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| Carta
aberta ao arquiteto Oscar Niemeyer Sylvio E. de Podestá |
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| Sylvio Emrich de Podestá, engenheiro arquiteto pela escola de arquitetura da UFMG, foi editor das revistas Vão Livre e Pampulha. Atualmente é sócio-presidente da AP Cultural, editora especializada em publicações de arquitetura, design e interiores, e sócio-diretor do escritório Sylvio E. de Podestá Arquitetura Associados Ltda | ||||||||||||||||||||||||||||
Sua
arquitetura, voltada para a construção de uma sociedade justa e socialmente
correta, é o resultado de um pensamento que privilegia a beleza, a conquista
técnica. E os anos e anos de labuta no Brasil, no exílio e novamente no
Brasil, mostram a importância da sua presença diária aí nesse predinho gostoso de Copacabana, cheio de curvas arquitetônicas
e com vista para as curvas cariocas – que segundo suas palavras sempre
foram fonte de inspiração, a vida toda. O
mesmo se pode dizer de sua onipresença: sem viajar de avião, o senhor
está por todo o Brasil: nas inúmeras obras, nas eventuais e longas viagens
de carro, e até na moderníssima via tecnológica da videoconferência –
como foi o caso do título honoris
causa recebido virtualmente pelo senhor da Universidade da Paraíba, uns
dois anos atrás. Os
vários honoris, outros tantos au concours e notórios saberes, todos merecidos,
creio eu, são uma honra, claro, mas têm trazido alguns males à
classe que o senhor sempre defendeu com tanta galhardia. Vejamos
um talvez insignificante exemplo disso: em fins da década de 80, um jovem
arquiteto fez um projetinho para auditório de
200 lugares, em Rio Verde, GO; um dia foi bruscamente interrompido em
seu trabalho por uma placa fincada no terreno do futuro teatrinho que,
em letras garrafais, anunciava seu forte nome
como o autor da peça em andamento (a placa ficou lá uns 10 anos, enferrujou,
e nem o seu projeto nem o projetinho do jovem
arquiteto vingaram). Outro:
em Uberlândia, MG, projeto de sua autoria, feito às pressas (o Cassino
também foi feito assim e ficou lindo!), substituiu o de um arquiteto da
cidade (resultado de concurso, com verbas garantidas), só porque os políticos
locais queriam colocar o Triângulo Mineiro no circuito nacional da arquitetura
que leva sua grife (mas só ficou na intenção: no local, hoje, há apenas
ruínas de uma obra eleitoreira). Existem
outros exemplos. E seja pelo que for – sua inapetência por deslocamentos
e/ou o ágil deslocamento de seus representantes
–, o fato é que seu traço tem atropelado as manifestações culturais de
caráter local, como se não existisse arquitetura fora do eixo Rio/São
Paulo. Outro
dia mesmo me hospedei no Grande Hotel de Ouro Preto, de sua autoria. Com
perdão das exclamações, mas que beleza!, que
vista!, que inserção fantástica!, e
que contraponto riquíssimo com a Casa dos Contos! Lembrei-me na hora de
JK, dos seus projetos em Diamantina e da incrível Pampulha: a Igrejinha
de São Francisco, a Casa do Baile, o Iate, o Cassino –obras que mudam
a forma de ver arquitetura no Brasil e no mundo. E o que dizer do Bemge,
do Colégio Estadual, do edifício Tancredo Neves, da Biblioteca e a nossa
(sua) maior utopia mineira, o Conjunto JK? Isso me fez também lembrar:
nunca uma cidade foi tão importante para as suas obras. Nunca um político
teve tanta visão como nosso incrível Juscelino, que pavimentou para o
senhor um caminho ímpar, incontestável no que tange
à arquitetura como invenção e cultura. Mas
incomoda o fenômeno que de uns tempos para cá vem se repetindo em todo
o país: prefeitos, governadores, secretários de cultura e até amigos se
utilizam de seu nome para aparecer na mídia nacional
e, pior, para avalizar suas (deles) ações e seus (deles) governos – muitas
vezes medíocres ou medrosos ou simplesmente indefensáveis. São
teatros e museus para tudo quanto é lado, monumentos – e até coretos.
São tantas e tantas coisas que sua ausência – ou a presença de seus representantes
– não consegue acompanhar. Mais ainda: é uma prática tão intensa que,
me parece, é a responsável pelo sumiço dos concursos, all concursos, ficando nós, reles
e mortais arquitetos, sem conseguir nem fazer um auditoriozinho
em rioverdinhonenhum. Aqui
em BH, cidade que tanto ajudou o prestígio que o senhor hoje desfruta,
desde aquele grande começo profissional, nossa prefeiturinha e nossa secretariazinha
de cultura estão mais uma vez convocando sua presença, notoriamente sabendo:
a primeira, para fazer um terminal de ônibus urbano na Pampulha (projeto
que já foi motivo de concurso, ganho por arquiteto local, desenvolvido
e pago); a segunda, para criar um anexo para o Museu da Pampulha (para
o qual havíamos sugerido um concurso nacional ou internacional, com edital
contendo sugestões do senhor para que o seu projeto se relacionasse bem
com este vizinho); e, finalmente, o governinho
quer mudar a Praça da Liberdade, e o que acontece? Convoca novamente o
senhor para fazer o seu futuro centrinho administrativo. O
senhor está sem serviço? A gente compreende, o Brasil inteiro está meio
assim, sem serviço. Mas o senhor não é comunista, daqueles que topam dividir?
Então faz isso! Fica quieto aí no Rio com essa vista gostosa das cariocas
gostosas e deixa a gente quieto por aqui. O que
o senhor fez por aqui está bom, está ótimo. Mas chega. Curta
a vida, vá à praia, fume aquele charuto, ou cigarrilha fideliana
com tranqüilidade, curta o Rio que continua lindo e deixe a gente começar
finalmente nossa vidinha, mesmo que tão tarde e tantas vezes interrompida
(E tem mais. Se o nosso governador quer realmente um projeto, o senhor
nem precisa sair da cidade: ele vive por aí). Grande
abraço do colega que sempre o admirou, mas... Nota 1 |
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