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| O
papel dos ícones da contemporaneidade na revitalização dos grandes centros
urbanos Vera Magiano Hazan |
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| Vera
Magiano Hazan é arquiteta,
mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ
e professora da FAU-UFRJ |
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| Entenda-se
por ícone construção de impacto, seja por sua localização estratégica,
visibilidade, escala, forma, aparência, monumentalidade ou uso. Ícone
é aquela construção que, desde a sua concepção, vem causar alguma expectativa
em relação à sua implantação. Assim
como os ícones da Antigüidade, os ícones contemporâneos já nascem com
uma grande carga significativa, sendo concebidos, desde o início, com
o objetivo de revolucionar o conceito do espaço em que serão inseridos. A
sociedade informacional em muito auxilia nesse processo, já que os mitos
circulam na mídia e na rede com grande rapidez, fazendo deles símbolos
além das fronteiras do espaço local. Esses
ícones da contemporaneidade são construídos a partir de uma concepção
política, que visa sua projeção internacional. Se, em outros momentos,
eles possuíam um significado e uma aparência condizentes com a sociedade
local, eles agora pertencem à sociedade global. Dessa
forma, a construção dos ícones contemporâneos faz parte de um planejamento
estratégico, que visa com isso, não apenas revitalizar aquele espaço ou
cidade, mas capturar novos incentivos que garantam a sua sobrevivência. Os
ícones na história a serviço da política e do planejamento estratégico Os
ícones da contemporaneidade, em alguns aspectos, muito lembram os ícones
da Antigüidade clássica. Em diversos momentos da história das cidades,
governantes utilizaram construções para atribuir uma nova vitalidade aos
espaços urbanos, seja através de templos, seja através de monumentos.
O fato é que essas construções vêm servindo por vários séculos como catalisadores,
que auxiliam no processo de desenvolvimento dos centros urbanos. O
ícone é um símbolo, concebido como tal, ou transformado em tal. Ele se
destaca na paisagem urbana, ajudando a valorizar seu entorno, e às vezes
toda a cidade em que se encontra. Segundo Yoshinobu
Ashihara (1), ele deve ser analisado como parte
dessa paisagem, a partir da observação de elementos construídos, com o
fim de classificá-los segundo uma monumentalidade fundamental, que diz
respeito a um objeto arquitetônico predominantemente vertical, isolado
de outros elementos ou segundo uma monumentalidade complexa, que se refere
a um conjunto de edifícios com relações de influência uns com os outros,
demonstrando características de complexidade, luminosidade e penumbra,
penetrabilidade, humanidade. Na
Antigüidade clássica, temos um exemplo supremo que é o Partenón em Atenas.
Localizado em posição estratégica em relação ao resto da cidade, com proporções
monumentais e grande carga significativa, é um ícone da Antigüidade que
permanece como tal na história da arquitetura. Ainda que não tenha sido
concebido com a intenção de se tornar um ícone, fez com que a cidade se
desenvolvesse à sua volta, mantendo-se em destaque naquela paisagem. O
Coliseu de Roma é um outro ícone importante de ser lembrado, utilizado
inclusive como marca (2) da cidade em que se encontra. Sua monumentalidade
é tamanha que nenhuma outra edificação próxima consegue capturar a mesma
atenção. Se o Partenón foi erguido para louvar os deuses do Olimpo, e
agregar uma sociedade que se formava, o Coliseu foi construído para unir
a sociedade em torno de eventos comandados por imperadores. Os
ícones da Idade Média foram as Catedrais, que com sua monumentalidade
e forma de ocupação territorial impuseram novas estruturas urbanas para
as cidades que começavam a se formar à sua volta. Com o propósito de unir
a população em torno da religião, em busca de um Deus supremo e temeroso,
elas eram projetadas com uma magnitude que se estende até os dias de hoje
em boa parte das cidades européias em que se encontram. É inegável seu
apelo formal, com sua concepção em cruz e torres que parecem arranhar
o céu. Em torno delas se formaram muitas cidades, desenvolvendo-se uma
nova dinâmica imobiliária e espacial. Assim
como a Igreja sentiu a necessidade de marcar sua presença e mostrar a
força e o poder da religião cristã através de suas edificações, vários
