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edifício do Ministério da Educação e Saúde (1936-1945): museu “vivo” da
arte moderna brasileira (1) Roberto Segre, José Barki, José Kós, Naylor Vilas Boas |
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Roberto Segre, arquiteto e crítico de arquitetura, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro José Kós, arquiteto (FAU/UFRJ), mestre (Tulane University, New Orleans) e PhD pela University of Strathclyde (Glasgow). Professor da FAU/UFRJ e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (PROURB/FAU/UFRJ). Presidente da Sociedade Ibero-Americana de Gráfica Digital – SIGraDi (2000-2003). José Barki, arquiteto (FAU/UFRJ), doutor (PROURB), professor da FAU/UFRJ e do PROURB. Chefe do Departamento de Análise e Representação da Forma e Vice-Diretor da FAU-UFRJ (2006-2008) Naylor
Vilas Boas, arquiteto, mestre (PROARQ/FAU-UFRJ). professor da FAU/UFRJ,
doutorando com pesquisa em História Urbana do Rio de Janeiro |
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O edifício do MES como síntese das ‘artes maiores’: clássicos e modernos A partir da difusão do edifício do MES na década de quarenta (2) até aos ensaios mais recentes (3), não foi dada a real importância ao vínculo entre a arquitetura e as artes plásticas na sede do Ministério. Predominou a interpretação dos “cinco pontos” de Le Corbusier, a liberdade compositiva do conjunto e sua adequação ao clima tropical (4). Provavelmente, esta abordagem ‘purista’ tem origem no radicalismo do Movimento Moderno europeu, que condenava as contaminações ‘artísticas’ herdadas da Beaux-Arts, privilegiando os componentes técnicos e funcionais, determinados por seu conteúdo social. Os arquitetos desta tendência criticaram o suposto esteticismo ‘burguês’ de Le Corbusier (5). Max Bill talvez tenha sido a principal voz, ao questionar os componentes decorativos do MES em sua visita nos anos cinqüenta (6). Defendia uma visão antagônica ao da vanguarda carioca e da orientação política e cultural do Governo Vargas (7). A integração entre a arquitetura, pintura e escultura foi uma constante desde a Antiguidade, compondo a trilogia das Artes Maiores. Enquanto Vitrúvio difundia os aspectos científicos da arquitetura — que dividia em Construção, Forma e Função (8) —, definia as ordens gregas como atributos básicos para alcançar a a beleza, sem postular sobre as belas artes. Entretanto, não existiam templos, basílicas ou teatros sem a presença de pinturas e esculturas incorporados ao ‘sistema estético’ do edifício. No Renascimento, enquanto Leon Battista Alberti, em seus tratados — De Re Aedificatoria Libri Decem, De Pictura, De Statua (9) —, estabelecia a especificidade de cada uma, nos seus estudos teóricos, Leonardo da Vinci privilegiaria os aspectos técnicos sobre os estéticos. Entretanto, tanto Rafael como Michelangelo nunca separaram as três manifestações artísticas, como demonstrou este último na Biblioteca Laurenziana em Florença. Esta integração foi a base do ensino acadêmico de arquitetura a partir do século XVIII, sendo inclusive aceito pelos antiacadêmicos, como afirmou John Ruskin: “aquele que não for um grande escultor e um grande pintor não pode ser um arquiteto” (10). No século XIX, ocorre uma perda de autenticidade criadora; assim, um questionamento do vínculo entre a arquitetura e as artes plásticas emerge. Se as catedrais góticas, São Pedro ou Versalhes representaram o nível artístico mais alto obtido em seu momento, a cópia de ‘estilos’ do passado e, até mesmo, a repetição de temas acadêmicos se contrapunham tanto às possibilidades das novas técnicas construtivas quanto às experimentações artísticas na segunda metade do século. Crise que se prolongou até meados do século XX, ilustrada no academicismo do Palácio das Nações em Genebra (1927) — projetado por Nénot, Broggi, Vago e Lefebvre em estilo ecléctico com a decoração do salão do conselho feita por José María Sert (pai de José Luis Sert) com monumentais figuras realistas (11) — e na obstinada aplicação do ensino Beaux-Arts (12). Neste contexto, uma exceção se revela na integração entre arte e técnica, desenvolvida por Louis Sullivan em Chicago e por Antônio Gaudí em Barcelona, ambos mantendo-se nos cânones de uma tradição historicista. A renovação nas artes no início do século XX provocaram o surgimento da abstração na pintura e na escultura. Essa renovação superaria a antítese entre uma arquitetura definida pelos componentes técnico-construtivos distante de estilos clássicos e o realismo figurativo das manifestações artísticas. Assim, recupera-se uma integração entre as “Artes Maiores”: Boccioni assumia a tectônica como essência da escultura futurista; J.J.P. Oud (1921), ao referir-se a arquitetura moderna, imaginou a integração orgânica das artes; assim como fez Walter Gropius (1935), ao enunciar os objetivos da Bauhaus: “Nossa última meta era a obra de arte completa, mas indivisível, o grande edifício, em que a velha linha divisória entre elementos monumentais e decorativos havia desaparecido para sempre” (13). Teses que foram desenvolvidas pelos construtivistas russos, Perret, Wright e Le Corbusier, os quais, em algumas de suas obras, integraram as artes plásticas como sistema de comunicação estética e ideológica. No século XIX, a mensagem ideológica passou ao estado nacional, cujo fortalecimento se baseou no nacionalismo dos países que competiam pelo domínio político e econômico mundial. Reapareceram então as pinturas bélicas nos salões dos edifícios públicos e as esculturas de próceres nas praças (14). Com o desenvolvimento e o crescimento da população no início do século XX, se fez necessário associar à arquitetura a expressão dos regimes políticos, e o significado cultural e social dos avanços tecnológicos. A metrópole configurou o cenário, tanto da glorificação política — de esquerda, como as revoluções mexicana e russa; de direita, os regimes fascista e nazista —, como do mito da indústria associado ao progresso, tema hegemônico nas exposições universais — a mais significativa, em busca da integração das artes, foi a de Paris em 1925 —, e nos finais dos anos vinte, nos vestíbulos dos arranha-céus nova-iorquinos. Não foi por acaso