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  novembro de 20020
     
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  Depoimentos de uma geração migrante (editorial) (1)
Abilio Guerra
 

 
         
   

Abilio Guerra é professor da FAU PUC-Campinas, ex-editor da Óculum, atual editor de www.vitruvius.com.br e co-autor de Rino Levi – arquitetura e cidade (Romano Guerra)

 
       
 

Os arquitetos que estão hoje na faixa de 40 e poucos anos de idade se formaram em um período muito específico de nossa vida cultural e política. A formação universitária dessa gente se deu no final da década de 70 e primeira metade dos anos 80, período que coincide com ao menos dois fatos essenciais: o início de uma revisão historiográfica, onde novas balizas conceituais e novas metodologias permitiram que uma história menos comprometida ideologicamente com a auto-imagem do nosso movimento moderno fosse aos poucos se constituindo; e a introdução, com pelo menos duas décadas de atraso, da crítica pós-moderna no meio acadêmico e profissional.

Há muito não se discutia arquitetura no Brasil. O longo e escuro período da ditadura militar havia empurrado goela abaixo dos protagonistas nova pauta de preocupações emergenciais e os valores e procedimentos da época áurea de nossa arquitetura se arraigaram no inconsciente coletivo, tornando-se verdadeiros axiomas intocáveis. Não é de se estranhar, portanto, que os arquitetos atuantes no período e que se julgavam os portadores da tradição tenham ignorado olimpicamente a revisão e se embatido tão raivosamente contra as formas inusitadas, que consideravam não só despropositadas, mas também degeneradas.

Nesse clima hostil e de não-debate, o pós-moderno foi ganhando adeptos entre diversos arquitetos, muitas vezes eles próprios responsáveis pela “conceituação” que julgavam obrigatória. No entanto, os novos compromissos assumidos não partiam de uma crítica sincera e coerente do momento antecedente, portanto era incapaz de fazer juízos de valor sobre o legado moderno e ver com clareza suas qualidades e insuficiências. Repetia-se assim, mais uma vez, a triste sina da intelligentzia brasileira de fazer do passado uma tábula rasa, negando em bloco toda a discussão e realizações anteriores. Esse era o quadro entre os “já formados”.

A impossibilidade da tradição desgastada e do novo superficial determinarem caminhos férteis talvez tenha sido um motivo determinante para que dezenas de jovens recém-formados fossem tentar a sorte em outros países. Certamente as dificuldades de inserção profissional e a crise econômica que se estendia desde a crise do petróleo davam ao quadro geral uma gravidade extrema, mas é certo que os temperamentos mais especulativos e vibrantes enxergaram no exterior, principalmente na Europa, uma lufada estimulante de novas idéias e novas possibilidades. A facilidade que a redemocratização propiciava para viagens e permanências prolongadas fora do país foi a gota d’água para a revoada de um contingente expressivo de jovens arquitetos.

Uma geração migrante se constituiu no vácuo de idéias e propostas do Brasil pós-redemocratização, vácuo tão atroz que acabou alavancando um arrivista engomado para o cargo representativo máximo da nação e permitindo a adoção do neoliberalismo mais desastroso como solução única para o desenvolvimento do país. Dos jovens arquitetos que partiram, a maior parte acabou retornando após alguns anos, com uma interessante experiência de vida, tanto no aspecto profissional como existencial. Alguns outros por lá ficaram, prorrogando a experiência do exílio voluntário até os dias de hoje. Estes arquitetos migrantes têm nome. A partir de agora, a palavra está com eles.

Nota

A idéia da série de depoimentos da Geração Migrante, que começamos a publicar neste número de Arquitextos, teve como mola propulsora uma mensagem enviada pelo leitor Eduardo Oliveira, no dia 16 de agosto de 2002. O texto – que comentava o artigo de Assunta Viola, Atravessando as fronteiras. Minha experiência na Casa do Brasil em Paris. Minha Cidade nº 052, julho 2002 <www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc052/mc052.asp> – é o seguinte:

