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  fevereiro de 20030
     
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Prêmio Bienal Colombiana de Arquitetura
Rodrigo Tascón

 

 
         
     

Rodrigo Tascón é arquiteto em Cali, Colômbia

 
  (leia a versão em espanhol)      
 

Causou assombro e descontentamento entre os arquitetos a determinação do júri que o primeiro prêmio da Bienal de Arquitetura, na categoria de projeto arquitetônico, fosse dado à Arquibancada da Universidade de San Buenaventura (1).

Entendo esta decisão como uma reação do jurado à feira de vaidades em que converteu a arquitetura nacional. O jurado fala contra o excesso, as formas descontroladas e quase frenéticas, sem justificativa, e o desordenado uso de materiais e cores. Há uma influência sem assimilação da arquitetura divulgada pelas revistas e “os projetos carecem de um vigoroso enraizamento cultural que permita identificar e expressar os valores locais e incorporar as sugestões e preexistências próprias do lugar”, tal como assinou em ata o jurado da Mostra de Arquitetura Vallecaucana deste ano. Posição que expressa uma “reação a la Murcutt” contra a moda.

Mas o júri se equivoca ao querer colocar como exemplo uma obra insignificante (no sentido etimológico). A Arquibancada é uma obra correta, bem composta e ordenada, rigorosa, contida e austera. Mas também é uma obra que tem pouco a dizer, que dá tudo de si nas experiências visuais e se esgota ali. Não existem fotos de interiores porque seu espaço interior é irrelevante e seus méritos de aparência não são suficientes para catalogá-la na complexidade da arquitetura. Pode ser um belo objeto colocado ao lado de um campo de futebol, com um fundo de árvores justamente atrás do lado que ninguém vê – e nem faz falta...

As arquibancadas são e tem sido sempre – e nos parece que tem que continuar sendo hoje em dia –, planos escalonados para servir de assento aos espectadores de um espetáculo. Mas esta não tem a esbelteza, a beleza ou o arrojo estrutural da arquibancada do Estádio de Beisebol de Cartagena, do arquiteto González Zuleta, ou a do Estádio de Atletismo de Madrid, do arquiteto Cruz e Ortiz – apenas para mencionar dois exemplos paradigmáticos. E a cobertura da arquibancada nem é concebida pelo arquiteto, mas a aplicação de uma solução presente em catálogo de um fabricante de estruturas feitas apenas para proteger o público do sol.

Indubitavelmente havia na Bienal outras obras de relevância muito maior. A Biblioteca do Tintal (2) é um maravilhoso exemplo de recuperação, onde novos significados são obtidos numa estrutura pesada e robusta de um depósito de lixo. Inteligentes recursos formais resistem às limitações do antigo para criar novas formas, ricas e expressivas. Sem esquecer suas exemplares conotações sociais e históricas, numa situação urbana criticamente degradada.

Mas era a Casa da Justiça (3) – ao menos é assim que a conheço – a obra mais interessante. Baseada em velhos ensinamentos sobre o clima e o meio ambiente, a Casa certamente “expressa os valores locais”, recriando os pátios e elementos da arquitetura tradicional de maneira contemporânea com sabedoria e com oficio. Esta obra não se resume a sua aparência – todos os dias deve ser decifrada a poesia contida em seus percursos, nos reservatórios d’água que a refletem e no céu que lhe dá a presença do cosmos em que se inclui, em seus espaços altos e refrescantes, na ordem das colunatas que a sustenta, nas surpresas que constantemente aparecem a cada passo. Esta é uma obra que seguramente sabe que está em um lugar e que, portanto, a ele pertence e dele se apropria num exercício permanente e cotidiano de reciprocidade.

A Casa da Justiça tem magia ou duende, como queria García Lorca que tivessem as coisas. Ou pode ser a forma inevitável de fazer as coisas que busca Glen Murcutt, o último prêmio Pritzker (4). A escolha desta obra teria sido a obra prima que queria o jurado quando na ata final afirma a necessidade de dignidade, autocontrole e rigor. E, dessa forma, não se teria desperdiçado a ocasião de apresentar aos jovens premiados uma lição de Arquitetura. E novamente aparece a urgente necessidade de que a Sociedade Central de Arquitetos financie as visitas dos jurados às obras fora da capital para que no tornem a equivocar-se.

Nota

1
Na categoría Projeto Arquitetônico, aa Bienal Colombiana de Arquitetura (29 setembro – 01 outubro de 2002) ortogou o "Prêmio Fernando Martínez Sanabria" ao projeto denominado Arquibancada da Universidade de San Buenaventura, Cali, Valle del Cauca, do Arquiteto Jaime Beltrán.

2
Biblioteca El Tintal, Cali, Colômbia. Arquiteto Daniel Bermúdez.

3
Casa da Justiça, Cali, Colombia. Arquiteto Benjamin Barney-Caldas. Projeto finalista do 2º Prêmio Mies van der Rohe de Arquitetura Latino-americana, Pavilhão Mies van der Rohe, Barcelona, 2000. Ver de Benjamin Barney-Caldas os seguintes artigos:

BARNEY-CALDAS, Benjamin. "O elogio do pátio", Arquitextos 014.01. São Paulo, Portal Vitruvius, jul 2001 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq014/arq014_01.asp> (sobre casa de Rogelio Salmona);
BARNEY-CALDAS, Benjamin. "Poder, gosto e arquitetura", Arquitextos, Texto Especial 115, São Paulo, Portal VItruvius, jan 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp115.asp>;
BARNEY-CALDAS, Benjamin. "Terrorismo e arquitetura", Arquitextos 017.01, São Paulo, Portal Vitruvius, out 2001, <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq017/arq017_01.asp>;
BARNEY-CALDAS, Benjamin. "XVII Bienal Colombiana de Arquitetura", Arquitextos, Texto Especial 033, São Paulo, Portal Vitruvius, dez 2000 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp033.asp>.

4
Ver artigo: FROMONOT, Françoise. "Arquitetura racionalista na velha paisagem. A obra de Glenn Murcutt". Arquitextos 025.01,São Paulo, Portal Vitruviusm jun 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq025/arq025_01.asp>.

 


Arquibancada da Universidade de San Buenaventura, Cali, Valle del Cauca. Arquiteto Jaime Beltrán


Arquibancada da Universidade de San Buenaventura, Cali, Valle del Cauca. Arquiteto Jaime Beltrán


Biblioteca El Tintal, arquitecto Daniel Bermúdez


Biblioteca El Tintal, arquitecto Daniel Bermúdez


Casa da Justiça, Cali, Colombia. Arquiteto Benjamin Barney-Caldas


Casa da Justiça, Cali, Colombia. Arquiteto Benjamin Barney-Caldas

 
         
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