que Raymond Hood, projetista do Rockefeller Center, viajasse para a Europa em 1932 para convidar os artistas da vanguarda para decorar os espaços do conjunto arquitectónico (15); e o ministro Gustavo Capanema justificasse para o presidente Vargas a presença necessária das artes no edifício do MES (16). Os arquitetos cariocas formados na Escola Nacional de Belas Artes mantiveram vínculos com os artistas plásticos, tanto os tradicionalistas como os que participaram na renovação estética a partir das mudanças feitas por Lúcio Costa na direção da ENBA em 1930. Antes que a reação acadêmica lhe impusesse a renúncia, organizou em 1931 a XXXVIII Exposição Geral de Belas Artes, também denominada Salão Revolucionário — pela primeira vez sem prêmios nem jurados —, cuja transcendência foi similar à Semana de 22 de São Paulo (17). Ali se obteve a ansiada integração das artes, ao abrir a exposição às correntes da vanguarda local, assim como aos jovens arquitetos identificados com o Movimento Moderno (18). Esta interação resultou no Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, criada em 1935 por Anísio Teixeira, Secretário de Educação do Município do Rio de Janeiro, com apoio do prefeito Pedro Ernesto: ali ensinavam Lúcio Costa, Carlos Leão, Celso Kelly, Mario de Andrade, Cândido Portinari, Celso Antônio, Alberto da Veiga Guignard, Gilberto Freyre, Heitor Villa-Lobos, entre outros (19). A inserção das artes plásticas no MES esteve relacionada com a participação de alguns membros da equipe na dinâmica artística carioca. Lucio Costa nunca deixou de desenhar as paisagens relacionadas com suas obras e em viagens de estudos. Oscar Niemeyer manteve uma constante produção literária, gráfica, escultórica e de desenho de mobiliário (20). Carlos Leão foi o mais próximo das atividades artísticas, concentrando no final de sua vida a dedicação à pintura e ao desenho (21). Outros arquitetos alcançaram certo prestígio através de suas obras artísticas: Alcides da Rocha Miranda, Géza Héller e Eugênio de Proença Sigaud. Vínculo que perdurou nos anos quarenta, ao reprimir-se na ENBA as manifestações vanguardistas. Os estudantes montaram em 1942 e 1943 a Exposição dos Dissidentes no recém inaugurado edifício da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), apoiados pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e alguns de seus membros: Maurício Roberto, Francisco Bolonha, Eduardo Corona, Alcides da Rocha Miranda, Oscar Niemeyer e Firmino Saldanha. Como afirmou Lúcio Costa, o ambiente intelectual e político identificado com a vanguarda cultural era propenso à idéia da integração das artes, cuja expressão madura culminou na sede do MES. Discurso artístico e discurso ideológico A sede do MES expressa um paradoxo: representação formal e espacial de um sistema de valores democrático, foi criado no seio de uma ditadura. Símbolo do Estado Novo, de orientação fascista e anti-semita (22), foi concebido por arquitetos e membros da vanguarda artística sintonizados com a esquerda. Como se explica esta contradição? Seria correto identificar o MES com a ideologia do governo Vargas, ou será mais adequado considerá-lo uma exceção, determinada pessoalmente pelo ministro Gustavo Capanema? Se o sistema educacional brasileiro tinha afinidade com um modelo fascista, porque o edifício estatal — que supostamente deveria celebrar a obediência da autoridade, disciplina e aceitação de uma ideologia —, representava o contrário? As artes plásticas integradas à arquitetura eram autônomas, ou respondiam às imposições ideológicas do sistema? Talvez as contradições políticas, sociais, econômicas e culturais dos anos trinta no mundo, América Latina e Brasil, possam explicar estas incógnitas. A industrialização, o crescimento da população e a participação das massas na vida política dos estados radicalizaram as tensões do sistema capitalista; iniciadas na Primeira Guerra Mundial, acentuadas com a crise de 29 e que culminariam com a Segunda Guerra Mundial. Essas tensões provocaram o surgimento de governos totalitários europeus — Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, Franco na Espanha, Salazar em Portugal — e seu “reflexo” na América Latina. Em 1930, o golpe militar do general Uriburu na Argentina; em Cuba, o regime autoritário de Gerardo Machado; na República Dominicana assume o governo Leônidas Trujillo e no Brasil chega ao poder Getúlio Vargas. Contudo, tanto democracias como ditaduras apelavam para a participação das massas, em particular dos trabalhadores industriais, submetidos a condições de vida precárias desde finais do século XIX. Surge a dicotomia “indivíduo x multidão” (23), e a exaltação da vontade (ou desejo) individual como identificadas na versões antagônicas de Nietzsche e Freud. Este turbilhão de acontecimentos exerceria uma influência nas manifestações artísticas. Assim que a abstração se evidencia, tanto uma nova interpretação da realidade associada às mudanças materiais produzidas pela indústria — cubismo, purismo, neoplasticismo —, quanto a negação do drama social e político — como aquele vivido na Rússia czarista e sintetizada no “quadrado branco sobre fundo branco” de Kasimir Malevich — revelavam um novo nexo com uma realidade objetiva, passando a representar uma das linguagens artísticas predominantes na primeira metade do século XX. De fato, esta leitura da realidade teria dois caminhos divergentes: a persistência dos modelos acadêmicos, estereotipados pela conversão da arte em propaganda política — na Itália, na Alemanha, e no chamado “realismo socialista” imposto na URSS —; e a liberdade expressiva baseada nas transformações estéticas dos movimentos de vanguarda européia: o fauvismo, o expressionismo, o futurismo, o surrealismo, o dadaísmo, entre outros (24). Tendências que foram assimiladas pelos artistas latino-americanos, “antropofagicamente” revisadas — parafraseando Oswald de Andrade (25) — em busca de uma nova interpretação da realidade local. Ainda que na maioria dos países do Hemisfério surgiram nomes de valor, foi no México e no Brasil onde a vanguarda foi reconhecida além de suas fronteiras, ao ser difundida quase que simultaneamente nos Estados Unidos. Podem ser citados, entre outros, os