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| Natal
em outubro: uma pauta para a investigação teórica no domínio do projeto
arquitetônico
Elvan Silva |
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| Elvan
Silva é Professor Titular da Faculdade de Arquitetura da UFRGS |
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O
Seminário “Projetar 2003” Foi
realizado em Natal (RN), nos dias 7, 8, 9 e 10
de outubro, o Seminário Projetar
2003, tratando dos desafios do ensino e da pesquisa do projeto arquitetônico.
Foi uma iniciativa do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo
da UNFR, que tem um curso de mestrado e que se qualifica para consolidar
uma linha de pesquisa no campo de projeto arquitetônico, colimando contribuir
para o desenvolvimento desta área do ensino de arquitetura e urbanismo.
Enfrentando dificuldades fáceis de imaginar, a equipe coordenada pelas
Professoras Sônia Marques, Gleice Elali
e Maísa Veloso sobrepujou todos os obstáculos
e ofereceu aos que compareceram ao evento a oportunidade de ficar
a par do estado da arte
neste campo, que é o eixo do processo de educação do arquiteto. Na mesma
ocasião, ocorreu o lançamento do livro Desafios e Conquistas da Pesquisa
e do Ensino de Projeto (Rio de Janeiro: EVC), organizado por Fernando
Lara e Sônia Marques, e trazendo textos de quatorze autores, abordando
o tema. O Seminário e o livro sinalizam a retomada do fecundo debate inaugurado
pela Faculdade de Arquitetura da UFRGS na década de 1980. Esta retomada
é, na opinião de muitos, extremamente oportuna. Não
é raro que docentes do campo da arquitetura se voltem para os domínios
da didática e da pedagogia em busca de subsídios para o melhor desempenho
das tarefas da educação do arquiteto; não é raro, também, que encontrem
certa frustração, quando constatam que no campo disciplinar da educação
há mais elementos especulativos que normativos, e que o ensino do projeto
arquitetônico, como todo ensino envolvendo não apenas repertórios, mas
também competências, é um desafio importante igualmente para a área da
educação. Tal situação suscita o retorno à indagação sobre a própria natureza
do fenômeno projetual na arquitetura que, por razões óbvias, deve ser
a preocupação com a temática do ensino do projeto arquitetônico. A instauração
da A
persistência da tradição Não
obstante, a “polêmica antítese” não de realizou por completo. A Aludir
à sede da Bauhaus implicar fazer referência a Walter Gropius, que, Citemos
uma comprovação emblemática: Le Corbusier, paladino
por excelência da repulsa à tradição acadêmica (“a arquitetura não tem
nada a ver com estilos!”), também não propôs um novo e autêntico paradigma
projetual. Se pudéssemos utilizar uma analogia, comparando a elaboração
do projeto arquitetônico a uma operação fabril, diríamos que, das três
entidades que o constituem – os insumos, as ferramentas com seu processo
e o produto –, somente os insumos e o produto foram contemplados com a
revisão que conduziu à substituição. No caso de Le
Corbusier, havia a convicção de que, na arquitetura da vanguarda, os insumos
seriam outros: não mais o palácio, mas a habitação do homem comum, seria
o programa mais importante; e o produto também seria outro, pois seria
submetido a novas especificações, como aquelas manifestas na doutrina
dos cinco pontos, por exemplo. A idéia da produção em série da arquitetura, precioso fetiche
da doutrina modernista, igualmente implicaria um novo “caderno de encargos”
e uma substancial revisão do paradigma projetual; mas esta produção em
série, na realidade, nunca atingiu um estágio realmente significativo. Velhos
e novos paradigmas Pode-se
conjeturar sobre a desnecessidade da instauração de um paradigma projetual
específico da vanguarda arquitetônica, desde que a assim chamada “sintaxe”
possa ser operada com aquilo que Zevi chamou de antiléxico; na realidade,
de sobejo há evidências de que a coisa funciona assim. A idéia de que
a casa, por exemplo, além de ser fabricada em série, deveria ser uma máquina de morar, sugeria que o processo
criativo deveria ser diferente daquele preconizado pela concepção acadêmica,
ficando mais próximo da engenharia mecânica ou do chamado industrial design do que da composição pictórica; mas os arquitetos,
inclusive os neófitos da vanguarda, não levaram muito a sério esta história
de máquina de morar – no que estavam certos. Por outro
lado, para muitos é irrelevante a questão da imprecisão terminológica,
interessando mais o conteúdo que a designação. Exemplo
disto é a indiferença em relação à infeliz denominação planejamento arquitetônico,
instituída pelo Currículo Mínimo dos Cursos de Arquitetura e Urbanismo
de 1969. No rigor terminológico, planejamento e projeto são procedimentos
diferentes: planejam-se ações,
projetam-se objetos. Indiferentes à ambigüidade de
nomenclatura e à confusão que poderia suscitar, os docentes dos cursos
de arquitetura, responsavelmente, tratavam do projeto arquitetônico em
si mesmo, como encarado e definido no âmbito da cultura do ofício. Convivemos
muito tempo não apenas com a imprecisão terminológica, mas com a imprecisão
conceitual, ou seja, com a indefinição sobre a essência do fenômeno projetual
da arquitetura. Se, no campo de exercício da profissão, tal imprecisão
terminológica e conceitual não traz nenhum problema, no quadro do ensino
da arquitetura tal situação é desconfortável. Se a projetação
arquitetônica é, de fato, uma disciplina, deve comportar, necessariamente,
uma caracterização epistemológica, implicando nitidez de conteúdo, clareza
de delimitação e um encaminhamento pedagógico; no entanto, quando
e onde o ensino do projeto arquitetônico pretende ser uma limitada e reducionista
simulação do escritório ideal-típico, o empirismo
normativo é suficiente para dissolver as dúvidas mais freqüentes.