gestores, entre os quais reis, imperadores, e mais recentemente presidentes,
governadores e prefeitos também sentiram a necessidade de afirmar seus
governos, utilizando-se dos ícones arquitetônicos para permanecerem na
história. Dessa forma, da comemoração da vitória de uma batalha a eventos
de grande abrangência, muitos monumentos foram sendo erguidos com o objetivo
de marcar épocas e, portanto, as iniciativas de seus gestores. Se
a maioria dos monumentos foi concebida para ter uma longa permanência,
ajudando a contar a história da civilização, outros foram projetados para
ter uma permanência provisória, o que se tornou possível devido à emergente
industrialização e ao desenvolvimento das tecnologias da construção civil,
a partir do fim do século XIX e início do século XX, que possibilitaram
novas formas de edificações, que poderiam ser erguidas e desmontadas em
curto espaço de tempo. As feiras internacionais lançaram, então, pavilhões
e monumentos comemorativos, projetados para funcionarem somente durante
o evento. A Torre Eiffel, por exemplo, foi erguida para a Exposição Universal
de 1889 em Paris. Sua belíssima estrutura arrojada de rendas metálicas,
entretanto, garantiu o seu sucesso e permanência, deixando de ser uma
obra provisória, e passando a ser um marco referencial permanente e símbolo
da cidade em que se encontra. Assim
como os ícones das demais etapas da história, os ícones da contemporaneidade
são construídos a partir de uma concepção política, que visa atingir objetivos
próprios da realidade em que estão inseridos. Eles não surgem por acaso,
e sim para alterar os espaços, causar polêmica, valorizar a área em que
se situam, dinamizar a cidade em que se encontram. Se, em outros momentos,
eles possuíam um significado e uma aparência condizentes com a sociedade
local, eles agora pertencem à sociedade global, surgindo em localizações
sempre estratégicas, escolhidas justamente para auxiliarem na construção
desse mito (3). Os
ícones da contemporaneidade (4) chamam atenção, não apenas por sua escala
e monumentalidade, mas também por agregarem a essas duas características
o fato de serem projetados por arquitetos conceituados mundialmente, que
com seu reconhecimento profissional, ajudam a mitificar essas construções
desde a sua concepção. Segundo
Henri-Pierre Jeudy
(5), a estética é talvez mais próxima da política do que a ética. Ela
não pode estar a serviço do político, mas deve provocar a questão política.
O que temos visto atualmente é a estética a favor de uma política de mundialização,
que utiliza relações trans-fronteiras (6) para instaurar modelos globais. Se
isto pode ser considerado positivo para a atração de investimentos nas
cidades, há que se pensar, também, que esta face global acaba por desviar
a atenção dos problemas locais (7). As metrópoles estão à sorte das informações
e criações da comunicação. Elas são o topo das redes em matéria de política,
economia e cultura. A internacionalização das trocas se acentua com a
mundialização da economia. Esta internacionalização se traduz pelo reforço
do nível superior da estrutura urbana, sob a forma de uma rede de grandes
metrópoles mundiais (8). Ainda
segundo Jacques Bonnet, o relacionamento entre
as metrópoles internacionais se revela mais intenso que entre uma capital
e as pequenas cidades que ela comanda na região. A comunicação aproxima
mais facilmente as unidades do mesmo nível de organização que os estabelecimentos
vizinhos. Desta forma, pode-se estabelecer entre as grandes cidades mundiais
a procura sobre os mesmos temas. Existe uma linguagem comum entre todas
as grandes cidades de comércio do mundo, entre os grandes museus do mundo,
entre as grandes universidades. A
utilização dos ícones como catalisadores de processos urbanização também
vem se reproduzindo da mesma forma. Muitos governos têm se utilizado de
construções monumentais para alavancar desenvolvimentos locais ou mesmo
a revitalização de áreas e cidades. Isto acontece na Europa, nos Estados
Unidos, na América Latina e na Ásia. É um movimento mundial que envolve,
principalmente, as cidades que se propõem ser centros internacionais. Segundo
P. Soldatos (9), o perfil internacional das
cidades modernas se define por uma posição geográfica de abertura ao mundo,
por acolher os fatores de produção e os fluxos de comércio vindos de fora,
e por exportar os fatores de produção, pela multiplicidade dos modos de
