![]() |
![]() |
|
||||||||||||||||||||||||||||
Villanueva. Modernidade e trópico |
||||||||||||||||||||||||||||
Isabel Sánchez Silva é arquiteta com mestrado no Royal College of Art (Reino Unido), atualmente professora pesquisadora do Instituto de Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da Universidade Central de Venezuela. |
||||||||||||||||||||||||||||
| (leia
versão em espanhol) (leia versão em inglês) |
||||||||||||||||||||||||||||
Carlos
Raúl Villanueva nasceu na Inglaterra em 1900; seu pai era diplomata, seu
avô médico e apaixonado pela história. Sem outros antecedentes na família, seu irmão mais velho Marcel
decide estudar Arquitetura, na Escola de Belas Artes de Paris. Ao mesmo
tempo Carlos Raúl segue seus passos e entra na mesma escola; a partir
desse momento a Arquitetura passaria a ser a paixão de sua vida. Logo
depois de concluir seus estudos, os irmãos tomam caminhos muito diferentes:
Marcel exercerá a arquitetura nos Estados Unidos, enquanto Carlos Raúl
decide volta à Venezuela e começar ali sua vida profissional. Por
volta de 1920, quando se inicia sua formação acadêmica, estavam se organizando
na Europa as vanguardas artísticas que posteriormente lhe seriam muito
próximas. No entanto, nesses anos a Escola de Belas Artes de Paris permaneceria
fiel à sua tradição acadêmica; e é dessa forma como a formação de Villanueva
se realizará dentro dos cânones dessa tradição. Entre as influências que
recebeu Villanueva durante seus anos formativos cabe mencionar o arquiteto
Auguste Perret, que foi seu mestre e amigo. Graças a ele, o jovem estudante
adquiriu seus primeiros conhecimentos sobre o uso de um novo sistema construtivo,
o concreto armado, do qual Perret é pioneiro. Esse material mais tarde
terá um papel fundamental em sua arquitetura. Em
1929, depois de concluir seus estudos, e trabalhar brevemente na França
e Estados Unidos, Villanueva chega à Venezuela. Na Venezuela de então
as obras civis eram realizadas graças ao ofício dos engenheiros, e pouco
se sabia do trabalho dos arquitetos. No entanto, a situação mudaria; a
arquitetura venezuelana estava por abrir-se pela mão de vários arquitetos,
que como Villanueva, tinham se formado no exterior. A cidade de Caracas,
com sua violenta luz e sua densa vegetação, converteria-se
no cenário onde se realizaria a maioria de suas obras. “O
arquiteto”, como gostava de autodenominar-se,
concebe e realiza na Venezuela uma obra moderna de grande transcendência.
Tal é seu valor que recentemente a Cidade Universitária de Caracas, um
de seus projetos mais emblemáticos, foi declarada patrimônio da humanidade
pela Unesco. Esse reconhecimento foi motivo de grande satisfação entre
os conhecedores da obra desse arquiteto latino-americano, pois essa singular
obra tinha passado inadvertida, apesar de sua qualidade e das valiosas
obras de arte que abriga. A Cidade Universitária de Caracas reúne valores
plásticos e arquitetônicos de significação indubitável até então ignorados
e apenas resenhados a nível mundial. Alguns críticos de reconhecido prestígio
como Benevolo, Lampugnani, Pevsner, e mais recentemente Curtis, Frampton
e Montaner se referiram mesmo que brevemente a essa obra. No entanto,
os editoriais dedicados à divulgação da arquitetura (que na sua maioria
são editoras européias, norte-americanas e mais recentemente japonesas),
evitam, salvo algumas poucas exceções, a arquitetura dos países periféricos,
ou seja, aquela que se realiza fora dos circuitos consagrados. Dali a
surpresa que causa a Cidade Universitária aos visitantes estrangeiros
e que se deve, sem dúvida, à escassa difusão das obras de Villanueva fora
da Venezuela. A
arquitetura de Villanueva se encontra imersa no movimento moderno, durante
anos estuda com fervor os escritos e a obra de Lê Corbusier, a quem conheceu
pessoalmente: “Nas oportunidades que tive a honra de encontrá-lo e conversar
com ele, saí sempre impressionado pela clareza de seus conceitos” (1).
