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Cooperativa
Ciudad Abierta, Chile |
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| Carlos M. Teixeira é arquiteto, mestre em urbanismo pela Architectural Association e autor do livro "Em obras: história do vazio em Belo Horizonte" |
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Origem
= Poesia + Geração = Profissão Arquitetônica, Obra de Arquitetura. Assim
o grupo fundado em 1950 pelo arquiteto chileno Alberto Cruz e pelo poeta
argentino Godofredo Iommi equaciona seu trabalho de perseverante e singularíssima
trajetória de mais de quarenta anos.
De
acordo com o grupo, a tradição nativa, por si própria, não pode ser
tomada como o caráter dominante da cultura latino-americana. Assumindo
que a nossa é uma cultura de transformação da cultura européia, o grupo
de Valparaíso empreendeu um longo estudo geográfico dessa transformação,
usando documentos das expedições dos colonizadores – da Conquista –,
e mapeou todos os assentamentos e as representações cartográficas do
Novo Mundo. A
resposta do grupo quanto à identidade latino-americana tomou forma no
projeto “Amereida”, que combinava a escrita em grupo de um poema (o
nome Amereida se refere ao Aeneid) e uma jornada ao longo do continente.
A viagem, anunciada no The Times como “uma expedição internacional
de poetas e outros”, começou pela Terra do Fogo, bissetriz entre os
oceanos Pacífico e Atlântico, e avançou rumo ao norte pelo interior
do continente. Este, designado como “mar interior” por sua quase ausência
de ocupação, é então considerado o mistério da emergência da América
no mundo moderno. A meta final é Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia,
declarada a capital poética da América. Durante a viagem, uma série
de atos poéticos vai se acumulando, incluindo conferências e a realização
de obras de arte in situ criadas a partir dos mais variados
materiais. É
iniciado então o épico processo de continuação da colonização da América,
uma recolonização com propósitos ora antagônicos ora similares ao do
colonizador europeu: “Vocês sabem que o rei da Espanha não poderia começar
senão desde o início, por isso México e Cuzco foram apagadas, porque
um rei, um imperador, para construir seu império não ergue pedras a
partir do que já fizeram outros reis. É o início, a liberdade do início,
ou a liberdade do reinício. É a liberdade de começar desde o zero, ou
a liberdade de começar desde um ou a liberdade de começar desde cem.
Quantidade. Gravitacionalidade. Inclusão. Início. Livres... livres”. Longe
de ser a caricatura do Velho Mundo ou a modernidade-Frankstein criada
pela mãe Europa, a América é um presente: “Um presente que aparece porque
irrompe (...). Irrompe e tem que ser aceito e, para tanto, modificado.
O que a poesia de Amereida faz é o canto à memória original”. Desde
a noção das Índias até o lugar geográfico do “paraíso terrestre”, é
incontestável que a América constituiu uma erupção, um mundo novo e
inesperado: “Colombo nunca veio à América, ele procurava as Índias.
(...) O que significa sermos despertados pela doação? Nada mais e nada
menos que cobrar consciência de que a identidade dos americanos é aquela
de aceitar viver e constituir o mundo como presente”.
Por
analogia, Amereida defende uma motivação épica para o “fazer arquitetura”.
“(...) Temos sido capazes de realizar esse trabalho porque pensamos
que uma obra de arquitetura não é uma massa isolada de material arquitetônico,
mas um processo de abertura ou de fundação. Fundar
significa o processo gradual que paulatinamente cria uma cidade. Abertura
é aquilo com o qual estamos diretamente comprometidos, e se desenvolve
em uma dimensão diferente de fundar. É auto-referencial e auto-reflexivo
de maneira criativa, e torna a fundação tanto uma possibilidade
quanto uma realidade. (...) Vivemos da consciência que um dia nossa
abertura resultará em uma fundação. Construímos o presente
porque acreditamos que a missão da arquitetura sul-americana é construir
o presente”. No
final dos anos sessenta, foram iniciadas as obras da Ciudad Abierta,
o local onde algumas das idéias do grupo puderam ser finalmente implementadas.
O sítio da cidade se estende da orla do oceano Pacífico a um amplo vazio
rural – o mar interior –, a maior parte do qual coberto por dunas de
areia. Acontece aí o primeiro ato arquitetônico do grupo, aberto à toda
a comunidade e específico do lugar e da ocasião. As dunas sopradas pela
brisa do mar, que apaga todas as marcas da superfície, foram identificadas
com a idéia de inocência, e daí designadas como o lugar onde o conhecimento
e a experiência seriam obliterados em favor de uma confrontação com
o novo. A
nova cidade teria de ser concebida não em termos de escala, da densidade
de população ou da organização de suas atividades, mas em termos de
suas instituições públicas – a ágora – onde a poesia poderia ser revelada,
e a vida e a arte poderiam crescer juntas. O ritual fundacional da Ciudad
Abierta consiste em uma série de phalenes, incluindo uma perambulação pelo
sítio com o objetivo de “abri-lo”. Ao invés de estabelecer um único
ponto focal para a cidade, o grupo decide criar toda uma constelação
de ágoras:
No
ensaio Ciudad Abierta: da utopia à miragem, Cruz e Iommi afirmam
que é possível construir uma miragem – uma ilusão sem profundidade –
assim como uma construção aspira a nada mais que ser visível: pura poiesis.
Na ausência da utopia, um complexo de metiers
poéticos, indiferentes à permanência e tendo como função única a aparência,
deve ser dita a constituição de uma cidade. Claramente, esta noção exclui
a possibilidade de planejamento, já que ela se apóia na noção de deliberada
criatividade. Sua existência claramente passa desapercebida. Seus habitantes
desempenham os papéis dos clientes, arquitetos, construtores e moradores;
e a prática dos mesmos se dá espontaneamente. As
viagens ao longo do interior do continente, iniciadas quando do lançamento
do poema Amereida (1966), continuam ainda hoje, sempre organizadas pelo
Instituto de Arquitetura da Universidade Católica de Valparaíso. De
dez em dez anos o grupo organiza exposições dos estudos do grupo e das
obras construídas. A poesia de Godofredo Iommi é publicada em limitadas
edições pela Escola de Arquitetura e vendida em livrarias no Chile.
Amereida, o poema, foi republicado recentemente pela PUC de Santiago
juntamente com os anais de um seminário realizado em 1990 e 1991 e integrado,
entre outros, por Cruz e Iommi. Os dois projetos apresentados aqui representam
várias fases de constituição do grupo. Os autores: “Nós falamos brincando no grupo que, assim como alguns arquitetos no curso da história adotaram um outro nome, nós podemos nos chamar Ciudad Abierta”. Que seja assim! |
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