comunicação social ao estrangeiro, pela importância dos meios de transportes,
pelo relacionamento da mídia. Na
cidade mundial, a construção dos ícones faz, portanto, parte de um planejamento
estratégico (10) que visa com isso não apenas revitalizar aquele espaço
ou cidade, mas dar a ela condições de capturar novos incentivos que garantam
a sua sobrevivência. Políticas
Locais x Políticas Globais. A utilização do Ícone como catalisador de
novos investimentos A
utilização do ícone como catalisador de novos investimentos vem fazendo
parte tanto de políticas locais quanto de políticas globais nas instâncias
federal, estadual e municipal, marcando as gestões de presidentes, governadores
e prefeitos de grandes centros urbanos. Em
seu governo entre 1981 e 1995, o Presidente da França François Mitterrand
se utilizou da construção de grandes empreendimentos,
principalmente de natureza cultural, para alavancar uma nova dinâmica
em torno do país. A política das “Grandes Obras” (11) reflete a “sinergia
assumida entre a cultura e a economia”, traço do governo Mitterrand (12).
Paris como capital política e cultural centralizou os maiores investimentos,
passando a mesclar suas edificações de outras épocas com peças arrojadas
da arquitetura pós-moderna, projetadas por arquitetos reconhecidos mundialmente,
alguns franceses, outros estrangeiros. Fazem
parte dessa iniciativa do governo Mitterrand o Grande Arco de La
Defense (13), o Parc de La Villette,
a Cidade da Música (14), a Biblioteca Nacional da França François Mitterrand
(15), a Ópera da Bastilha (16), o Instituto do Mundo Árabe (17), e a ampliação
do Museu do Louvre (18). Cada projeto tem sua peculiaridade, mas a monumentalidade,
a história, o propósito e a autoria de cada um fazem com que se tornem
ícones da arquitetura contemporânea e marcos de uma gestão reconhecida
por tais iniciativas. Questiona-se
se Paris necessitava de tantas obras grandiosas sendo uma cidade tão especial
e com grande visitação turística antes dessas construções. O fato é que
essa política de natureza cultural ampliou suas receitas e trouxe à cidade
ares contemporâneos que a tornam competitiva com outras cidades modernas.
Além disso, intervenções em locais considerados anteriormente degradados,
principalmente devido à desativação de indústrias, trouxeram nova vida
a essas espacialidades, ajudando a integrá-las ao resto da cidade no circuito
turístico-cultural. Outras
cidades européias também sofreram uma renovação cultural a partir da construção
de grandes empreendimentos, revelados por construções que se tornaram
ícones arquitetônicos. Um bom exemplo se refere a Bilbao na Espanha, que apesar de sua posição estratégica,
próxima à fronteira com a França, era considerada uma cidade industrial
do chamado País Basco, sem grande importância cultural para o resto do
país. As construções do Museu Guggenheim Bilbao, projeto do arquiteto
canadense Frank O. Gehry e da estação projetada pelo arquiteto inglês Norman
Foster trouxeram novas perspectivas para aquela cidade (19), que passou
a integrar o circuito turístico-cultural europeu. Essa
tendência de arquitetura globalizada pode ser sentida atualmente em todas
as partes do mundo. Isso acontece seja porque os governos, de uma forma
geral, têm contratado arquitetos estrangeiros para projetar obras de grande
expressão, seja porque parece haver a intenção de colocar os grandes centros
urbanos e capitais culturais no patamar das cidades mundiais, sem uma
identidade cultural específica ligada à cultura nacional. Os arquitetos
se colocam, então, a serviço de uma política global que impõe uma estética
sem fronteiras, projetando uma obra arquitetônica que pode ser implantada
em qualquer território ou nação. Seus traços algumas vezes refletem suas
raízes e formação, outras uma simbiose de estilos que dificilmente identifica
sua origem. Se, por um lado, existem resistências locais a essas iniciativas,
a força dessa política global é tão forte, que acaba se disseminando rapidamente
por todos os continentes. Reflexos
no Brasil. A utilização dos ícones no planejamento estratégico de algumas
cidades brasileiras Assim
como em algumas cidades européias, algumas cidades brasileiras têm incorporado
a utilização dos ícones e políticas globais em seu planejamento estratégico,
principalmente no que diz respeito à revitalização de suas áreas degradadas.