Entre outras coisas o arquiteto venezuelano admirava o talento de seu
colega francês para enfrentar a adversidade. Villanueva também segue com
atenção os postulados e as obras da vanguarda européia, que se desenvolveu
entre os anos 1917 e 1933, período que Alison e Peter Smithson descreveriam
como “o período heróico da arquitetura moderna”. Nesse tempo surgiam as
propostas dos neo-plasticistas holandeses, a Bauhaus, os construtivistas
russos, entre outros. Cada movimento emergia com assombrosa radicalidade.
No entanto, as guerras impediram que na Europa as propostas vanguardistas
fossem colocadas em prática. Posteriormente, a escassez e as condições
econômicas retardaram o processo de reconstrução; No campo da arquitetura
os esforços se orientaram ao mais urgente. Os vanguardistas não tiveram
outro remédio a não ser postergar a realização de suas idéias. Por exemplo,
alguns dos fundadores da Bauhaus se viram obrigados a emigrar, principalmente
para a América. Os construtivistas russos tiveram que trabalhar sob a
tutela estatal e suas ilusões de que a arquitetura era um meio de transformação
da sociedade, viram-se afogadas pelo realismo socialista. Em Paris, pese
a presença de Lê Corbusier, o moderno incidiu muito pouco na vida da cidade
e edifícios emblemáticos como a Maison de Verre de Chareau, a Villa Roche
e outros edifícios de Le Corbusier, passam praticamente desapercebidos
na cidade. Na
América Latina, pelo contrário, a modernidade entrou intensamente, para
bem ou paramal, como bem indica Sybil Molí-Nagy, filha do famoso Lazlo
Moholy-Nagy, da Bauhaus, a primeira a realizar uma monografía de Villanueva
em 1964, referindo-se à modernidade: “Desde os anos cincuenta na América
Latina (especialmente México, Brasil e Venezuela) a arquitetura alcançou
um lugar proeminente, com base nas inteligentes variantes trazidas a uma
nova revolução no campo do desenho que na Europa começara trinta anos
antes. Os arquitetos vanguardistas não se contentaram com a realização
de obras isoladas”.(2) A modernidade chegava tarde à América Latina
porém encontraria um território com possibilidades inimagináveis. Antes
de falar da Cidade Universitária é necessário comentar as circunstâncias
que permitiram a construção dessa obra. No fim dos quarenta, a população
de Caracas começa a crescer. O fenômeno da migração do campo à cidade
e as políticas de imigração promovidas pelo governo (Venezuela recebeu
durante os anos cinqüenta grandes contingentes de emigrantes europeus)
originou acelerado crescimento e uma demanda crescente de obras civis
que propiciou o auge da arquitetura. Paralelamente, a Venezuela começava
a desfrutar da bonança econômica que trouxe o petróleo. A partir desse
momento se inicia um período no qual se realizarão grandes obras de infra-estrutura
e arquitetura. Os arquitetos terão a oportunidade de realizar projetos
de dimensões consideráveis. Carlos Raúl Villanueva encontrará nesse auge
seu momento e seu lugar. A
realização de uma obra da magnitude da Cidade Universitária teria sido
impossível sem os recursos que derivaram da exploração petroleira. A idéia
de uma cidade universitária nova tem antecedentes em outras cidades universitárias
da América Latina; na do Rio de Janeiro, em 1936, com um plano geral de
Le Corbusier, que chega ao Brasil com a esperança de realizar grandes
projetos que resultam em decepções. E na Cidade do México, onde se procura
com resultados muito diferentes combinar arte e arquitetura e que foi
desenvolvida paralelamente à de Caracas. Villanueva teve a sorte de poder
levar a cabo, ele mesmo, praticamente a totalidade da obra. Foram vinte
e cinco anos de dedicação contínua. O legado é considerável: quarenta
edifícios, incluindo alguns de indiscutível complexidade como a Aula Magna
e a Praça Coberta. Esses espaços A
realização de uma obra da magnitude da Cidade Universitária teria sido
impossível sem os recursos que vieram da exploração petrolífera. A idéia
de uma cidade universitária totalmente nova tem antecedentes em outras
cidades universitárias da América Latina; na do Rio de Janeiro, em 1936,
com um primeiro plano diretor de Le Corbusier, que chega no Brasil com
a esperança de realizar grandes projetos que no final tornaram-se decepções.