muralistas mexicanos David Alfaro Siqueiros, Diego Rivera e José Clemente Orozco; e os pintores brasileiros Tarsila do Amaral, Emiliano Di Cavalcanti e Cândido Portinari. O que aproximou artistas de regimes políticos tão diferentes? Porque suas manifestações coincidiram? Em primeiro lugar — e isto ocorreu em toda a América Latina —, os temas sociais e a preocupação com as camadas mais pobres da população eram constante. Os países atravessavam uma modernização, onde as contradições eram mais visíveis. Em segundo lugar, ocorre um “redescobrimento” das próprias raízes, da identidade nacional, da herança dos povos indígenas e africanos, particularmente no norte do Brasil. Em terceiro lugar, uma interação entre o cosmopolitismo urbano e os estudos etnológicos, antropológicos e sociológicos, tanto uma abordagem científica — as investigações de Claude Lévi-Strauss, Roger Bastide, Mario de Andrade e Gilberto Freyre —, como na busca de associações artísticas inéditas assumidas de ritos e mitos latino-americanos, impulsionadas pelos surrealistas André Breton e Benjamín Péret (26). Da fusão entre o artista, a exteriorização dos problemas sociais e as investigações sobre a ancestralidade cultural, nasceram linguagens regionais que caracterizaram a arte mexicana e a arte brasileira nos anos trinta (27). Apesar da identidade nas declarações da vanguarda — o “Manifesto Pau-Brasil” de Oswald de Andrade (1924) e “Tres llamamamientos de orientación actual a los pintores y escultores de la nueva generación americana” de David Alfaro Siqueiros (1921) (28) —, as orientações estéticas resultaram diferentes. No México, as pinturas de Siqueiros, Rivera y Orozco, constituíam um grito contra a dominação e a sujeição da população indígena, durante a opressão do Estado; ao mesmo tempo, a esperança na Revolução, inspirada na recém-criada URSS, para um “futuro luminoso”. As mensagens pictóricas foram colocadas em murais situados nos espaços internos dos edifícios públicos, ou no exterior para alcançar a comunicação com o povo. Diego Rivera, no mural para o Rockefeller Center, colocaria Lenin entre os criadores do mundo novo, o que provocou a sua destruição por ordem de Nelson Rockefeller (29). Não era esta a dinâmica existente no Brasil. A “Semana de 22”, apesar de proclamar conteúdos sociais, foi um movimento de elites, como o expressou nos anos quarenta Mário de Andrade (30). Os artistas recebiam apoio da oligarquia cafeeira paulista, detentores do poder na “República Velha”. Com a revolução de 30 de Vargas, os objetivos do governo foram: uma relação direta com o povo — ainda que fosse um abstrato povo em verbo (31) —, a adoção de leis trabalhistas e a modernização estrutural e produtiva (32). Apesar de ter mantido uma aparência democrática, com o golpe e a criação do Estado Novo, converteu-se em uma ditadura que perdurou até 1945. No entanto, Vargas nunca perdeu o apoio dos intelectuais progressistas, inclusive daqueles que seguiam correntes políticas da esquerda. Como se explica esta contradição? Porque Vargas não impôs uma linha de ação que colocasse as artes plásticas a serviço do Estado. De certa maneira, foi permitida uma “livre expressão” sutilmente vigiada, e a coexistência de tendências dissimiles, tanto as acadêmicas como as da vanguarda. A ideologia se difundiu mais pelo rádio, pela música e pelo esporte — a organização dos “cantos orfeônicos” por Heitor Villa-Lobos — do que através de imagens figurativas no espaço urbano. Na escala urbana, como afirmou Mario Pedrosa (33), a arquitetura teve um papel mais importante do que a de suporte para murais de propaganda. De qualquer forma, a atitude de Vargas em relação à cultura foi ambígua e sua ideologia, pragmática. Assim, reprimiu os partidos de esquerda e os de direita quando o opuseram (34). Coexistiram ministros artisticamente “incultos”, que apoiaram a construção de sedes acadêmicas — Artur de Souza Costa, ministro da Fazenda; Salgado Filho, ministro do Trabalho; Eurico Gaspar Dutra, ministro de Guerra —, com a figura de Gustavo Capanema, Ministro de Educação e Saúde (35), que deu respaldo à artistas renovadores, que buscavam uma linguagem para um novo Brasil. Foi comparado ao mexicano José Vasconcelos, promotor do movimento pictórico muralista e pela resistência ao academicismo, apoiando no seu país a expressão através do neocolonial, associada com as próprias tradições culturais (36). Entre a República Velha e a Revolução de 30 não existiu um corte na vida artística carioca. Desde 1925, ano da publicação no Correio da Manhã do texto de Gregory Warchavchik sobre a arquitetura moderna, se sucederam as visitas e as exposições de artistas internacionais e locais. Em 1926, o escritor Graça Aranha apresentou Tommaso Marinetti, líder futurista italiano. Ao mesmo tempo, o Palace Hotel (37), na Avenida Rio Branco, abrigava a vida artística do Rio de Janeiro: ali se celebraram as exposições de Lasar Segall, Tarsila de Amaral, Ismael Nery e do jovem Cândido Portinari. Ainda assim, chegou da Alemanha objetos de Deutsche Werkbund (1929), e de Paris a Grande Exposition d´Art Moderne (1930), com obras de 55 artistas, entre eles, Braque, Dufy, Léger, Picasso, Miró, Wlamink, Lhote, Foujita. Pouco depois, no entanto, o IV Congresso Pan-americano de Arquitetos, organizada por José Mariano Filho, marcou a reação “neocolonial”, marginalizando as apresentações de Warchavchik e Flávio de Carvalho, nomes da vanguarda arquitetônica. A sístole e a diástole entre academia e vanguarda perdurou na década de trinta. O Salão Revolucionário (1931) consolidou a imagem dos modernistas, mas nesse mesmo ano os conservadores voltaram ao poder na ENBA, encabeçados por Arquimedes Memória — que seria posto à margem no concurso para a sede do MES em 1935, apesar do primeiro prêmio. A presença de Frank Lloyd Wright no Rio de Janeiro, membro do júri no Concurso para o Farol de Colombo em Santo Domingo, República Dominicana, permitiu que profissionais e estudantes pudessem entrar em contato com o Mestre e, ao mesmo tempo, conhecer os projetos que seriam julgados, alguns pertencentes ao movimento construtivista russo, sobressaindo-se o de Konstantin Melnikov (38). Também teve eco local pela presença dos jovens arquitetos