Os melhores exemplos se referem à cidade do Rio de Janeiro, que desde
a gestão de Pereira Passos vem sofrendo intervenções embaladas por tendências
internacionais. De
fato, muitos prefeitos cariocas vêm tentando imprimir em sua gestão o
perfil empreendedor, através de projetos monumentais, que ajudem a alavancar
o plano estratégico da cidade (20). Pereira Passos, Luiz Paulo Conde,
César Maia, todos parecem querer dar à cidade um aspecto mundializado
e competitivo, fazendo-a destacar do resto das metrópoles nacionais. Em
sua primeira gestão como prefeito da cidade, César Maia apresentava a
ação da Prefeitura no Plano Estratégico da Cidade, justificando a necessidade
de um planejamento estratégico capaz de mobilizar a sociedade, uma vez
que a cidade, naquele momento, estava num processo de degradação crescente,
gerada pelo empobrecimento de sua população, pela ocupação desordenada
dos espaços públicos e privados, pela deterioração dos serviços públicos
e pela fuga de capitais financeiros e humanos. Na
gestão seguinte, com o arquiteto Luiz Paulo Fernandez Conde como Prefeito,
foram estudados diversos projetos em torno da revitalização de espaços
degradados da cidade, em áreas já consolidadas e com infra-estrutura,
no Centro da Cidade e nas proximidades, caso do bairro de São Cristóvão,
na Zona Norte da cidade. Foi nessa gestão que surgiram as primeiras negociações
em torno da instalação do Museu Guggenheim no Rio de Janeiro, bem como
outros tantos projetos polêmicos para a cidade. Com uma política globalizante,
Conde tentou recolocar o Rio de Janeiro no hall das cidades mundiais,
incrementando grandes projetos urbanos com consultorias estrangeiras,
caso do projeto SÁ’s (21), no centro do Rio, que teve o arquiteto português
Nuno Portas em sua coordenação, e da revitalização da Praça XV, coordenada
pelo arquiteto espanhol Oriol Bohigas. O
que se observa em ambas as gestões, e mais claramente
na atual gestão de César Maia, o Projeto do Museu Guggenheim fez parte
de uma política institucional de city marketing (22) em torno de intervenções
urbanas, que de alguma forma, pudessem constituir-se em ação e comunicação
simbólicas em torno da cidade (23). O uso da motivação cultural se deu
com uma intenção financeira de grande vulto por trás do empreendimento.