E na da Cidade de México, aonde se tenta com resultados muito distintos
combinar arte e arquitetura e que se desenvolveu paralelamente à de Caracas.
Villanueva teve a sorte de poder realizar, ele mesmo, praticamente a totalidade
da obra. Foram vinte e cinco anos de dedicação contínua. O legado é considerável:
uns quarenta edifícios, incluindo alguns de indiscutível complexidade
como o da Aula Magna e a Praça Coberta. Estes espaços reúnem uma coleção
de arte moderna sem igual, colocada em cena de maneira exemplar e única,
aonde, ao final, o mais fino trabalho de integração de obras e espaços
toma forma definitiva. A Cidade Universitária de Caracas é um testemunho
inédito, onde se se torna realidade a integração das artes e se conjuga
modernidade e trópico em uma aberta e triunfante totalidade. Villanueva
convocou artistas plásticos estrangeiros do mais alto nível, que aceitaram
a convocatória de boa vontade e se envolveram no projeto, com curiosidade
alguns, com incredulidade outros. Não estava demasiado claro como esta
obra tão incrível poderia ser realizada em um país para a maioria deles
desconhecido. Por
outro lado, temos que mencionar que a Venezuela vivia naquele momento
um período de ditadura militar, com o conseqüente clima de ausência de
liberdades e repressão. Ainda
que Villanueva tenha começado a Cidade Universitária com o governo democrático
que antecedeu a ditadura, não vê interrompido seu trabalho com o advento
do governo militar. A cidade universitária foi incluída dentro do vasto
plano de obras públicas, que o novo governo empreenderia como uma maneira
de obter reconhecimento e prestígio. Não havia tempo para dúvidas; Villanueva
teve que se submeter a duras exigências para realizar esta obra titânica.
A pressão era uma constante, a obra do conjunto central deveria estar
terminada uma data previamente marcada e parecia impossível conseguir
o feito. Villanueva cumpriu com o prazo estabelecido, o que lhe valeu
o apelido de “o Diabo”, que carinhosamente lhe deu Alexander Calder, o
escultor com quem fez uma grande amizade durante sua participação
no projeto. Afortunadamente, o arquiteto tinha a virtude de superar os
problemas que dia a dia a situação venezuelana lhe impunha. Mesmo
que os postulados das vanguardas européias gravitem no pensamento de Villanueva,
até 1934 seu trabalho segue as pautas da escola de Belas Artes de Paris. Finalmente
teve a oportunidade de por em prática suas já assimiladas idéias modernas
com a construção de sua própria casa. O jovem arquiteto projeta uma casa
tão radical que foi incompatível com a vida familiar, como nos comenta
Paulina, filha do mestre. Era mais “um manifesto” do que uma casa. A extrema
fidelidade aos preceitos modernos, permitiu que aspectos importantes,
como o climático, ficassem sem solução. O fato de que família finalmente
tivesse que deixar a casa chamada “Os Manolos”, significou toda uma lição
para Villanueva. Dali em diante, o manejo das condições do trópico será
essencial em seu trabalho. O
clima de Caracas, ainda que quente por sua latitude tropical,
é muito estável. Sua altura, 900 metros acima do nível do mar,
modera o calor no vale. Pode-se dizer que Caracas tem um clima ideal.
