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| Prótese
e especulações arquitetônicas (ou nós ainda não estamos completos) Inês Moreira |
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| Inês
Moreira é licenciada em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade
do Porto. Pós-Graduada em Arquitectura e Cultura Urbana pela Universidade
Politècnica da Catalunya. Desenvolve tese de Mestrado sobre relações entre
Arquitectura, Corpo Humano e Novas Tecnologias, nas áreas de Teoria e Crítica
da Arquitectura em Barcelona (UPC). Co-comissária do evento “Arquitectura
– Prótese do Corpo”, Janeiro 2002, na Faculdade de Arquitectura U. P. e
na Casa das Artes do Porto. Co-editora do catálogo com o mesmo nome. Exerce
nas áreas de Arquitectura e Cultura Urbana em Barcelona e no Porto. |
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| Prótese Hefesto, deus grego da metalurgia, coxeava. Era o único deus
grego com uma imperfeição física (2). Com esta figura pode-se formular
que, na Antiguidade, as atividades técnicas deformavam definitivamente
o corpo, e/ou que este era um modo de punir
biologicamente o responsável pelo mundo da técnica e da artificialização
da natureza. Ele remete para a relação direta que o homem estabelece com
instrumentos para domínio e construção do seu meio. Na referência à deformação
física, remete simultaneamente para o profundo conhecimento físico dos
instrumentos e para, o que nos interessa neste contexto, a possibilidade
que a técnica traz consigo de efetiva transformação do próprio corpo.
Hefesto representa o primeiro relato da íntima
relação física entre corpo e produções técnicas, relação que constitui
a Prótese. Aqui,
a idéia de Corpo aproxima-se da concepção fisicalista
monista corpo-mente, próxima das filosofias da mente: eu sou
o meu Corpo, isto é, qualquer noção de subjetividade está compreendida
fisiologicamente em cada indivíduo. Nesta acepção ao referir Corpo,
para além do organismo, refere-se também a atividade mental (3). Após
os paradigmas da concepção clássica de corpo canônico, após o êxtase da
percepção, após a concepção moderna de corpo mecânico e da concepção modernista
(futurista) e libertadora de corpo dinâmico, a técnica hoje tomou efetivamente o Corpo produzindo
hibridações e interações inquietantes. A crescente complexidade do conhecimento
do corpo e as questões tecnológicas que o acompanham, e desenvolvem um
plano conectante do orgânico e do inorgânico, não podendo ser abarcada
numa simples definição, exige instrumentos conceptuais abstratos e complexos. O
“conceito” prótese remete para a relação que o Homem,
estabelece com o meio, com o
seu próprio corpo e com outros corpos através da tecnologia. Podemos dizer que a técnica
adiciona ou amplifica o Corpo e que constitui um modo de agenciar
relações. Tal como a linguagem, a técnica é uma Prótese do Homem. O
“termo” prótese tem origem no grego prósthesis, ato de adicionar, acrescentar, colocar
sobre, pôr junto de. Gramaticalmente, em português, próstese designa transformação de uma palavra por adição de uma sílaba ou
letra. Foi difundido pela sua utilização no campo médico/ortopédico
e na engenharia biomédica, enquanto designação dos objetos/máquinas
que suprimem as alterações funcionais ou orgânicas. Prótese remete para objetos técnicos e para um entendimento moderno
e higienizado de Corpo revisto e intervindo pela ciência. A
“palavra” prótese em linguagem corrente vem do uso
no campo tecno-científico. Tem um sentido literal que se refere à complementação do esquema corporal. Mas,
para além da identificação imediata do termo com os aparatos da biomedicina,
a prótese pode ser entendida como uma complementação
artificial do corpo (podendo diferenciar-se dois tipos de objetos para
complementação: os suplementos de membros e órgãos do corpo,
que são os utensílios e a grande maioria dos objetos, e os substitutos de membros órgãos ou funções
do corpo). Relativamente ao objeto e função realizada com ele, o seu uso
é metafórico pois
remete para a ausência ou parte substituída. O seu uso enquanto complementação,
prolongamento, extensão, ou adição do corpo tem um sentido metonímico ao remeter para o instrumento através do qual o corpo
se estende ou se completa, num prolongamento da presença do corpo. O
uso do termo prótese no campo biocientífico
fê-lo perder o sentido da ação, “o ato de adicionar a”, a que Oswald Spengler se referiu como processo de luta ou comportamento
interessado e dirigido. Para Spengler técnica
“não são as armas, mas sim a luta”, o processo para superar a sobrevivência
