Neste sentido, a obra de Sylvio demonstra a falsidade da afirmação de Decio Pignatari (Bravo!, dezembro 2001) que “o Brasil se negou a participar da grande revolução da arquitetura ocorrida nas últimas três décadas”. Seguramente, o estudo dos profissionais locais “periféricos” verificaria todo o contrário (2). Notas 1 2 |
![]() Arquiteto Sylvio Emrich de Podestá |
|||||||||||||||||||||||||||
| | 020 | 020.01 | 020.02 | 020.03 | Autor | Assunto | Números | Página principal | Expediente | Vitruvius | | ||||||||||||||||||||||||||||