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Projeto
Baixios de Viadutos da Via Expressa Leste-Oeste(1) |
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Flávio Agostini, Luciana Miglio Cajado, Carlos M Teixeira fazem parte do ASF-Br – Arquitetos sem Fronteiras-Brasil Flávio Agostini é formado pelo Unicentro Izabela Hendrix, sócio da MAB Arquitetura, especialista pelo IECMG, mestre pela EA-UFMG (tese "O edifício inimigo: a arquitetura de estabelecimentos penais no Brasil") e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário UNA. Luciana Miglio, arquiteta pela UFMG, trabalhou com habitação social na Holanda e Alemanha de 1994 a 1998 e sócia fundadora da ASF-Brasil. Carlos M. Teixeira é mestre em urbanismo pela Architectural Association, sócio do escritório Vazio S/A, autor do livro "Em Obras: História do Vazio em BH", representante do Brasil na IX Bienal de Veneza e sócio fundador da ASF-Brasil. |
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1. 2. Os objetivos mais específicos do projeto são:
3. Muitos viadutos que formam o objeto desta proposta assumem contornos diversos consoantes à localização, origem e características físico-ambientais das áreas residuais urbanas, bem como em relação aos usos e agentes que delas se apropriaram. No entanto, todos eles apresentam em comum o potencial de requalificação de áreas vazias significativas da cidade, o que pode se dar a partir de intervenções urbanísticas para atribuir-lhes funções úteis à sociedade e assegurar-lhes as condições de desempenho de acordo com o potencial de uso de cada um deles. São várias as visões a respeito dos usos possíveis nestes locais e seu agenciamento. Existe, entretanto, um ponto que unifica estes pensamentos e a partir do qual pode ser formulado um consenso: a necessidade de evitar que estes espaços fiquem ociosos, pois de fato eles nunca permanecerão como tal. 4. Dessa forma, dada a grande complexidade das demandas e os diversos atores envolvidos, optamos por uma metodologia onde a produção e coleta de dados é representada e sintetizada por meio de gráficos, tabelas e diagramas que, finalmente, iriam nos auxiliar na elaboração dos programas dos viadutos. Esta coleta de dados – primeira etapa para chegarmos aos programas, que compõem nosso objetivo final – não foi apenas uma pesquisa em órgãos públicos. Um grupo multidisciplinar de doze estagiários de arquitetura, economia, direito e assistência social, todos coordenados por Flávio Agostini, arquiteto da ASF-Br, saiu às ruas de todos os bairros atravessados pela Via Expressa (2). A partir dessa pesquisa de três meses (que exigiu caminhadas árduas de dezenas e dezenas de quilômetros pela cidade em sol escaldante; inúmeras entrevistas com sem-tetos, vendedores ambulantes, presidentes de associações, gerentes de empresas e donas de casa; o preenchimento de um sem-número de formulários por parte de todos os estudantes e arquitetos envolvidos, etc; o que também nos fez conhecer os limites da cidade formal e informal in loco), chegamos então aos mapas/diagramas que nos serviram como ponto de partida para as fases subseqüentes do projeto. Os diagramas elaborados são onze:
Na feitura desses diagramas, fizemos uma pesquisa paralela sobre os modos de representação da cidade formal e informal e as dinâmicas das áreas mais caóticas da cidade. Assim, os diagramas são, eles mesmos, sínteses visuais das informações coletadas – sempre com o objetivo de prestarem-se como instrumentos operativos para a fase final do projeto. Todos eles buscam representar questões relativas à dinâmica urbana e ao quadro social da área de pesquisa de maneira direta e, ao mesmo tempo, procuram manter-se distantes da representação tradicional em plantas, croquis, etc. Tudo que foi escolhido para ser representado está inserido em um raciocínio de questionamento dos prováveis programas. Ou seja, se uma determinada informação fosse considerada sem importância no contexto do rankeamento dos programas, essa informação seria eliminada. Analogamente, se uma informação aparentemente pequena no mar de informações que coletamos pudesse indicar algum programa, ela seria mantida. Dada a enorme quantidade de informações apreendidas, a representação dos diagramas foi evoluindo gradativamente, convergindo para sínteses cada vez mais ricas. Para isso, desenvolvemos critérios de pontuação numérica de cada assunto que, juntos, determinam a “nota” de um viaduto. Isso se deu em um processo de discussão dos aspectos subjetivos de comparação que precisávamos ponderar. Por exemplo: o que é mais prejudicial para pensarmos a viabilidade dos futuros projetos: uma área com sentimento de alto índice de furtos e roubos ou uma área com índice médio de homicídios? Como medir qual grupo (entre as empresas, moradores, catadores, etc) tem maior peso no diagrama de demandas, já que o número de entrevistas é diferente entre estes, bem como os interesses e a área de atuação de cada grupo? Que medida negativa poderíamos dar a fatores como poluição ambiental