As temperaturas variam muito pouco ao longo do ano e com a adequada ventilação,
não é necessário fechar os espaços para aquecer ou esfriar o ambiente.
Em conseqüência, os espaços não têm que estar isolados do exterior. Esta
premissa oferece uma maior liberdade ao arquiteto: a barreira entre o
exterior e o interior não é indispensável e aceita muitas interpretações.
Um teto generoso, grandes beirais, seriam elementos suficientes para resguardar-se
das chuvas torrenciais e do sol tropical. Os fechamentos verticais poderiam
ser utilizados com leveza, de acordo com as intenções do arquiteto. Em
síntese, se abre a possibilidade de oferecer espaços que vinculem o espaço
interior e o exterior, que podemos chamar espaços intermediários. Por
outro lado, a vegetação no trópico permite a constante presença do verde
ao longo do ano. O verde prevalece, mesmo que cada variedade tenha seus
ciclos; enquanto uns perdem as folhas, outros florescem e renovam seu
verde e outros dão frutos. A vegetação intensa sob a luz seria para Villanueva
um elemento a mais na composição. Seu admirado Roberto Burle Marx, paisagista
brasileiro, lhe ofereceu toda uma lição, e graças a ele Villanueva reconheceu
nestas matérias verdes um vigor e uma força desconhecidos. Segundo Villanueva,
Burle Marx foi o primeiro que tentou uma integração das artes e
em suas composições paisagísticas inventou um novo caminho na arte de
fazer jardins. Este paisagista inclui em suas composições elementos arquitetônicos
e plásticos com uma estética de franca modernidade, que revolucionam e
deixam em Caracas um legado, o Parque do Leste
de Caracas, que ainda é um exemplo para os arquitetos e paisagistas venezuelanos. A
Cidade Universitária se desenvolveu em duas fases distintas. Uma primeira
fase, que começou em 1944, que correspondia às noções clássicas que caracterizaram
as obras do primeiro Villanueva. O Hospital Clínico e os Institutos de
Anatomia e Medicina Experimental pertencem a esta etapa. Nos
anos cinqüenta, Villanueva sentiu a necessidade de realizar mudanças importantes
na obra. De alguma maneira, vislumbrou que era o momento de mudar de rumo.
O deslocamento de conceitos representou uma mudança total; o novo plano
diretor contradizia os eixos de simetria planejados na primeira versão.
Villanueva propõe, como diferença com o anterior, uma breve e larga estrutura
que cruza o eixo de composição inicial. Este elemento mínimo, de estrutura
simples de concreto à vista que alterna tramas de bloco fechado com vazios,
separa e conecta a primeira e segunda Cidade Universitária. Com a colocação
de ardósia em algumas paredes deste passeio especialmente largo, se propõe
um uso de aula informal para este espaço. O Passeio Central, como é conhecido,
separa o mundo clássico do moderno. Daí
em diante toda a experiência arquitetônica mudará. O Conjunto Central,
coração da cidade universitária, ocupará agora o centro do projeto, ligando-se
Norte-Sul, perpendicularmente ao eixo anterior, rompendo com as simetrias
prévias. O conjunto central está formado pelo Edifício da Reitoria, que
junto com outros edifícios conforma a Praça da Reitoria, espaço público
de entrada. Em sucessão até o interior, continua a Praça Coberta, o Paraninfo,
a Aula Magna e a Sala de Concertos (com entrada própria até o Oeste) e
o Edifício da Biblioteca. O conjunto funciona como um todo unitário graças
ao singular uso do espaço como articulador dos elementos dispostos de
forma livre, cada um dos quais obedece às suas próprias leis, o que gera
sistemas estruturais distintos. O
teto destes espaços, ainda que fragmentado, garante
a continuidade do conjunto, enlaçando as distintas coberturas mediante
o uso de sobreposições soltas. Este recurso permitirá a Villanueva resolver
os encontros das distintas tramas estruturais, mudar de altura e articular
os distintos edifícios. Na praça coberta estas quebras deixam filetes
de luz, que complementam e atenuam a força da luz lateral. Os pátios,
a vegetação e as obras foram cuidadosamente dispostos, convertendo-se
a Praça Coberta no espaço social por excelência da universidade. Ao
referir-se ao Conjunto Central ou coração de cidade universitária Oscar
Tenreiro, em seu texto Os espaços
públicos em Carlos Raúl Villanueva, afirma: “Aqui Villanueva assume