Por isso, não se propôs um centro cultural local ou um museu ligado às
questões da cidade, como outros projetos elaborados anteriormente (24)
para a área, mas um museu internacional (25), que na verdade é um ícone
por si só, com um projeto arquitetônico que catalisaria forças em torno
do processo de revitalização da zona portuária da cidade (26). Seu propósito
principal seria alavancar um processo de desenvolvimento da cidade a partir
daquela área, que com uma edificação monumental, aliada a uma grife internacional,
poderia trazer uma imagem global e competitiva à cidade. Para
a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, o Museu Guggenheim se constitui
um empreendimento cultural capaz de estimular o processo de revitalização,
recuperação e reabilitação de casas e ruas no Morro da Conceição e à diminuição
do tráfego de automóveis e ônibus, liberando a superfície para os pedestres. Outras
cidades brasileiras também vêm utilizando políticas semelhantes para revitalizar
espaços e se colocar em uma posição de destaque em relação ao país e a
outros centros urbanos internacionais. Curitiba tem se destacado por iniciativas
como o “Ligeirinho” (27), a Ópera de Arame e o Novo Museu (28), projetado
por Oscar Niemeyer. O governador do Paraná, arquiteto Jaime Lerner, desde sua gestão como prefeito de Curitiba, vem tentando
colocar a cidade no hall das capitais culturais do país, através de iniciativas
como as mencionadas. Niterói
também tem investido na construção de novos ícones, todos projetados por
Niemeyer, que no momento vê se concretizar o Caminho Niemeyer, na orla
da Boa Viagem, que agrega uma série de obras projetadas por ele. A primeira
delas, já inaugurada há alguns anos, que se tornou a marca da cidade, é o Museu de Arte Contemporânea – MAC, que
tem uma implantação estratégica, que facilita sua visualização de diversas
áreas da cidade e de cidades vizinhas. O
MAC é um verdadeiro ícone, seja por sua forma inesperada, seja por sua
implantação, seja por ter sido projetada por Niemeyer. Sua construção
ajudou a renovar aquela área e a revigorar a cidade, que apesar das belezas
naturais de suas praias oceânicas e patrimônio arquitetônico, em muito
se distanciava da capital do Estado. A partir da implantação do Museu,
de fato houve uma revitalização da cidade, que com isso conseguiu impulsionar
uma série de outros projetos, bem como pensar na viabilização de outros,
como o próprio Caminho. Se, até alguns anos atrás, ela era considerada
uma cidade com um certo potencial a ser explorado, hoje é considerada
o pólo turístico-cultural da região Leste fluminense. É
interessante comparar as cidades de Rio de Janeiro, Curitiba e Niterói,
principalmente quando se fala da construção de ícones arquitetônicos.
Enquanto a primeira escolhe um arquiteto estrangeiro para projetar um
novo marco referencial da paisagem urbana, numa área com um perfil histórico
e uma série de bens imóveis tombados, como as Igrejas da Saúde, da Prainha e o Mosteiro de São Bento, as outras duas escolhem
Niemeyer, um arquiteto brasileiro de projeção internacional, para planejar
seus novos monumentos. O Rio se coloca, assim, em uma posição “hierárquica”
na competição entre as cidades brasileiras, tentando deixar clara a sua
postulação como cidade mundial, acolhedora de uma arquitetura globalizada,
sem traço nacional. Na
verdade, há uma certa competição entre as cidades brasileiras em torno
dos poderes e realizações, e como o Rio quer se tornar uma cidade competitiva
em termos globais, opta por ter um novo monumento com um aspecto global,
projetado por Jean Nouvel, um arquiteto estrangeiro, que apesar de se
dizer respeitoso com a paisagem encontrada, modifica seu aspecto predominantemente
local. Planejado para ser um ícone com aspecto globalizado, o Museu visa
dar uma visibilidade internacional à cidade, e em especial àquela área
estratégica, na beira do mar, pretendendo-se viabilizar, dessa forma,
os demais empreendimentos pensados para a ela. A
ocupação dos vazios urbanos pelos ícones da contemporaneidade Assim
como a área em que se propôs construir o Museu Guggenheim no Rio de Janeiro,
outras tantas áreas estratégicas consideradas degradadas em cidades brasileiras
e estrangeiras vêm tendo seus vazios urbanos ocupados por projetos monumentais. O
desenvolvimento das redes tecnológicas, a containerização
das mercadorias, bem como o avanço dos meios de transportes de alta velocidade
acabou por fragilizar o sistema portuário, ajudando na desativação de
uma série de atividades ligadas ao porto, tornando as áreas em que se
encontravam desagradas e vazias. Geralmente localizadas em pontos estratégicos,
as Zonas Portuárias vêm sendo estudadas, principalmente por oferecerem
um estoque de áreas bem localizadas, com necessidade de revitalização. O
caso do Rio de Janeiro não é diferente de outras cidades do mundo. A revitalização
dessas áreas faz, de fato, parte de um processo global. Não se pode esquecer
que o Porto é uma das entradas da cidade, que normalmente oferece uma
visibilidade interessante para qualquer investimento de grande impacto.
