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| Demetrio
Ribeiro, 1916-2003 Udo Silvio Mohr |
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| Udo Silvio Mohr é arquiteto, ex-professor da FAU-UFRGS e atual professor da FAU-UNIRITTER, Porto Alegre RS | ||||||||||||||||||||||||||||
A
formação Filho
de Basileu Ribeiro e de Madeleine Thomas Taillade
Ribeiro, Demetrio Ribeiro Neto nasceu em Porto Alegre no dia primeiro
de setembro de 1916. Residiu em Boqueirão, no Rincão do Inferno, fazenda
no interior do município de Alegrete RS, em Montevidéu e em Paris. Seu avô paterno, Demetrio
Nunes Ribeiro, foi o primeiro Ministro da Agricultura do regime instalado
em 1889, adepto da doutrina positivista teve acentuada
influência na organização da República. Exerceu o mandato de Deputado
Federal sendo Constituinte de 1891. Entre suas realizações estão a separação
da Igreja do Estado – cujo projeto aprovado era de Rui Barbosa mas a iniciativa fora de Demetrio – e a proposição do
Decreto relativo às festas e aos feriados nacionais (1). Demetrio
veio a Porto Alegre em 1935 para cumprir o serviço militar, tendo se radicado
definitivamente nesta capital em agosto de 1944. Os
estudos, até a universidade, foram feitos na França ou no Liceu Francês
em Montevidéu e concluídos com o título de bacharel no ensino secundário
francês. As provas de bacharelado foram realizadas na universidade de
Poitiers na França, na mesma época e local de
Mitterand, cujo campus exterior era Montevidéu. O bacharelado,
neste tempo, possibilitava a inscrição na Escola Superior de Direito,
de Medicina, de Ciências e Letras, em qualquer universidade da França.
Não assegurava, porém, a inscrição nas escolas profissionais como arquitetura
ou engenharia cujo ingresso era feito mediante concurso. A guerra iminente
impediu que essa possibilidade fosse aproveitada. O
curso superior, concluído em março de 1943, foi realizado na Faculdade
de Arquitetura da Universidade da República Oriental do Uruguai. Tendo
obtido a nota máxima nas duas séries de teoria da arquitetura, Demetrio,
de acordo com o estatuto, poderia ter retirado atestado de Laureado no
Curso de Arquitetura. Seu desprendimento não permitiu que o fizesse. Na
época do curso, em Montevidéu, a Faculdade de Arquitetura pautava-se pela
doutrina que os uruguaios, estudando, agora, este período do ensino, denominam
de Art Déco. O próprio Demetrio concorda, mas
acha que o termo é utilizado, de certa maneira, abusivamente. Na França
jamais se diria que, em 1940, o Art Déco estaria
em vigor: “A
corrente estética surgida na França com esse nome na década de 20 e na
Exposition des Arts Décoratifs
et Industriels Moderne de 1925 apresenta realmente alguns dos traços essenciais
do pensamento reinante na Faculdade de Montevidéu quinze anos depois:
por um lado fidelidade aos grandes conceitos universais da organização
do espaço, tal como se apresentam na arte clássica ocidental, nas ruínas
de Teotihuacan, ou na arte plumária
dos índios do Mato Grosso. E, paralelamente a isso, a busca audaciosa
das soluções construtivas novas sugeridas pelo progresso técnico.”
(2) Julio
Vilamajó, arquiteto que atuava no corpo docente,
professava estes princípios universais de composição que, de certo modo,
são permanentes e já tinham feito caducar completamente toda aquela ornamentação,
todo aquele detalhamento clássico ou eclético, conceitos esses, muito
ligados ao Art Nouveau e ao Jugendstil. Este mestre, que só acidentalmente
foi professor de Demetrio, exerceu sobre ele grande influência. “É
necessário ter noção da composição de arquitetura na feitura de um projeto,
a composição é uma noção de ordem, como dizia Villamajo.