dois tipos de compromisso: o de refutar-se a si mesmo, ao violar as pautas
estabelecidas em seu primeiro Plano, e o de explorar um modo de agrupamento,
onde as direções das retículas estruturais, a sucessão dos espaços públicos
e as conexões entre os edifícios, se aliena de
toda referência oriunda da arquitetura internacional, se convertendo em
reflexão pessoal” (3). Ao
se andar pela Cidade Universitária se pode apreciar a compreensão que
tinha Villanueva do tropical, que se manifesta com profusão nos espaços
intermediários, espaços que se abrem ou se fecham com tramas de blocos
ocos, à maneira de gelosias, segundo seu lugar ou função. Villanueva compreende
agora o ambiental em sua totalidade e potencializa sua singularidade.
No contínuo fluir de espaços abertos, ou semi-abertos, fechados por paredes
trabalhadas ou verdes, cobertos ou parcialmente ensombrecidos, as possibilidades
do clima se convertem em tema, graças ao versátil manejo de Villanueva,
sua gramática distinta, moderna e tropical. Os
postulados mais fortes e mais dogmáticos, que tinham como fonte original
o pensamento de Le Corbusier, se matizam, se transformam e se particularizam
em Villanueva, na medida em que os novos ingredientes do lugar tomam parte
de uma nova originalidade. Ele o manifesta da seguinte maneira: “Temos
que admitir a universalidade de um fato: não se constrói nada a partir
da nada. É óbvio. Sempre se constrói a partir de algo, de alguma tradição
ou de várias delas, ainda quando são contraditórias, ainda quando são
recentes e precárias" (4). Esta
vontade de somar e integrar se faz evidente em um aspecto que talvez seja
o mais conhecido da obra de Villanueva, a integração entre arte e arquitetura.
Foi este aspecto o que motivou, sem sobra de dúvidas, a declaração que
converte a Cidade Universitária em patrimônio moderno da humanidade. Sua
obra foi reconhecida como síntese das artes, ainda que ele prefira falar
de integração. Síntese para ele era a obra de Antonio Gaudí: “A arquitetura
de Gaudí é interna e externamente escultura e pintura”. Um só criador,
arquiteto, engenheiro, escultor e pintor, realizando uma só unidade. Diferentemente,
Villanueva aspirava conseguir, atuando como arquiteto, uma integração
com obras de outros artistas, que por sua vez deveriam participar do propósito
comum; em suas palavras queria conseguir “a criação de um novo organismo arquitetônico-escultórico-pictórico,
aonde não se verifique a menor indecisão, aonde não se note nenhuma fresta
entre as distintas expressões. O necessário de cada uma dessas expressões
plásticas deve ser irremediavelmente evidente” (5). Acreditava
que as artes eram os grandes testemunhos culturais de uma época. Na Cidade
Universitária tem a oportunidade de mostrar “o espírito de seu tempo” e é este o
motivo que as obras foram encomendadas a artistas preferivelmente não
figurativos. Convida a participar grandes artistas plásticos formando
uma coleção de arte única, permanente e aberta. “O ambiente natural das obras de arte são praças, os jardins, os edifícios
públicos, as fábricas, os aeroportos: todos os lugares aonde o homem perceba
o outro homem como a um companheiro, como a um associado, como a uma mão
que ajuda, como a uma esperança e não como a flor murcha do isolamento
e da indiferença...” (6). A Cidade Universitária é, por sua vez,
a obra de arte de Villanueva. Esta vontade de integração entre arte e
arquitetura no espaço público marcou a diferença. A
fluidez espacial e a liberdade do espaço na Praça Coberta podem dar ao
visitante desprevenido a impressão de acaso. Nada mais longínquo do acaso
do que esta proposta: um olhar rápido na planta do conjunto central permite
verificar a precisão de cada uma destas ilhas de luz, do abrigar cada
uma das obras de arte, a fina maneira de articular os distintos elementos
do conjunto e definir os percursos. Paulina Villanueva os descreve como
“movimentos”, aonde se vislumbra um Villanueva com uma idéia
musical, que articula notas em uma seqüência, e que na sua arquitetura
são espaços, obras de arte, vegetação e luz. Nesta arquitetura, a luz
e a sombra cumprem um papel fundamental e encontram sua maior nitidez
na Praça Coberta, aonde o percurso alcança sua máxima frescura graças
ao suave ir e vir de correntes de ar que se produzem neste espaço mágico.