O terreno inativo e o esqueleto industrial numa área como esta se constituem
vazios urbanos contemporâneos de grande valor. Murray
(29) indaga a possibilidade de se fazer uma intervenção arquitetônica
em áreas que se Shane destacam precisamente
na paisagem, porque aparentemente iludem ou resistem à arquitetura, ao
menos em sua concepção convencional. Para Wilfried
Wang (30), o conceito de vazio urbano tem raízes
históricas precisas. O fato de que alguns arquitetos exijam um domínio
para sua liberdade criativa e ao mesmo tempo possam por ordem num tecido
construído altamente diverso, pode provocar a um observador externo a
impressão de paradoxo, se não esquizofrênico. Segundo Joan Busquets
(31), o uso do termo vazio urbano revela o potencial de transformação
dos grandes espaços, vazios de atividades, encontrados no interior das
cidades. Lugares que, em outras épocas, eram geradores de atividades,
e atualmente tornaram-se obsoletos na cena urbana. No
caso das áreas portuárias, elas se encaixam no que ele chama de grandes
portos que deram origem e estrutura à cidade, e que devido às mudanças
da escala dos navios e à crescente containerização, tornaram-se obsoletos.
Para José Morales (32), as áreas de complexos industriais, já em desuso,
lugares em que no passado encontravam-se as mais importantes infra-estruturas,
hoje são enclaves da superposição de inumeráveis extratos da comunicação
e dos vazios. Enfim, locais onde se centram grande parte de nossas interrogações
sobre as cidades e paisagens contemporâneas. Espaços da incerteza e, portanto,
de projetos. Refletindo
sobre formas de revitalizar essas áreas, utilizando-se os vazios urbanos
encontrados nelas, uma série de governos tem trabalhado com as mais diversas
iniciativas, optando por possibilitar uma coexistência das antigas atividades com novos usos, principalmente
aliados a iniciativas culturais e comerciais. Isso pode ser visto
nas Docklands
de Londres, no Porto de Barcelona, na Zona Portuária de Buenos Aires,
em Nova York, Baltimore etc. Essas iniciativas em geral combinam esforços
dos governos federal, estadual e municipal e da iniciativa privada, que
ajuda a viabilizar economicamente os novos empreendimentos. No
caso do Rio de Janeiro, a Prefeitura tem realizado uma série de investimentos
na zona portuária, desde melhoria das redes de infra-estrutura e reurbanização,
até estudos de alternativas de transportes públicos de massa, como o VLT
(33), bem como mudanças na legislação para resgatar antigas atividades
e incrementar novos usos na área. A área em questão faz parte do Plano
de Recuperação e Revitalização da Região Portuária do Rio (34), que visa
incrementar o retorno das moradias, e integrar esta área ao resto da cidade,
criando-se uma nova frente marítima, com um skyline diferente do atual, renovando-a
visualmente, ainda que se preservando o patrimônio (35) encontrado no
local. Segundo o Plano, o conceito é combinar as novas intervenções arquitetônicas
com a preservação e recuperação do patrimônio histórico, e o marco do
processo de revitalização será o novo Píer Mauá, onde se pretende implantar
o Museu, ao lado de uma Praça Mauá redesenhada e de armazéns restaurados,
com novos e variados usos. É
interessante discutir os encaminhamentos dados pela Prefeitura a esta
nova paisagem a ser construída no local, que atualmente se coloca como
um grande vazio urbano. Quando comparamos a proposta do Museu Guggenheim
de Jean Nouvel com os projetos realizados anteriormente para a área, fica
patente que o empreendimento Guggenheim é o único que atinge as expectativas
do que se elabora para o Píer, seja por sua monumentalidade, seja por