modernistas, o Salão de Arquitetura Tropical (1933). Além disso, a criação do Núcleo Bernardelli (1931) agrupou uma vanguarda ‘moderada’ — José Pancetti, Milton Dacosta, Ítalo Campofiorito, Eugenio de Proença Sigaud, Edson Mota e outros — oposta ao academicismo e preocupada com temas de conteúdo social, motivada pela origem humilde de seus membros (39). Apesar do anticomunismo de Vargas, tímidas manifestações artísticas da esquerda continuariam presentes: em 1935 surge a revista Movimento, publicada pelo Clube de Cultura Moderna, que difundia as experiências soviéticas e os textos dos críticos de esquerda como Aníbal Machado e Mario Pedrosa. De fato, havia uma certa ambigüidade, na qual a pressão do governo Roosevelt para afastar Vargas da sua afinidade com os nazi-fascistas teve um papel importante. Em 1941, o presidente enviou suas felicitações a Hitler pelo seu aniversário; no entanto, em 1942, o Brasil declarou guerra aos países do Eixo. A política do boa vizinhança de Roosevelt — que criou o Public Works Art Program (PWAP) — influiu na arte e na arquitetura modernas brasileiras através do Museum of Modern Art (MOMA) de Nova York, cujo mentor Nelson Rockefeller, também diretor do Office of the Coordinator of Inter-American Affairs, participava das relações culturais com a América Latina (40). Não é por acaso que fosse de Portinari a primeira exposição individual de um artista sul-americano organizada em Nova York, em 1940 (41). Uma monumentalidade diluída: Esculturas Alegóricas Desde a Antigüidade, os edifícios públicos foram marcados pela escultura monumental. Imperadores, reis e tiranos aspiraram a memória eterna, não somente pelas edificações, mas também pelas suas efigies em bronze ou mármore. Ainda que os governos autoritários do século XX fossem propensos a multiplicação de estátuas, o surgimento da arte abstrata pôs em crise o realismo. Os monumentos de Walter Gropius aos mortos na Primeira Guerra Mundial (1920); de Mies van der Rohe aos dirigentes comunistas alemães Karl Liebnecht e Rosa Luxemburgo (1926); e a tumba de Lenin em Moscou de J. Schussev (1930) careciam de uma representação figurativa. No entanto, Mies van der Rohe colocou a escultura feminina de George Kolbe no ascético Pavilhão de Barcelona (1929); Le Corbusier, reproduziu imagens da Basílica de São Marcos na fachada do projeto do Palácio das Nações em Genebra (1927) (42), e utilizou uma imagem realista no projeto do monumento ao dirigente comunista francês Vaillant-Couturier em Paris (1937). No Brasil, apesar da difusão das obras de Brancusi, Boccioni, Archipenko, Pevsner, Zadkine, Arp, Calder, Laurens, havia de se esperar o fim da Segunda Guerra Mundial — Victor Brecheret foi uma exceção nos anos vinte — para que a imagem abstrata predomine, já que persistia a influência dos mestres franceses: Rodin, Maillol, Despiau e Bourdelle. Serão posteriores as composições surrealistas de Maria Martins e as geometrias de Bruno Giorgi em Brasília. A proposta de Capanema de colocar na frente do MES uma gigantesca estátua do “Homem brasileiro”, que o identificasse como “Ministério do Homem” (43), não surpreendeu. Sua significação fez com que fosse, dentro das obras artísticas previstas para o MES, a que o Ministro outorgaria especial atenção. A idéia da estátua surgiria com Le Corbusier, que no projeto para a praia de Santa Luzia (1936) havia colocado o colosso de onze metros de altura sentado na esplanada sobre a baia. O Mestre admirava Celso Antônio, cujos volumes arredondados nas figuras femininas coincidiam com os desenhos e pinturas elaborados naqueles anos pelo arquiteto francês (44), alegrando-se com a contratação do escultor para a realização do “Homem brasileiro” (45). Porque uma estátua monumental figurativa no projeto? Porque um gigante sentado? Em termos compositivos, a figura atuava como um elemento de afirmação do sítio, referência visual da praça seca e contraposição vertical aos planos horizontais das fachadas, articulando a precisão matemática da arquitetura com a exatidão geométrica de sua posição no espaço (46). Além do mais, no Castelo, constituía um “eixo de rotação” que distanciava o MES dos edifícios maciços dos ministérios do Trabalho e Fazenda. Em termos figurativos, a referência ao Egito se deve ao interesse na cultura européia dos anos trinta pelas civilizações africanas primitivas, em parte impulsionada pela Exposição Déco de 1925. Assim mesmo, o homem sentado seria uma metáfora da verdade (47) associada ao “Pensador” de Rodin, na qual o homem do futuro não seria o atleta musculoso de físico impecável que corria para um futuro promissor — presente nas imagens publicitárias das academias norte-americanas Pitman, nos jovens balillas na Itália fascista ou da “juventude comunista” na URSS —, e sim a imagem “difícil” e “feia” do homem comum, meditando sobre seu destino incerto e insondável (48). A significação da estátua presente nos projetos de Le Corbusier não persistiu nas sucessivas soluções da equipe brasileira. Na primeira — a “Múmia” —, aparecem duas esculturas: a primeira, de uma figura masculina de pé, colocada no reduzido espaço do court d´honneur da entrada principal; e na segunda, a figura aparece na parede curva do teatro, sem que se desse maior relevância nas perspectivas. Uma vez elaborada a solução final, com a intervenção de Oscar Niemeyer, a escultura nunca ficou posicionada diante da entrada principal — conforme a sugestão de Capanema —, e sim deslocada em diversas posições na parte posterior do MES, orientada para a rua Pedro Lessa, via que desapareceria junto com a escultura. Também foram esquecidas as relações matemáticas entre a escultura e edifício, estudadas por Le Corbusier. Porque o entusiasmo do ministro para colocar um colossal homem brasileiro às portas do MES — parafraseando a Marshall Berman — se “volatilizou” em pouco mais de um ano? Cabe supor que o modelo do titã egípcio sentado estivesse relacionado com o “super-homem” de Nietzsche, autor também admirado por Vargas (49), mas que sua associação com o nazismo figurasse um atrativo fugaz. Por outro lado talvez se possa reconhecer as teorias racistas que os alemães desenvolveram — a partir das idéias do criminólogo italiano Cesare