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| Apontamentos
sobre a relação entre cinema e cidade (1) Leonardo Name |
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| Leonardo
Name é Arquiteto-Urbanista (FAU-UFRJ), Especialista em Sociologia Urbana
(IFCH-UERJ), Mestrando em Geografia (PPGG-UFRJ), Bolsista do CNPq |
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| Na
última década ganharam centralidade acadêmica os estudos que associam
“cultura” e “meio urbano” e, mais especificamente, “cinema” e “cidade”.
Debruçar-se sobre a relação entre estes dois elementos significa não apenas
pesquisar o papel, no mais das vezes não creditado, que as cidades desempenham
nos filmes, mas sobretudo examinar as múltiplas e significativas interações
entre a mais importante forma cultural e a mais importante forma de organização
social do século XX. Desde
sua invenção, na Paris do fin-de-siècle, o cinema tem mantido intrínseca
relação com as cidades. O cinema não foi apenas por excelência o grande
espetáculo do século passado; também foi, desde que nasceu, uma forma
de entretenimento essencialmente urbana e deve muito de sua natureza ao
desenvolvimento da cidade. Criado no auge da metrópole moderna, o cinema
necessitava de pronto tanto de seu aparato industrial quanto de seu adensamento,
por ser uma arte de reprodução e de massa. A partir de então
a cidade passou a ser, sem dúvida, um dos elementos mais filmados pelo
cinema, tendo o seu desenvolvimento acompanhado de perto pela sétima arte:
começando pela indústria Lumière em Lyon e pela estação de trem de A
chegada de um trem a Ciotat (2), primeiro filme da História, exibida
no Grand Café de Paris, os primeiros estúdios passaram a se instalar nas
periferias das metrópoles. Depois, estes mesmos estúdios começaram a reproduzir
partes de cidades para filmagens e, mais tarde, se tornaram eles mesmos
partes das cidades, como aconteceu com Cinecittà e Hollywood. Se
nos primeiros registros cinematográficos tinha-se a ilusão de estar restituindo-se
e arquivando o real, hoje se sabe que as imagens cinematográficas
afastam-se da chamada “realidade concreta”, minimamente, a partir da intervenção
compositiva de seus realizadores. Filmes se parecem com algo, mas
não são o algo. É correto afirmar, portanto, que as cidades
cinemáticas, sejam construídas ou reconstruídas em estúdio ou utilizadas
como locação, são uma representação. Podem apresentar-se sob espectros
de cores diversas, em preto e branco, sob efeitos de luz e sombra, com
um caráter edênico ou infernal, festivo ou sombrio, revelando-se utopias
ou distopias do espaço urbano. Mas isto é o mínimo que uma representação
pode pretender e conseguir. A
maneira como os espaços são usados e lugares são retratados nos filmes
lhes dá significados que podem contribuir, intencionalmente ou não, para
a difusão de um conjunto de crenças e valores muitas vezes ligados a estruturas
de dominação cultural, política e econômica. É preciso, portanto, tratar
os discursos e representações sobre a cidade como construções simbólicas
que estão plenas de valores sociais e produzem efeitos bastante concretos
na forma da cidade e na vida de seus habitantes. Estudar
o cinema e a cidade é na verdade se perguntar: quem faz o discurso,
para quem, e visando o quê? Qual o papel das produções
cinematográficas que enfocam cidades e culturas específicas em um mundo
globalizado? De que maneira o cinema tem contribuído para a manutenção,
transformação e subversão de estereótipos e clichês sobre estas cidades
e seus habitantes? O
cinema veio atender uma necessidade presente desde meados do século XIX
e posteriormente intensificada de forma gradual no metropolitano: uma
espécie de voyeurismo cotidiano, da valorização do
olhar e do instante e da espetacularização da realidade. A centralidade
do olhar, que vinha consolidando-se desde o Renascimento, e a espetacularização
do cotidiano, que assume contornos mais nítidos no final do século XIX,
popularizam-se no gosto pelas caricaturas e faits
divers na imprensa, pelos panoramas, pelas exibições de variedades
nos vaudevilles, pelas exposições universais
e pelos museus de cera. A
espetacularização e o voyeurismo
eram parte do cotidiano da Paris dos fins do século XIX onde surgiu
o cinema. A busca pela inserção do indivíduo em uma realidade simulada
fazia-se presente no Musée Grévin, o museu de cera até hoje
existente na capital francesa e nos Museus do Folclore do final do século
anterior em lugares como a Escandinávia. Entre cenários e esculturas de
cera, ao público era permitido estar em contato, por simulação, com o
que lhe era de acesso restrito ou impossível na vida real: uma cena histórica,
um acontecimento descrito em lendas antigas, a biblioteca do presidente,
o camarim de uma dançarina, ou a vista privilegiada de Paris no momento