e dominar a natureza, pois “a técnica é sempre um comportamento
interessado, dirigido, e nunca uma questão de coisas ou objetos”
(4), não tem por fim a concepção de utensílios, mas os efeitos da sua
utilização libertando o Homem gradualmente das condições do corpo (5). A técnica é o comportamento interessado
dirigido para o exterior (e por vezes para o próprio interior). É seguindo
esta idéia de técnica que concebemos Prótese. Interessa-nos
ainda referir o modelo de tecnobiocosmos de Gilbert Hottois, a sociedade
na qual a bioesfera
encontra a sua complementação na tecnoesfera, um ecossistema em que todos os componentes “desde
a molécula à sociedade, são entendidos como sistemas de inegável complexidade,
hierarquizados, integrados, interligados” (6). As construções técnicas
multiplicaram-se, generalizaram-se a todo o ambiente e ao próprio Homem,
alterou-se radicalmente o próprio meio, que é agora um ecossistema em
que a distinção natureza/cultura e homem/técnica,
não se faz facilmente. O
termo prótese refere-se a uma idéia higienificada de corpo e a uma idéia humanizada de técnica
– um tecno-corpo hiper-moderno crescentemente
conectante entre orgânico e inorgânico – que levanta e envolve questões
de projeto social e tecnológico. A prótese como a entendemos aqui não
pode ser confundida com os instrumentos ou objetos prostéticos que realizam
o ato de prótese. É a ação de adicionar para completar, um processo interessado
e dirigido de domínio do meio que atua e conduz à crescente artificialização
e submersão num sistema híbrido natureza/cultura. Importa referir que nos parece
que Prótese aporta um sentido mais humanizante
ao processo de artificialização e hibridação do que o contemporâneo termo
Cyborg (que privilegia a máquina),
e um sentido mais concreto e material do que o termo Extensão. Por este motivo o privilegiamos. Prótese
arquitetura Da
perspectiva disciplinar da arquitetura, usar o conceito Prótese
para pensar a relação entre produção espacial e corpo humano parece-nos
adquirir pertinência crescente. Em arquitetura, o conceito prótese poderia ser definido como relação de complementação estabelecida
entre corpo e meio em que é o próprio espaço que absorve o papel de mediação.
É na interposição entre duas realidades que a realização técnica se torna
Prótese, visando um estado de
complementação para domínio do espaço. Este se conforma pensando as necessidades
do corpo e usando a tecnologia disponível. Mas a prótese não se refere apenas à relação
(de mediação, adição ou complementação) entre duas, ou mais, partes. Se
Prótese é o próprio ato de adicionar, numa
disciplina como a arquitetura cuja prática para além de discursiva é material,
levanta-se a questão: de que modos e com que meios pode o espaço mediar
ou concorrer para disponibilizar, através de tecnologias, condições que
considerem o corpo? E, radicalizando posições, para além de ser prótese, pode o espaço tornar-se literal
e efetivamente prostético? Para
esta especulação não pode deixar de ser referida a crescente hibridação
disciplinar. A arquitetura participa de equipas interdisciplinares que
se debruçam sobre o corpo, e paralelamente, algumas questões de pertinência
transdisciplinar invadem o borderliner
campo da arquitetura: entre a especulação estética e a concretização técnica,
a arquitetura trabalha e reflete também sobre a ética da hibridação homem-técnica.
Mas é no sentido de ação/projeto social, tecnológico e espacial que o queremos problematizar
em arquitetura. Algumas
práticas arquitetônicas contemporâneas discursivas e/ou
experimentais desenvolvem projetos que partem do ideal pós-humano de corpo
aperfeiçoado em laboratório, do humano superado/reparado,
pensando a sua relação com o espaço. Exploram possibilidades de uso de
técnicas das engenharias biomédicas e das biotecnologias na conformação
(e redefinição) de espaço, remetendo para o conceito prótese
num entendimento deste bastante literal, que se refere ao objeto e à idéia
higienificada de corpo. Paralelamente, as biotecnologias propõem
materiais de construção biológicos, edifícios com qualidades de corpo. “A operação foi um sucesso: não só o paciente
está vivo, como despertou o dobro do que costumava ser” (7). Esta frase
contém todo um projeto de arquitetura, o World in your bones (1999) de Vito Acconci: um exoesqueleto sintético
com apoios invasivos aparafusados ao esqueleto biológico que é aplicado
por intervenção cirúrgica para colmatar necessidades
do corpo que usualmente são garantidas por objetos ou espaços autônomos.