Lombroso —, na busca de “tipo” humano brasileiro. Capanema consultou o historiador e sociólogo Oliveira Viana e o médico Rocha Vaz para definir quais as características da escultura, representativas do “homem novo”, que se desejava formar. Tarefa difícil num país multirracial, em que rostos dissimiles dificultavam a unificação do “caboclo” de Amazonas com o “sertanejo” do Nordeste, o “jeca” de São Paulo e Minas Gerais, o “peão” do Mato Grosso e o “vaqueiro” do Rio Grande do Sul. De fato, a mestiçagem foi defendida tanto por Gilberto Freyre como por Lúcio Costa, na definição da própria herança: “assumir e respeitar o nosso lastro original, luso-afro-nativo” (50). Se somou ao fracasso dessas investigações o aspecto pouco atrativo do modelo de Celso Antônio (51), que desagradou ao Ministro. Este nomeou uma comissão para julgar a obra, fato que o escultor se opôs, dando início a um conflito com as autoridades. Em 1938 (52) foi convocado um concurso para uma nova proposta. Desconfiado dos resultados, Capanema fez contatos com os escultores Victor Brecheret — que além de não se interessar estava empenhado na execução do “Monumento às Bandeiras” em São Paulo (1936) — e Ernesto de Fiori, autor de uma proposta de escasso valor plástico. Intenções frustradas que acabaram com a aspiração de eternizar a imagem do “Homem Brasileiro”. É de se supor que os intelectuais relacionados com Capanema — Carlos Drummond de Andrade, Mario de Andrade, Roquete Pinto, Manuel Bandeira, Rodrigo Melo Franco de Andrade —, não apoiassem uma representação racista, em um período em que o tema servia como justificativa para a eliminação das “raças inferiores” pela Alemanha. Posição que era compartilhada pelo movimento “integralista” de extrema direita, respaldado pelas teorias autoritárias e racistas de Alberto Torres, Oliveira Viana, Azevedo Amaral e Plínio Salgado. Com a interrupção deste projeto, a imagem escultórica foi posteriormente associada ao tema da juventude (53). Apesar das críticas que Capanema receberia da imprensa local por conta da duração do processo construtivo, a discussão em torno da presença das obras de arte no ministério teve como resultado positivo o fato de que o tempo para sua inauguração pudesse ser dilatado. Em primeiro lugar, a situação do mundo em 1942 — data em que começaram a se concretizar as esculturas — não era a mesma que em 1937 — ano em que o edifício poderia ter sido inaugurado junto com os outros ministérios —, já que, com a entrada dos Estados Unidos no conflito mundial, a guerra estava previsivelmente perdida para o Eixo. Segundo, porque surgiram novas concepções estéticas — nessa época Niemeyer já estava construindo em Pampulha (1940), dando início às suas formas curvilíneas —, e uma maior liberdade, por parte do Ministro, na definição dos componentes artísticos que integrariam a sede do MES. Cabe assinalar que nunca foram solicitadas imagens publicitárias do regime ou temas com referências políticas no exterior e nas áreas públicas de trânsito e grande afluência. Princípio evidenciado no caráter modesto e realista — sem exaltação nem mistificação —, do pequeno busto de Vargas, que Celso Antônio esculpiu em 1945, colocado no vestíbulo principal de acesso. O low profile acabou também sendo determinada pelo seu posicionamento: na frente da parede curva de vidro estrutural, cujo clarão impede uma visão nítida da escultura. Nos regimes ‘fortes’, de esquerda e de direita, a juventude constituía um dos pilares do sistema. Isto Vargas já havia asseverado ao declarar: “É na juventude que deposito a minha esperança; é para ela que apelo” (54). Com o Estado Novo, a educação se vinculou com a segurança nacional para garantir uma formação a partir da disciplina, hierarquia, cooperação, solidariedade, valentia e perfeição física (55). Para isto, foi proposta a criação de um organismo paramilitar — a Organização Nacional da Juventude — sob os auspícios do Ministro da Justiça Francisco Campos. Afortunadamente, Capanema e Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra, se opuseram e as atividades se limitaram à participação desportiva nas escolas e ao culto da Pátria (56). Em 1942, quando se convocou o concurso para a escultura da “Juventude Brasileira”, os critérios de valorização não eram os de 1937, data em que talvez se considerasse as imagens de jovens entusiastas, presentes tanto nas pinturas de Picasso como na representação dos trabalhadores “kolkojianos” de Vera Muchina do pavilhão da URSS na Exposição de Paris de 1937 (57). Ao concurso se apresentaram Augusto Zanoiski, Adriana Janacópulos e Bruno Giorgi, escultor brasileiro que estudou na França e na Itália, de onde fora expulso em 1935 por atividades contra o regime de Mussolini. Enquanto os outros modelos possuíam uma dureza conforme o “realismo socialista”, a imagem dos dois jovens criada por Giorgi configurava uma volumetria fluída, etérea e transparente, com uma expressão de felicidade e alegria — parafraseando Mário de Andrade —, totalmente alheia à escala monumental. Ao mesmo tempo, perpetuando o caminhar em direção ao MES — foi colocada em 1947, na parte posterior ao jardim de Burle Marx, na área da rua Pedro Lessa, que havia sido eliminada para a expansão das áreas verdes — e marcava um andar pausado de um flâneur urbano. Sua saudação não era fascista, mas inspirada no Modulor de Le Corbusier. Escultura que, apesar de figurativa, anunciava o caminho para a abstração. A figura da mulher constituía outro tema manipulado pelos regimes ditatoriais. Sua significação embasava-se na beleza e saúde física do estereótipo que permitisse manter unida a família gestando filhos para preservar a raça branca (58). No entanto, no Rio de Janeiro hedonista, a visão da mulher estava mais próxima das mulatas de Di Cavalcanti e do conceito de sociedade mestiça de Gilberto Freyre e Mario de Andrade. De início, Capanema desejava resgatar uma visão da figura feminina através da imagem da justiça salomônica e solicitou que Portinari pintasse a famosa disputa entre duas mulheres. No entanto, prevaleceu a temática local e popular: além de constituir um tema reiterado da época, o erotismo feminino esteve presente nos desenhos de mulatas nos morros da cidade, reproduzidos