da construção da Torre Eiffel. Este percurso pelos museus de cera guardava
fortes laços com o voyeurismo e a flânerie,
práticas culturais do fim-de-século que
não estavam restritos à burguesia e que, mais que identificarem as
origens do olhar cinematográfico, apontam para o nascimento do público,
porque é necessariamente na multidão que se encontra o espectador cinematográfico. Uma
análise de catálogos da exposição universal de1900 mostrará a formação
do olhar cinematográfico nos populares panoramas: além das imensas telas
pintadas de paisagens distantes via-se invenções que tentavam ser ainda
mais emocionantes, a partir de algum recurso técnico que desse a ilusão
do movimento. O Stereorama, no pavilhão argelino, reproduzia
uma viagem pela costa do Mediterrâneo, e utilizava uma tela móvel e efeitos
de luz que proporcionavam ao público a sensação de movimento. Uma invenção
ainda mais sofisticada, o Mareorama,
consistia em um edifício em forma de navio de quarenta metros de altura,
onde mil e quinhentos “passageiros” simulavam uma viagem entre Marselha
e Constantinopla: dispostos em um compartimento que imitava uma cabine
de navegação, os espectadores ficavam diante de uma imensa paisagem pintada
numa tela, desenrolada lentamente no sentido horizontal, enquanto uma
outra equipe tratava de dar movimentação ao “navio”, fazer controles de
luzes que variavam de acordo com a hora do espetáculo, e movimentar uma
plataforma de algas marinhas para que os espectadores tivessem a ilusão
olfativa de uma brisa marítima. A
arquiteta Giuliana Bruno (3) defende a idéia de que nem todas as cidades
são cinemáticas. Algumas delas, por serem mais fotogênicas pela natureza,
pela arquitetura ou pelo movimento perpétuo de pessoas, atrairiam e melhor
responderiam à imagem em movimento. Estes argumentos parecem confundir
paisagem com beleza, panorâmica com cartão postal,
como se a lente cinematográfica estivesse interessada apenas nos aspectos
positivos e belos dos lugares. Uma mesma cidade pode ser filmada de várias
maneiras, captando seu lado belo ou feio, seus espaços movimentados ou
ermos, sua densidade ou seus vazios. Tais recortes dependem do discurso
inerente a estas imagens. É incalculável o número de cidades que já se
tornaram locações cinematográficas: Los Angeles, Nova Iorque, Filadélfia,
Roma e Nápoles, Montreal, Rio de Janeiro e Paris são alguns dos muitos
exemplos cuja representação cinematográfica tem sido exibida nas telas
e tem merecido atenção de estudiosos. A
paisagem é elemento intrínseco à narrativa cinematográfica e à representação
das cidades. É a partir dela que, por meio de ícones – construções, acidentes
naturais, monumentos, edificações etc. – o meio urbano é decodificado
e reconhecido pelo espectador. Mas a lente cinematográfica escolhe e dispõe
os lugares de variadas maneiras, dotando-os de angulações, luz diferenciada
e de uma narrativa, adquirindo assim diversas conotações. Para o geógrafo Jeff Hopkins (4), a paisagem situa o espectador em um lugar cinemático onde espaço e tempo estão comprimidos e expandidos e onde papéis sociais e valores morais são sustentados ou subvertidos. A paisagem cinematográfica não é, então, um lugar neutro para o entretenimento ou para uma documentação objetiva, muito menos mero espelho do “real”, mas sim uma forte criação cultural e ideológica onde significados sobre lugares e sociedades são produzidos, legitimados, contestados e obscurecidos. Elemento da paisagem, a arquitetura também tem destaque nas representações da cidade. Arquitetura e cinema se aproximam a partir da manipulação do espaço e do tempo e o cinema, desde sempre, foi campo de experimentação e crítica das várias utopias e contra-utopias arquitetônicas e urbanísticas. Sejam nos filmes alemães da República de Weimar, nos filmes futuristas, nos famosos city films do início do século XX ou pela crítica à Arquitetura Moderna em filmes de Jacques Tati, o cinema tem o papel de vitrine da arquitetura e dos debates relativos ao espaço urbano. Não
só a arquitetura, mas qualquer representação da cidade no cinema, seja
a real ou a cenográfica, do presente, do passado ou do futuro, de visão
otimista ou pessimista, é invariavelmente um comentário sobre o presente.
O filme reflete os debates da sociedade, os problemas emergentes e as
novas estéticas e ideologias. A cidade do futuro em Metrópolis
(5), por exemplo, é personagem central da narrativa, representada
como uma entidade diabólica que sublinha a decadência dos homens, reduzidos
a seres mecanizados, expressão dos receios já existentes na época em relação
à cidade industrial. Já a Los Angeles de 2019 em Blade runner – o caçador
de andróides (6) não é nada mais do que a total realização
dos horrores distópicos que pareciam somente virtuais na década de 80.
