![]() |
![]() |
|
||||||||||||||||||||||||||||
Geração
Migrante – Depoimento 1 |
|
|||||||||||||||||||||||||||
| Francisco Spadoni é arquiteto e professor da FAU Mackenzie |
||||||||||||||||||||||||||||
| Falar
de uma experiência pessoal nem sempre é fácil, pois nunca sabemos exatamente
o quanto podemos modificá-la em nossa consciência. Mudei-me pra Paris
após três anos de formado para cursar uma pós-graduação em Teorias de
arquitetura. Os motivos que nos empurram para tal empreitada podem ser
vários e por mais que o apelo profissional seja o determinante, não podemos
descartar aqueles de ordem pessoal: a experiência de viver no estrangeiro,
enriquecimento cultural, etc. Mas vou ater-me aos primeiros, mais afins
aos objetivos da editoria. Diplomei-me
em 1984 na Faculdade de Arquitetura da PUC-Campinas e compus o grupo editor
da revista Óculum desde sua formação. Estes anos foram de certa sublevação
em nossa formação de arquitetos, pois o Brasil começava a sofrer o primeiro
embate com as novas doutrinas que já povoavam o debate internacional em
arquitetura desde a década anterior e com a ânsia natural de quem ainda
uma vez buscava alguma espécie de atualização, passávamos a receber uma
avalanche de novas informações, que naquele momento poderiam suprir nossa
carência pela novidade. Os
anos 80 foram os primeiros da abertura política e, assim como o antigo
regime político que desmoronava, a arquitetura no Brasil vivia o ocaso
de uma geração de herdeiros do movimento moderno que nesta época, pouco
nos interessava. O número especial da revista L’Architecture d’Aujourd’Hui
de 1987 dedicado ao Brasil trazia um pouco este espírito de desencanto.
Não farei uso deste espaço pra tratar de situação tão complexa, mas importa-me
mostrar que nossas fontes de busca não estavam necessariamente aqui naquele
instante e este pode ter sido de alguma forma um dos fatores que me impulsionou
a me tornar um migrante. A
experiência com a revista Óculum – formando equipe editorial com Abílio
Guerra, Renato Anelli, Paulo Dizzioli, Luis Fernando de Almeida, Álvaro
Cunha e Tácito Carvalho e Silva – trazia para todos uma expectativa de
atuar sobre um território ainda pouco explorado no Brasil – o das
novas correntes de pensamento em arquitetura. O caminho natural a alguns
de nós foi o de continuar os estudos fora do país. Iniciei
meus estudos na Ecole d’Architecture de Paris-Villemin no ano de
1988 na área de Teorias da Arquitetura para um curso de dois anos letivos:
88-89; 89-90. Para o ingresso no curso, prestei a seleção aqui do Brasil
através de um dossiê de candidatura à vaga. O curso era ministrado em
conjunto com a Architectural Association, de Londres, e Facoltá
di Architettura, de Roma, através do sistema Erasmus da comunidade
Européia, com as aulas ocorrendo nas três escolas. A opção pela França
como destino e pela EAPV em particular, deveu-se à reputação da escola
na minha área de interesse e à fama de alguns dos professores que faziam
parte do programa – Jacques Boullet; Paul Virillio; Philipe Madec, entre
outros –, associado a outros fatores como o domínio da língua, interesse
cultural pelo país e gratuidade do ensino. O
intercâmbio entre as três escolas, as viagens constantes e o contato com
professores e colegas, rapidamente compuseram um universo complexo, mas
facilmente assimilável. No campo da arquitetura, ou mais propriamente
da informação, a distância também não existia pois a mídia já estava cumprindo
o seu papel. Ao final tudo se resumia a um novo endereço, uma nova cultura
e uma nova condição social: a de imigrante. Trabalho Minha
vida profissional esteve ligada a um grande escritório de linhagem moderna:
Kenzo Tange & Associates em Paris, que respondia pelos projetos
do escritório no continente Europeu. No período que trabalhei na agência
foi desenvolvido o projeto para o Complexo de Place d’Italie em
Paris e para o Musée Tremois na cidade de Nice. KTA era uma espécie
de embaixada japonesa na França, recebendo muitos arquitetos e estudantes
japoneses de passagem por Paris. A prática de contratação de arquitetos
estrangeiros era comum no escritório, que teve apenas dois franceses entre
quinze arquitetos que trabalharam no escritório no período, a metade japoneses. Kenzo
Tange Associates era um escritório pouco convencional para
os padrões que eu estava acostumado no Brasil, pois não funcionava com
equipes hierarquizadas. O corpo de profissionais era pequeno, apenas sete
a oito arquitetos trabalhando simultaneamente e cada um era responsável
integralmente pelo produto que desenvolvia, da concepção ao desenho final
das pranchas. A
conciliação com os estudos se dava com o sufoco de sempre. Como tínhamos
as aulas concentradas numa única semana por mês em período integral, mesmo
quando aconteciam fora da França, tínhamos por contrato que trabalhar
em período integral nas outras três semanas, mas não raro (acho que quase
sempre), saía da aula direto para o escritório nas famosas charretes.