Destaca a presença da cor dos murais, obras primas de Ferdinand Léger,
de Víctor Vasarely e do venezuelano Pascual Navarro, implantados com seu
caráter particular em suas ilhas de luz e forte vegetação. Destacam-se
a precisa implantação de Amphion
de Henri Laurens, que recebe aos pedestres entre plataformas no acesso
Leste, e o O pastor de nuvens de Jean Arp, que ocupa
um espaço de honra na ante-sala da Aula Magna. Tudo
se encontra fixado de uma forma que parece natural e realizado sem esforço,
mas que, no entanto, responde a um cuidadoso processo reflexivo e de comunhão
com os artistas, que só se deteria ao encontrar o espaço preciso para
cada obra e a obra precisa para cada espaço.
A Praça Coberta é ante-sala, lugar de encontro e museu aberto que em um
único acorde alcança seu maior virtuosismo. Se sente uma misteriosa leveza
no ar e uma certeza: é talvez aqui aonde o caminhante habitual, o distraído
ou o entendido, se dá conta e compreende. Como diz Sybil Moholy-Nagy,
quando nos relata que Villanueva foi requerido em muitas ocasiões a falar
desta integração: “sua visão
no pode ser explicada em teoria. Corresponde a um processo interior de
seleção intuitiva que percebe cada escultura rodeada de seu espaço arquitetônico
e cada uma de suas criações espaciais enaltecida e definida
por uma obra de arte. A intuição perceptiva convence pelos sentidos
ou não convence de maneira alguma” (7), prescindindo de maiores
explicações. A Praça Coberta é o auge do aberto, seu interior guarda um
tesouro de cores, a Aula Magna, radiante, recoberta
por nuvens, iluminada graças ao gênio de Calder no mais afortunado
encontro. Os pratilhos voadores,
como os chamou Calder, coroam o espaço mais emotivo da universidade. Pratilhos voadores pode ser um nome muito apropriado para esta obra,
mas as pessoas da universidade têm preferido chamá-las de As nuvens de Calder. A
participação de Calder na Aula Magna foi uma experiência única, tanto
para Villanueva, como para os que participaram da obra, e a seguir para
todos aqueles que desde então temos admirado esta irrepietível comunhão.
Também para o artista foi motivo de satisfação; “é este o melhor momento de minha arte”, afirmou Calder. A
Biblioteca Central com a presença do soberbo vitral de Ferdinand Lèger,
é outra dessas magníficas coincidências da cidade universitária.
O vitral de dois alturas fecha um espaço relativamente pequeno, que antecede as salas de leitura.