Ele afirmava que até poderia acreditar em Deus por acreditar numa ordem
universal. Alberti, um clássico italiano, escreveu sobre isso, como é
que se projeta: uma coisa composta, que é una, tem
partes distintas, partes diferentes e contrastadas, mas é uma coisa de
que não podes tirar um pedaço sem notar, é o princípio da unidade, da
terminação, esta a sua tese. Venturi, que merece todo respeito, estudou isso muito bem,
em Aprendendo com Las Vegas.” “Nos
Templos do Sol, em Teotihuacan, já uma ruína no tempo da conquista, os princípios
de Alberti aparecem claramente. Parece que eles os teriam lido, e é a
maior escala do mundo, são cinco mil metros. Não há, na antigüidade européia, um conjunto de mais de cinco mil
metros de eixo de um templo para o outro. Poderia se dizer, uma composição
Beaux Arts de cinco mil metros.
Se tu vais ao museu do índio de Cuiabá, tu vais ver um cocar de plumas,
de penas, colorido, espalhado, aberto em cima de uma parede que traduz
os princípios de Alberti: unidade – não se pode retirar um pedaço sequer,
diverso, contrastado, com repetições e todos aqueles macetes, a imagem
da unidade segundo Alberti”. Por
outro lado, constata-se a influência da École des Beaux
Arts de Paris sobre a escola de Montevidéu.
Na afirmação de Demetrio: “é uma coisa absoluta. Quem tinha organizado
durante muitos anos a escola era um professor francês,
que se afastou, eu não cheguei a ser seu aluno, mas ele nos marcou
e todos nós vivíamos olhando uma publicação que era feita pela École
des Beaux Arts
de Paris sobre os ‘prêmios’. A escola funcionava na base de prêmios, o
professor lançava um tema, os ateliers desenvolviam,
cada um recebia seu prêmio, reunia um número de pontos, passava para outra
série e assim se formava. O prêmio de Roma era a culminação. Tudo era
baseado no exemplo deles, a gente imitava. A palavra popular para designar
isto era Medallas, os prêmios”. “Havia
apenas um professor vinculado ao CIAM, ao moderno, a Le
Corbusier, de quem era amigo, Gomes Gavazzo.
Professor de uma só disciplina, dirigia um atelier que chamava Composição Decorativa. Muito
conhecido, talentoso e, neste sentido, em constante conflito teórico com
o resto da escola. Era realmente um adepto, um adepto e um homem que compreendia
bem a arquitetura de Le Corbusier, os outros
não. Na verdade eu estudei, e, digamos, eu estava lá nos anos 40, 42,
assim que, quando um colega meu,
por sinal um paraguaio, um camarada muito culto, disse: mas tu sabes que
no Brasil tem um arquiteto importante, Niemeyer, do qual eu nunca tinha
ouvido falar”. Quando
Demetrio veio a Porto Alegre havia revalidado o diploma no Rio de Janeiro.
Afirma que não trazia bagagem nenhuma. Vinha como um arquiteto formado,
um arquiteto comum. “Quando comecei aqui, eu era um arquiteto formado
no Uruguai dentro de princípios que eu saiba, da tal Art Déco, enfim, o que eles chamam Art Déco ou seja, convicto de que, até hoje eu tenho um pouco isto,
esta história da composição, não me tira da cabeça”. “Quando cheguei ao
Brasil tive que ir ao Rio para fazer a revalidação (3) do diploma e do
curso secundário. Visitei o Oscar Niemeyer. Ele me tratou muito bem e
foi só aí que eu comecei a me interessar, a viver mesmo essa questão da
arte dele da qual eu tinha ficado alheio na minha formação. Enfrentei
essa necessidade de compreender as obras de Le
Corbusier. Não de uma forma muito completa para um aluno como seria eu,
para vocês deve ter sido diferente, situando, por exemplo, o Pavilhão
Suíço”. O
ingresso na escola como professor foi uma eventualidade, quando fundaram
o curso na Escola de Belas Artes. Sua intenção era simplesmente exercer
a profissão como arquiteto. A
docência Em
1946 Tasso Corrêa criou o Curso de Arquitetura no Instituto de Belas Artes
do Rio Grande do Sul e Demetrio foi um dos arquitetos convidados para
a formação do corpo docente. Aí exerceu a cátedra de Composições de Arquitetura
(1946-48) e Grandes Composições de Arquitetura (1948-51). Em 1952, este
curso e aquele que funcionava na Escola de Engenharia foram unificados,
formando a Faculdade de Arquitetura da Universidade do Rio Grande do Sul.