nos croquis de Le Corbusier, e nos realizados por Oscar Niemeyer e Carlos Leão, os arquitetos boêmios do MES (59). As esculturas de jovens brasileiras no MES demostrou que a visão de Capanema estava distante de uma concepção propagandística da mulher, preocupando-se essencialmente pelo seu valor artístico. Celso Antônio produziu três estátuas: a Mulher Reclinada, colocada no terraço-jardim do ministro; a Mãe, sobre a escada helicoidal do salão de exposições e Mulher de Cócoras, também chamada de A Índia, situada no escritório do presidente do IPHAN, Rodrigo Melo Franco de Andrade. Configuravam figuras voluptuosas e expressavam uma juventude saudável, associadas aos traços do mestiço povo brasileiro (60). A escultura de uma Jovem de Pé, realizada por Bruno Giorgi, situada no vestíbulo do elevador privado do ministro resultou mais estilizada. Por último, a figura solene — próxima do “realismo socialista” — da Mulher de Adriana Janacópulos, situada no terraço-jardim do ministro, distingue-se das outras pela sua rigidez e obscuridade (61), aproximando-se de uma visão influenciada pela tradição figurativa, que a identificava com as esculturas propostas por Ernesto de Fiori, nunca aprovadas por Lucio Costa e Capanema (62). Um dos objetivos do MES era atingir uma representação de leveza. Os dois volumes principais foram idealizados para parecerem desprovidos de peso ao sustentarem-se sobre pilotis. O único elemento apoiado sobre o solo seria o teatro, revestido de azulejos nas laterais para anular a apreensão da sua forma maciça. Ainda assim, ressalta-se a vedação curva e cega no lado maior tratada como um fino pano de granito. Os arquitetos decidiram colocar uma escultura que atenuasse a dureza dessa superfície. Em 1938, o Ministro sugeriu o tema de uma Vitória, tendo como referência a Vitória de Samotrácia. Para isso, foram convidados os escultores Celso Antônio, Bruno Giorgi e Victor Brecheret, cujas propostas não satisfizeram a Capanema (63). Giorgi elaborou uma gigantesca figura humana acorrentada ao muro, e as alternativas apresentadas por Brecheret, tanto de figuras humanas como de um friso horizontal em alto-relevo, careciam da tensão plástica que era requerida para um elemento dirigido para a dinâmica urbana, em contato com os pedestres que circulavam na rua Araújo Porto Alegre. A definição da escultura foi postergada até 1942. Como surgiu a idéia de convidar Jacques Liptchitz, escultor judeu que emigrou a Nova York depois da invasão da França pelos nazistas? Não seria uma contradição do regime que havia sacrificado Olga Benário em 1936? Na realidade, a balança ideológica havia inclinado a favor dos ideais democráticos dos Estados Unidos. Naquele ano, Roosevelt havia visitado o Brasil. Em 1935, o quadro Café de Portinari havia obtido um prêmio na Carnegie Foundation de Pittsburg. Assim, os vínculos entre as duas nações se estreitaram: Walt Disney e Orson Welles visitaram o Brasil; em 1939, Lucio Costa e Oscar Niemeyer construíram em Nova York o Pavilhão da Feira Mundial e Carmen Miranda começou a atuar ali; em 1940, ocorreu a exibição de Portinari no MOMA; em 1942, Philip Goodwin, enviado pelo MOMA, percorreu o país para reunir o material da exposição sobre a arquitetura brasileira. Ou seja, existiam contatos diretos entre Capanema, Nelson Rockefeller e o diretor do MOMA, Alfred H. Barr, além da colaboração do embaixador Fernando Lobo e sua esposa, a escultora Maria Martins. Por outra, o escultor polonês era um dos mais prestigiados da Escola de Paris (64) e amigo de Le Corbusier, que lhe construiu uma casa em Boulogne sur Seine (1925), e em 1929 o levou a Moscou para colocar duas esculturas no Centrosoyus. Muito provavelmente, o Mestre comentaria sobre sua importância com Costa e Niemeyer (65). Autores divergem sobre quem sugeriu o nome de Lipchitz: Lissovsky e Moraes de Sá citam Lúcio Costa, o próprio Capanema se refere a Niemeyer e Quezado Deccker menciona Goodwin (66). Na realidade, todos coincidiram na escolha, sob a recomendação de Le Corbusier. A substituição do tema da Vitória de Samotrácia pela do Prometeu lutando contra o abutre foi sugestão de Lipchitz. Desde 1929 vinha trabalhando sobre o tema, quiçá antecipando-se a escultura do Prometeu, realizada por Paul Manship colocada na praça do Rockefeller Center (1932) (67) e carente de dramatismo. A tragédia de Ésquilo — Prometeu Acorrentado — foi associada por Lipschitz à angústia pela ascensão do fascismo. Sua primeira versão do Titã estrangulando o abutre foi colocada, na Exposição Universal de Paris de 1937, no Palácio dos Descobrimentos. Em 1938, após seu translado para os Campos Elíseos, foi destruída por fascistas (68). Lipschitz emigrou para os Estados Unidos em 1941, e seguiu trabalhando no tema enviando para Capanema alguns esboços, que aprovou o conteúdo ideológico da imagem do Prometeu vencedor na sua luta com o abutre como uma metáfora (69) do homem “republicano” que derrotaria o fascismo. Não cabe aqui descrever as transformações da escultura, içada ao muro em 1945. Devido a sua complexidade, em 1944 foi enviado um modelo com 1/3 das proporções previstas. Devido à dificuldades técnicas, além da intuição acerca do fim do governo Vargas, Capanema decidiu colocar a figura em bronze com o mesmo tamanho do modelo. Isto causou irritação em Lipchitz, que negou a autoria nas publicações de sua obra. Cabe reconhecer que estava certo: a escultura se perde na amplitude do muro e na escala urbana fica pouco legível. No entanto, é a obra esteticamente mais avançada entre as esculturas no ministério. Nela, a simplicidade das “decomposições” cubistas dos arlequins se transformou em um “paroxismo barroco” (70) expressionista. Prometeu e o abutre estão fundidos com um ritmo que é definido pela variação da luz ao longo do dia. O drama é percebido, não somente pelo escuro do bronze, mas também pela tensão que transcende o acontecimento, exteriorizado pela deformação do corpo do Prometeu no gesto de estrangular o abutre. Uma vez colocada, desencadeou uma polêmica na imprensa, com poucos artigos favoráveis — de Quirino Campofiorito e Agostinho Olavo — e uma multiplicidade contra, definida como “monstro antediluviano”, “urubu”, “pesadelo”, “escultura