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  outubro de 20050
     
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  A regra do modelo. Casa Milhundos em Portugal (1)
Rui Barreiros Duarte
 

 
         
     

Rui Barreiros Duarte, arquiteto diplomado pela ESBAL em 1973, é doutor em arquitetura pela FA/UTL em 1993, onde é Professor Associado. Tem projetos e obras de arquitetura publicados em livros, revistas, jornais e guias de arquitetura. Desde 2001 é editor da Revista “Arquitetura e Vida”. Sócio-Gerente de RBD.APP – Arquitetos

 
       
 

O tipo de relações que a Arquitetura estabelece com o lugar pode decorrer de vários propósitos e aproximações de diverso tipo, mas que têm sempre em vista a valorização dos sítios, dando-les um significado cultural.

A Casa Milhundos, projeto do arquiteto Francisco Portugal e Gomes, propõe uma integração no lugar partindo de uma matriz racional que enquadra um objeto simples e autônomo, uma “arquitetura como lógica formal abstrata” que depura tudo o não pertence à regra estabelecida. É um exercício de afirmação explicita de um propósito racional, ordenador do espaço e da forma que se pretende seguro e coerente em si mesmo, transmitindo a imagem de uma ambivalente unidade. Pode estabelecer-se uma analogia ao nível do princípio compositivo como o que foi utilizado por Tadao Ando na Casa Koshino em Ashiya, Hyogo (1979-81), organizada também a partir de dois paralelepípedos paralelos a partir de uma matriz ordenadora, embora o desenvolvimento da casa e relação com o terreno tenha propósitos estruturalmente diferentes.

A clareza desta intervenção icônica é feita de um modo pragmático e não deixa margem para dúvidas, pois evidencia que a sua estrutura quer as formas simples que são indexadas a si mesmas. Podendo haver arquiteturas atópicas, há as que aprofundam a relação que estabelecem com o lugar, conjugando-se com ele pelo sistema de relações que estabelecem, ou definindo geometrias que estruturam os critérios da intervenção.

A casa configura um modelo constituído por dois paralelepípedos paralelos entre si e ao mesmo tempo defasados horizontal e verticalmente, estabelecendo um princípio de diferenciação, mas construindo relações geométricas estruturais que explicitam a lógica que determinou a sua implantação. Cria-se, deste modo, uma composição com uma coerência geométrica e de posicionamento que se explicita também nas articulações que estabelece com os edifícios adjacentes e que determinaram o seu posicionamento.

Os dois volumes articulam-se entre si através de um espaço distribuidor revestido com réguas em madeira envolvendo a entrada e a zona de átrio que é sacralizada por uma iluminação zenital, cuja escala não interfere com a massa dos dois paralelepípedos laterais. através deste espaço que se faz a aproximação à casa e se localiza a entrada, constituindo parte de um percurso seqüencial que deste modo se desenvolve parcialmente entre muros.

Os dois volumes paralelepipédicos aprofundam os fatores de diferenciação estabelecidos entre si, através do seu dimensionamento e cor que jogam qualidades opostas – branco e negro –, correspondendo à utilização de materiais diferentes como o reboco e a pedra.

Decorrente destes dois princípios, cria-se também uma relação de figura – fundo entre os dois volumes puros colocados rigorosamente sobre o matricial de implantação. A abertura feita no paralelepípedo de pedra sugere um interior pela luz e pelos materiais utilizados, contrapondo-se ao exterior, sendo bem expresso pela forma de fechar a caixa.

O espaço entre os dois volumes constitui em vazio significante com idêntica importância à dos volumes envolventes com o seu paralelismo heterogêneo, pelo seu dimensionamento e materialidade, afirmando uma identidade cultural diversa da envolvente.

A composição parte de um princípio matricial que introduz a regra e a medida, perseguidas sem concessões na organização dos espaços interiores, na forma como é feita a pormenorização e pelas qualidades dos materiais. A utilização da madeira não propõe ambientes acolhedores, como cria um contraponto aos espaços brancos, refletindo a luz.

É essencial assinalar que neste processo não se introduz nenhuma resolução forçada ou mal dimensionada que tente justificar o princípio organizativo, pois a síntese que estabelece torna evidente a lógica conceptual que é aprofundada pela estereotomia das paredes de pedra, sem se impor obsessivamente como regra, ela apenas se anuncia como princípio ordenador com o objetivo de criar legibilidade e coerência e estabelecer uma lógica clara e apropriada, criando um sentido de disciplina perante o caos ou o gratuito.

A contenção do desenho na concepção, explorando irredutivelmente a regra que a sustenta, traduz a afirmação de uma disciplina sem concessões casuísticas ou subterfúgios, revelando um processo de síntese que se torna evidente pela justeza da resolução do conjunto, numa dimensão que integra o lote e as relações com os edifícios adjacentes.

Poder-se-á sempre estabelecer um percurso crítico perante o questionamento dos princípios de composição da arquitetura e as suas virtualidades. No entanto com a contextualização deste projeto, saber gerir os silêncios e a matéria é ser tão eloqüente como usar sábias palavras.

Notas

1
Artigo originalmente publicado na revista Arquitectura e Vida, Lisboa, n.º 58, Março de 2005, p. 46-51

 


Casa Milhundos, 1996-2002. Croquis de Francisco Portugal e Gomes


Casa Milhundos, implantação


Casa Milhundos, elevação poente, vista geral. Foto Luís Oliveira Santos


Casa Milhundos, vista nascente pormenor. Foto Luís Ferreira Alves


Casa Milhundos, elevação sul, vista geral. Foto de Luís Oliveira Santos

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