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  setembro de 20030
     
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  Brunelleschi: o caçador de tesouros
Jorge Marão Carnielo Miguel
 

 
         
      Jorge Marão Carnielo Miguel é doutor pela FAUUSP, professor de Teoria da Arquitetura do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina e coordenador do Curso de Especialização “Arquitetura e Pós-Modernidade: Composição e Linguagem” da UEL  
       
 

O ufanismo do descobrimento de novas terras, a descoberta da tipografia, a retomada da linguagem e pensamento clássicos (a inclusão, como conseqüência, da descoberta da própria história) e posturas científicas (como a de Galileu Galilei) são idéias e práticas que fizeram do Renascimento um período profícuo no surgimento de individualidades artísticas.

O pensar individual foi um contraponto ao sentido de coletividade do período anterior e para esta mudança foi necessário romper com as amarras impostas pela Igreja. Para se pensar há que se questionar a materialidade e a espiritualidade, há que se ter a liberdade individual em contrapartida aos dogmas impostos.

Conceito e técnica. Pensar e fazer. A partir desta referência inicial podemos percorrer os caminhos de um arquiteto renascentista e entender como estão associadas estas posturas a um método projetivo que irá influenciar toda uma geração.

Surge o ano de 1377. Nasce, em Florença, Fillipo Brunelleschi. Algumas décadas depois Gutemberg descobre a tipografia, o que irá permitir o acesso aos livros Vida dos mais excelsos pintores, escultores e arquitetos, de Giorgio Vasari, e Il libro del Cortegiano, de Baltasar Castiglione (1), nos quais expõem, entre outras biografias, a vida de Brunelleschi. Sobre ele, Vasari irá dizer que era baixo e feio porém genial e tinha uma inteligência brilhante como ouro em terra suja. Leal, afetuoso, indulgente, humilde e tão inimigo do vício como amigo da virtude. Um modelo não somente de artista como também de homem, com um coração tão grande quanto a cúpula que ele mesmo havia projetado para a catedral de Florença.

Brunelleschi dá início ao domínio da técnica quando, ainda jovem, descobre sua capacidade inventiva e de representação, chegando a confeccionar objetos de pedras preciosas e relógios, cujos mecanismos buscava aperfeiçoar. Nesta fase conhece Donatello, seu fiel parceiro por longos anos, com quem compartilha o gosto pela escultura.

Um primeiro exemplo do domínio da técnica surge numa ocasião em que Donatello mostra a ele um crucifixo que havia talhado e Brunelleschi, de um modo irônico, responde:

— Você pôs um homem do campo na cruz.

Donatello rispidamente responde:

— Então, talhe um você.

Daquele desafio surgiu um Cristo que hoje está na igreja de Santa Maria Novella e contam que Donatello ao ver o trabalho feito por Brunelleschi, dando-se por vencido, diz:

— A ti foi concedido talhar os Cristos e a mim os homens do campo.

Brunelleschi, através da escultura passa a ter domínio da técnica dos materiais, da escala humana e da qualidade expressiva, associando mente e mão como procedimento de dar forma a um modo de pensar.

Um outro exemplo, agora passando da escultura para o espaço construído, e que lhe dará a fama como arquiteto, foi a já conhecida proposta para a cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença. Arnolfo di Camlio quando projetou esta catedral e iniciou sua construção, não imaginava que Florença não estivesse preparada para dar termo à elevação de andaimes de tal envergadura. Quando a consulta foi feita a Brunelleschi, este aconselhou às autoridades que convocassem os melhores artesãos para debater a obra da cúpula. Daquelas reuniões surgiram soluções das mais tradicionais às mais inusitadas, desde sustentá-las com colunas como preencher o grande vazio com terra mesclando a ela moedas de ouro. Uma vez terminada a cúpula, todos os homens de Florença seriam chamados para retirar a terra com a promessa de poderem ficar com as moedas de ouro que encontrassem. Após estas propostas às vezes absurdas e irrealizáveis, Brunelleschi apresenta a sua que, a princípio, também dava a impressão de ser impossível a sua realização. Baseava-se nos princípios clássicos e defendia a construção de dupla cúpula que absorveria suas próprias tensões. Para sua execução prevê um andaime, inventado por ele, e uma grua para o translado dos materiais. Pôs em prática um método para a sustentação da cúpula, inventou as máquinas necessárias à construção e executou o projeto sem utilizar o cimbre, armação de madeira que serve de molde e suporte aos arcos e abóbadas e retirados depois de completada a obra.