É precisamente essa disparidade, entre o tamanho de obra e espaço, o que
gera a leve tensão e mútua dependência que se percebe entre obra e espaço. A
vocação de integrar arte e arquitetura, que temos descrito, continuaria
presente durante a execução dos edifícios seguintes. Em cada passeio,
auditório, bar, biblioteca, ou encontro de caminhos, Villanueva tem a
oportunidade de experimentar. Assim se sucedem entradas de luz, paredes
tramadas, jardins, pátios interiores. Os edifícios altos, serão a ocasião
para desenvolver quebra-sóis para a proteção de suas fachadas. Os auditórios
e bibliotecas, e, no caso da Faculdade de Arquitetura, a Sala de Exposições,
são parte dos múltiplos exemplos desta particular modernidade que a cada
passo surpreende. Suas propostas de aulas abertas no exterior, que se
davam no jardim, fazem crer que não há barreiras. Ainda se pode
observar grupos deitados nos jardins e na Praça Coberta. Esta noção de
liberdade, que se respira quando se transita pelas ruas e praças fechadas,
é uma forma de se dar o máximo aproveitamento à liberdade que este clima
oferece. Dentro
do mundo da arquitetura venezuelana, a figura de Carlos Raúl Villanueva
é sem dúvida a primeira referência. Tem Villanueva o mérito de situar
na Venezuela uma das experiências mais importantes da modernidade. Sua
obra é extensa; existem 135 obras catalogadas. Assim mesmo teve uma intensa
vida como docente. Falar
de tradição na arquitetura de Venezuela sem falar de Villanueva seria
difícil, pois se existe hoje uma tradição é a que ele nos legou. A existência
da Cidade Universitária em nossa cidade é uma grande lição, não só por
sua qualidade, mas também pela coragem que teve para seguir adiante nessas
condições. Porque Villanueva teve que enfrentar além das dificuldades
da construção, os problemas e as tensões derivados do fato que seu cliente
foi o governo militar. Igualmente teve que enfrentar as críticas de seus
colegas e de alguns artistas venezuelanos, que se negaram a colaborar
no projeto por razões políticas. Villanueva foi
perseverante e se manteve firme frente às adversidades. Estava seguro
de que este projeto merecia sua dedicação e, graças à atitude que adotou
frente a uma situação ideologicamente condenável, as gerações seguintes
herdou o conjunto urbano mais importante de Caracas. Nos
âmbitos universitários, especialmente na Faculdade de Arquitetura, havia
uma grande preocupação pela escassa difusão desta e outras obras de Villanueva.
A recente declaração da Cidade Universitária como patrimônio da humanidade
provocou um novo interesse pela cidade universitária e por Villanueva.
Atualmente estão sendo tentadas ajudas para garantir sua conservação.
Por outro lado, a situação de desconhecimento começa a mudar; por exemplo,
aqui na Espanha, se publicou recentemente o livro de Paulina, filha de
Villanueva. Este livro, que coincide com a celebração do centenário do
nascimento do arquiteto, é o primeiro da série Mestres
Latino-americanos da Arquitetura da Tanais Arquitectura, associado
com várias editoras. Ainda neste mesmo ano de 2000 foram realizadas exposições
e conferências em Londres, Boston, Veneza e São Paulo. Villanueva
redige sua arquitetura com insumos variados, uns e outros vão se somando
até que se manifestam nesta estrondosa afirmação, aonde não falta nem
sobra nada. A forma particular com que coordena as “peças” ou elementos
arquitetônicos de elaborada singularidade, conformando um conjunto, a
maneira como resolve os encontros entre elementos distintos, sem comprometer
sua estrutura particular, o uso do concreto armado em contraste com um
uso intensivo da cor, a presença contínua da arte, a utilização das tramas