Demetrio Integrou, em 1951, a Comissão Universitária especialmente nomeada
pelo Magnífico Reitor da URGS para tratar da sua fundação (4). De 1952
até 1964 Demetrio foi titular da disciplina Composições de Arquitetura,
ensinando projeto no segundo e terceiro anos do curso. Atuou, ainda, no
Curso de Urbanismo desta Faculdade como regente da Cadeira de Teoria e
Prática dos Planos da Cidade (1957) e professor contratado, mediante concurso
público de títulos, para a cadeira de Evolução Urbana (1955-56 e 1959-63). Em
1964, na diáspora que se instalou em conseqüência do golpe militar de
1º de abril, Demetrio foi, depois de longo e esdrúxulo processo, afastado
do exercício do magistério junto com os Professores Edgar Albuquerque
Graeff, Edvaldo Pereira Paiva, Emílio Mabilde Ripoll, Enilda Ribeiro, Luiz Fernando Corona, e Nelson Souza (5).
O curso de Arquitetura foi o mais atingido. Foram afastados sete professores,
depois de inquéritos, completamente irregulares. Também foram afastados
diversos alunos. Em
1980, com a anistia, Demetrio foi reintegrado como Professor Titular.
Sua aposentadoria aconteceu em 1986 e, em 1991, recebeu o título de Professor
Emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A
função docente foi particularmente intensa. A par das atividades nas disciplinas,
o professor exercia permanente atividade nas discussões e deliberações
relativas aos sistemas de aprendizagem e à filosofia do ensino. Foi responsável,
junto com Edvaldo Paiva, Edgar Graeff e Emilio
Mabilde Ripoll pela
elaboração da proposta de Reforma do Ensino da Arquitetura, aprovado em
1961 e que entrou em vigor no ano seguinte. Demetrio foi, ainda, membro
da Congregação da Faculdade de Arquitetura e, como representante desta,
integrante do Conselho Universitário da UFRGS de 1962 a 1964. As
aulas teóricas ministradas por Demetrio eram magistrais, sejam aquelas
nas disciplinas de Composição ou as do Curso de Urbanismo. Apesar de não
ser professor das disciplinas Teoria e História da Arquitetura,
seus ensinamentos ampliavam sobremaneira os conhecimentos dos alunos
nesta área. Ao conduzir a aprendizagem do projeto, sua ênfase era aplicada
no sentido de estimular o aluno a exercer seu próprio raciocínio e a desenvolver
a criatividade, visando o resultado formal com base nos ensinamentos da
história e da teoria da arquitetura, no conhecimento das tecnologias e,
principalmente, no respeito às exigências da função. Recusava-se categoricamente
a conduzir o aluno segundo seus próprios princípios, ao contrário, procurava
fazê-lo desenvolver seu raciocínio peculiar. Sua preocupação com o lugar
e com o ambiente eram precisos, objetivos e respeitosos, antecipando,
assim, posturas que seriam adotadas muito mais tarde. A ênfase na questão
urbana era, também, traço de sua atuação como professor. Foram
inúmeras as conferências e cursos ministrados tanto
em Porto Alegre como em outras cidades do país. A
atividade profissional Após a conclusão do curso, na volta ao Brasil, em abril de 1943, Demetrio foi ao Rio de Janeiro para a revalidação do diploma. Aí, nos anos de 1943 e 1944, trabalhou como arquiteto empregado da empresa Gusmão Dourado e Baldacini (6), realizando vários projetos de edifícios residenciais. Em 1945 se instalou em Porto Alegre e, como arquiteto da Secretaria de Obras Públicas do Estado, realizou diversos projetos, entre eles o Grupo Escolar Venezuela (1945), o Fórum de Cachoeira do Sul (1945), o Centro de Triagem de Serviço de Assistência ao Menor (1945), que não chegou a ser executado, a Penitenciária Central de Porto Alegre (anteprojeto-1945). Demetrio considera o Fórum um trabalho de principiante, onde julga que pecou na escala. Sobre o Centro de Triagem ele discorre com satisfação, lastimando que não tenha sido