Este projeto procura redefinir a relação do corpo com o espaço, explorando
a compatibilidade que as tecnologias médicas (próteses-ortóteses)
têm com o corpo para as aplicar numa estrutura móvel, articulada e multifuncional
que acompanha e completa quem o usa. O esqueleto cumpre funções como cama,
assento, escritório, transporte, casa, tendo dois microambientes de diferentes escalas, a redoma que pode cobrir
a cabeça e criar ambientes virtuais/interfaces
com informação, e uma cápsula desdobrável que cobre o corpo e cria um
habitáculo. Projetos
como The Environmental Transformer de Coop Himmelblau (1968) tinham já feito premonições da submersão
na realidade virtual e da potenciação da percepção visual e auditiva em
microambientes, ou o Cushicle
e o Suitaloon (1966-68) de Michael
Webb tinham criado cápsulas móveis articuladas
que constituíam segundas peles para proteção do corpo. Mas Acconci
usa técnicas médicas e propõe uma arquitetura que penetra a carne, se
aloja nos ossos para o expandir fisicamente, e o cobre para completar
virtualmente e para o proteger e abrigar. O Homem acorda o dobro do que
era. Há uma crença na expansão, corpo e técnica hibridam-se, mas o que é novo é que “o seu corpo se torna
a sua casa” (8). O corpo ganha uma nova dimensão espacial, o que extrema
uma concepção monista da relação corpo-mente.
Com este projeto pode-se adivinhar que “eu sou o meu corpo e ele é a minha
casa”. E, tal como uma casa, também se pode mudar, transformar ou expandir
o exosqueleto. Melatonin Room
(2001), dos suíços Décosterd & Rahm, é um projeto imersivo
que desenvolve o conceito “arquitetura fisiológica”. Através de diferentes
radiações eletromagnéticas, altera os níveis de melatonina no corpo do
ocupante, alterando os estados físicos deste. A melatonina é um hormônio
humano de cujos níveis dependem os estados de vigilância e de fadiga do
corpo. A sua produção é fotossensível. A
instalação divide-se em 2 salas com radiações que estimulam a produção
química de hormônios, induzindo fisiologicamente diferentes sensações
físicas. Uma sala, com radiação a 509 nm
e 2000 lux, cessa a produção de melatonina, motiva e desperta
o corpo; a outra, com raios ultravioleta, estimula a produção de melatonina
e induz cansaço e fadiga. Este projeto explora uma dimensão oculta do
espaço: a possibilidade de controle invisível de estados de alerta e de
espírito. D&R propõe
uma releitura de Espaço: “a matéria não se limita à dimensão estática
e simbólica, está envolvida em modificações físicas e químicas com o exterior.
(...) O espaço não está vazio, mas definido como uma quantidade de ar
quimicamente constituído, no qual estamos fisiologicamente imersos, pela
respiração e transpiração, tal como os materiais o estão pela oxidação”
(9). Os
Bioterials (biological
materials) representam a possibilidade de cenários construtivos
reais de natureza híbrida. “As civilizações definem-se pelos materiais
que usam. A revolução industrial surgiu pelo ferro. Os computadores vieram
do silício (silicon). Estamos prestes a entrar
na era da bio-mimética. Estamos de volta à natureza”
(10). Assim refere Jeff Turner,
geneticista da Nexia, o projeto de hibridação
em que a informação de projeto, a matéria prima, o sistema de produção
e a aplicação do produto são orgânicos e estão interligados num interminável
sistema de operações biológicas. O seu Biosteel(r),
ou bioaço, é um produto desenvolvido pela Nexia
Biotechnologies, Inc. (11). Este material baseia-se na informação
genética das proteínas que compõe os fios da teia de aranha, o material
natural conhecido como sendo o mais resistente à tensão, com grande elasticidade
e ultra-leveza. O processo de produção em escala
faz-se pela identificação dos “genes da seda”; e posterior introdução
in vitro destes num sistema biológico
capaz de ler as instruções biológicas para produzir proteínas da seda.