e quebra-sóis para amenizar a luz e permitir a ventilação, a fluidez dos
percursos através das plantas baixas enlaçadas pelos passeios cobertos
e a forte presença da vegetação convertem a visita em uma experiência
múltipla. Em poucas palavras, se pode afirmar que a obra de Villanueva
traz suficientes elementos para a arquitetura venezuelana, assegurando
que sua obra seja um fator de transformação da tradição arquitetônica
do país. Na Cidade Universitária, Villanueva registra uma modernidade
singular, como dizia Sybil Moholy-Nagy, uma “variante”, da arquitetura
moderna, neste caso tropical. Se
de algo podemos estar seguros é que a arquitetura de qualidade sempre
terminará por conquistar seu lugar na história. Próxima ou longe dos críticos
e das mídias, no centro ou na periferia, de alguma maneira se abrirá caminho
e transcenderá as fronteiras circunstanciais, e se converterá em universal. Cada
dia novos estudantes percorrem esta universidade. A cada ano ingressam
na Faculdade de Arquitetura, com uma vocação mais ou menos definida, um
novo grupo de estudantes. Aqui começa sua experiência acadêmica, o estudante
vive estes espaços com maior ou menor intensidade, percebe e aprende,
aprende na experiência de cada dia. Sem que seja muito claro,
este habitar a universidade se transforma no melhor dos ensinamentos. Nós,
que não tivemos a sorte de ser um de seus estudantes presenciais, sabemos
que todos os que ali têm estudado, fomos e somos seus alunos, e junto
a nosso título de arquitetos, ali sob as nuvens de Calder, recebemos também
uma distinção. Trata-se de uma maneira de ver a arquitetura. 1 2 3 4 5 6 7 COLQUHOUM,
Alan. Arquitectura moderna y cambio histórico. Colección arquitectura
y crítica. Barcelona, Gustavo Gili, 1978. CURTIS,
William. Modern architecture since 1900. New Jersey, Prenctice-
Hall inc, 1995. CRUZ,
Edgard. El lenguaje plástico de Carlos Raul Villanueva. Entre Rayas,
Caracas, n. 4, mayo-junio1993. FRAMPTON,
Kenneth. Historia crítica de la arquitectura moderna. Barcelona, Gustavo
Gili, 1993. GASPARINI,
M.; POSANI, J. P. E. Larrañaga- M. Arroyo. Obras de arte de la Ciudad
Universitaria de Caracas. Caracas, Monte Avila, Conac, 1991. GRANADOS
V., Antonio. Guía: Obras de arte de la Ciudad Universitaria de Caracas.
Caracas, Ediciones Universidad Central de Venezuela, 1974. GONZALEZ
VISO, Ivan. Nuevas aproximaciones
a la Ciudad Universitaria (trabajo de ascenso). Caracas, 2001. JAUA,
Maria Fernanda. La ciudad universitaria de Caracas. Ediciones Instituto
de patrimonio Cultural. Caracas, Conac, 2000. MONTANER,
Josep Maria. Después del movimiento moderno. Arquitectura de la segunda
mitad del siglo XX. Barcelona, Gustavo Gili, 1993. PEREZ
OYARZUN, Fernando. Le Courbusier y Sudamérica y viajes y proyectos.
Ediciones ARQ, Chile,1991. POSANI,
Juan Pedro; GASPARINI, Graziano. Caracas
a través de su arquitectura. Caracas, Fundación Fina Gomez, 1969. VILLANUEVA,
Paulina. Carlos Raúl Villanueva. Serie Maestros Latinoamericanos
de la Arquitectura, Tanais Ediciones, España, 2000. Birkhäuser Verlag,
Logos Art, Pricenton Architectural Press. VILLANUEVA,
Paulina; GASPARINI, Paolo. Villanueva en tres casas. Caracas, Gráficas
Armitano, 2000. Sala
Mendoza, Asociación Civil. Roberto Burle Marx. El Parque del Este de
Caracas. Caracas, Mini Press, 1992. SMITHSON,
Alison and Peter. The heroic period of modern architecture. New
York, Rizzoli, 1981. TENREIRO,
Oscar. El Villanueva nuestro. Revista Imagen, Caracas, n. 100-47,
Conac, 1988. |
|
|||||||||||||||||||||||||||
| | 043 | 043.01 | 043.02 | 043.03 | Autor | Assunto | Números | Página principal | Vitruvius | | ||||||||||||||||||||||||||||