Oi Assunta. Achei muito interessante o artigo e considero o ponto de vista despretencioso e subjetivo de um morador a melhor maneira de avaliar um projeto de habitação. Até hoje, quando leio o último capítulo do livro da Vila Serra do Navio do Oswaldo Bratke, e vejo os comentários dos moradores, penso que foi por isso que decidi ser arquiteto. Apesar disso o que mais me interessou em seu texto foi a experiência de uma arquiteta brasileira na Europa. Gostaria de sugerir aos editores que te convidassem a escrever algo desse tipo. Em meio à crise brasileira, tenho visto muitos arquitetos recém-formados partirem pra outros países em busca de maiores oportunidades profissionais e acadêmicas. Acho que seria interessante um texto que tratasse de experiências particulares suas e de outras coisas mais práticas como registro profissional no exterior, mercado, organização e rotina dos escritórois, etc. Parabéns pelo artigo e pela experiência na Casa do Brasil. Eduardo Oliveira

A mensagem de Eduardo de Oliveira veio de encontro a antiga vontade de registrar a experiência dos arquitetos brasileiros no exterior, tema debatido ao longo dos anos por mim e pelo amigo Pedro Moreira, arquiteto radicado em Berlim e que também estará dando aqui seu depoimento em breve. Pedro chegou a conceber uma mostra sobre o trabalho dos "imigrantes" na Galeria de Arquitetura em Berlim, não realizada até o momento. Cabe a ele, sem dúvida, o impulso original da série de depoimentos que agora se inicia.

Leia também da série Depoimentos da Geração Migrante

SPADONI, Francisco. "Geração Migrante – Depoimento 1. Kenzo Tange e uma peniche no rio Sena". Arquitextos 030.01. São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_01.asp>.

LEONIDIO, Otavio. "Geração Migrante – Depoimento 2. Em Paris, chez Christian de Portzamparc". Arquitextos 030.02. São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_02.asp>.

VIOLA, Assunta. "Geração Migrante – Depoimento 3. Arquitetura e criatividade: uma experiência com Massimiliano Fuksas". Arquitextos 030.03. São Paulo, Portal Viutrivus, nov 2002 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_03.asp>.

ORCIUOLI, Affonso. "Geração Migrante – Depoimento 4. De São Paulo a Barcelona". Arquitextos, Texto Especial 161. São Paulo, Portal Vitruvius, dez 2002 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp161.asp>.

OIWA, Oscar Satio. "Geração Migrante – Depoimento 5. Arte sem fronteira". Arquitextos, Texto Especial 162. São Paulo, Portal Vitruvius, dez 2002 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp162.asp>.

MOREIRA, Pedro. "Geração Migrante – Depoimento 6. Brasil, Inglaterra, Alemanha – 15 anos", Arquitextos, Texto Especial 163. São Paulo, Portal Vitruvius, jan 2003 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp163.asp>.

LIMA, Zeuler R. M. de A. "Geração Migrante – Depoimento 7. Migrar, verbo transitivo e intransitivo. Uma experiência nos Estados Unidos", Arquitextos, Texto Especial 164. São Paulo, Portal Vitruvius, jan 2003 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp164.asp>.

DIETZSCH, Anna Julia. "Geração Migrante – Depoimento 8. Uma dupla experiência nos Estados Unidos", Arquitextos, Texto Especial 172. São Paulo, Portal Vitruvius, mar 2003 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp172.asp>.

 


Lord Foster e a equipe do projeto do Great Court no British Museum, Londres, Inglaterra. Inauguração do Great Court, dezembro de 2000. Ao lado do arquiteto inglês, Filomena Russo, arquiteta diplomada pela FAU-USP em 1986, atualmente associada do escritório Foster and Partners, trabalhando neste escritório desde o verão de 1995. Foto 'Foster and Partners / Nigel Young


Francisco Spadoni, arquiteto brasileiro no escritório de Kenzo Tange, concluindo a maquete do Grand Ecran de Place d´Italie, que seria inaugurado em 1991


Otavio Leonídio, arquiteto brasileiro (de camiseta preta), na equipe do escritório de Christian de Portzamparc, Paris, 1992


Assunta Viola, arquiteta brasileira da equipe de Massimiliano Fuksas (de camisa xadrez caqui), no escritório de Roma, após a entrega do Concurso para a Praça das Nações, Genebra, Suíça, julho de 1995. Ao fundo, pinturas de Fuksas

 
         
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