O filme apresenta uma poderosa relação entre pós-modernismo e capitalismo,
particularmente na representação da decadência pós-industrial denunciada
pelos edifícios de pastiche arquitetônico completamente abandonados em
contraposição às ruas apinhadas de indivíduos de todo o tipo. Proliferação
e desperdício servem como índice e denúncia do tempo acelerado da nova
fase do capitalismo. O cinema torna-se objeto urgente de avaliação científica ao se perceber que no contemporâneo mundo da imagem, da circulação global e da concorrência entre os lugares, muitas das cidades hoje vivem, literalmente, de suas aparências. Dentro deste contexto, ao serem captadas pela lente cinematográfica têm propaganda mundo afora, rendendo lucros. O cinema é negócio vantajoso porque é uma indústria que não gera resíduos biotóxicos, porque as filmagens têm caráter transitório e representam uma breve e dinâmica injeção de capital para freelancers, hotéis e outros serviços, e, finalmente, porque os filmes, em médio prazo, podem atrair turistas interessados em elementos aparentemente banais (um muro sem história, uma rua sem interesse particular) que adquiriram novo status ao serem vistos nos filmes. Nos EUA e na França, por exemplo, é comum que as cidades possuam escritórios ligados à administração local especializados no controle e muito mais na divulgação da cidade como locação cinematográfica: os governos locais parecem estar acreditando nas vantagens que a cidade cinemática pode oferecer à cidade concreta. Em
relação ao mesmo trinômio “cinema, cidade e negócios”, pode-se
apontar a influência dos filmes em um novo movimento arquitetônico dos
EUA: o new urbanism. O exemplo mais famoso do movimento é o da
cidade de Celebration, na Flórida, inaugurada em 1996 pela Disney Corporation
no simbólico 4 de julho. Antigo sonho de Walt Disney, que já a
vislumbrava no projeto original do EPCOT Center, Celebration
tem o simulacro como algo corriqueiro: mesmo sendo recentes, as edificações
de caráter historicista projetadas por famosos arquitetos pós-modernistas
podem exibir na fachada uma placa dizendo terem sido construídas no início
do século XX; detalhes que aparentam ser de mármore são, na verdade, de
plástico e músicas são executadas nas ruas em pequenas caixas de som escondidas
em palmeiras de tamanho idêntico. Outro exemplo famoso é Seaside, também
localizada na Flórida e inaugurada em 1981. Tal cidade, “real”, foi locação
para filme O Show de Truman – o show da vida. (7) Na trama,
Seaside torna-se Seaheaven, que, ao contrário, é uma cidade cenográfica
onde o protagonista tem sua vida vigiada e manipulada. Uma análise minuciosa
dos espaços destas cidades revela, de fato, uma hipérbole dos ideais da
arquitetura pós-moderna, no que diz respeito à importância do simbolismo
e do vernacular na arquitetura das massas. Ao aproximarem suas aparências
à cenografia do cinema, veículo para as massas rico em simbolismos, as
cidades new urbanistas tornam-se exemplos bastante contundentes
daquilo que tanto admiravam Robert Venturi e Denise Scott Brown em Las
Vegas: o simulacro, que no new urbanism invade o cotidiano. Afinadas
com os impactos causados no mundo pelas imagens do recente atentado ao
World Trade Center, confundidas e comparadas a exaustão principalmente
pela imprensa sensacionalista com inúmeras seqüências cinematográficas
de filmes-catástrofe (8), Seaside e Celebration comprovam que a sobreposição
entre falso e verdadeiro é cada vez mais freqüente no cotidiano e que
a dualidade entre os sítios e suas representações deixa marcas não só
no que costuma ser chamado de “imaginário” como também no espaço urbano
concreto. Entre a lente da câmera e a retina do espectador está a tela de cinema, que desde as suas origens expõe imagens das cidades com significados muitas vezes contraditórios. Se o cinema de ontem era restrito à sala de exibição, o de hoje tem circulação bem mais livre e invade residências em todo o mundo, seja pela televisão, a partir do videocassete ou do DVD, por meio de brinquedos, roupas, trilhas sonoras, videogames etc. Sua penetração na sociedade, se não é mais forte, é mais evidente. Filmes e cidades têm lugares onde ocorrem vivências – respectivamente mentais e empíricas – das quais emanam representações em que se configuram sentimentos positivos ou negativos. Viver na cidade implica fazer-se várias perguntas. Que cidade se quer? Que paisagem se vê? Que espaço se tem? Para quem pesquisa o urbano, a temática da inter-relação entre “cinema e cidade”, muito rica, em andamento e aqui apenas esboçada, é campo fértil para a investigação destas e muitas outras questões. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 |
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