em um determinado viaduto, de forma que essa informação pudesse ser comparada a outra como índice de acessibilidade? A partir desses questionamentos, estabelecemos os parâmetros comparativos (sempre subjetivos e técnicos a um só tempo) para chegarmos a uma síntese final de todos os diagramas. Para os de segurança, acessibilidade, demandas, reciclagem, publicidade e meso-estrutura, foram desenvolvidos rankings finais – as já mencionadas “notas” para cada viaduto. Assim, um viaduto pode ser considerado “facilmente acessível a pedestres” (no caso do diagrama de acessibilidade) ou “bem equipado para receber programas” (no caso do diagrama de meso-estrutura) a partir dessas notas. Os demais diagramas (usos, social, jurídico e parcerias) entram na outra fase – os cruzamentos – influenciando especificamente os primeiros. São estes cruzamentos que constituem a última etapa do projeto, onde cada diagrama passa a ser influenciado pelos outros para que suas notas iniciais sejam modificadas e assim chegarmos a um ranking final. (3) O resultado do projeto é uma série de doze viadutos e seis passarelas com programas classificados em A, B ou C. Assim, um viaduto X teve um programa específico (serviços, por exemplo) como o programa mais indicado por meio de sua nota (A, por exemplo). Os programas que nós ouvimos de todos os atores consultados e que finalmente chegaram à lista dos mais indicados foram os mais variados: de “supermercados” (proposto para um viaduto na periferia) a “área de apoio às prostitutas” (!!! – nas áreas centrais e mais violentas); e de “áreas de lazer” (em bairros com deficiência dessas áreas) a “centros de apoio à reciclagem” (em trechos mais utilizados por catadores de papel). Quando, eventualmente, estivermos diante da etapa arquitetônica do plano, teremos que escolher o programa mais indicado de um determinado viaduto e analisá-lo de acordo com a sua pertinência durante o dia e horário. Outros fatores de influência determinarão essa escolha. Por exemplo, a quantidade de área que um determinado programa demanda será um dado fundamental (uma pista de skate ou uma quadra requerem muito espaço aberto; enquanto lojas e serviços de bairro requerem pouca área de projeção). Da mesma forma, o desenvolvimento dos modelos de parceria para cada família de programa deverá ser estudado oportunamente – aqueles que os próprios ex-moradores irão administrar (auto-gestão de comércio, serviço), aqueles em que as empresas irão ocupar as áreas (comércio), aqueles de caráter público (lazer, praça) etc. Os futuros programas da prefeitura e do estado também podem complementar os que indicamos, o que poderá ser um fator circunstancial estratégico. A partir disso, teremos então que articular os mecanismos jurídicos que vão, finalmente, endossar as parcerias vislumbradas entre os setores público e privado, possibilitando assim a viabilização das intervenções nos viadutos. Dadas as muitas resistências e desconfianças que este projeto enfrenta, estamos agora diante de um impasse que – esperamos – será superado. Para isso, precisamos de órgãos (e homens) públicos que enxerguem essa proposta como uma oportunidade audaciosa que contrapõe, a um problema típico das grandes cidades sem planejamento, um método de trabalho flexível, investigativo, participativo, e que aceita e transforma a informalidade das cidades brasileiras (4). Notas 1 2 3 Os diagramas de demandas, reciclagem e publicidade são isolados dos demais, já que só eles contêm essência programática, enquanto os outros não – eles são apenas fatores de influência dos primeiros. Neste cruzamento, identificamos em cada tema ou programa levantado quais diagramas se influenciam diretamente. Aqui, tudo tem o mesmo peso e, ao final, chegamos a uma média entre pontos positivos e negativos que influenciam os programas dos viadutos. “Repescagem”: os programas novos podem surgir não apenas a partir de informações, mas também de acordo com a interpretação subjetiva dos fatos. Assim, discutimos tudo o que foi observado e levantado, recapitulamos o que já foi listado e dimensionado, e então investigamos se outros programas (já levantados em outros viadutos, programas que tiveram nota baixa e que não foram classificados, ou ainda programas ainda não mencionados por ninguém) podem nos interessar. Então, listamos estes programas e fizemos novamente o cruzamento da etapa inicial, com todos os outros diagramas. Por fim, distribuímos estes programas indicando sua maior ou menor pertinência em relação ao dia da semana ou horário. 4 “Baixios de Viadutos” teve financiamento do Ministério das Cidades através do programa de Reabilitação de Áreas Urbanas Centrais e apoio da Prefeitura de Belo Horizonte. Após a entrega do projeto em 2005, tem sido objetivo da ASF-Br e demais envolvidos conseguirmos recursos adicionais para a etapa complementar, onde faremos os citados projetos urbanísticos e arquitetônicos a partir dos programas indicados nessa primeira etapa. |
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