A experiência profissional é inegável em especial neste período de formação,
sobretudo o contato com profissionais de orientação às mais distintas. A
produção de Kenzo Tange mudara sensivelmente entre seu período heróico
dos anos 50/60, onde se destacavam os cores do Yamanashi Press
ou do Shizuoka Shinbum, para os trabalhos dos anos 80, quando começa
a fazer concessões à idéia da composição. O vigor de sua obra daqueles
anos que tanto me encantara como estudante, parece que perdia um pouco
de seu brilho original, mas a convivência dentro da empresa nos mostrava
uma nova realidade. Novos comandantes de gerações mais novas assumiam
postos chaves no destino da produção do escritório e embora o professor,
como era chamado por todos, ainda tivesse controle de tudo que se produzia,
era impossível não ceder às novas atitudes, mesmo porque a escala de trabalhos
era global. Após
deixar o escritório tive a oportunidade de trabalhar em um ateliê
próprio, onde pude executar minha primeira obra: uma peniche –
transformação de um ex-petroleiro de canais em uma casa – que ficou atracado
na porção residencial do rio Sena. Inserção
social da arquitetura e do arquiteto Das
realidades que vivenciei, em especial a francesa e um pouco a inglesa,
pareceu-me esta última mais representativa ao arquiteto, embora a arquitetura
tenha participado decididamente do projeto cultural do governo socialista
de François Mitterand. Os grandes projetos da era socialista, cujo centro
talvez tenha sido o Museu do Louvre, significavam um constante relançar
da cidade de Paris como uma espécie de capital cultural da Europa e desde
o advento do edifício do Beaubourg em 1977, que em pouco tempo transformara-se
no maior centro de visitação do país, superior até mesmo à Torre Eiffel,
já se confirmara o cacife que a arquitetura teria para alavancar este
projeto. Mitterand,
como sabemos, realizou sete grandes obras, com mais ou menos sucesso,
e nesta esteira entre os anos 80 e 90 houve um mercado de trabalho bastante
aquecido na França. Hoje não me parece que a situação seja a mesma. Balanço Certamente
foi uma experiência fundamental em minha vida pessoal e profissional e
não hesitaria, como não hesito junto aos estudantes que me consultam,
em indicá-la a quem se interessar. A nossa adaptação foi muito rápida,
mas creio que devido a circunstancias de relações pessoais que nos deram
o apoio. Normalmente as dificuldades existem em especial em se morar e
morar adequadamente e o custo de tudo é muito alto. Talvez
uma das maiores conquistas que se possa ter, será sempre a das relações
pessoais, que vamos estabelecendo ao longo de nossas vidas. E nestas circunstâncias
mais do que pessoas você se relaciona com seus mundos. Lembrando um pouco o arquiteto Henrique Mindlin, citado por Lauro Cavalcanti no prefacio do clássico Arquitetura Moderna no Brasil, este dizia a uma sua colega num passeio de carro pouco antes de sua morte: você já imaginou que aborrecida seria nossa vida se não conhecermos nenhuma pessoa nova daqui em diante? Ficha técnica do primeiro projeto projeto autor construção local projeto execução dimensões do
casco área total transformada histórico
O cliente era um profissional da área comércio marítimo e já possuía duas outras peniches, sendo uma o famoso restaurante Martin Pecheur em Paris. Para este projeto recebemos apenas a metade do casco de um ex-petroleiro de canais, pois após completar sua vida útil eles são obrigados a serem partidos ao meio. Daí esta forma de meio navio que estas embarcações assumem. Existem bairros onde se permite a ancoragem destas embarcações para fins domésticos. Neste trabalho, o programa previa além da função casa, um ateliê gráfico para a esposa e um escritório para o proprietário. Como curiosidade, Le Corbusier também projetou uma peniche que está em Paris e hoje abriga a Armée du Salut – o exército da Salvação Francês. Série completa dos "Depoimentos da Geração Migrante"
|
|
|||||||||||||||||||||||||||
| | 030 | 030.01 | 030.02 | 030.03 | Autor | Assunto | Números | Página principal | Expediente | Vitruvius | | ||||||||||||||||||||||||||||