teratológica”, que motivou um protesto da Sociedade Brasileira de Belas Artes, que questionou a contratação de um artista estrangeiro declarando: “existe uma verdadeira guerra de extermínio contra o artista brasileiro” (71). Realismo e Abstração: as pinturas de Portinari Surpreende verificar a pouca importância dada à unidade nas obras de Portinari no Ministério. Os críticos valorizam os painéis do Ciclo Econômico, o mural sobre as Cenas da Infância; mas marginalizam tanto os painéis do escritório do Ministro como os murais em azulejos no embasamento, referindo-se tangencialmente ao vínculo do artista com a obra arquitetônica (72). Uma visão restrita, já que Portinari, ao colaborar no MES, no Pavilhão do Brasil na Feira de Nova York (1939), na capela de São Francisco de Assis em Pampulha (1940) e no Banco Boa Vista no Rio de Janeiro (1948), desenvolveu uma sensibilidade pela linguagem da arquitetura, e buscava uma integração com sua obra pictórica. Atitude diferente dos muralistas mexicanos, que desenvolveram suas composições independentemente da forma e do espaço que ocupavam, tanto no Palácio de Belas Artes como, posteriormente, na Cidade Universitária UNAM na cidade do México. Constatação que coincide com a afirmação de Mario Pedrosa sobre a distância existente entre os murais de Portinari e aqueles realizados pelos artistas mexicanos (73). Será que cabe reconhecer Portinari como um pintor realista? Será correto afirmar que foi um tradicionalista, cuja obra não constituiu um avanço em relação ao modernismo da “fase heróica” paulista, submetendo-se aos requerimentos da ditadura de Vargas? (74) Será criticável, reconhecendo-se sua posição de esquerda, a realização de exposições e obras nos Estados Unidos? Ainda que trabalhando com pinturas que retratavam personalidades cariocas, sua busca por um equilíbrio entre a tradição clássica e a abstrata deve ser considerado como a sua contribuição mais importante. Cabe assinalar que suas manifestações realistas “orgânicas” — parafraseando Mario Pedrosa — de conteúdo popular nunca foram manipuladas pela demagogia ideológica tanto do “realismo socialista” como da direita. Seus objetivos, ao documentar os trabalhadores, foram mais pictóricos que ideológicos, mais expressivos que interpretativos. Os painéis do Ciclo da Vida Econômica do Brasil, representativo, segundo Mário de Andrade, de uma “funcionalidade nacional” — Cana de açúcar, Tabaco, Algodão, Pau-Brasil, Erva-mate, Borracha, Café, Cacau, Ferro, Gado Bovino, Ouro e Carnaúba —, foram realizados entre 1938 e 1944. Eles configuram um friso no salão de reuniões do ministro, iluminado pela luz natural proveniente da parede de vidro. Cada cena é uma unidade, e o caráter estático das figuras de camponeses e trabalhadores inseridos em um espaço natural, ao mesmo tempo irreal como numa atmosfera cubista, evita a existência de tensões na apreensão do conjunto, que é unificado por um cromatismo sem contrastes agudos ou dissonantes. É importante notar que a temática está relacionada com as raízes do país — fundadas basicamente no trabalho manual agrícola —, mas com uma visão urbana, associada ao desenvolvimento industrial (75). De qualquer modo, teve-se o cuidado de evitar um discurso triunfalista e utópico da tecnologia e da ciência, como era usual tanto no discurso de Diego Rivera como nos murais norte-americanos. Ainda que Capanema solicitasse uma pintura figurativa — o juízo do Rei Salomão — Portinari optou por quatro painéis, representativos dos elementos do Universo: água, fogo, terra e ar (1944-1945), colocados nos escritórios de cargos elevados. Aqui aparece a abstração, prenunciada nos painéis de azulejos: cada um está identificado por figuras curvilíneas — parece evidente o vínculo com Arp, Miró e os mecanismos "automáticos" surrealistas — e por diferentes gamas cromáticas. Um feito do ‘ascetismo’ ideológico de Capanema e sua identificação com o mundo artístico, foi a ausência de pinturas figurativas políticas em seu escritório, respeitando o purismo do edifício. Atitude que Terragni não pôde estabelecer na “Casa del Fascio” em Como: apesar das composições abstratas de Mario Radice, a esfinge do Duce sempre marca presença (76). Finalmente, a mentalidade do ministro e seu desejo de converter o MES em um centro de cultura artística ficou demostrado na intenção de adquirir obras de pintores da vanguarda: Braque, Picasso, Chagall, Miró, Derain, Matisse, Rouault, Léger; e de encarregar a realização de painéis a Masson, Léger y Chagall. Solicitação realizada através de Alfred H. Barr que, pelo custo, não pôde ser concretizada. A influência do Cubismo e de Picasso em Portinari — alguns críticos estabeleceram associações com Guernica (77) — aparecem com força no mural do salão de espera do ministro, dedicado ao tema das “Cenas Infantis” (78). Pelo tamanho e luminosidade do espaço, optou por uma composição fragmentada com as atividades da infância, fundindo realismo e abstração dinamicamente. Por último, no teatro, foram representadas a primeira missa no Brasil, e os jovens participantes dos Cantos Orfeônicos organizados por Villa-Lobos. As figuras que se sobrepõem nos painéis definem uma perspectiva que acompanha as visuais dos espectadores em direção ao tablado central. Em resumo, cada pintura conseguiu uma articulação harmônica com o espaço que a alojava, demostrando a sensibilidade de Portinari pelo contexto circundante. Ornamento não é crime: Murais de Azulejos Se o conjunto de pinturas e esculturas foram episódios isolados, os azulejos do embasamento constituíram a síntese da integração das artes com a arquitetura (79). Sua existência, promovida por Le Corbusier (80), entusiasmado com os painéis da igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro (81) e com a arquitetura carioca neoclássica (82), assume uma significação pelos seguintes fatores: a) estabelecem o nexo com a tradição portuguesa; b) dão leveza aos muros, com independência do sistema arquitetônico do edifício que baseava-se nos volumes puros sobre pilotis; c) estabelecem uma imagem “complexa” para a obra, superando códigos puristas europeus; d) associam o MES à paisagem através dos temas marinhos; e) integram formas sinuosas e