construído. Outro aspecto de descontentamento é a maneira como os projetos eram tratados na SOP. Não lhe era facultado acompanhar a construção e, mesmo no desenvolvimento dos projetos complementares, surgiam, com freqüência, discordâncias com as diretrizes adotadas pelos engenheiros. A partir de 1952 tem seu próprio escritório, que manteve até recentemente, onde trabalharam, em diferentes períodos, diversos colegas. Sua parceira mais constante foi sua esposa Enilda Ribeiro. Entre seus projetos de edificação constam: Instituto de Pesquisas Biológicas (7) (anteprojeto premiado em primeiro lugar no concurso público promovido pelo Estado em 1950 e projeto contratado pela Secretaria de Obras Públicas em 1951), Colégio Estadual Júlio de Castilhos (anteprojeto premiado em primeiro lugar no concurso público promovido pelo Estado e projeto contratado pela Secretaria de Obras Públicas em 1952) (8), Clube Campestre de Livramento (1956), Plano Piloto para o Centro Esportivo na Avenida Beira-Rio em Porto Alegre (premiado em terceiro lugar no concurso público promovido pelo Estado, em 1966), Hotel em Alegrete (anteprojeto, 1974), Conjunto Residencial para Calçados Azaléia (anteprojeto, 1980). Sua
atuação na área do urbanismo é intensa. Trabalhou com vários outros arquitetos
e urbanistas. Seu companheiro mais constante no primeiro período foi o
Engenheiro e Urbanista Edvaldo Pereira Paiva que o conheceu no Uruguai
e com quem começou a trabalhar em planos diretores para cidades do interior
do estado em 1946 (Plano Diretor de Uruguaiana). Também formado em urbanismo
na Faculdade de Montevidéu, Paiva foi o responsável pela elaboração do
primeiro Plano Diretor de Porto Alegre, aprovado pela Câmara Municipal
em 1959 (9). Paiva trabalhou neste projeto por longos anos, primeiro com
Ubatuba de Farias e, posteriormente, com a colaboração de Demetrio na
discussão dos conceitos urbanísticos a serem adotados e na redação do
que chamaram Idéias para Porto Alegre. “Participei da redação do que ele
chamava de idéias para Porto Alegre, um esquema, uma concepção do que
seria a cidade, as perimetrais,
radiais, aquilo que alimentou todo o trabalho, com base na Carta de Atenas,
era um urbanismo baseado num conceito generalizado no mundo e, principalmente
na América Latina, das unidades vicinais. Uma rede de artérias que reservam
unidades vicinais. Esquematizamos num desenho que foi publicado (1951)”. Após
a vigência da Lei, Demetrio foi, também, membro do Conselho do Plano Diretor. Em
equipe com Paiva, Francisco Riopardense de Macedo,
Edgar Graeff, Enilda
Ribeiro e outros, ainda foram elaborados os planos diretores de Lageado (1948), Caxias do Sul (1951 e 1970/72), Florianópolis
(1952), Passo Fundo (1953), Gramado (1956), Tapera (1957), Espumoso (1957),
Panambi (1958 e 1976), Rondinha (1968), Boa Vista do Buricá
(1970), Esteio (1970), Crisciuma (1972), Chapecó
(1973), Erechim (1974), Canela (1976/77), Medianeira – Paraná (1987).
Foi consultor em diversos outros planos. Em 1975 elaborou o Plano de Urbanização
do Parque Turístico da Laje de Pedra em Canela, onde Graeff
foi responsável pelo projeto do Hotel. Outras
atividades A atuação em associações e entidades profissionais também foi marcante. Nos anos de 1967 a 1969 foi presidente do Departamento do Rio Grande do Sul do Instituto de Arquitetos do Brasil. De 1977 a 1979 exerceu a Presidência Nacional do IAB. Foi membro do Sindicato de Arquitetos desde sua fundação e membro honorário da Associação Paraguaia de Arquitetos (1977). Foi, também, membro atuante do Partido Comunista Brasileiro. Demetrio
Ribeiro faleceu no dia 22 de outubro de 2003, em Porto Alegre. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 |
© Fotos Udo Silvio Mohr |
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