O processo combina a informação genética de aranhas com o “suporte físico
e produtivo” de cabras nigerianas, num produto transgênico
chamado BELE (Breed Early,
Lactate Early), ou “spider-goats”. As “spider-goats”
apenas acrescem ao seu AND de 70.000 genes um gene mais, o responsável
pela proteína da seda. O leite desta cabra tem na sua constituição a proteína,
que depois de seca e desidratada pode ser fiada numa fibra muito semelhante
à teia natural. O Biosteel(r) é bio-compatível e as BioMedicinas podem usá-lo em duas grandes aplicações: suturas e cicatrizações absorvíveis (vasculares, vestes hemostáticas, adesivos, suturas oculares, neurológicas e dérmicas); implantes de longa duração (próteses de ligamentos, membros, etc...). Também indústrias militares e técnicas poderão usar as sua resistência, força, elasticidade e leveza como proteção do corpo humano (coletes à prova de bala), ou em materiais com grandes solicitações à resistência (cabos e redes de alta resistência, materiais desportivos e compósitos com comportamentos especiais). Outra grande área de aplicação é a aeronáutica, as estruturas especiais e a construção civil em que a sua performance com seções diminutas pode ser maximizada (exemplo: cabos de suspensão). Ao
tecno-especular possíveis cenários futuros propondo/projetando antecipações de um tecnobiocosmos
submersivo, estes projetos e propostas, ainda
que fragmentários e espacialmente muitas vezes pouco interessantes, frisam
de modo fresco e incisivo a sedução do potencial tecnológico com que nos
deparamos. O que nos parece de especial importância nestes projetos é
que, no limbo de realidade ficcional em que se opera, quando as próteses
se tornam progressivamente literais e os corpos crescentemente híbridos,
surgem imagens obscuras de projetos sociais pouco
claros, e mesmo perigosos, que a displicência, ou liberalização não
concertada, das aplicações destas tecnologias poderão aportar. As
implicações mais profundas das próteses biotecnológicas
não estão na “produção de armas” mas antes nos efeitos da sua utilização:
no “processo de luta” possibilitado por um “comportamento interessado
e dirigido”. Para além de inúmeras possibilidades de produção de objetos
prostéticos literais que pode conduzir a novas formas ou organizações
e funcionamento de “edifícios” – sejam novos materiais ou possibilidades
técnicas de utopias hibridizantes –, estas tecnologias transformam efetivamente
o próprio Homem, libertam-no gradualmente das condições do corpo, numa
primeira fase do corpo físico e posteriormente da própria mente. As próteses
químicas e nanotecnológicas, introduzidas, por
exemplo, pela administração de produtos das neurociências e neurofarmacologia,
sendo inócuas e invisíveis poderão vir a ser implacáveis
do ponto de vista da transformação, programação ou homogenização
da personalidade ou da subjetividade. Pensando
no todo do tecnobiocosmos e na dimensão ecológica
(do grego oykos, ou casa,
e logos, conhecimento) da Arquitetura,
estas tecnologias poderão transformá-la retroativamente, não como propostas
literais de aplicações a bio-espaços,
mas insidiando lenta e progressivamente normalizações/transformações
sociais e comportamentais em sentido alargado. Perante a disponibilidade
de qualquer das ferramentas técnicas referidas, um perigoso mundo de biocontrol induzido físico-eléctrico-químico-organicamente
poderá surgir, e a arquitetura poderá ser sua tributária. Não
pretendendo uma discussão ontológica, nem a revisão de perspectivas tecnófila ou tecnófoba, o que nos
parece importante sublinhar são as importantes questões bioéticas
e de projeto social que se pressentem. Como refere Fukuyama,
“a biotecnologia e um conhecimento cada vez mais vasto do cérebro humano
deixam entrever inúmeras ramificações políticas, na medida em que, em
conjunto, reabrem as possibilidades de engenharia social que as sociedades
possuidoras da tecnologia do século XX abandonaram” (12). Com este argumento
pensamos poder estabelecer uma ligação direta à história da Arquitetura.
Pensemos nas paradigmáticas tipologias pavilhonárias
analizadas por Foucault: construídas para delimitar fisicamente
as possibilidades comportamentais de determinados indivíduos eram mecanismos
de poder, que induziam a normalização, repressão e o exercício de controle
sobre subsistemas sociais “especiais”. Parece-nos que, de um modo subtil
e invisível, a displicência perante as atuais evoluções das tecnologias
“húmidas” ou “tragáveis” poderão concorrer invisível
e progressivamente para repetir, ou continuar, os princípios políticos
que orientaram estas tipologias arquitetônicas. Os
projetos de literalidade prostética abrem novas possibilidades
matérico-formais, mas o potencial campo de investigação
da prótese arquitetura parece-nos
estar não no desenho das “armas”, mas na própria “luta”, num redesenho
pela ética da própria prática, concorrendo para a libertação gradual das
fragilidades do corpo, mantendo a integridade da mente. Como
referiu Bataille, "a arquitetura é antropomórfica no sentido
em que se constitui ao imitar algumas das normas sociais dominantes”... (13) Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 |
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