Assim, a cúpula será construída e dará fama a Brunelleschi que passará a ter seu nome associado a um grande construtor e técnico de alta capacidade e genialidade.

Um outro momento marcante ocorre durante a construção da Catedral, quando tem a responsabilidade pela execução. Os trabalhos corriam normalmente até o momento em que os operários, indignados com o valor que recebiam, resolvem entrar em greve, paralisando todos os trabalhos. Brunelleschi não se intimida e percorre as ruas de Florença recrutando mendigos e pobres que encontra pelo caminho, levando-os ao canteiro de obra e ensinando o trabalho que deveriam realizar. Tudo volta à normalidade a não ser pela indignação dos antigos operários que vão até ele e pedem o retorno ao emprego. Brunelleschi concorda desde que passassem a receber menos do que antes da greve e eles, sem opção, não tendo como negar, aceitam e voltam ao trabalho normalmente. Apesar de ser uma ação questionável, revela uma clareza e um domínio que não cabe contestação. Ensina porque tem em mente todas as fases do processo construtivo. Ensina porque tem o domínio do fazer.

Os exemplos apresentados até aqui refletem como Brunelleschi desenvolve um modo pessoal de compreensão da técnica construtiva, com um olhar no seu tempo presente. Domina a técnica desde a elaboração de objetos artesanais, passando pela escultura e desembocando na grande temática construtiva. Este saber olhar o mundo à sua volta, entender as características próprias dos materiais, sua maleabilidade, mecanismo e procedimento de composição, preparam-no para um dos caminhos mais férteis que o arquiteto há de trilhar.

Com o domínio da técnica, o saber fazer resolvido, abre-se a imensa porta que o saber pensar possibilita.

O primeiro ponto que podemos elucidar quanto ao pensar o espaço segundo Brunelleschi é a sua descoberta e aplicação das leis da perspectiva linear. Haverá, a partir deste descobrimento, uma mudança cultural do modo de ver e do modo de representar, quando a expressão plástica adotará uma visão do espaço perfeitamente mensurável, construído cientificamente e representado segundo normas matemáticas.

Brunelleschi ao descobrir a perspectiva linear, será o primeiro arquiteto a pensar e conceber a arquitetura como espaço. Esta ciência irá superar os limites da prática pictórica e irá constituir a base nova das artes que têm o desenho como princípio (a pintura, a escultura, a arquitetura e a cenografia teatral).

Assim explica o conceito da perspectiva do seguinte modo: a perspectiva consiste em dar com exatidão e racionalidade a diminuição e o aumento das coisas, que resulta para o olho humano o afastamento ou a proximidade das casas, planos, montanhas, paisagens de todas as espécies.

Ao elaborar o conceito de perspectiva e aplicá-lo nas igrejas de Santo Espírito posiciona o ponto de fuga na imagem de Cristo, no centro do altar, colocando-o como o centro referência, para onde todos os olhos deveriam estar fixados. No entanto, surge uma questão interessante: quando abordamos, no início deste escrito, a influência das posturas de Galilei Galilei (1520-1591) quanto ao Renascimento, há em Brunelleschi um prenuncio do pensamento do grande cientista. Por mais que a imagem de Cristo no altar constitua o ponto de referência, como seria o sol em relação aos planetas, cada indivíduo ao estar posicionado dentro do espaço-igreja terá seu ponto de vista individual. Há uma centralidade espacial, porém não há um centro temporal, o que levará Brunelleschi, posteriormente, propor a igreja de plano central da Capela Pazzi.

A perspectiva, utilizando princípios matemáticos, tornou possível a representação de um espaço tridimensional a partir de uma superfície plana. A nova técnica de representação, conhecida como “perspectiva artificialis”, de rigorosa exatidão matemática, apresenta um método novo de concepção do espaço, de um espaço equivalente em todas as suas partes, homogêneo e constante. A “perspectiva artificialis” pressupõe um mecanismo da visão com um ponto único e imóvel, colocando um plano de abstração em respeito às condições naturais da visão, pois pressupõe uma visão mono-ocular e imóvel, ignorando a curvatura do campo visual, conhecida desde a antiguidade. A perspectiva linear constitui uma criação mental e abstrata, um “modo de ver” e de constituir o espaço.

