![]() |
![]() |
|
||||||||||||||||||||||||||||
| Depoimentos
de uma geração migrante (editorial)
(1) Abilio Guerra |
||||||||||||||||||||||||||||
| Abilio Guerra é professor da FAU PUC-Campinas, ex-editor da Óculum, atual editor de www.vitruvius.com.br e co-autor de Rino Levi – arquitetura e cidade (Romano Guerra) |
||||||||||||||||||||||||||||
|
Os arquitetos que estão hoje na faixa de 40 e poucos anos de idade se formaram em um período muito específico de nossa vida cultural e política. A formação universitária dessa gente se deu no final da década de 70 e primeira metade dos anos 80, período que coincide com ao menos dois fatos essenciais: o início de uma revisão historiográfica, onde novas balizas conceituais e novas metodologias permitiram que uma história menos comprometida ideologicamente com a auto-imagem do nosso movimento moderno fosse aos poucos se constituindo; e a introdução, com pelo menos duas décadas de atraso, da crítica pós-moderna no meio acadêmico e profissional. Há muito não se discutia arquitetura no Brasil. O longo e escuro período da ditadura militar havia empurrado goela abaixo dos protagonistas nova pauta de preocupações emergenciais e os valores e procedimentos da época áurea de nossa arquitetura se arraigaram no inconsciente coletivo, tornando-se verdadeiros axiomas intocáveis. Não é de se estranhar, portanto, que os arquitetos atuantes no período e que se julgavam os portadores da tradição tenham ignorado olimpicamente a revisão e se embatido tão raivosamente contra as formas inusitadas, que consideravam não só despropositadas, mas também degeneradas. Nesse clima hostil e de não-debate, o pós-moderno foi ganhando adeptos entre diversos arquitetos, muitas vezes eles próprios responsáveis pela “conceituação” que julgavam obrigatória. No entanto, os novos compromissos assumidos não partiam de uma crítica sincera e coerente do momento antecedente, portanto era incapaz de fazer juízos de valor sobre o legado moderno e ver com clareza suas qualidades e insuficiências. Repetia-se assim, mais uma vez, a triste sina da intelligentzia brasileira de fazer do passado uma tábula rasa, negando em bloco toda a discussão e realizações anteriores. Esse era o quadro entre os “já formados”. A impossibilidade da tradição desgastada e do novo superficial determinarem caminhos férteis talvez tenha sido um motivo determinante para que dezenas de jovens recém-formados fossem tentar a sorte em outros países. Certamente as dificuldades de inserção profissional e a crise econômica que se estendia desde a crise do petróleo davam ao quadro geral uma gravidade extrema, mas é certo que os temperamentos mais especulativos e vibrantes enxergaram no exterior, principalmente na Europa, uma lufada estimulante de novas idéias e novas possibilidades. A facilidade que a redemocratização propiciava para viagens e permanências prolongadas fora do país foi a gota d’água para a revoada de um contingente expressivo de jovens arquitetos. Uma geração migrante se constituiu no vácuo de idéias e propostas do Brasil pós-redemocratização, vácuo tão atroz que acabou alavancando um arrivista engomado para o cargo representativo máximo da nação e permitindo a adoção do neoliberalismo mais desastroso como solução única para o desenvolvimento do país. Dos jovens arquitetos que partiram, a maior parte acabou retornando após alguns anos, com uma interessante experiência de vida, tanto no aspecto profissional como existencial. Alguns outros por lá ficaram, prorrogando a experiência do exílio voluntário até os dias de hoje. Estes arquitetos migrantes têm nome. A partir de agora, a palavra está com eles. Nota A idéia da série de depoimentos da Geração Migrante, que começamos a publicar neste número de Arquitextos, teve como mola propulsora uma mensagem enviada pelo leitor Eduardo Oliveira, no dia 16 de agosto de 2002. O texto – que comentava o artigo de Assunta Viola, Atravessando as fronteiras. Minha experiência na Casa do Brasil em Paris. Minha Cidade nº 052, julho 2002 <www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc052/mc052.asp> – é o seguinte:
A mensagem de Eduardo de Oliveira veio de encontro a antiga vontade de registrar a experiência dos arquitetos brasileiros no exterior, tema debatido ao longo dos anos por mim e pelo amigo Pedro Moreira, arquiteto radicado em Berlim e que também estará dando aqui seu depoimento em breve. Pedro chegou a conceber uma mostra sobre o trabalho dos "imigrantes" na Galeria de Arquitetura em Berlim, não realizada até o momento. Cabe a ele, sem dúvida, o impulso original da série de depoimentos que agora se inicia. Leia também da série Depoimentos da Geração Migrante
|
|
|||||||||||||||||||||||||||
| | 030 | 030.01 | 030.02 | 030.03 | Autor | Assunto | Números | Página principal | Expediente | Vitruvius | | ||||||||||||||||||||||||||||