O que chamo de empirismo normativo? A utilização didática, nem sempre
sistematizada, de fragmentos isolados da experiência concreta do profissional
para orientar a tomada de decisões do educando: “No projeto da residência
de Fulano de Tal, fiz isto e fiz aquilo, e deu certo; sugiro que faças
o mesmo”. Ou seja, as especificações aplicáveis ao produto determinam
que aspectos do processo devem ser valorizados ou descartados para um
plano secundário. O
empirismo normativo como modelo didático Sem
embargo, o empirismo normativo, mesmo quando destituído de sistematização,
não é uma abordagem desprezível, pois, em se tratando da formação profissional,
não faria o menor sentido negligenciar o que se passa no domínio do ofício.
Se o meio acadêmico se colocar numa atitude soberba e não levar em consideração
a realidade da profissão, estará se alienando, e não poderá ser levado
a sério. Naturalmente, uma visão puramente acadêmica da arquitetura poderá
conduzir a uma concepção platônica do projeto arquitetônico, com um alto
poder de sedução; mas, na esfera da prática do ofício, a concepção platônica
se desfaz, diante de uma realidade insensível, composta
de códigos de obras, empreiteiros, fornecedores etc, e, naturalmente,
usuários de verdade, com idiossincrasias também verdadeiras. Não cabe
abstrair tais elementos do cenário onde se desenvolve a criação arquitetônica.
É por isto que podemos afirmar que o empirismo normativo constitui uma
indispensável matéria prima com a qual se pode erigir consistentemente
uma teoria da projetação arquitetônica. Até
mesmo porque, na dimensão teleológica do ofício, o que realmente interessa
é a excelência da obra (o produto), não do processo em si; se a obra tem qualidade, é indiferente
se resultou de um processo rigoroso de dedução ou de um ato de revelação
divina. Este, é, por sinal, um paradoxo a ser
encarado na etapa de avaliação do trabalho acadêmico, pois os docentes
envolvidos sempre divergirão quanto ao que deve ser considerado relevante,
se o processo ou se o resultado. Contudo,
por mais virtudes que apresente, o empirismo normativo é insuficiente
para proporcionar toda bagagem cognitiva requerida por uma formação profissional
verdadeiramente universal e ambiciosa na arquitetura. Esta formação universal
e ambiciosa aspira contemplar inúmeros aspectos do fenômeno arquitetônico
e caracterizar um repertório que exceda os limites da aplicação de receitas
ad hoc,
para fazer jus ao nome de erudição. É aí que se abre espaço para a compreensão
de que o ensino do projeto arquitetônico não se realiza apenas no ambiente
do ateliê, mas no ambiente mais amplo de todas as demais disciplinas que
constituem o plano de ensino dos cursos de arquitetura. De qualquer forma,
no final da década de 1960 foram difundidos alguns
estudos tendentes a instituir alternativas para a mistura híbrida da doutrina
da École des Beaux Arts com o empirismo normativo,
através de esforços no sentido da metodização do projeto arquitetônico
e do emprego de mecanismos algorítmicos para a criação arquitetônica.
Estes estudos desfrutaram efêmera popularidade, foram examinados por um
par de anos no início da década de 1970 e, a seguir, a despeito da pressão
oriunda da esperança que os computadores eletrônicos possam auxiliar a
projetar, foram esquecidos. Ascensão
e declínio do modelo algorítmico É
O
hibridismo doutrinário no ensino do projeto arquitetônico Há
A
acima citada Conclusão:
a projetualidade como pauta para investigação Poderíamos
conceituar a projetualidade como o resultado da posse da bagagem cognitiva,
tão ampla e diversificada quanto possível, e da atitude que
tornam possível a criação arquitetônica. A projetualidade é o potencial,
o projeto é a ação específica.
Talvez seja mais esclarecedor utilizar uma analogia: aludindo ao esquema
empregado por Ferdinand Saussure, na sua lingüística, diríamos que a projetualidade
está para a língua assim como
o projeto está para a fala.
Os docentes das disciplinas que se ocupam da Teoria da Excelência Arquitetônica
estão tão comprometidos com a projetualidade quanto os que se versam a
Teoria da Produção Arquitetônica. Assim
sendo, chamamos de projetualidade
ao “cimento” |
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