Aprender a ver, aprender a dominar a técnica, apreender os aspectos sociais e culturais são requisitos indispensáveis para que o arquiteto possa dar vazão para o que há entre a razão e a ação. Para Brunelleschi faltava apenas o domínio de uma linguagem arquitetônica que pudesse refletir a ansiedade renascentista, visto que a arquitetura gótica já não seria representativa do “quatrocentto”. Surge a retomada de uma “língua morta”, ou seja, haverá o retorno do clássico, tão esquecido durante a Idade Média, e os olhos encaminham-se para o conhecimento da arquitetura greco-romana. Descobre-se o valor da história e com ela a retomada de princípios harmônicos, rítmicos, de simetria e de proporcionalidade. Retoma-se a tríade vitruviana de utilitas, firmitas e venustas e a redescoberta da composição, amparada na seção áurea como base formadora do kosmos arquitetônico.

Será Brunelleschi, com seu fiel escudeiro, Donatello, mais uma vez, quem irá atrás deste conhecimento. Surge o impasse: como dominar a linguagem clássica?

Após o término de alguns pequenos trabalhos, resolve seguir, em suas próprias palavras ao lugar “onde a arquitetura e as esculturas são boas: Roma”.

Vende algumas terras que possui e põe-se a caminho desde Florença, acompanhado de Donatello, com o intuito de investigar as ordens arquitetônicas, suas medidas e composições. Ambos sobreviverão realizando pequenos trabalhos e passarão a maior parte do tempo contemplando, desenhando e medindo as ruínas romanas. Palmo a palmo estudarão o Coliseu e, sobretudo, o Panteon, de onde tirarão a idéia de que a perfeição tem planta central e cúpula, o que levará Baltasar Castigione escrever posteriormente, em 1528: “De Deus nasce a beleza, e é como um círculo cujo centro é a bondade; e como não pode existir círculo sem centro não pode existir beleza sem bondade”.

A árdua busca dos florentinos, corpos sujos e machucados, roupas rasgadas e sujas faz com que os romanos, sem entender a busca incansável dos dois, começassem a chama-los de “caçadores de tesouros”, pois pensavam que era isto que buscavam ao remexer espaços e paredes de construções tão antigas. Assim fala Antonio di Tuccio Manetti, outro biógrafo de Brunelleschi: “ao observar as esculturas viu o modo de construir dos antigos e suas simetrias, e ficou iluminado ao perceber uma certa ordem dos membros e do vazio, como o modo como Deus deu a muitas coisas Parecendo-lhe muito diferente do que se usava naquele tempo, propôs-se reencontrar o modo excelente e de grande artifício de construir dos antigos e suas proporções musicais e vendo as grandes construções e difíceis que entre elas havia, não deixou de tratar e compreender os modos e instrumentos que aqueles haviam manejados”.

Uma enfermidade inesperada faz com que Brunelleschi volte à Florença, interrompendo seus estudos, porém regressa com idéias tão antigas e esquecidas que irão surgir como novas. Haverá, a partir deste retorno, o abandono da linguagem gótica, não apenas por parte de Brunelleschi, mas como uma definição inovadora de um modo de pensar a arquitetura. Os olhos voltam-se à magia da linguagem clássica e ao processo compositivo, em que palavras como simetria, ordem, regularidade, ritmo, proporção voltarão a ser, de modo incisivo, empregados.

A descoberta deste “tesouro” irá alastrar-se e influenciará tantos outros arquitetos, como influenciou Filarete, que diz: “Eu também gostava dos edifícios modernos, porém quando comecei a apreciar os edifícios clássicos, deixei de gostar dos primeiros”.

Surge o Renascimento pela mente e mãos de Brunelleschi. Apresenta-se um arquiteto que integra o pensar e o fazer. Domina a técnica e com ela a inovação de procedimentos. Porém, jamais, deixa de buscar o novo, mesmo que este se ampare em procedimentos escondidos nas entranhas da história.

Em 16 de abril de 1446, morre Filippo Brunelleschi e Florença perde “o maior artista depois dos gregos e romanos”.

Nota

1
Para algumas passagens da vida de Brunelleschi, utilizamos como referência o livro Vidas Construidas – biografias de arquitectos, de Anatxu Zabalbescoa e Javier Rodrigues Marques, Editoria Gustavo Gilli:Barcelona, 2002.

 


Gravura para o Inferno de Dante, de Brunelleschi


Desenho de maquinário, de Brunelleschi


Desenho de maquinário, de Brunelleschi


Maquete da imensa grua proposta para a Igreja de Santa Maria dei Fiori


Detalhe da maquete


Igreja de São Lorenzo. Arquiteto


Maquete em madeira para cúpula da Igreja de Santa Maria dei Fiori


Maquete em madeira para lanternim da Igreja de Santa Maria dei Fiori


Igreja de Santa Maria dei Fiori, Florença. Cúpula de Brunelleschi. Foto AG.

 
         
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