se apresentar numa embalagem repleta de polêmica e glamour. Segundo
Sharon Zukin (36), o processo social de construção
de uma paisagem pós-moderna depende de uma fragmentação econômica das
antigas solidariedades urbanas e de uma reintegração que está fortemente
alterada pelos novos modos de apropriação cultural. A genialidade dos
investidores imobiliários, nesse contexto, consiste em converter a narrativa
da cidade moderna em um nexo fictício, uma imagem que é um grande embrulho
daquilo que a população pode comprar, um sonho de consumo visual. A proposta
de Nouvel é inovadora, ainda que questionável. Sua ousadia é visível,
seja pelo arrojo das formas, seja pelas tecnologias de construção que
se apresentam no projeto. Ele constrói um ícone, um sonho, uma revolução
naquela paisagem, que com isso começa a sofrer mudanças de escala. Para
Lilian Vaz Fessler e Paola Berenstein Jacques (37), as transformações
espaciais não se restringem mais à sua dimensão físico-territorial, mas
envolvem, em grau crescente, considerações de ordem simbólica. O lugar,
a sua imagem e sua identidade se tornaram fundamentais. No mundo global,
a diferenciação através da força da identidade local se torna um trunfo
essencial. Ainda
que alguns arquitetos tenham uma preocupação em preservar traços e laços
locais, de uma forma geral, os ícones contemporâneos acabam por quebrar
a harmonia com a paisagem local, trazendo um aspecto global que os transporta
para um território trans-fronteiras, possibilitando a sua assimilação
por culturas diversas, ainda que muitas vezes sem alcance para a própria
população local. Há
que se refletir sobre a utilização de ícones espelhados numa política
globalizante em políticas estratégicas locais. O sucesso desses empreendimentos
não é tão certo quanto se imagina, pois nem sempre o que se reproduz de
modelos importados é adequado a alguns lugares. Os ícones da contemporaneidade,
diferentemente dos ícones de outras épocas, não têm compromisso com os
espaços em que vêm sendo inseridos. Enquanto os ícones da Antigüidade
permanecem ícones ao longo de séculos, as novas construções monumentais
são efêmeras, seja pelas mudanças em torno delas, seja pelo aspecto globalizado
que as torna objetos do momento, encontrados nos mais variados pontos
do mundo. Alguns talvez se tornem ícones da posteridade, por sua qualidade
arquitetônica, sua implantação urbanística, por sua história. Mas, possivelmente,
a maioria fará parte de um conjunto de edificações monumentais, sem traços
que identifiquem suas origens e propósitos. Há
uma grande diferença entre as cidades mundiais de países desenvolvidos
e as cidades mundiais de países em desenvolvimento. As primeiras, de uma
forma geral, exportam seus fatores de produção, padrões de consumo, cultura
etc, enquanto as segundas tendem a importar o modelo das primeiras, ainda
que este não seja apropriado para as suas realidades. Se, por um lado,
projetos grandiosos podem ser positivos sob alguns aspectos para algumas
cidades, e até mesmo para algumas nações, por outro lado, políticas desse
tipo acabam por implementar uma segregação ainda maior, com equipamentos
culturais elitistas, muitas vezes inacessíveis ao poder aquisitivo dos
moradores locais. Coloca-se, assim, mais um debate sobre a questão. Como
o arquiteto, através da concepção de um ícone, pode auxiliar no processo
de revitalização de uma área, ajudando a integrá-la não apenas ao resto
da cidade, como viabilizando a socialização desse espaço para a população
de uma forma geral. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37
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