livres, relacionando-se com o sistema verde dos canteiros elaborados por Burle Marx. Max Bill, ao não compreender o significado dos azulejos (83), e a crítica de Mario de Andrade aos componentes ‘decorativos’ do MES (84) estão distantes do pensamento dos membros da equipe, em particular Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Se for considerado o processo projetual do MES, os desenhos dos azulejos e os jardins de Burle Marx — as formas de ‘amebas’ elaboradas em 1942 —, pode ser observada a coincidência entre o caminho percorrido por Lúcio Costa em busca da integração dos elementos tradicionais na arquitetura moderna brasileira — experiência comum aos membros da equipe que se integram ao IPHAN em 1937 (85) —, aplicada no Museu das Missões (1937); nas residências — Hungria Machado e Saavedra (1942) —; e que culmina no hotel Parque São Clemente em Friburgo (1944) (86). Niemeyer, desde o projeto da casa de Oswald de Andrade (1936), já utilizava o muro rústico, o teto abobadado e o mural figurativo. A liberação de sua linguagem ocorre em Pampulha (1940), em que aparecem as formas livres curvas e ao mesmo tempo materiais naturais — na fachada da residência de Kubitschek (1942) —, os azulejos e as referências históricas, no projeto do Grande Hotel de Ouro Preto (1940) (87). Ou seja, o “purismo” racionalista europeu foi “regionalizado” pela vanguarda brasileira, cujo ponto de partida foi o MES. É correto afirmar que os azulejos, ao invés de afetar a "pureza" do edifício, o reafirmou, através dos conceitos de "diversidade", "contradição" e "complexidade" (88). Seu valor estético diferencia a leveza dos volumes principais dos elementos secundários: o teatro e a área de serviço. Ou seja, inverte-se o sistema de composição clássico, tanto na expressão do peso do edifício — o tradicional "peso" nos muros dos palácios renascentistas —; como na primazia da "decoração" sobre os atributos tectônicos — o propileu que define a entrada —, na ocasião em que o observador percebe os azulejos em primeiro plano. Os temas marinhos — o que Schopenhauer chamaria de “hidráulica artística”; ou seja, a presença da água que dilui a matéria sólida (89) —, baseados em componentes repetitivos — peixes, estrelas marinhas, cavalos-marinhos, conchas e caracóis —, permitiu que Portinari criasse tramas que revelam texturas variáveis, perceptíveis como formas reais em plano próximo ou como uma "tessitura" à distância. O artista conseguiu a contraposição entre o sistema cartesiano do edifício com uma estrutura figurativa homogênea de diagonais dinâmicas. As cores, branco de fundo e azul das figuras – trabalhados magistralmente pelo artista Paulo Rossi-Osir –, atuam como fundo neutro às fachadas de vidro demarcadas nas linhas de granito das colunas e das cornijas. Portinari chega ao clímax nos grandes painéis; o situado no pórtico frente à entrada, e o da rua Graça Aranha. Linhas sinuosas que se movem numa sinfonia em azul e branco que estabelecem a conjunção com os jardins de Burle Marx, e se contrapõem à racionalidade do edifício. Quais seriam as influências recíprocas entre os arquitetos e artistas que trabalharam dentro e fora do MES? A transformação da linguagem de Niemeyer no conjunto de Pampulha, a quem Portinari conhecia desde da sua participação na Capela de São Francisco de Assis, ‘detonou’ a liberdade expressiva dos painéis. Por sua vez, existiu uma relação com Burle Marx nos desenhos nos muros, onde colaboraram Alcides da Rocha Miranda, Aldary Toledo e Rubem Cassa (90). Os azulejos ‘humanizaram’ o vocabulário abstrato da arquitetura, resgatando não somente uma tradição que havia sido perdida, mas também com seu brilho e brancura reafirmavam a luminosidade tropical diante dos sombrios edifícios do centro urbano. Permitiram um diálogo ‘natural’ com o passante que, ao atravessar o espaço da colunata, se encontrava em um oásis vegetal e marinho — para Burle Marx, a inspiração provinha dos meandros dos rios da Amazônia (91); para Portinari foi a fauna da baía de Guanabara —, cuja sensualidade era antagônica ao rigor da racionalidade arquitetônica; que atenuava a escala monumental do propileu e convertia as praças cerimoniais numa experiência cotidiana (92). A poética do espaço — parafraseando Bruno Zevi — foi alcançada através da síntese das artes, que proporcionou uma “desintegração” da matéria — reconhecida na ‘dureza’ material do edifício — e sua ‘dissipação’ visual, primeiro com o sistema de pilotis e logo a seguir nas metáforas plásticas, ao fundir terra, água e céu debaixo do corpo suspenso do edifício (93). Experiência inédita na arquitetura carioca — precedida no barroco mineiro do século XVIII, com a fusão das esculturas no espaço arquitetônico na obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, cujos profetas no adro da igreja Nosso Senhor do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas, emolduram uma relação dinâmica com a paisagem (94) —; que inicia o vínculo entre razão e sentimento na arquitetura brasileira do período ‘heróico’. Resultou um feito surpreendente que este conjunto de inovações fosse materializado na sede de um ministério, cujo nexo tipológico esteve sempre associado ao caráter monumental e rigor funcional exigido por um organização administrativa; pelo exíguo espaço concedido para expressão plástica e a uma emotiva liberdade criadora. Dois fatores foram determinantes na definição dos novos códigos: a progressiva desagregação dos conteúdos ideológicos originais, fundados em um regime autoritário; e ao interesse "real" de Capanema em estabelecer uma relação com a sociedade civil, através de sua presença física no contexto definido pelo MES, reafirmando o conceito integral da educação, associada com a arte e cultura. A partir destas premissas, a essência burocrática do ministério ficou minimizada, sendo fortalecida sua capacidade de congregação em um âmbito caracterizado pela alegria de viver “artisticamente”. O MES, com sua etérea materialidade e configurando um espaço urbano, simbólico e metafórico, abriu assim um caminho para novas buscas expressivas da cultura arquitetônica carioca. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94 |
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